entrevista de Guilherme Lage
Formado em 2002, o A Place To Bury Strangers carregou por mais de uma década o título de “banda mais barulhenta de Nova York”. A fama era mais do que merecida, uma vez que o trio sempre foi dado a experimentações com instrumentos nada usuais, o que torna as performances ao vivo do grupo bastante explosivas e imprevisíveis.
O lance dos caras (e da moça) é o caos, mas um caos espontâneo. São projetores sem fim, luzes, apresentações que acontecem em meio à plateia, deixa o palco pra lá! No ótimo “Synthesyzer”, lançado em 2024, o grupo traz uma amálgama desta essência, mostrando tudo o que os tornou uma banda querida, caótica, com música feita por pessoas contidas.
“É quase que Merzbow encontra My Bloody Valentine, né?” como sugeriu este repórter em entrevista com o guitarrista, vocalista e compositor (amante de sintetizadores e faz-tudo) Oliver Ackermann, que assentiu com um sorriso: é por aí mesmo!
Além do paredão sonoro, que faz com que ondas de som se colidam umas com as outras, a banda também é conhecida por sua filosofia “DIY”. Sabe a placa de circuito que aparece na capa do álbum? Foi feita pelas mãos do trio, que conta com o casal John Fedowitz (baixo) e Sandra Fedowitz (bateria) como os membros mais recentes.
Neste papo com o Scream & Yell, Oliver Ackermann fala sobre a dificuldade que jaz no simples, como a impossibilidade de fazer um cover dos Ramones, amor pelo grindcore e a experiência “diabólica” da combustão espontânea chamada subir ao palco.
Ouça “Synthesyzer” abaixo
Eu estava ouvindo o “Synthesizer” outro dia e acho que é um ótimo álbum, porque é caótico e melódico ao mesmo tempo, acho que é uma grande junção de tudo que representa a essência da banda, você concorda? Era sua ideia gravar um disco assim?
Muito obrigado, e concordo sim! Assim, nós dificilmente temos ideia do que estamos fazendo quando estamos compondo um disco (risos), o que acontece é meio que um reflexo do que está acontecendo com a gente.
Eu estava muito empolgado quando comecei a tocar mais com o John e Sandra, e escrevendo essas músicas, estávamos muito empolgados em tocar juntos, quando começamos a construir aquela placa de circuito e tudo aquilo. Aquilo foi meio que um pontapé inicial para toda essas ideias começarem a fluir e todas essas coisas se encaixaram muito bem.
Você meio que sempre tenta destruir o que fez no passado e criar algo novo, sabe? Porque você é uma pessoa diferente agora do que era quando escreveu os outros álbuns, então isso transparece muito no “Synthesizer”.
E eu acho que o fato de que vocês usaram uma produção analógica deu ao álbum um elemento humano muito forte, muito mais do que uma produção digital poderia. É bem claro: são três pessoas tocando música aqui, não há nenhum tipo de artifício. Vocês sempre preferem usar esse processo analógico?
Sim, acho que essa é uma das partes mais divertidas de estar numa banda, é se juntar com seus amigos e ir criando as músicas, as coisas, gravar tudo isso. Nós fizemos todo esse processo sozinhos e quase sempre é o que fizemos nos outros discos.
Eu acho que isso mostra uma essência de um artista ou até mesmo de alguém como pessoa, sabe? Você ouve falar de pessoas que convidaram esse grande produtor para gravar o disco com eles.
Assim, talvez seja muito legal e tudo, você pode dançar ouvindo a música deles e tudo (risos), mas não é necessariamente a visão artística deles traduzida em uma totalidade, sabe? Acho que é divertido de verdade estar sempre presente do início até o fim de todo o processo e fazer algo “maluco”.
O baixo e a bateria aparecem com muita clareza nesse disco, foi uma ideia consciente? Algo do tipo: ok, vamos apresentar o álbum com o baixo dessa forma e a bateria dessa forma para que as pessoas possam ouvir direitinho o que nós somos. Era isso o que vocês estavam pensando?
Sim, acho que quando você escreve músicas, você tem certas ideias de como traduzi-las “como isso vai soar como uma banda tocando junta?”. Então no disco eu acho que rolou muito disso. Nós estávamos fazendo muitos shows, começamos a tocar muitas dessas músicas muito antes de gravar qualquer uma delas, então meio que capturamos esse sentimento de “isso é o que a banda meio que é, quando estamos todos juntos”.
Uma coisa que eu adoro sobre a banda é que eu nunca sei que direção a música vai ter. Por exemplo, eu estava ouvindo músicas como “Don’t Be Sorry” e “It’s Too Much”, e o que eu amo em bandas como a sua é isso: eu nunca sei onde a música vai parar, começa de um jeito e termina de um jeito totalmente diferente. É isso que eu amo também em bandas como o Dillinger Escape Plan, porque eles também têm essa pegada. Isso é algo que você se orgulha? De dizer “somos essa banda imprevisível e as pessoas adoram”?
