Com casa lotada, Alice Caymmi foge à regra e presta tributo emocionante à tia Nana

texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas

Prestar tributo a artistas já falecidos não é, nem de longe, uma prática nova na indústria da música. Nos últimos anos, porém, o expediente parece ser empregado com cada vez mais afinco por cantores e cantoras de toda sorte, em muitos casos buscando um novo impulso na carreira. Afinal de contas, “está morrendo gente que nunca morreu antes”, ao mesmo tempo em que sustentar uma trajetória na música é um negócio cada vez mais arriscado. Assim, à primeira vista não chega a ser surpreendente que Alice Caymmi – neta de Dorival, filha de Danilo – tenha lançado recentemente o espetáculo “Para Minha Tia Nana”, homenageando a cantora de voz grave e repertório melancólico, morta em maio último. Também não surpreende que Alice tenha esgotado os ingressos da Casa Natura Musical no último dia 14 de agosto, na primeira data do show em São Paulo.

Antes de prosseguir, porém, é necessário separar o joio do trigo. Ao contrário do que se pode imaginar, o espetáculo em si não é novo, o que lhe retira certo tom de caça-níquel. A primeira edição de “Para Minha Tia Nana” foi feita em 2018, quando não só Nana Caymmi estava vivíssima, como também pronta para apoiar Jair Bolsonaro no pleito presidencial da época – o que, inclusive, a levou a brigar publicamente com a sobrinha por divergências políticas.

As rusgas ideológicas (e também estéticas) entre Alice e Nana, aliás, também servem como pano de fundo que dá contornos e relevos especiais ao espetáculo. Ao contrário do que acontece em muitos tributos, a relação entre artista e homenageada não é só de reverência, mas de sangue, amor e conflito. Foi com a tia que uma ainda adolescente Alice colocou voz pela primeira vez em uma gravação – “Seus Olhos”, do álbum “Desejo”, de 2001. Mas também foi Nana uma das maiores críticas da carreira da sobrinha, que já fez de tudo um pouco em mais de uma década de estrada: do poderoso e experimental álbum “Rainha dos Raios” (2014), passando por releituras de hits populares (“Princesa”, “Me Leva”), shows cantando Stones e Led Zeppelin,  composições para Pabllo Vittar (“Problema Seu”, “A Lua”) e até colaborações com Anitta.

Para quem conhece Alice do universo pop, a forma como a cantora subiu ao palco da Casa Natura podia até chocar: em vez de programações e banda completa, Alice preferiu uma formação com voz, piano elétrico, banquinho e taça de vinho – ingrediente que poderia ser decorativo, mas não para homenagear uma cantora que já soltou pérolas como “eu acredito no álcool”. O início foi classudo, como não podia ser diferente: primeiro, veio o clássico temporão “Resposta ao Tempo”, bolero de sucesso improvável nos anos 1990 e marcado pela presença na trilha da série “Hilda Furacão” (1998). Depois, “Acalanto” – que o avô Dorival fez para ninar a filha – e a incontornável “A Noite do Meu Bem”, número de Dolores Duran que Nana tomou para si ao longo da carreira.

A prática do usucapião musical, aliás, foi um dos principais temas da noite. “Muitas dessas canções são do meu avô, mas minha tia roubou para ela e agora estou roubando para mim”, chegou a confessar a certa altura Alice, que nasceu em meio a melodias e arrancou risos da plateia ao lembrar uma grande frase da avó Stella. “Eu não faço música, eu faço músicos”, teria dito a matriarca (que chegou sim, a ser cantora) em inúmeras entrevistas.

Em outros momentos, Alice lembrou da sua condição privilegiada de conviver entre grandes figuras da MPB – não é todo mundo que pode chamar Tom Jobim de “Antonio Carlos” ou “muito amigo da família”. Mas antes que o leitor grite “nepobaby”, vale ressaltar: foi difícil botar algum reparo nas interpretações que Alice fez de lados-B da carreira do maestro soberano, como “Sem Você” ou “Derradeira Primavera”, ambas compostas ao lado de Vinicius de Moraes.

Ao longo da noite, Alice também não deixou de usar o humor para comparar sua natureza com a da alma noturna da tia, cuja obra é marcada por um repertório soturno, depressivo. “Às vezes a família fazia shows junta, e quando vinha o bis sempre chegava a hora de cantar ‘Maracangalha”. Minha tia ficava num tédio… pra ela não batia. Pra mim também não, mas eu fiz análise”, brincou. Em outro, fez troça com o nome das músicas: “Essa aqui eu sempre achei que chamava ‘Parece Que Bebe’, mas é ‘Sabe de Mim”, atacou, antes de introduzir a composição de Sueli Costa.

