Três curtas da 28ª Mostra de Tiradentes: “Confluências”, “Três”, “Entre Corpos”

textos de Leandro Luz

“Confluências”, de Dácia Ibiapina (2024)
“Confluências” (2024) é dirigido por Dácia Ibiapina – a mesma do excelente “Cadê Edson?” (2020), que retrata movimentos sociais em luta por moradia – e tem a presença central de Nêgo Bispo, que também assina a direção do filme, comemorando o seu aniversário de 60 anos durante a feitura do documentário. Antônio Bispo dos Santos faleceu no dia 3 de dezembro de 2023, mas o filme está interessado na vida, no saber, e não em abismos de morte. Ibiapina e Bispo conduzem um registro precioso que começa com uma bela cena de um filho tocando, ao violão, a música “Sapato 36” para o seu pai. A canção, composta e cantada originalmente por Raul Seixas, é de protesto existencialista, rebelde por natureza. A sua letra diz: “Eu calço é 37 / Meu pai me dá 36 / Dói, mas no dia seguinte / Aperto meu pé outra vez […] Pai eu já tô crescidinho / Pague prá ver, que eu aposto / Vou escolher meu sapato / E andar do jeito que eu gosto […] Por que cargas d’águas / Você acha que tem o direito / De afogar tudo aquilo que eu / Sinto em meu peito / Você só vai ter o respeito que quer / Na realidade / No dia em que você souber respeitar / A minha vontade / Meu pai”. Os olhos marejados de Bispo não deixam dúvida: é o seu filho quem toca o violão. Conflitos geracionais existem em todo lugar. Entre a tradição e a vontade de viver o presente, pais e filhos sempre estarão em descompasso. O que Ibiapina e Bispo nos mostram, com um olhar preciso e cortante, é que a tradição só pode existir se também for presente. Tradição viva, em constante movimento. É muito bonito como uma velha música popular de um rockeiro meio esquecido e desvalorizado pode nos dar uma dimensão tão interessante disso tudo, não é mesmo? Após esse momento delicado, íntimo, percebemos que o seio familiar se expande também para uma comunidade maior. Se trata da vida do quilombo Saco-Curtume, na zona rural de São João do Piauí, território a partir do qual (nos conta a sinopse do curta-metragem) Nêgo Bispo compartilhou seus saberes, conceitos e experiências. Acompanhamos, portanto, um recorte do que é a vida no quilombo, dimensão que nos chega através da sensibilidade de Ibiapina e Bispo em colaboração com Cristina Amaral, uma das maiores montadoras do país. O trabalho de ambas consegue nos conduzir com leveza entre os afazeres do dia a dia e os festejos de uma comunidade comprometida em resistir aos ataques incessantes contra o seu modo de vida e em sobreviver de forma comunitária, zelando pela boa convivência e pela autossustentabilidade. “Confluências”, cuja produção é assinada por ninguém menos do que Adirley Queirós, é um registro importante não só pelo que conta, mas pela maneira como o faz, livre e fluido, e merece circular bastante, levando a imagem e o pensamento de Nêgo Bispo Brasil afora.


“Três”, de Lila Foster (2024)
O cotidiano de uma vida a três, como nos conta a sinopse do curta-metragem dirigido por Lila Foster, diz respeito ao casal Luisa e João e sua filha Vera. No entanto, “Três” (2024) começa com uma cena de sexo no escuro, caliente, um ménage à trois. As trevas dão conta parcialmente das pernas entrelaçadas, da saliva e dos gemidos. Alguns segundos depois, a “vida real” se impõe pela luz fria e indiferente do banheiro da amiga, que ainda dorme no quarto enquanto o casal se apruma para deixar a casa. Ele pede para ela passar um café (ela recusa), enquanto lava os pés na pia e os seca com a toalha de rosto. Eles escovam os dentes com os dedos. Ela demonstra-se incomodada com os hábitos dele e se encarrega da despedida. Vai até o quarto da amiga e diz que estão indo embora. Na cena seguinte, o casal volta para casa e somos apresentados a Vera, uma criança cheia de vida que, como toda criança, demanda muito de seus pais. Apesar de cansados da intensa noite anterior, os corpos em estado de erotismo precisam ceder espaço para as obrigações rotineiras. Cozinhar, pentear o cabelo da filha, repreender a malcriação – todas essas tarefas são executadas por Luisa, que deixa evidente em seu semblante o cansaço e a insatisfação com a vida de mãe e esposa. Não que João seja um pai irresponsável ou ausente, mas o machismo lhe concede a cruel e egoísta vantagem de se colocar em segundo plano para as tarefas domésticas e para o trato com a menina. O que faz de “Três” um filme tão interessante é a sensibilidade pela qual Lila Foster conduz os seus atores: Gabriela Correa compõe a sua Luisa de modo cortante, dando espaço para as frustrações, mas sem pesar a mão na melancolia, enquanto João Campos adota uma postura cuidadosa para interpretar o seu João, consciente da necessidade em demonstrar as falhas de seu personagem, mas com uma sutileza formidável. A cena em que o casal está deitado no chão e ele toca o violão é muito reveladora nesse sentido. A pequena atriz que interpreta a filha do casal também consegue conduzir de forma interessante o texto, como na cena do almoço, na qual ela se recusa a comer o macarrão com molho, até que o pai precisa se pronunciar com a sua voz de autoridade – um típico balanço familiar patriarcal. As frustrações que estão em jogo são muitas, de ordem tanto coletiva quanto individual. Eles falam sobre a impossibilidade de uma existência tranquila. “A gente só quer o que não tem?” é a pergunta que fica. “Será que um dia a gente se encontra?”, é outra pergunta, esta talvez ainda mais angustiante.