É, quando estou compondo meio que existe essa coisa natural que acontece em que as ideias, o jeito que essas músicas acabam sendo feitas, você não sabe necessariamente como elas vão ser, sabe?
Mas mesmo assim há essa coisa que acaba soando muito natural, até mesmo com as mudanças nas músicas, quando elas acabam indo para direções muito loucas e eu não sei como explicar, mas sempre senti que quando compomos estamos sempre procurando pelo melhor jeito que a música funcione.
E, para ser honesto, acho que isso também sempre muda, dependendo de como você faz, como grava, onde a letra está te levando e tudo isso. Você meio que se deixa ser guiado pelo o que a música está te dizendo. E é assim que a maioria das músicas são. E muitas das vezes, quando é o melhor tipo de música, ela acaba mesmo sendo imprevisível, e há sim esse elemento de algo mudando.
Me lembro de escrever partes de músicas e aí vêm essas coisas estranhas, tipo, você segura algumas notas por dois tempos, aí do nada você muda essa nota. É meio que essa coisa diabólica, insana (risos). É tão complicado de explicar, mas é muito natural.
Por exemplo, eu lembro de tentar fazer um cover de uma música dos Ramones uns anos atrás e era muito mais complicado do que eu imaginei que seria (risos). Estávamos fazendo esse cover porque adoramos eles, e eu tocava a música e pensava “caramba! Essa música já mudou de novo? Como assim?” (risos).
Acho que isso te mostra que coisas que parecem muito simples no início, podem te surpreender e te mostrar que, na verdade, são muito mais complicadas.
Você escreve esses álbuns que são super complicados no sentido como acabamos de falar, as músicas não são tão previsíveis e não seguem um caminho linear. Como a energia das músicas se traduz para um show ao vivo? Vocês fazem uns baita shows, tocando no meio da plateia, muitas luzes, muitos projetores. É algo do momento? Vocês mantêm a coisa espontânea? “É, a música está se traduzindo bem, precisamos aproveitar e fazer algo diferente”?
Eu acho que sim! Você sempre quer estar em um espaço em que está meio que perdendo a cabeça, perdendo controle do que está acontecendo no show, então sempre que você consegue se encontrar no meio de um momento assim, em que acha esse elemento de deixar essas coisas acontecerem, é isso que fazemos!
Isso é se conectar com o público, porque nós todos crescemos no meio de uma cena musical em que todo mundo está presente durante um show, no meio de um porão em algum lugar, com as pessoas esbarrando em você, e você está com seus amigos curtindo pra caramba.
Então nós meio que tentamos transformar a experiência de um show na festa mais louca que você já esteve, é meio isso que tentamos fazer.
E isso envolve toda essa coisa de mudar as músicas, trocar o lugar onde os amplificadores estão, fazer algo que surpreende o público e nos surpreende como banda também, que te faz entrar nesse modo de “lutar ou fugir”, transformar a música em algo que é muito mais legal do que você poderia qualquer dia planejar.
E eu já vi você falando que seu tempo em casa é sempre mais caótico do que seu tempo em turnê, e estava me perguntando por que. Eu tô vendo muito equipamento aí atrás de você, então pensei que você deve ficar muito ocupado no seu tempo em casa. Muitos projetos que você tem que dar atenção?
Sim, sim, tem tudo isso e quando você está em casa é também aquele período em que você pode cuidar das outras coisas da sua vida. Todo mundo sabe, eu acho (risos), a gente vive a vida e passa por todas essas coisas comuns do dia a dia. Você tem suas contas para pagar, consultas, reuniões para marcar.
Quando você está na estrada só tem uma missão, que é chegar ao show e dar o show. Mas em casa, é diferente. Mas eu amo também, porque estou em Nova York e Nova York é uma cidade muito maluca, tem sempre coisas interessantes para fazer. Tem sempre uma banda legal tocando, amigos passando aqui pra gente sair, é ótimo, eu adoro.
Só que ao mesmo tempo a sua cabeça começa a ficar um pouco cheia com tanta coisa ao mesmo tempo (risos).
Na minha opinião, música com sintetizadores são, muitas vezes, a música mais extrema que existe, porque você combina todos esses barulhos e transforma eles em música, essencialmente. Não é de se espantar que tantas bandas de metal e grindcore estejam apostando em sintetizadores agora, o Full Of Hell, por exemplo. Você gosta dessa experiência de escrever música com instrumentos incomuns, que não necessariamente seja a música mais cristalina de todas?
Nossa, muito! Acho que essa é uma das coisas mais legais de fazer, seja mergulhar de cabeça em algo que esteja te desafiando, que te inspire a compor algo que você normalmente não escreveria.
Acho que às vezes você pode ficar confortável demais com um instrumento em particular ou com um estilo em particular, e depois precisa ver muitas coisas extremamente diferentes, diferentes ângulos para entender o que torna uma música legal ou o que torna um momento legal.
