Entrevista: Roddy Bottum fala sobre a sua autobiografia, a importância do teclado no Faith No More e seu amor pelo Brasil

entrevista de Luiz Mazetto

Se nos anos 1960 e 1970 era comum ver bandas de rock com pianos e teclados em destaque, como The Doors, Animals, Pink Floyd e Deep Puprle – para não falar dele, Elton John, o mesmo não se pode dizer dos anos 1980 e início dos 1990, especialmente em meio ao boom do grunge e do rock alternativo. A exceção à essa regra não escrita e que acabou redesenhando de alguma forma o que podia ser feito foi um quinteto de San Francisco que misturava rock, metal e funk, o Faith No More.

Cofundador da banda, ao lado do baterista Mike Bordin e do baixista Billy Gould, de quem era amigo desde a adolescência em Los Angeles, Roddy Bottum não apenas tocava teclado, mas colocava o instrumento em evidência no som massivo do grupo, que chegou ao seu ápice com “The Real Thing” (1989) e “Angel Dust” (1992), os dois discos com a chamada formação clássica, os primeiros com Mike Patton nos vocais (substituindo Chuck Mosley, que tinha substituído Courtney Love) e os últimos com Jim Martin nas guitarras.

Longe da artificialidade forçada e repetitiva do industrial, da virtuose do rock progressivo e dos exageros das bandas glam dos anos 1980, o teclado era, de forma simples e direta (e, às vezes, pomposa na medida certa), o coração do Faith No More, o que dava alma e diferenciava a banda de todo o resto. É impossível imaginar clássicos da banda, como “Epic”, “Falling to Pieces”, “Edge of the World”, “From Out of Nowhere”, “Midlife Crisis”, “Caffeine” e “Everything is Ruined” – e um cover como “Easy”, dos Commodores, sem os teclados classudos e marcantes de Roddy.

Na entrevista abaixo, o músico fala sobre a sua recém-lançada autobiografia, “The Royal We” (ainda não disponível em português), que não por acaso esteve em várias listas dos melhores livros de 2025; relembra momentos históricos do Faith No More, incluindo a marcante apresentação do grupo no Rock in Rio 2, em 1991, quando “roubou a cena” do Guns N’Roses; conta por que a banda não poderia ter sido criada em outra cidade que não fosse San Francisco; revela como a sua mãe influenciou sua abordagem com o piano/teclado; e conta como foi se assumir gay publicamente no início dos anos 1990, antes de outros músicos mais famosos! Confira!

Queria começar te perguntando quanto tempo você levou para escrever o livro. E também saber por que você decidiu ir para Paris para terminá-lo?  Não que alguém precise de um bom motivo para ir a Paris, mas houve algo específico que fez você querer ir para lá para finalizar o livro?
Roddy: Demorei provavelmente mais de um ano para escrever, algo assim. Não sei, tem algo de francês no livro para mim, de um jeito estranho. Não consigo realmente explicar em palavras, mas quando escrevi o livro, eu queria que ele tivesse um pouco a sensação de um conto de fadas. Sabe o que isso significa? E meio que parecia que algumas das histórias e coisas que eu conto no livro são tão estranhas e esquisitas que parecem um pouco como fantasia, quase como se fossem inventadas. E no cinema francês, especialmente, sinto que esse tema aparece muito. Parece algo bem francês, em que as coisas são exageradas, grandiosas, mágicas, joviais e quase inacreditáveis. E, não sei por que, mas na minha cabeça eu pensava: “Sim, preciso ir a Paris para terminar isso”. Então eu fui. Fui para lá e ficava indo em uma biblioteca francesa antiga. Por um mês, ia todos os dias até ela e finalizei o livro lá.

Você comentou que o livro parecia um filme francês. Pelo que entendi, você estudou cinema por um tempo na faculdade, certo?
Estudei, sim. Quando eu era jovem, quando fui para a faculdade, no primeiro ano eu estudei principalmente cinema. Eu queria ser cineasta e fui para a escola de cinema por isso.

