texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas
Eliminadorzinho – Casa Rockambole, 17/10
Dona de um dos discos mais bacanas de 2021, o carismático “Rock Jr.”, a banda paulistana Eliminadorzinho há tempos aprontava seu próximo rebento – a ponto de, nos últimos meses, dar boas prévias ao vivo do que estava preparando em estúdio. Em apresentações anteriores na capital paulista, havia a sensação de que o trio iria trocar a sonoridade noventista do primeiro trabalho por uma aproximação com o hardcore e o midwest emo. Ledo engano: lançado em setembro, o álbum “eternamente,” (2025) traz a banda mais vigorosa e madura que antes, mas mantendo a energia à la Dinosaur Jr. que cativou muita gente na cena. Um mês depois, na Casa Rockambole, a banda teve a chance de mostrar como seu novo disco funciona em palco para uma plateia interessada, que já bateu ponto desde o começo da noite para conferir a apresentação de abertura do carioca Matheus Who – marcada por bom suingue e pela participação especial da curitibana Juia. Quando subiram à ribalta, Gabri Eliott (voz e guitarra), João Pedro Haddad (baixo e vocais) e Tiago Schützer (bateria e vocais) mostraram que não estavam para brincadeira, focando o repertório nas boas canções do disco novo – a começar pela instrumental “Tema Centro da Terra” e o single “A Cidade É Uma Selva”. Na sequência, foi a vez de Nickolas Marchioretto (da banda que leva seu sobrenome) participar cantando “Golpe Baixo” e “Verde” – uma das duas únicas músicas do álbum de estreia a entrarem no repertório da noite, deixando de lado temas como a excelente “Eu Só Preciso de Um Tempo”. Descrito pelo trio como “um disco sobre o amor”, “eternamente,” traz ainda outra boa novidade à Eliminadorzinho: agora, João Pedro divide os vocais com Gabri – o que permite que a guitarrista tenha ainda mais espaço para fazer seus enérgicos solos, bem como para cativar a plateia. Bons pontos dessa energia surgiram em “Viação Andorinha”, na radiofônica “Você Vai Me Escutar” e na bonita “Não Me Deixe no Almoxarifado” e sua citação a “Dear Prudence”, dos Beatles. Já nos finalmentes, o show teve ainda três grandes momentos: a roda punk em “Pompeia”, um momento pop em “Chap Chap Chuap Pop” e, para encerrar, a baladinha “Você Me Deixa Coisado”, cuja lírica vai muito além do que o título deixaria entrever. Uma bela apresentação de uma banda que não só pode como deve ocupar seus fones de ouvidos – se não eternamente, pelo menos nos próximos meses.
Selton – Sesc Avenida Paulista – 25/10
Depois de passar oito anos longe do Brasil, sem passar por aqui entre 2016 e 2024, a ítalo-gaúcha Selton não demorou muito para voltar para casa. Após uma bem-sucedida excursão na temporada passada, com direito a um concerto lotado no Sesc Pompeia e uma pequena aventura na Sala São Paulo, o grupo – Daniel Plentz (bateria e guitarra), Ramiro Levy (guitarra e violão) e Dudu Stein (baixo) – retornou à capital paulista com o recém-lançado “Gringo vol.2” (2025). Vieram também a tiracolo os reforços luxuosos de Juliette Ant (bateria), Lamo (teclado e backing vocals) e do produtor Riccardo Damian (guitarra e violão) – este último, responsável não só pelos dois discos mais recentes do grupo, como também por levar os rapazes que tocavam Beatles no Parc Guell a gravar no estúdio 2 de Abbey Road. (Se você nunca ouviu essa história antes, vale a leitura). Mais do que apenas dar corpo ao som da Selton, os acompanhantes ajudaram o trio a ficar ainda mais confortável para transformar o 13º andar do Sesc Avenida Paulista em salão de baile, num repertório que privilegiou o primeiro “Gringo” (da capa verde), com sete das 20 canções apresentadas – incluindo as excelentes “Café pra Dois”, “Calma Cara”, “Mezzo Mezzo” e o outtake “Smoking Too Much”. É compreensível: além de novo, o segundo álbum (de capa rosa, num abraço para Cartola) tem um repertório ainda mais global que o primeiro, com predominância do italiano e do espanhol sobre o português. É o caso de “Panda 2013”, versão de “Ouro de Tolo” no vernáculo do país da Bota, que, em São Paulo, recebeu a participação emocionada de Hélio Flanders. O que surgiu do álbum novo, porém, foi muito bom: a safada “Fica Aqui” trouxe toda a malícia de Ramiro, enquanto “Tropicaliente” apareceu num bonito medley com “Estate”, hino de Bruno Martino imortalizado por João Gilberto, aqui com Dudu e Daniel ao pandeiro. Os fãs da “Selton das antigas” também não puderam reclamar, com deliciosas versões de “Voglia di infinito” e “Qui Nem Giló” fazendo a cama para Daniel botar primos e primas para dançar com o já clássico fuzuê de “Pasolini”. No bis, teve ainda tempo para uma dobradinha de “Saudade”, lá de 2013 – “Piccola Sbronza” e “Eu Nasci No Meio de Um Monte de Gente” –, antes do fim com “Tupi Or Not Tupi”. Foram apenas 80 minutos, mas essa mistura de cannoli com banana poderia ter durado a noite inteira tamanha a empolgação de um dos shows mais animados e divertidos do ano. “Balla, cugina!”
