Três shows: Rogério Skylab, Lobão e Lupe de Lupe

textos de Marcelo Costa
fotos (Skylab & Lupe) de Fernando Yokota
fotos (Lobão) e vídeos de Bruno Capelas

Rogério Skylab no Sesc Av. Paulista (25 de julho)

Na primeira de três noites seguidas sold out no Sesc São Paulo (duas na unidade Avenida Paulista e uma em Jundiaí), o “Marquês de Sade dos trópicos” (grifo perfeito de Fernando Yokota) voltou a entregar uma apresentação emblemática, um daqueles shows que não cabem em si próprios, pois são repletos de gatilhos que passam dias reverberando na mente do ouvinte. Tratado como artista cult e perambulando pelos undergrounds do país, vez ou outra Skylab submerge para palcos “cull”, como o da Casa Natura Musical (em dezembro passado) e esses do Sesc, praticamente imbatíveis: “Foi lindo. Som, público e organização. É o Brasil que deu certo”, ele descreveria acertadamente sobre esse show no dia seguinte, sensação também sentida na apresentação da Lupe de Lupe no Sesc Belenzinho. Fato é que Rogério Skylab é uma ave rara na música brasileira, alguém que transformou seus 15 minutos de fama (suas aparições no programa de Jô Soares) em uma carreira repleta de momentos icônicos, muitos deles presentes nessa noite, que só não foi perfeita porque o set list, mais enxuto, deixou de fora as covers para “Sentimental” (Los Hermanos) e “Eu e Minha Ex” (Júpiter Maçã) além do hino “Fátima Bernardes Experiência”. Ainda assim, Skylab passeou por quase toda sua discografia numérica (teve músicas dos discos “I”, “II”, “IV”, “V”, “VI”, “VII”, “IX” e “X”) além de pescar canções de cada um dos discos da “Trilogia do Cu”, mostrar um número inédito (“Édipo”) e faixas de seu mais recente trabalho, “Trilogia do Fim” (2024). Os clássicos de primeira hora “Matador de Passarinho” e “Carrocinha de Cachorro Quente” permanecem hilariantes, mas, exemplo de evolução, agora precisam disputar espaço com novos momentos emblemáticos do show, como quando Skylab e banda – João Pedro Marques na guitarra, Gabriel Planas no baixo e Aécio de Souza na bateria – carregam “Tem Cigarro Aí?” por quase 8 minutos sob uma chuva de bastonetes nicotinosos, ou quando, em “Corvo”, masca uma cenoura e as cospe grotescamente no público, que urra, e pede “mostra a bunda, Skylab!”, tornando a conexão com o game “Dum Dummies”, presente no episódio “Common People”, da sétima temporada de Black Mirror, inevitável (e amarga). Outro hino, a genial “Você ainda vai continuar fazendo música?”, surge no bis para encerrar a noite no Sesc, mas esse show permanecerá chacoalhando as vísceras por semanas. Não é qualquer um que consegue esse feito. Viva, Rogério Skylab.


Lobão no Blue Note São Paulo (25 de julho)