Com uma intimidade que só mesmo quem é da família pode ter, Alice também falou dos muitos amores de Nana Caymmi. “Minha tia tinha uma curadoria de maridos muito interessante, ela casou umas 11 vezes. Não é que ela não conseguiu, mas ela tentou muito. E uma dessas figuras foi o João Donato”, contou, antes de tocar “Mentiras”, número do pianista acreano que parecia dizer em música tudo o que era necessário ser dito, mas nunca falado, sobre o relacionamento do casal. O pai Danilo, é claro, também não escapou da mira. Ao cantar “Meu Menino”, dele com a ex-mulher Ana Terra, Alice não pode deixar de relatar que a canção revela a alma do progenitor. “Ele está sempre inventando, até mesmo velho é assim”, brincou.

Mais do que mera fofoca – que poderia ser muito bem gravada em podcast em vez de exibida no palco, dirá algum incauto – a forma como Alice expõe seus parentes e amigos acaba por humanizar figuras há muito entronizadas no panteão da MPB. Pelo humor e pelas memórias afetivas, a cantora abre caminho para sintonizar a plateia na mesma emoção que ela própria está sentindo ao somar a sua voz à da tia. É um ótimo instrumento para cativar o público, que assim pode deixar o mero tira-teima de lado para também abraçar todo o sentimento do repertório de Nana. E que sentimento: conduzidas pelo piano, as interpretações de Alice para “Atrás da Porta”, “Beijo Partido” ou “Cais”, para ficar em apenas três números, foram de arrepiar.

Menos contundentes foram os raros desvios que Alice impôs ao repertório da noite, incluindo duas canções em inglês que a tia poderia incluir em seu rol, caso falasse o idioma. Primeiro veio “Out of My Mind, Just in Time”, de Erykah Badu; depois, “Love is a Losing Game”, de Amy Winehouse. Nas duas, claro, Alice passou longe de fazer feio, mas o clima mais moderno das músicas fez ambas parecerem deslocadas em meio a um repertório mais antigo, mais clássico, digno de um piano bar. Em contrapartida, em São Paulo ela também fez duas incursões ao repertório do avô que tinham feito falta nas primeiras apresentações do espetáculo no Rio de Janeiro: a rainha do frevo e do maracatu “Dora” e a indefectível “Só Louco”, outro número que Alice parece pronta para tomar para si do catálogo de Nana.

No bis e com lágrimas nos olhos (fato que se repetiu em diversos momentos da noite), houve tempo ainda para duas canções de dor de cotovelo de altíssimo grau: “Suave Veneno”, outro sucesso de novela de Nana, e “Não Se Esqueça de Mim”, cujo refrão Alice dedicou à tia antes de se debulhar em mais lágrimas. Pelo nível dos aplausos da plateia, até poderia ter acontecido um segundo bis fora do combinado, mas talvez a emoção fosse demasiada para o momento.

Não que fosse seja um problema: ao final da noite, Alice superou vários desafios. Em um espetáculo belo e gracioso, ela conseguiu não só prestar uma justa homenagem à tia, mas também superar o ranço dos tributos da MPB – algo que poucos nomes, como Ana Cañas e Catto, conseguiram fazer nos últimos anos. Mais que isso, Alice conseguiu atualizar para os tempos de apps de relacionamentos, encontros fugazes e relações abertas a tormenta e a melancolia do repertório de Nana, marcado por ritmos hoje vistos como antiquados, como sambas-canção e bolero. Com uma voz impecável e um humor muito próprio, a cantora tem nas mãos um show que pode rodar o Brasil (e faturar bom dinheiro) cativando uma dupla plateia, dos fãs mais velhos da tia aos mais novos admiradores da música brasileira. Ainda melhor é saber que tal jornada pode render nova guinada a uma carreira das mais interessantes. Cabe aguardar as batidas na porta da frente.

SETLIST

1. Resposta ao Tempo (Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, 1998)
2. Acalanto (Dorival Caymmi, 1957)
3. A noite do Meu Bem (Dolores Duran, 1959)
4. Tarde Triste (Maysa, 1956)
5. Atrás da Porta (Francis Hime e Chico Buarque, 1972)
6. Adeus (Dorival Caymmi, 1948)
7. Derradeira Primavera (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962)
8. Sabe de Mim (Sueli Costa, 1979)
9. Mentiras (João Donato e Lysias Ênio, 1973)
10. Sem Você (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958)
11. Se Queres Saber (Peter Pan, 1947)
12. Meu Menino (Danilo Caymmi e Ana Terra, 1977)
13. Out Of My Mind, Just in Time (Erykah Baduh, Georgia Anne Muldrow e Poyser, 2010)
14. Love is a Losing Game (Amy Winehouse, 2006)
15. Beijo Partido (Toninho Horta, 1975)
16. Cais (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972)
17. Clube da esquina nº 2 (Milton Nascimento, Lô Borges e Marcio Borges, 1972)
18. Dora (Dorival Caymmi, 1945)
19. Só Louco (Dorival Caymmi, 1955)

Bis:

20. Suave Veneno (Cristovão Bastos e Aldir Blanc, 1999)
21. Não Se Esqueça de Mim (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1977)

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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