Faixa a faixa: Conheça “Nós Nunca Vamos Morrer”, da U L T R A S O N H O, um disco de signalwave, hauntology e lo-fi

faixa a faixa por Diego Albuquerque

Projeto idealizado pelo paranaense Thomas Blum, a U L T R A S O N H O oferece uma jornada audaciosa através de gêneros que desafiam categorizações fáceis. Termos sonoros recentes ou pouco conhecidos como signalwave e hauntology se fundem em uma colcha de retalhos sonoros lo-fis que transcendem fronteiras entre o passado e o futuro. Utilizando técnicas de colagem, distorção e uma estética lo-fi radical, Blum constrói narrativas a partir de fragmentos radiofônicos, melodias truncadas e texturas que oscilam entre o hipnótico e o perturbador. “Não se trata apenas de música, mas de uma arqueologia do efêmero, onde falhas de transmissão, estática e a deterioração de mídias obsoletas são elevadas à categoria de arte”, explica Thomas.

“Nós Nunca Vamos Morrer” (2025) é o terceiro álbum do projeto e foi financiado pelo Programa Nacional de Apoio à Cultura Aldir Blanc (PNAB), via Prefeitura de São Mateus do Sul — cidade natal de Blum e protagonista invisível do álbum. A geografia sonora do município paranaense é tecida através de gravações da rádio local, entrevistas despedaçadas e comentários cotidianos, transformados em peças de um quebra-cabeça que evoca uma nostalgia não linear. “Cada faixa opera como um portal dissonante: refrões pegajosos emergem de camadas de distorção, apenas para serem engolidos por ruídos que simulam a degradação de uma fita esquecida”, complementa o artista.

A produção, deliberadamente crua, cria uma tensão entre o reconhecível e o estranho, enquanto melodias de sintetizador se entrelaçam com interferências que parecem vir de um rádio sintonizado em estações paralelas. Ao longo de 15 faixas, perpassadas por synths, guitarras e samples, o resultado é uma narrativa quase onírica, que hora beira um sonho bom e em outras parecem pesadelos, mesmo que sempre com ares alucinantes e alucinógenos. Pra entender melhor essa doideira, confira abaixo um faixa a faixa do álbum, que está em todos os streamings, além de download no Bandcamp do HC REC.

Ouça o disco na integra abaixo

01) “Nervos de Aço”- O álbum inicia com um abafado sintetizador que nos coloca em imediata sensação de madrugada, e uma bateria que esbarra propositalmente no limite entre o compasso e o descompasso. Antes mesmo que possamos se aclimatizar ao vaporoso sample somos agitados pela sempre sustenida voz do Pica Pau, mas há algo de estranho aqui, pois o Pica Pau fala arrastado como um idoso pós derrame e isso é algo que se ouvirá em várias faixas, vozes lentificadas como se estivéssemos sob efeito de algum opiáceo pesado que causa arrastos cognitivos no ouvinte ou quem sabe no compositor. Pica Pau vocifera contra uma terça feira e o som descamba numa breve confusão mental de crianças rindo e bateria acelerada para voltar em seguida ao melancólico sintetizador do sample principal. E com esse clima de madrugada delirante que começamos “Nós Nunca Vamos Morrer”.

02) “Tem de Haver Uma Resposta” – Em seguida, estamos imersos em um sample deturpadíssimo de Beach Boys (de onde o título é retirado) intercalado com vinhetas obscuras de DJs que provavelmente já estão mortos. O “oitavar” da melodia ou coisa do tipo dá um ar especial de ascensão mental, como que tentando desafogar o ouvinte do torpor letárgico que o som mono de fita cassete junto a um pitch down que é identidade quase obrigatória do vaporwave tende a dar nesse tipo de som. Somos pegos de surpresa com uma vinheta de BomBril violada em cortes minuciosos que tornam a narrativa praticamente dadaísta e que descambam num refrão abaladíssimo de “I Know There’s an Answer” que logo transforma-se num sample de “Death in June” mesclada a algo como um comercial obscuro com uma faixa sobre “Brasil Industrial”. As referências e fragmentos continuam fuzilando o ouvinte de forma quase esquizofrênica saindo de comerciais obscuros dos anos 70 para músicas paganistas neo folk e trompetes, pitch up em Beach Boys e o que mais você imaginar. Uma verdadeira viagem de alucinações sonoras.