E havia algum diretor francês específico, tipo alguém da Nouvelle Vague — como Godard ou Truffaut, para citar os dois mais famosos — ou algum outro cineasta?
Quer dizer, esses dois com certeza, Godard e Truffaut. gosto muito do Louis Malle também (diretor francês conhecido por títulos como “Ascensor para o Cadafalso” e “Perdas e Danos”). Acho que quando eu estava profundamente… Na escola de cinema, eu estava mais interessado nos russos. Eu realmente gostava do (Andrei) Tarkovski (cineasta soviético, responsável por obras como “Stalker”, “Solaris” e “O Espelho”), ele foi muito importante pra mim. Talvez mais tarde o (Michael) Haneke (diretor austríaco, de filmes como “Violência Gratuita”, “Cache”, “A Professora de Piano”, “Fita Branca” e “Amor”), não sei. Mas o cinema francês sempre teve um espaço. O cinema francês tinha um tom muito próprio, sabe? E, por alguma razão, me conectei com esse tom para o livro.

No começo do livro, você menciona que não lembra por que foi a San Francisco pela primeira vez, mas conta que continuou voltando, voltando e voltando para a cidade – inclusive, até menciona a rodovia entre as duas cidades, que parecia uma tatuagem em você depois de percorrê-la tantas vezes. Havia algo específico que fazia você querer voltar? Ou era simplesmente a sua aversão a Los Angeles que te fazia querer buscar um lugar diferente na época?
Bom, eu realmente estava cansado de Los Angeles quando era jovem. Eu tinha 17 anos e estava de saco cheio de LA. A cidade não falava comigo, é uma cidade meio cafona, sabe? É onde fazem filmes, é para onde os atores e atrizes vão para ficarem famosos, as pessoas são bronzeadas e tudo mais. Quando eu ficava indo e voltando de San Francisco – na verdade eu tinha me mudado para lá, mas ia para LA ver minha família. Mas sempre voltava para San Francisco porque era onde eu morava. Não era como se eu tivesse ido embora e voltado, ido embora e voltado. E as cidades são relativamente próximas, então dá para fazer as duas coisas. Mas vivi em San Francisco por uns 20 anos depois que me mudei para lá. No começo, eu não gostava. Era tudo muito estranho e tão diferente de tudo que eu já tinha visto. É uma cidade bem sombria. As drogas são diferentes, as pessoas são diferentes. Tudo parecia meio gótico – e isso foi há muito tempo, em 1981, quando nem sabíamos o que “gótico” era. Mas havia músicas estranhas, escuras e lentas. Enquanto Los Angeles era pop, animada, divertida, iluminada e a “cara” do verão… San Francisco era invernal, escura, úmida e um pouco assustadora. E algo nisso falou comigo naquela idade – ajudou a formar a banda e virou quase um personagem no que fazíamos: a escuridão.

Billy Gould e Mike Bordin, baixista e baterista do Faith no More, prestigiaram Roddy em San Francisco

E como é para você voltar de vez em quando? Você fez a turnê do livro há algumas semanas e vi fotos suas na City Lights (icônica livraria local, com mais de 70 anos de história), com o Billy (Gould, baixista do Faith No More), o Mike (Bordin, baterista da banda) e outros amigos. Você ainda se sente em casa quando volta a San Francisco?
Raramente, mas naquela noite, com certeza. Havia muitos amigos antigos lá, pessoas que eu conhecia quando morava lá, e realmente pareceu um retorno para casa. É um jeito muito peculiar de visitar um lugar: escrever um livro sobre ele e depois voltar (risos). É algo muito específico. E, sim, foi bem emocionante. Eu não esperava. Eu meio que já tinha seguido em frente, quase nunca vou a San Francisco hoje. E não conheço mais muitas pessoas lá, embora já tenha sido minha vida inteira. Mas, dessa vez, parecia que muitas pessoas que eu não via há anos estavam lá. E foi muito especial.

