Ao lançar “Novo Mundo”, Arnaldo Antunes conecta fios da meada de carreira tão pop quanto estranha

texto e vídeos de Bruno Capelas
fotos de Douglas Mosh

Revelado na grande onda do rock nacional dos anos 1980, Arnaldo Antunes soube pautar sua carreira solo de modo muito singular a partir de 1992, quando resolveu deixar os Titãs. Tal como aquela velha canção de Caetano, onde o queriam revólver, ele era coqueiro; onde o queriam família, maluco. Nesse jogo de apenas aparentes contradições, o artista ergueu uma sólida trajetória combinando sucessos de rádio com experimentações ousadas. Não chega, portanto, a ser uma surpresa vê-lo retomar esse caminho em 2025, com o lançamento do álbum “Novo Mundo”. No entanto, entender como essa combinação funciona ao vivo – como aconteceu em três noites do final de abril na comedoria do Sesc Pompeia – pode ser um exercício bastante interessante em tempos de um midstream cada vez mais estreito no Brasil.

Animado após uma bem-sucedida turnê dos Titãs que lotou estádios pelo País ao longo de 2023 e 2024, Arnaldo poderia ter aproveitado os polpudos milhões embolsados para ficar em casa esperando visita. Mas não foi o que aconteceu: lançado pelo independente Selo Risco (casa de jovens talentos como O Terno, Luiza Lian, Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Maria Beraldo e Jadsa, entre outros), “Novo Mundo” traz o artista dialogando com velhos conhecidos (David Byrne, Marisa Monte) e novos amigos (Ana Frango Elétrico, Vandal), além da esmerada produção de Pupillo.

No palco, essa mistura também se dá de maneira interessante, com uma banda afiada: Curumin (bateria), Vitor Araújo (teclados), Kiko Dinucci (guitarra e programação), Chico Salem (violão e guitarra) e Betão Aguiar (baixo). Juntos, os cinco sobem ao palco primeiro, em um figurino todo preto desenhado por Marcelo Sommer. Depois, é a vez de Arnaldo aparecer de branco para abrir os trabalhos com a intensa faixa-título do novo trabalho. Com versos como “o passado já não traz aprendizado / o futuro se tornou uma ameaça”, “Novo Mundo” é um manifesto tão preciso do presente que parece até já fazer parte do passado – e oferece uma oportunidade para Kiko e Vitor começarem um ruidoso duelo que trará alguns dos melhores momentos da noite.

Entre eles, é fácil citar a releitura de “O Pulso” – uma das duas músicas dos Titãs que Arnaldo apresentou ao longo da noite. Mas ao contrário da versão reverente exibida em grandes palcos pelo grupo oitentista na turnê Encontro, a canção apareceu logo no início do show no Sesc Pompeia, de maneira poderosa, cheia de ruídos, com Dinucci abraçando o caos pós-punk da canção. Outro momento desses foi a dobradinha da nova “Tire O Seu Passado da Frente” com a veterana “Cultura” – do álbum de estreia de Arnaldo, “Nome” (1993) -, ligadas por uma longa viagem dub de três ou quatro minutos – a passagem, criada inicialmente para permitir uma troca de figurino de Arnaldo, faz o show alçar voos interessantes.

É curioso, porém, notar como as partes mais radicais do show se entremeiam a outras, mais acessíveis e radiofônicas. Logo após “O Pulso”, por exemplo, Arnaldo emenda as baladas “É Primeiro de Janeiro” e “Se Assim Quiser”, juntas do primeiro grande sucesso dos Tribalistas, “Já Sei Namorar” – de refrão tão fácil que o cantor até se permite sair do palco e ir para a galera no meio da música, em evidente comoção. Após a já citada “Cultura”, por sua vez, ele abre os braços para um de seus maiores hits solo, “A Casa é Sua”, não só cantada mas esgoelada pelo público que esgotou os ingressos das três noites do Sesc.

À primeira vista, o choque entre os dois pólos oferecidos por Arnaldo provoca estranheza. Não é de hoje: como pode o herdeiro dos concretistas e o vocalista de um grupo que chamou a atenção pela violência poética também ter canções de amor singelas, às vezes até simplórias, como “Passe em Casa”? Como dar conta de um romantismo inocente como o de “Pedido de Casamento”, e, na sequência, lidar com um grito quase primal como o de “Fora de Si”? Por que preferir uma antiga faixa pouco compreensível a um sucesso cantarolável como “Saiba”, “Essa Mulher”, “Consumado” ou “Paradeiro”, todos ausentes do setlist?

