Crítica: Afrika Gumbe rola sem musgo com “Soro Energizado”, seu terceiro disco

texto de Arthur Dapieve

“E tudo vem da música africana e por isso é tão excitante. Há algo primal nisso no qual todos nos reconhecemos, porque somos todos africanos. Alguns de nós apenas partiram e embranqueceram”, disse Keith Richards. Estava se referindo especificamente ao blues, tão caro aos Rolling Stones, mas a beleza das frases tanto celebra a origem comum quanto expõe uma lacuna intrigante: o rock do qual Richard é senhor ignora a música africana sem escala no Mississippi (ou em Memphis ou em Kingston). Daí o tanto que há para se celebrar em um novo álbum do Afrika Gumbe, “Soro Energizado”.

Afinal, nos próprios Stones, a música africana surge como eventual percussão e olhe lá. Caso de “Sympathy for the Devil”, na qual Richards & Jagger acreditavam emular um rito de umbanda… Nos EUA, pátria do blues, há algo em Talking Heads e Vampire Weekend… Na Inglaterra? Traffic e… No rock do Brasil, houve o multinacional Obina Shok, de Brasília, origem parcial, ainda, dos sincréticos Paralamas do Sucesso… Pois bem. O carioca Afrika Gumbe também se formou naquela década mitológica e seguiu firme, senão na regularidade – já que “Soro Energizado”, que saiu em dezembro de 2025, é somente seu terceiro álbum, sucessor de “Afrika Gumbe” (1989) e “Meu Refrão Inquieto” (2010) – e sim na convicção de que a música do continente que lhe inspira o nome tem muito mais a dizer à maior nação africana fora da África do que por intermédio da percussão.

O Afrika Gumbe se nutre dos riquíssimos ritmos e polirritmos, claro, mas também das melodias e das harmonias d’África. Não seria tão aliciante se não fosse assim. Suas músicas sempre grudaram no ouvido como o melhor pop. Afropop. Afrorock. Afrodélico. Há tanto para ouvir dentro de cada uma das nove faixas de “Soro Energizado” que um recém-convertido irá se surpreender quando perceber que o Afrika Gumbe é um mero trio: Marcelo Lobato (voz, baixo, teclados, marimba, vibrafone, glockenspiel, hurdy gurdy, samples, percussão e bateria), Pedro Leão (baixo e guitarra) e Marcos Lobato (vocais, baixo, guitarra, cavaquinho, banjo e bandolim). Trio acrescido de Zé Nóbrega na guitarra em “Wifi Free”.

“Wifi Free” deve soar familiar: foi lançada como single em 2024, com participação de Lenine (que também em dezembro lançou disco novo, “EITA”). “Vida Rasteja” e “Uma Vida Só” também: ambas apareceram bem antes, noutras versões, claro, em álbuns do O Rappa, grupo que, quando ativo, contava com os talentos dos Lobato Brothers. Atente, portanto, para a faixa de abertura e título, “Soro Energizado”: na levada gostosa, há uma estrofe como “Ardil da serpente/ é deliciar-se com a presa/ Não somente devorá-la/ Desejar é fácil tarefa/ Cortejar é suprema arte” (as letras intrincadas são quase todas de Marcos, aqui também responsável pela pedal steel sutil que faz toda diferença). E preste atenção até a faixa final, “Todas as Bobagens”, de refrão sedutor, sobre as guitarras se costurando: “Todas as bobagens, todas utopias/ Todas as mentiras, as patifarias/ Todas as delícias ainda improváveis/ Toda a malícia da mulher amada.”

Entre uma e outra há, obviamente, muito para se fruir, na variedade bem medida da instrumentação. No entusiasmo das performances. No efeito dramático do poema – recitado por Ivan Santos, compositor paraibano, recém falecido – que encerra “Estação Espacial Lunar”: “No pasto sentado espero/ Meu traço, meu verbo/ Aqui o verde me cerca (…). Nos versos-porrada de Marcelo para “Vida Rasteja”, versos que lembram que a crítica social sempre fez parte da obra do Afrika Gumbe (assim como d’O Rappa): “Resolver tudo do dia pra noite/ Tudo de uma só vez/ Uma vida inteira/ Pegar na arma e mascarar o medo/ Se começar foi fácil/ Difícil vai ser parar.”

Difícil, também, parar de ouvir “Soro Energizado”. O álbum te enreda num universo próprio, façanha dos grandes artistas, que sabem o que querem. Em tempos em que a música se tornou mais etérea do que nunca, impalpável nos serviços de streaming, “Soro Energizado” oferece uma bela capa, um desenho do mesmo Tarso Pizzorno que fizera as capas de “Afrika Gumbe” e de “Meu refrão inquieto”. O triângulo Lobato-Leão-Lobato é, basta ver e escutar, redondinho.

Ouça o disco na integra abaixo

Arthur Dapieve é jornalista, professor e escritor.

One thought on “Crítica: Afrika Gumbe rola sem musgo com “Soro Energizado”, seu terceiro disco

  1. Eu me apaixonei pela Banda , um som que eu nao estava acostumada a ouvir , e amei Muito mais sucesso pra vcs

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