Com repertório equilibrado, Guns N’ Roses prova em São Paulo que é uma das maiores bandas da história

texto de Paulo Pontes

Dúvida. Esse era o sentimento de boa parte do público do lado de fora do Allianz Parque enquanto aguardava a abertura dos portões. Dúvida quanto à performance vocal de Axl Rose, que nos últimos anos virou alvo de críticas e memes. Dúvida se o Guns N’ Roses de hoje ainda seria capaz de entregar um show à altura da própria lenda.

Fazia calor na capital paulista, o público se espalhava pelas ruas ao redor do estádio, e mesmo entre os fãs mais fiéis, a expectativa vinha misturada com uma ponta de apreensão. Axl, afinal, já teve noites complicadas – e todo mundo sabia disso.

Dito isso: só vai falar mal da voz do Axl Rose quem não esteve no Allianz Parque no último sábado, 25. O que ele mostrou em São Paulo foi uma presença de palco absurda, de quem entende perfeitamente o peso do próprio nome na história do rock. É claro que a potência vocal dos anos 90 ficou pra trás, mas o que se viu ali foi um cantor consciente, que adaptou a voz e a técnica pra seguir entregando.

Durante mais de três horas de show, Axl alternou entre falsetes e ataques rasgados, se doando por inteiro pra atingir notas que pareciam inalcançáveis. Em algumas faixas, como “You Could Be Mine” e “Civil War”, a voz soou um pouco mais contida, cansada, mas, em muitas outras, ele reencontrou o equilíbrio perfeito entre emoção, carisma e entrega.

Foi bonito de ver. E, honestamente, louvável o cuidado que ele tem demonstrado com a própria voz, coisa rara em artistas dessa geração (e até pouco tempo, era raro pra ele também).

Antes de o Guns assumir o palco, a abertura da noite ficou a cargo dos Raimundos, que enfrentaram diversos problemas técnicos – principalmente no microfone de Digão –, mas conseguiram aquecer o público e criar a atmosfera ideal pro que viria a seguir. Apesar dos percalços, conseguiram agitar a galera, fazendo todo mundo pular, cantar e entrar no clima de festa.

E então veio o momento esperado: o Guns abriu com “Welcome to the Jungle”, e o estádio veio abaixo. Difícil imaginar uma abertura melhor: a música que apresentou o Guns ao mundo (como faixa de abertura de um dos melhores discos de estreia da história do rock) e que ainda soa como um soco bem dado na boca do estômago.
A partir dali, o que se viu foi uma banda entrosada, vigorosa e afiada, que não parecia ter qualquer interesse em “sobreviver de nostalgia”. Foram mais de 3 horas de apresentação, praticamente sem pausas – o maior intervalo entre uma faixa e outra aconteceu quando o piano foi posicionado no centro do palco para a performance de “November Rain”.

No público, um retrato bonito do poder da banda: pais e filhos lado a lado, adolescentes, jovens e veteranos de camiseta preta. O Guns segue atravessando gerações como poucas bandas conseguiram. Era fácil notar o brilho nos olhos de quem estava ali pela primeira vez (e também o alívio de quem temia ver um Axl irreconhecível).

No palco, o trio clássico segue sólido. Slash continua sendo uma aula à parte, seus solos (foram muitos) têm peso, alma e precisão. Duff McKagan é o equilíbrio entre técnica e estilo, sustentando o groove com a elegância de sempre.

O novo baterista, Isaac Carpenter, surpreendeu: firme, técnico e enérgico, sem cair na armadilha de tentar imitar o passado. E os backing vocals da tecladista Melissa Reese foram fundamentais em várias faixas, especialmente nos momentos em que Axl precisava de apoio nos agudos. O entrosamento entre todos era nítido. O Guns soa hoje como uma banda confortável em ser o que é.

A interação verbal com o público foi mínima, mas bastava observar os sorrisos e os olhares trocados no palco pra perceber o quanto eles estavam curtindo. E essa energia se traduzia nas músicas.

Os oito covers incluídos no repertório ajudaram a dar ritmo e textura à apresentação. As já tradicionais “Live and Let Die” (Paul McCartney) e “Knockin’ on Heaven’s Door” (Bob Dylan) continuam emocionando, mas a grande surpresa foi a homenagem a Ozzy Osbourne, com “Sabbath Bloody Sabbath” e “Never Say Die”. Entre eles, destaque pra “Human Being”, do New York Dolls, uma versão crua e explosiva, uma das melhores da noite.

Com 30 músicas no setlist, reclamar que faltou algo seria até injusto. Mas, se fosse pra escolher, as mais recentes “The General”, “Perhaps” e “Absurd” poderiam dar lugar a clássicos como “Out ta Get Me”, “Coma” ou “Patience” (até “Better”, que foi incluída em outros shows da tour, caberia no lugar de uma dessas). Entretanto, parafraseando o nome da turnê, o que eu quero é o que eu recebo são duas coisas bem diferentes, né?

Ainda assim, o repertório foi equilibrado e manteve o público aceso do início ao fim, ainda que tenha dado uma esfriada nas músicas mais recentes. Quando “Paradise City” encerrou a noite e as luzes se acenderam, não havia mais espaço pra dúvida. Quem entrou no Allianz com receio saiu feliz, leve e convencido de que o Guns N’ Roses ainda é uma das maiores bandas de todos os tempos. E, mais importante, ainda tem algo a dizer.

O que São Paulo recebeu numa noite (histórica) foi exatamente o que precisava: um lembrete poderoso de que o rock, quando é verdadeiro, nunca morre.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.

7 thoughts on “Com repertório equilibrado, Guns N’ Roses prova em São Paulo que é uma das maiores bandas da história

  1. Guns Roses é simplesmente nostalgia pura!
    Axl não entrega nada além de um cover muito aquém, do que já foi um dia…
    O Guns não tem nada a dizer, até pq não tem relevância alguma no cenário musical nos dias de hj!
    Não lançam álbum novo desde 2008.
    Essas turnês são apenas para arrecadação e satisfação financeira.

  2. Acho sempre um Schow eles. Tem que dar desconto ao tempo usando o Drive da voz, mas nas músicas que não a usa sua voz está perfeita, suas mudanças de roupas estão perfeitas , fora que acho ele mais alegre se comunicando mais com os fãs. Sou fã mais de 30 anos, que continue nos dando o prazer de participar dessa lenda!

  3. Belo texto. Descreveu praticamente tudo o que senti e percebi. Fui ontem (Cuiabá, primeira vez um show desse porte, com um grande nome internacional, por aqui) e as minhas impressoras estão aí perfeitamente relatadas. Banda poderosa. Goste ou não, tem que respeitar!

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