Aos poucos, porém, a ficha vai caindo – e talvez mais agora do que em qualquer outro momento da carreira, Arnaldo Antunes está pronto para ligar os dois fios da mesma meada. O que ele propõe em “Novo Mundo” (e alcança com grande dose de sucesso!) é nada mais do que um profundo humanismo, uma busca pelo que faz essa espécie ser… humana. E isso passa pela poesia mais banal dos nossos dias, mas também reconhece o lado mais radical da nossa própria existência. Talvez seja algo que ele tenha sempre proposto, mas em tempos tão extremos, a mensagem está cada vez mais clara.

Ele não está só nessa ideia, claro. Muito do que acontece no show de “Novo Mundo” remete a outro grande espetáculo dos nossos tempos: “American Utopia”, de David Byrne – outro artista cuja curiosidade pelo humano sempre esteve em alta. Aqui, a comparação se refere menos à coreografia cênica: Arnaldo não repete com seus músicos o balé coreografado de Byrne, mas parte da mesma estratégia de revisita sonora de uma carreira inteira para desvendar o que há por trás do homo sapiens. Das escolhas de luz ao figurino, passando pela capacidade de emendar um repertório variado, o show de Arnaldo está umbilicalmente ligado ao do parceiro.

Há um momento, inclusive, em que essa sinapse se manifesta de maneira mais intensa: na parceria entre o titã e o americano em “Body/Corpo”, executada logo após “A Casa É Sua”. No palco, a voz gravada de Byrne e a emitida ao vivo de Arnaldo dialogam, em um efeito que remete à literalmente cerebral “Here”, que abria o supracitado show do ex-Talking Heads. Mas há uma diferença sutil: enquanto a canção do americano é linear, a de Arnaldo traz um sutil trocadilho: repetida rapidamente no refrão, a palavra “body” logo se transforma em “bole”, convidando quem ouve a música a rebolar os quadris. Não é o único momento dançante da noite: em várias horas, é interessante perceber como o rock vira samba, xaxado ou bole-bole, fazendo o público bailar por cima das guitarras, em uma amostra da capacidade cancioneira do artista.

Outra dessas amostras surge na sequência final do set principal, com a introdução torta e neoconcreta de “Agora” se ligando ao charme pop de “Socorro” – hino escrito nos anos 1990, mas parece cada vez mais pronta para soar nos algoritmos de agora. As duas fazem cama para outra ligação interessante: a nova “Tanta Pressa Pra Quê” e a já citada “Passe Em Casa”, numa execução tão simpática quanto um convite para tomar um chá com bolo em dia frio.

No bis, contudo, é quando o projeto estético de Arnaldo se torna ainda mais evidente. Primeiro, com a já citada “Fora de Si” fazendo a antítese simbólica da canção anterior. Depois, com um hino de 1987 soando fresco como raras vezes aconteceu nos últimos anos: após temporadas sendo desgastada em aulas de artes e releituras de barzinho, “Comida” surge vigorosa em um arranjo que recupera sua raiz à la Gang of Four, em mais uma cortesia do punk de carteirinha Kiko Dinucci. Em grande coro, Arnaldo faz questão de lembrar ao público que a vida é mais do que só comida – é necessidade, desejo e vontade, todos juntos numa roda só. Se o novo mundo em que vivemos tem “cada vez mais casca e menos substância”, é bom lembrar que ainda há artistas que querem o inteiro e não pela metade. Com o perdão do trocadilho, caro leitor: para os próximos meses, está aí um show pelo qual vale a pena não pagar meia entrada.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

One thought on “Ao lançar “Novo Mundo”, Arnaldo Antunes conecta fios da meada de carreira tão pop quanto estranha

  1. Há algo que não pode ser jogado pra debaixo do tapete. No início dos anos 90 era a diversão de uma galera como Forastieri, Álvaro Pereira Jr, entre outros da “inteligência” paulista detonar com Arnaldo, Marisa monte, Lenine, Zeca baleiro e um monte de etc. Era a galera anti MPB com síndrome de não ter nascido em terras estrangeiras. Ao se estranhar quando se depara com a consistência da carreira de Arnaldo, nada mais a que o resquício do pensamento colonizado da galera paulistana de então. Fizeram muito mal ao jornalismo cultural nesse aspecto.

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