Eu acho que muitos desses artistas se inspiram na emoção do que uma música é, e eu sempre adorei isso. Você pode gravar ou escrever uma música que soe legal e estranha ao mesmo tempo com qualquer instrumento, qualquer coisa.
O que importa é o que você vai fazer com esse material, entender qual é o sentimento da música, o que você entende dela e quais ferramentas você tem. E se algo soa estranho para você, desafiador, isso é incrível.
E às vezes soa como Merzbow encontra o My Bloody Valentine, né?
Totalmente! É bem por aí mesmo (risos). Muito verdade.
Vocês são de Nova York, que é uma cidade, obviamente, com um background musical extremamente rico, com a cena punk, a cena indie do início dos anos 2000 também. Que tipo de música de Nova York inspirou vocês a começarem a fazer música quando eram mais jovens? Você nasceu em Nova York mesmo?
Não sou originalmente de Nova York, cresci na Virgínia, depois morei em Providence, Rhode Island, mas moro em Nova York já há uns 24 anos, a maior parte da minha vida.
Nova York tem toda essa cena incrível, todas essas bandas sensacionais. Quando me mudei para cá havia muitas dessas bandas que estavam apenas começando, como TV On The Radio, Yeah Yeah Yeahs, e tudo isso.
Eram bandas muito boas, não necessariamente bandas que eu estive sempre interessado, mas havia muitas bandas de noise, como Oneida, bandas incríveis. Era sensacional, você ia a festas e via essas bandas doidas, outras bandas que ninguém nunca ouviu falar (risos).
Acho que era muito empolgante ir a esses lugares, ver esses shows, se sentir maravilhado, entrar em um lugar que você nunca esteve antes, e a música é incrível, as bandas são sensacionais, tem toda essa gente andando de patins perto de você.
O que quer que fosse, acho que foi uma experiência incrível e importante para ter tido, foi meio que ser tirado da sua vida e transportado para um outro mund.
E quando o assunto é noise music, o que chamou sua atenção a princípio? Porque você é um guitarrista muito bom, e combinar esses dois elementos: uma guitarra e um sintetizador para fazer música diferente de synth pop, como você teve essa ideia?
Acho que sempre foi algo que eu meio que brinquei, porque sempre montei esses aparelhos e instrumentos eletrônicos, sempre estive perto dessas coisas. Sempre construí coisas para usarmos nos shows e tudo.
Coisas que eram sempre muito não-tradicionais no que diz respeito a um sintetizador, aí você meio que começa a ver a coisa mais primal desse instrumento, apenas as ondas de som se chocando umas com as outras e como isso é lindo.
Acho que sempre amei esse tipo de som estranho que você não consegue necessariamente dar um nome, sabe? É algo que meio que entra em você, faz o seu corpo vibrar e te inspira a fazer um som que você nunca soube que queria fazer, mas quando ouve, não consegue mais largar.
E vocês já vieram ao Brasil, você citou os Ramones e eles sempre disseram que amavam tocar no Brasil, porque o público era sempre muito doido. Você concorda com eles? Como foram suas experiências por aqui?
Totalmente! Cara, que shows bons, as duas vezes foram realmente incríveis, me deixa super empolgado pra voltar aí!
Vocês estão vindo para o MassafariFest, o nome do festival vem de Fabio Massari, um jornalista brasileiro sensacional, chamamos ele de “reverendo”, porque ele é um jornalista musical incrível. Vocês já tiveram contato com ele antes?
Porra, aí sim! Acho que ainda não o conhecemos, se já peço desculpas, mas agora quero muito. Isso é incrível, legal demais! Vai ser legal demais conhecê-lo.
E qual a expectativa para o show? Porque vocês vão ser os headliners!
Sim, estamos super empolgados para estar aí, vai ser muito foda. Vamos aproveitar tudo o que rolar, curtir com as pessoas que aparecerem, absolutamente tudo que está para acontecer.
Vai ser muito legal, porque vai ser a primeira vez do John e da Sandra por aí, vamos nos divertir bastante, comendo o máximo de comida deliciosa que pudermos e conhecer o máximo de gente legal que der, curtir as bandas. Vai ser muito bom!
E por fim, nós conversamos um pouco sobre música pesada e bandas que usam sintetizadores na música delas. Você se interessa por música extrema? Death metal, black metal, grindcore?
Com certeza, muito! Quando você vê esse tipo de música é que você percebe que está vivo, quando vê algo extremo assim. Eu acho que é muito bom quando você se coloca fora da sua zona de conforto e vê todas essas bandas.
Há uma cena muito legal para esse tipo de música também, meio que gente que você nunca esperaria que faz muito dessa música, e é também uma cena muito acolhedora, sabe?
Há uma cena muito legal em Nova York, e é muito divertido. Bandas de metal experimental e essas coisas, acho que é muito legal essa coisa de extrapolar gêneros e encontrar coisas novas e estar em festas legais. Assistir a coisa mais extrema que você já viu é incrível!
– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!