Você mencionou San Francisco como uma personagem. Você acha que o Faith No More poderia ter surgido em outra cidade? Ou foi um produto direto do ambiente em que vocês viviam?
Essa é realmente uma ótima pergunta. Eu acho que o Faith No More é especificamente San Francisco. Havia um choque de culturas bem particular quando fomos para lá — os hippies que tinham estado antes, e nós chegando depois. Era meio que um conflito constante de referências culturais. Mesmo quando fazíamos coisas sombrias, usávamos drogas e tocávamos música agressiva, alta, irritante e sombria, ainda havia resquícios do lance hippie. Nós achávamos engraçado usar dashikis, queimar incenso, sermos meio hippies. Estávamos meio que tirando sarro deles, mas isso fazia parte do que fazíamos. Estávamos tirando sarro do que veio antes — e isso foi realmente algo central para o que estávamos fazendo.

No livro, você fala de sua amizade com a Lynn (Perko, baterista da cena de San Francisco), com quem mais tarde você formou o Imperial Teen, e também do Gary Floyd, vocalista do Dicks e do Sister Double Happiness que tocou com a Lynn nas duas bandas, como um herói local para você. Você chegou a conhecê-lo pessoalmente? E ele foi, de alguma forma, uma inspiração?
Sim, ele (Gary) foi definitivamente uma inspiração. Eu o conhecia muito bem, ele era um grande amigo, que eu via o tempo todo. Lynn era uma das minhas melhores amigas, e ela tocava com ele no Dicks e depois no Sister Double Happiness. Eu o conhecia muito bem, ele tinha um espírito incrível. Era alguém muito ousado e destemido sobre ser gay. Ele usava vestidos desde muito jovem e não dava a mínima para o que os outros pensavam. Era tão provocador. Ele era fantástico. E tinha uma voz linda. Sim, ele foi muito inspirador.

Em uma entrevista recente para o The Guardian, você falou sobre quando se assumiu gay em uma entrevista para a revista The Advocate, em 1993, e mencionou que tinha ficado meio bravo com outros músicos do rock que ainda não tinham se assumido publicamente na época — como Bob Mould, Michael Stipe e Rob Halford. Você falou com algum deles depois da entrevista?
Não. Eu fico meio nervoso com isso. Você acha que foi maldoso o que eu disse?

Não, acho que foi corajoso. E quando fui pesquisar o assunto, vi que você foi meio que o único a fazer isso naquele momento. E você estava no auge da fama com o Faith No More, logo após seus discos mais famosos. Me parece que foi algo realmente ousado de se fazer.
Sim, foi ousado. Parecia a coisa nobre e certa a fazer. Politicamente fazia muito sentido, e era um gesto à minha comunidade. Uma coisa é falar de pessoas como Freddie Mercury ou Rob Halford — pessoas que eu conheço um pouco, mas não tão bem. Ou o Elton John. Essas pessoas… não sei, elas meio que me irritavam quando eu era jovem, porque eu não tinha ninguém. Não havia heróis para olhar, especialmente na música. E era difícil, era muito difícil. Eu ficava bravo com eles. Eu meio que nunca perdoei o Elton John, por alguma razão – eu realmente não gosto dele. Mas falando do Michael Stipe ou do Bob Mould, os dois são meus amigos (risos). Então me sinto meio mal de falar deles assim. Mas é a verdade. Eles não eram abertos sobre quem eram, e isso parecia algo meio covarde na época, sabe?

