Graveyard e Bike em Porto Alegre: som alto para se lidar com os próprios demônios

texto de Homero Pivotto Jr.
fotos de Giovanni Maglia

Que a água da Suécia deve ter algum ingrediente mágico, todos nós (metidos a) rockeiros desconfiamos. Isso porque, ao longo dos anos, ficou perceptível que bandas do país escandinavo têm uma espécie de selo de qualidade. Vá lá, nem tudo, mas uma quantidade considerável dentro das diversas vertentes desse tal rock’n’roll. O segundo representante da nação europeia a desembarcar em Porto Alegre em menos de um mês, o Graveyard, reforçou tal percepção – antes deles, o Lucifer esteve por estas plagas em 20 de abril. O show, mais uma vez, foi no Espaço Marin, em 7 de maio, inaugurando a parte brasileira da turnê (que contempla ainda outras três datas).

Cerca de 200 pessoas, conforme a produção local, mostraram-se confortavelmente entorpecidas pela mistura – ora elegante, ora bagunceira – de hard rock, blues, psicodelia e stoner do quarteto. Joakim Nilsson (guitarra e voz), Jonatan Ramm (guitarra), Truls Mörck (baixo e vocal) e Oskar Bergenheim (bateria) protagonizaram uma performance aka chapante. Uma apresentação com volume, pressão e entrega.

Graveyard

Abrindo os serviços, tivemos “Plase Don’t”, do catálogo das mais agressivas na discografia do Graveyard. Seguiu-se “Cold Love”, a envolvente “No Good, Mr. Holden” (um aceno a Randy Holden, que foi guitarrista do Blue Cheer) e “Breathe In Breathe Out”. Nesse ponto, antes de assumir o microfone para cantar “From a Hole in the Wall”, Truls saudou o público. Os próximos passos no set incluíram “Walk On”, a certeira “I Ain’t Fit to Live Here”, “Rampant Fields”, “Bird of Paradise” e a venenosa “An Industry of Murder”. A primeira parte do show encerrou com “Hisingen Blues” (faixa-título do álbum preferido de parcela considerável dos fãs), “Goliath” e a densa “Uncomfortably Numb”. Enquanto a banda descia do palco e criava uma cena para o bis, a guitarra de Joaquim, deixada ligada próxima ao amplificador, apitava no recinto.

Veio, então, “Twice”, “Evil Ways” (a primeira composição escrita pelo Graveyard, conforme disse o baixista), a balada de peso “Hard Times Lovin’” e a encapetada “Satan’s Finest”. O alarme final do espetáculo soou com “The Siren”, em que Joaquim deu uma atrasadinha de mestre para entrar no primeiro refrão, no trecho que diz “tonight a demon came into my head and tried to choke me in my sleep”. Em aproximadamente 1h30min, o Graveyard brindou a plateia com som alto e alento para se lidar com os próprios demônios.

Bike
Bike

Quem preparou o terreno para a atração principal foi o quarteto Bike, que chegou pedalando uma mistura hipnótica de psicodelismo, progressivo, krautrock e brasilidades sonoras. Julito Cavalcante (voz e guitarra), Diego Xavier (voz, guitarra e efeitos), Daniel Fumega (bateria) e Gil Mosolino (baixo) desfilaram mantras pesados com execução ruidosa.

Ainda com poucos presentes na casa, a banda de São José dos Campos (SP) entrou em ação com “Todos os Olhos”, tema que abre o sétimo e mais recente álbum “Noise Meditations” (título devidamente apropriado). A sequência teve “NEU!A” (lê-se “nói-a”, uma deferência aos alemães do NEU! – formado por dissidentes do Kraftwerk), “Bico de Ouro”, “Divinorum” e “O Fogo Anda Comigo”. O ritual de caos sonoro coordenado fluiu no ritmo de “Olho D’Água Grande”, “Boca do Sol” e “Filha do Vento”.

Em pouco mais de meia-hora, o grupo joseense mostrou que, em meio a delays, microfonia e batidas motorik, pode-se equilibrar apelo pop.

Bike

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.

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