03) “Quem Realmente Está Livre”-  Os millennials vão pegar na hora essa eterna abertura do Playstation 1 que em poucos segundos transforma-se-a numa improvável versão às avessas de Sítio do Pica Pau Amarelo com ácido, e temos então o primeiro trecho radiofônico do álbum que capta um locutor nitidamente paranaense levemente arrastado pela edição manipulativa de ULTRASONHO em um anúncio desnorteado que leva para o pegajoso sample slowed + reverb de “Canção do Engate”, de António Variações, que por si só é uma viagem à parte. É quase possível sentir-se dentro de um carro viajando de noite com os pais através de uma ponte iluminada, deitado no banco de trás enquanto o som quente e saturado pelo lo-fi preenche o veículo. Temos mais uma porção de fragmentações obscuras e caóticas, mais locuções e um tecido sonoro vasto. A faixa ainda traz uma lenta e amortecida versão de “Jubilee Street”, de Nick Cave, em meio a vozes fantasmagóricas que colidem-se.

04) “Notas Fiscais” – A sensação de bolor sonoro que permeia com propósito todos os álbuns do ULTRASONHO talvez seja mais palpável em “Nós Nunca Vamos Morrer”. Ouvir a guitarra de verão melancólica e chorosa de “Notas Fiscais” afogando-se na precariedade tecnológica emulada através de aparelhos sim tecnologicamente avançados demonstra cuidado e capricho na arte do lo-fi. Mesmo em uma faixa sem recortes sonoros, inteiramente tocada por instrumentos convencionais, nota-se o cuidado em priorizar a identidade sonora fantasmática de uma decadência analógica em detrimento ao high tech que torna-se por natureza o óbvio.

05) “Dolce Frequentiae”- O piano tristíssimo de uma faixa obscura de Carl Barat dá o tom para uma das melhores faixas, com relatos fragmentados radiofônicos de pessoas com saudade de seus avós, a faixa ainda intercala com harmonia e melancolia outro sample primoroso de um desconhecido grupo musical chamado Camerata Mediolanense. Mesmo em meio ao oprimido luto que a música instiga, ULTRASONHO não deixa de brincar com a assombrologia sempre presente, fragmentando e causando glitchs nas melodias principais.

06) “Os Meninos Pregados” – Basicamente uma absurda e dadaísta anedota contada por telefone – quem sabe (ou assim parece) – por alguma espécie de pastor – quem sabe (ou assim parece). A história é manipulada por cortes sutis, o que explica o non sense humorístico da faixa. Uma textura suave e melódica na mesma medida que tem um quê de nostalgia permeia a faixa por trás. É o tipo de faixa que não dá pra comentar muito pra não estragar a experiência de quem ouvirá.

07) “Baclofeno Midnight”- Uma das faixas mais curtas mas não por isso mais comportada. Em pouco tempo temos sample de chaves esmigalhando-se contra algum tipo de narração de rodeio, outros trechos radiofônicos obscuros e estranhos, vinhetas que cheiram a sótão e uma tapeçaria sonora minuciosa.

08) “Motoristas Confusos Destróem a Avenida”- As melodias estranhas e lentificadas do sample principal parecem remeter a algum jogo de videogame antigo que não ficou bem guardado na memória (mental) enquanto uma gravação radiofônica parece dizer que alguns motoristas são piores que outros e que deveriam evitar de utilizar seus carros. Em poucos segundos somos transportados para algum som pitch high dos anos 50 intercalando-se com um sample de Amiina e mais um tanto de outras coisas que é até difícil de acompanhar. Tudo costurado com delicadeza e paranoia. Provavelmente uma das faixas mais bem construídas, mas perturbadora no mesmo nível.