Uma coisa interessante que você comenta no livro é que na época do Faith No More havia toneladas de bandas de rock alternativo ou metal com a formação clássica guitarra–baixo–bateria–vocal. Mas vocês tinham o teclado, que ficava ali na frente, como um protagonista – você não tentava esconder seu som nem sua abordagem, e era meio que o coração e a alma da banda. Por isso, queria saber se houve alguma resistência, na banda ou na gravadora, por exemplo, sobre colocar o teclado em destaque?
Acho que não. Essa é uma ótima pergunta. Acho que as pessoas inteligentes percebiam. E conseguiam ver que aquilo era o que nos tornava diferentes. E isso é especial. Mas era difícil, especialmente combinado com o fato de eu não me sentir tão bem por ser gay — já me sentia um pouco deslocado, meio como um impostor num ambiente que não acolhia isso. As bandas daquele tipo, naquela época, não eram realmente abertas a pessoas gays até então. Então eu já lidava com isso, estando em ambientes meio “machões”. E ainda por cima tocando teclado, que é… um instrumento meio ridículo, né (risos)? Ele parece tão bobo no palco. Não é como uma guitarra. Você não pode pular com ele e parecer legal, como com um baixo ou até uma bateria. Com o teclado, você fica preso atrás dele — e é difícil fazer parecer legal (risos). Demorou um tempo — bom, não muito, acho que consegui fazer parecer bem legal no começo — mas foi um desafio. E definitivamente, comparado às bandas com quem tocávamos, eu me destacava muito por tocar teclado. Então eu diria que em um dia ruim eu me sentia humilhado e estranho. E num dia bom, eu me sentia um herói — porque eu era o único fazendo aquilo. Mas eu oscilava muito. Hoje, olhando para trás, penso: sim, aquilo foi incrível. Aquilo era o que realmente tornava o Faith No More diferente — os teclados. E que lugar legal de ocupar, que trabalho legal de ter.

Aliás, você fala no livro como o piano foi uma conexão importante entre você e sua mãe. E menciona que ela depois passou a tocar para detentos na prisão — algo muito bonito de se fazer, inclusive. Você acha que o fato de ter essa conexão especial com sua mãe através do piano influenciou sua relação com o instrumento e com a música?
Acho que sim. É algo muito específico. Não sei, a relação entre um menino e sua mãe já é algo bem carregado e muito particular. Mas era muito especial termos isso, essa conexão pelo fato dos dois tocarem. Ela me encorajava e eu sempre tocava meio que para deixá-la orgulhosa. Quando o Faith No More fez sucesso, foi muito divertido – especialmente para ela, sabendo que tinha sido responsável por começar isso em mim e meio que me ajudado com isso. Então era algo que compartilhávamos: o sucesso do Faith No More também era o sucesso dela. Porque ela trabalhou muito para me fazer uma criança musical. Foi muito especial. E fez tudo parecer mais familiar, mais algo da família.

O Faith no More em 2009, foto compartilhada por Roddy em seu Instagram

Você publicou recentemente algumas fotos suas no Faith No More, acho que eram de 2009, da época da reunião da banda, e disse que era tipo um passeio pelas suas memórias. Você ficou um pouco mais nostálgico por causa do livro? Ou entrou em contato com o pessoal da banda e isso trouxe lembranças?
Bom, como você disse antes, vi o Mike Bordin e o Billy em San Francisco. A gente sempre mantém contato. Mas acho que você tem razão: por causa do livro, tenho pensado muito mais no passado — especialmente nas memórias do Faith No More. E é uma jornada emocional. Muitas emoções vêm à tona. Não tanto quando eu estava escrevendo, mas agora — depois de terminar, e estar falando sobre o livro, como nesta conversa com você, Luiz — é muito emocional. Eu sempre sou puxado para o passado, para os traumas do passado – também para os ápices e os triunfos, mas principalmente os traumas. Estar em uma banda e chegar a um lugar de sucesso é uma jornada muito longa e difícil. Apenas muito, muito difícil. E éramos tão jovens — isso nos desgastou muito. E no fim, quando terminamos, estávamos num ponto em que praticamente nos odiávamos. É muita coisa. Uma jornada insana. Éramos melhores amigos — e depois de tanto trabalho, chegamos ao ponto de enlouquecer uns aos outros. Então, todo o período desde começar a banda — eu e Billy éramos melhores amigos quando éramos adolescentes — até o fim, é um período carregado de muito trauma.