Falar de Lobão em 2025 faz necessário rememorar o calvário que o próprio artista se impingiu: de nome “muito envolvido com o Lula, PT e MST” à “‘vira-casaca” e “traidor” (em sua própria definição), Lobão passou a ser crítico da esquerda nos anos 2010 e, em 2018, decidiu apoiar o fascista Jair Bolsonaro à presidência, uma tragédia anunciada. Ele voltou atrás, mas seu “street card” já tinha sido cancelado, tornando um desafio encará-lo ao vivo outra vez. Porém, nenhum cancelamento apaga uma carreira repleta de grandes obras, ainda que Lobão não venha colaborando: sua versão interprete é um equívoco tão grande que chamar um disco de “Antologia Politicamente Incorreta” é uma piada tão ruim quanto suas covers pavorosas cantadas a lá Pavarotti. Tudo isso estava posto à mesa do Blue Note SP, na Avenida Paulista, quando João Luiz Woerdenbag Filho surgiu em cena para seu segundo “Lobão Indoor” (voz e violão) da noite. Na primeira parte do set, belas canções inéditas como “Desterritórios” e “My Uncanny Valentine”, de seu vindouro novo álbum, “O Vale da Estranheza”, seguidas de outro número bonito, “Uma Ilha na Lua”, do disco “O Rigor e a Misericórdia” (2015), já de sua fase politicamente polêmica (e, por isso, pouco ouvida). A primeira cover da noite, “Cais”, de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento, que Lobão lançou no álbum triplo “Canções de Quarentena” (2020/2023), escancara a impostação vocal que torna a canção intragável – “técnica” que também irá vitimar “Eu Sei” (Legião Urbana) e o hino “Disparada” (Geraldo Vandré e Théo de Barros). “O Mistério”, canção que Lobão fez na época do Vimana (banda que ele teve nos anos 1970 com Lulu Santos e Ritchie), é uma grata surpresa, mas o público quer hits, e “Chorando no Campo” e “Essa Noite Não” aparecem para que todo mundo cante junto. Dai em diante, o show segue por três caminhos: o das belas canções pouco conhecidas (“Canções de Um Novo Show”, “Vou Te Levar”, “Das Tripas Coração” e a emocional “Toda Nossa Vontade”, já no bis), o dos hits radiofônicos (“Noite e Dia”, “Me Chama”, “Decadence Avec Elegance”, “Por Tudo o Que For”, “Blá Blá Eu Te Amo”, “Corações Psicodélicos” e “Vida Louca Vida”) e o das covers cantadas com uma batata na boca (inclua “Help”, dos Beatles, no pacote). O saldo final é positivo, pois ainda que Lobão se equivoque no arranjo vocal das covers, ele brilha nos hits e nas canções novas, os destaques da noite, pois permitem silêncio para apreciar a beleza. Não sei se você já está pronto para rever Lobão (vale a pena), mas me perdoa, a vida pode ser doce.


Lupe de Lupe no Sesc Belenzinho (26 de julho)

Não existe no Brasil, hoje, outra banda como o Lupe de Lupe. No passado, há poucos concorrentes em personalidade (talvez o DeFalla, e apenas eles), e isso acontece porque a Lupe pavimentou seu trajeto seguindo o próprio instinto – contra tudo e todos. Seu novo álbum, “Amor”, traz 4 músicas em 42 minutos com referências que vão do antológico filme homônimo de Haneke ao comovente “Tempestade”, da Legião, passando por Calcinha Preta, Purple Mountains, Echo and The Bunnymen, Miami Bass, Luan Santana e Paralamas (e muito mais). Tudo isso “junto” soa… épico, mas totalmente Lupe de Lupe, e o fato do disco ter sido abraçado pelos fãs apenas reforça a ideia. Em noite sold out no teatro do Sesc Belenzinho, com todo o público convidado a colar no palco antes do primeiro acorde, Vitor Brauer, Renan Benini e Jonathan Tadeu – acompanhados de Mauro Novaes na bateria – promoveram uma sessão de culto noise com as guitarras soando maravilhosamente barulhentas (como disse Skylab, o Sesc “é o Brasil que deu certo”), para delírio do público e dos próprios músicos (estava bonito observar a felicidade de Vitor a cada toque nas cordas da guitarra). “Os Dias Morrem” (2013) abriu a noite e, sob urros da plateia, “Vermelho (Seus Olhos Brihando Violentamente Sob os Meus)”, faixa de Jonathan Tadeu que abre “Amor” com intensos 10 minutos, surgiu delicada para ir ganhando corpo até crescer em guitarradas quase na metade e explodir no verso “a gente fez tudo o que foi capaz, eu sei” com todo o teatro cantando junto, num daqueles momentos para expurgar demônios. Um dos hinos amados pelos fãs, “Fogo-Fátuo” (2014), fez lembrar quando o público tomou os shows do Los Hermanos para si, cantando tão alto que era impossível ouvir a banda (caminho que a Lupe segue a passos largos de repetir). Perfeitamente inseridas no clima de “Amor”, “A Escrava Isaura” (2011), “Frágua” (2018) e “Fortaleza” (2021) surgiram intensas e impecáveis fazendo a cama pra outra extensa faixa nova celebrada nas primeiras notas, “Redenção (Três Gatos e um Cachorro)”, com muitos presentes cantando toda a letra, de cor. “Gaúcha” (2014) surgiu emocionante abrigada entre dois momentos lo-fi (a acelerada “Gabriela” e a quebrada “Letícia”, ambas de 2023) enquanto outra de “Amor”, a caótica “Se Nosso Nome Fosse Um Verbo (Canibalismo como Forma de Amor)”, lavou almas. O jogo já estava ganho, mas porque não golear: “Cabo Frio”, “Eu Já Venci” e “Enquanto Pensa no Futuro” foram o fecho perfeito de uma noite (de som) absolutamente impecável.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie, na Eldorado FM, e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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