texto de Paulo Pontes
fotos de Fernando Yokota
Minutos antes da abertura das portas do Carioca Club no sábado, às 16h30, um fato inusitado e curioso (e que poucas pessoas perceberam) rolava do outro lado da rua. Metade do Cradle of Filth saiu para comprar camisetas não oficiais, vendidas por comerciantes informais em frente à casa de show: o baterista Martin Skaroupka, o guitarrista Marek “Ashok” e a tecladista/vocalista Zoe Marie Federoff foram os integrantes “gente como a gente” responsáveis por essa cena peculiar. Segundo relatos de colegas, aparentemente o pessoal coleciona esses materiais “piratas” da banda.
Bom, o que ninguém esperava mesmo (provável que nem o pessoal da própria banda) era o que aconteceria menos de 24 horas após o show do Cradle of Filth na noite de sábado, 23 de agosto, em São Paulo. A tecladista Zoe Marie anunciou, de forma repentina e imediata (sem explicações até o fechamento deste texto), sua saída da banda em plena turnê latino-americana – que só no México tem 13 datas confirmadas. Parece que a coleção de camisetas bootleg da moça vai ficar incompleta, né?
Dado o teor das publicações feitas por Zoe e pela banda (assinada pelo vocalista e líder Dani Filth) nas redes sociais, a decisão pegou todos de surpresa. Além disso, em um comentário em seu próprio post, Zoe deixou claro que sua saída já estava planejada para este ano, mas resolveu adiantar. E tem mais: aparentemente a tecladista não será a única integrante a deixar o Cradle em 2025, já que ela, em seu comentário, deixou implícito que o guitarrista – e fã de camiseta pirata – Marek “Ashok”, seu marido, também deve sair. Agora é aguardar o anúncio do cara (atualização: o anúncio oficial do desligamento de Marek foi feito na terça-feia. 26).
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A fluminense Tellus Terror abriu a noite com energia e pontualidade. Às 17h, o sexteto já estava no palco mandando ver seu black/death sinfônico diante de uma plateia ainda tímida em número, mas calorosa na recepção. O som não colaborou de cara: uma das guitarras praticamente sumiu na mixagem, mas isso não impediu a banda de mostrar competência e empolgação.
O vocalista Felipe Borges, alternando guturais cavernosos com agudos estridentes, foi o ponto mais marcante da apresentação, conduzindo um show sólido e honesto. A influência do Cradle of Filth e do Dimmu Borgir é nítida, mas o grupo mostrou personalidade, especialmente em faixas como “Amborella’s Child” e “Absolute Zero”. O saldo foi positivo: para muitos, uma boa descoberta.

Na sequência, o Uada mostrou porque já conquistou uma legião de fãs no Brasil em suas passagens anteriores. Sem qualquer tipo de interação verbal com o público, os norte-americanos preferiram deixar a música falar. O palco às escuras, a postura quase imóvel e o visual encapuzado construíram a atmosfera ritualística que caracteriza o quarteto.
Musicalmente, uma apresentação impecável: riffs atmosféricos, precisão rítmica e uma aura hipnótica que fez a plateia mergulhar no clima sombrio da banda. O momento curioso da noite ficou por conta do vocalista e guitarrista Jake Superchi, que escorregou e caiu durante a última música, mas levantou sem perder tempo e seguiu como se nada tivesse acontecido. Já no encerramento, em um misto de catarse e teatralidade, ele chutou uma caixa de retorno e derrubou o pedestal do microfone. Quando uma funcionária da produção tentou recolocá-lo, Jake pisou sobre a base em sinal claro de “deixe onde está”. Um gesto que, somado à música final (“Black Autumn, White Spring”), reforçou a aura de mistério que o grupo cultiva.

E então chegou a vez do Cradle of Filth. Com mais de 20 minutos de atraso, Dani Filth e companhia subiram ao palco já ovacionados por um público ansioso. A abertura com “To Live Deliciously” foi grandiosa, acompanhada por canhões de fumaça e uma plateia em transe. Faixa do mais recente trabalho do grupo, “The Screaming of the Valkyries”, lançado no início de 2025, ela ajudou a mostrar que o novo repertório não perde em nada para os clássicos antigos. O álbum seria lembrado novamente mais tarde com mais duas músicas: “Malignant Perfection” e “White Hellebore”, confirmando que essa turnê é também uma celebração da boa fase criativa do Cradle.
O set list equilibrou material novo com clássicos indispensáveis: “The Forest Whispers My Name” veio logo em seguida, arrancando gritos e punhos erguidos. Dani, sempre teatral, mostrou-se bastante comunicativo durante todo o show.
Entre os destaques, “Heartbreak and Seance” incendiou a pista, com direito a crowdsurf, e “Nymphetamine (Fix)” foi cantada a plenos pulmões pelo público, em um raro momento de balada sombria em meio à tempestade sonora. “Born in a Burial Gown” trouxe o peso de volta, enquanto a já citada “White Hellebore” encerrou a parte principal do show de forma climática.

No bis, o grupo voltou com três petardos: a épica “Cruelty Brought Thee Orchids”, a ritualística “Death Magick for Adepts” (que contou com a participação de um “narrador” mascarado no palco) e, para fechar em grande estilo, o clássico absoluto “Her Ghost in the Fog”, que transformou o Carioca Club em um coro coletivo.
No fim das contas, a noite no Carioca Club acabou marcada por contrastes: do lado de fora, a cena quase banal dos integrantes comprando camisetas na calçada; do lado de dentro, um espetáculo intenso, teatral e memorável. Horas depois, Zoe Marie anunciaria sua saída da banda. De certa forma, a notícia tornou o show ainda mais simbólico: um registro de despedida em plena turnê de divulgação do excelente “The Screaming of the Valkyries”, que já se firma como um dos melhores trabalhos recentes do Cradle of Filth.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/