Você menciona que eram muito jovens quando vocês chegaram ao auge, com o “The Real Thing” (1989) e “Angel Dust” (1992). Como foi tocar no Brasil e no Rock in Rio, especificamente em 1991? Imagino que tenha sido o maior show de vocês até então — e a primeira vez na América do Sul — tocando com o Sepultura, Judas Priest, depois Guns N’ Roses, com quem vocês tocaram juntos depois naquela turnê bizarra que você descreve no livro, ao lado do Metallica. Enfim, quais são suas lembranças daquela primeira viagem ao Brasil?
Foi fenomenal. Nunca tínhamos ido ao Brasil, e estávamos acostumados a tocar em uma cidade nova e ter algo como um público de seis pessoas para nos ver. Mas no Rock in Rio: aquele lugar era o maior (estádio) do mundo (Nota: O Maracanã, onde a segunda edição do festival aconteceu, deixou de ser o maior estádio do mundo nas décadas seguintes). E nós tocamos logo antes do Guns N’ Roses. Então não só o estádio estava lotado, como tudo foi transmitido pela TV. Então, da noite para o dia, todo mundo no Brasil todo sabia quem nós éramos. Foi uma loucura. E, além disso, eu amo tanto o Brasil. É meu país favorito. Quando fui, me conectei imediatamente. Eu amei tanto. Acho que ter crescido em Los Angeles, com essa cultura de praia no seu corpo e depois ir para o Rio especificamente e sentir aquela combinação de praia, música, pessoas, foi muito libertador. Foi um lugar muito especial para nós. Criamos uma conexão intensa muito rápido. Em parte, porque ficamos famosos muito rapidamente no Brasil — literalmente da noite para o dia. Mas também porque era psicótico. Totalmente louco. Além das bandas que você mencionou — Sepultura, Judas Priest, mas o mix todo do festival também tinha nomes mais coloridos. O Prince estava lá. Eu conheci o Prince no Rio! O Deee-Lite estava lá. E eu amava o Deee-Lite, eles eram muito importantes para mim, por qualquer motivo. Era um circo musical insano que só reforçava a magia do Rio e do Brasil. Sempre amei o Brasil desde então. Ainda amo muito. É maravilhoso.

No livro, você também fala sobre a diferença entre estar no Faith No More e depois começar o Imperial Teen. Você diz que foi um processo fácil — apontando que eles eram sua família escolhida, Lynn e o resto da banda. Nesse sentido, você sentiu um tipo diferente de realização com discos como “Seasick” (1996) e “On” (2002), alguns anos depois?
Sim, mas honestamente… não fomos uma banda bem-sucedida. Não mesmo. O Imperial Teen não foi uma banda de sucesso. Foi meio que… uma mudança enorme, com certeza — sair do Faith No More e entrar no Imperial Teen. De repente estávamos todos muito unidos, como família, éramos grandes amigos. Eu estava cantando — tinha um microfone e cantava as letras, algo que nunca tinha feito. E estávamos cantando sobre temas bem queer. Era provocador e empolgante. Mas não tivemos sucesso. Olhando hoje, fizemos muito, fizemos coisas primeiro, fomos provocadores… ninguém tinha feito aquilo antes. Era uma banda especial. Mas quando começamos, achávamos que ficaríamos famosos — e não ficamos. No livro eu digo que ganhamos um Grammy, que fizeram estátuas nossas em um parque e que recebemos um prêmio dos gays dos Estados Unidos… Mas inventei tudo isso, estava sendo irônico. Porque existe uma pontinha de raiva em mim por não termos tido mais sucesso. Acho que estávamos um pouco à frente do nosso tempo.