“Entre Corpos”, de Mayra Costa (2024)
“Entre Corpos” (2024) causou um frisson na primeira sessão da Mostra Foco, principal recorte de curtas-metragens em Tiradentes. O filme alagoano, dirigido por Mayra Costa e protagonizado por Ticiane Simões, acompanha a rotina da costureira Vânia, que se revela muito mais intensa e arriscada do que somos capazes de supor em uma primeira olhadela. Uma costureira: a dimensão do trabalho está posta desde o início, mas o que o filme carrega de novo e excitante está justamente no equilíbrio entre a imposição do mundo do trabalho e a voracidade em manifestar os próprios desejos sexuais. Vânia trabalha e se expressa sexualmente. Ou melhor, trabalha enquanto se expressa sexualmente. O ato de costurar uma calça parece se dar metódica e corriqueiramente, como já vimos mil vezes. É só quando a câmera registra fluidos e corpos humanos servindo como artefatos desse mesmo coser que a nossa ficha cai. Não estamos diante de uma narrativa comum sobre opressão capitalista, misoginia e abuso. O patrão / tio repousa as suas mãos no ombro da funcionária / sobrinha por mais tempo do que o aceitável e há uma tensão constante no fato de Vânia ficar sozinha à noite para receber os clientes, mas logo o filme modula esses acontecimentos para reestruturar o comportamento da protagonista diante de seu calvário. “Onde se ganha o pão não se come a carne”, diz o ditado, que Vânia ignora solenemente. Vânia devora o pão e a carne. Como uma louva-a-deus fêmea que devora o seu macho durante o ato sexual, ela refestela-se de gozo e raiva. A costureira oprimida é também (e talvez o seja ainda mais) uma artista dona do seu próprio desejo. Faz colagens com imagens de corpos masculinos que recorta de revistas, usando de seu próprio muco vaginal para manter as peças coladas entre si e em um enorme painel que cobre toda a parede de seu quarto. Vânia também se relaciona com os clientes abusados da loja do tio, adotando uma postura dominadora, implacável. A diretora não faz questão de mostrar tudo de forma contínua, preferindo a liberdade das lacunas, dos hiatos. O preto e branco da fotografia e a razão de aspecto reduzida provocam uma sensação de devaneio, como se não pudéssemos ver com clareza tudo o que a protagonista sente e faz. O curta-metragem foi premiado pelo júri oficial, que também concedeu à Ticiane Simões o Prêmio Helena Ignez, dedicado ao destaque feminino de toda a Mostra de Cinema de Tiradentes. O texto do júri destacou a precisão nos gestos da atriz, a sua postura e o seu olhar impenetrável, e comparou a sua presença cênica a um enigma, uma esfinge irresistível. O filme é mesmo tudo isso, e muito mais.

Mais sobre a Mostre de Cinema de Tiradentes

– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.



5 thoughts on “Três curtas da 28ª Mostra de Tiradentes: “Confluências”, “Três”, “Entre Corpos”

  1. Leandro, obrigada pelo seu texto sobre Três. Muito tocante ver como as coisas que a sente e deseja com um filme atravessa para o outro lado, chega e toca o espectador. Seu texto me deixou emocionada e muito feliz. Agradeço de coração.

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