09) “Preciso Desinstalar Meu Instagram” – Aphex Twin em frequências sonoras obscuras, locutores russos, Silvio Santos falando com a platéia num episódio letárgico de nodding profundo, tudo isso permeia a nona faixa de “Nós Nunca Vamos Morrer”. O som constrói-sê em cima de narrativas surreais advindas de fragmentação adulterada televisiva, o que é uma brincadeira constante com nossa memória. Se isso não bastar, temos então a introdução de “Yu Yu Hakusho” modulada e nublada que colide com Flaming Lips e vozes de trás pra frente. O som vai ficando tão intrincado de simbolismos e significâncias, fragmentos e tópicos que torna-se difícil descrever.

10) “Agora Não Precisamos Mais dos Outros” – Entre Have a Nice Life, John Frusciante e Godspeed You! Black Emperor sampleados como se estivéssemos presos numa paralisia do sono com febre, encontramos vozes demoníacas reversas e baterias embaladas. O trabalho melódico do ULTRASONHO é priorizado em todos os seus trabalhos, de um jeito que mesmo a faixa mais caótica e obscura é contrabalanceada com samples agradáveis e animados que tentam ser uma brisa leve no meio do torpor, ainda que por consequência apenas aprimorem o grau de deturpação da realidade.

11) “Noite Quente, Suor Presente” – Algo na guitarra inicial ecoa “Goodbye Horses”, de Q Lazarus, a bateria abafada e o baixo distante como num pesadelo de um cheirador de cola dão o tom e a explicação ao título. A faixa é uma baladinha entorpecida que parece ser o som que ecoa na mente de alguém com excesso de substâncias em um canto escuro de um fim de noite de uma balada.

12) “Infinitu Scrimu” – Tal como sugere o nome, temos gritos ecoando ao fundo num breve e dissolvido sample de “Infinity” (aquela música eletrônica que certo tipo de pessoa gosta, e que na verdade é ótima), em poucos segundos estamos enredados por vozes retalhadas e uma mixagem de algo que assemelha-se a um pancadão de baile funk no inferno pós convulsão. Os gritos persistem, relatos de rádio, ligações a cobrar, parecem haver almas queimando em poços de lava e pequenas frases melódicas de video game se deturpam a redenção final ao “Infinity” que volta como uma espécie de vinheta.

13) “Relatos de Um Pai Ausente” – Aqui temos um belo trabalho de recorte dadaísta de algo tipo coach de rádio que debulha sua ladainha por cima da obliterantemente nostálgica trilha sonora de “As Aventuras de Chatran”. A história do pai presente toda desnorteada em uma edição cuidadosa casa sonoramente muito bem com as tristes melodias de piano sintético dos confins dos anos 80. O tom acidamente humorístico oculto nas mixagens serve como alívio cômico a este intenso trabalho de torpor psicológico condensado.

14) “Que o Rádio Caia Sob o Nosso Teto” – A penúltima faixa tem uma energia caótica bastante hipnagógica, com samples de Jair Naves, Jupiter Maçã, participantes anônimos da rádio local e Walter Franco em gritos viscerais que confluem para um sample sensualmente febril de Lana del Rey que divide espaço com uma gravação de tribo da Polinésia e de jornalistas falando de trás pra frente.

15) “Nós Nunca Vamos Morrer” – O álbum encerra-se então num sample de uma de suas maiores influências: Windows 96. Logo percebe-se um inesperado Yonlu mesclado a locutores, trilha sonora de Badalamenti, caos sonoro, Fishmans de trás pra frente, um sample de um controverso rapper e desemboca novamente em Yonlu fazendo sempre uma espécie de serpenteamento epopeico em torno dos samples utilizados. “Nós Nunca Vamos Morrer”, que dá nome ao álbum, é uma representação bastante pertinente da potência hipnagógica do projeto, que brinca como bem quer com a música alheia, tornando-as hora brandas hora perturbadoras.

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.

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