Aliás, vocês trabalharam com o Steven McDonald, do Redd Kross e Melvins, nos primeiros discos do Imperial Teen. Você já o conhecia de LA, quando ele ainda era um adolescente tocando punk/hardcore no Redd Kross, ou o conheceu depois com o Faith No More?
Eu conheci o Steve quando éramos bem jovens — ele devia ter uns 15 ou 16 anos, e eu talvez 19. Sim, eu o conheci em Los Angeles porque eu era um grande fã do Redd Kross. E a Joan também, e a Lynn também — que era do Imperial Teen. Éramos todos amigos deles. E acho que adorávamos o fato de que o Steve tinha começado muito cedo… Ele estava no Redd Kross com o irmão desde os 11 anos. Achávamos isso tão especial e tão encantador. E isso combinava com a ética do Imperial Teen —essa coisa familiar, de irmãos na música, fazia sentido. E também adorávamos que ele nunca tivesse produzido nada antes — isso era um bônus pra gente. Legal.

No livro, você conta que lembra onde estava quando ouviu “Smells Like Teen Spirit” pela primeira vez — atravessando a Bay Bridge de carro em San Francisco. E menciona também o primeiro disco que ouviu — “Bridge Over Troubled Water” (1970), do Simon & Garfunkel. Então queria que você me dissesse três discos que mudaram a sua vida — e por quê eles fizeram isso. Não precisam ser os únicos três, porque isso é impossível —mas três que te transformaram.
Não sei… deixa eu pensar um pouco. Há uma banda, uma das minhas favoritas, chamada Sparks. E eles tinham um disco chamado “Indiscreet” (1975) — o Billy adorava também. Eu, minhas irmãs e meus vizinhos ouvíamos o disco sem parar — ele mudou tudo. Eu o amava profundamente. Também acho que o primeiro disco do Kraftwerk (autointitulado, de 1970). Escutar Kraftwerk e entender o que os teclados podiam fazer, ouvir teclados tão puros, na linha de frente da mixagem — isso mudou minha vida. E o disco “20 Jazz Funk Greats” (1979), do Throbbing Gristle, abriu minha mente para o que o ruído podia ser, e o que arte podia ser dentro da música. Não era só música — era todo o pacote, a apresentação, as personalidades. Era algo que eu nunca tinha visto antes. Isso mudou minha vida.

Sparks, Kraftwerk e Throbbing Gristle

Última pergunta. Você tem uma carreira de mais de 40 anos, com Faith No More, Imperial Teen, Man on Man e outros projetos. Já produziu musicais, fez trilhas sonoras – e teve inclusive músicas suas com o Faith No More que entraram em trilhas sonoras de novelas famosas aqui no Brasil nos anos 1990. Então queria saber: do que você mais se orgulha, nesses quase 50 anos da sua história na música?
Boa pergunta. Acho que para mim sempre é o que fiz por último — e agora estou muito orgulhoso do livro. Porque era algo que eu nunca tinha feito. E exigiu muito de mim — dar esse passo no escuro, digamos. Foi assustador, vulnerável… E enfrentar esse desafio foi muito recompensador. Musicalmente… você está perguntando musicalmente. Não sei — muita coisa. Eu amo muita coisa. Normalmente, amo os primeiros discos de cada banda. Adoro o primeiro disco do Faith No More, porque éramos perigosos, loucos, caóticos. E o primeiro do Imperial Teen: não sabíamos o que estávamos fazendo, gravamos rápido, em uma semana. E também as primeiras músicas que fiz com Joey, meu namorado, no Man on Man. Elas foram feitas durante um período emocional muito intenso: COVID, minha mãe morrendo, a mãe do Joey já tinha morrido…E fizemos “Daddy”, eu amo essa música e a forma como ela nasceu. E tem mais, tem muita coisa. Eu amo o Crickets — a banda que tenho com JD Samson e Michael O’Neill. É um projeto do qual me orgulho demais. Acho que não tenho vergonha de nada, acho que me orgulho de quase tudo que fiz.

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