Molho Negro & Jair Naves – Festival 5 Bandas, Casa Rockambole – 25/10
O dia 25 de outubro foi movimentado na agenda dos melômanos paulistanos. Na Avenida Paulista havia a Selton. Na Barra Funda, a Heineken brincava de cabra-cega com 3 mil espectadores em seu festival anunciado em cima da hora, o NoLineup Festival. Enquanto isso, do outro lado da cidade, o aguerrido 5 Bandas, organizado pelo site Minuto Indie, realizava mais uma edição na Casa Rockambole – ali na linha limítrofe entre Pinheiros e Vila Madalena. Quem abriu o dia foram as bandas Life Aquatic, do ABC Paulista, e Jambu, de Manaus, seguida pela sensação Jadsa e seu “big buraco”. Depois de conferir a apresentação dos ítalo-gaúchos na Paulista (acima), a reportagem do Scream & Yell só chegou ao local a tempo de ver os curitibanos do terraplana fazerem mais uma boa exibição na turnê do disco “natural” – em palco, Stephani Heuczuk e seus companheiros estão cada vez mais seguros, colocando o ruído frente ao carisma e criando camadas interessantíssimas em canções como “desaparecendo”, “charlie” e “airbag”. Ainda prestes a lançar o novo trabalho “VIDAMORTECONTEÚDO” (esmiuçado em entrevista ao Scream & Yell), o trio paraense Molho Negro teve a responsabilidade de fechar a noite ao lado do cantor Jair Naves, repetindo uma dobradinha executada no festival Se Rasgum em 2024 – mas nunca apresentada na capital paulista, onde o grupo liderado pelo guitarrista João Lemos está radicado há alguns anos. Apresentado apenas por João e seus colegas Raony Pinheiro (baixo) e Antonio Fermentão (bateria), o começo do show foi intenso, com rodas punk se abrindo para petardos já conhecidos (“Gente Chata”) e novas canções (o single “Ficar Morto Vende”). A chegada de Jair, que neste momento trabalha na produção de dois discos diferentes (e tinha feito, poucas horas antes, um show com a Ludovic em outra casa), fez o grupo virar o manche para o repertório do paulistano, alternando canções do Ludovic (“Vane Vane Vane”, “Janeiro Continua Sendo…”, “Desova”) e da carreira solo (“Pronto Pra Morrer”, “Nasce Um Saqueador, Morre Um Apaziguador”), trazendo uma novidade ao que havia sido exibido em Belém. Ao final, teve mais mosh se abrindo para outra nova, “Outras Pessoas Pensam”, além dos hits “Rui Barbosa” e “23”. Ainda não foi dessa vez que vimos Jair Naves cantando que “tudo começou quando eu conheci o DJ Cremoso”, mas foi uma bela noite para mostrar o poder de uma das bandas mais bacanas do rock brasileiro dos últimos quinze anos – e o tamanho de um intérprete e compositor como Jair para as gerações que o sucederam. Treme, treme, treme, treme, treme.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.



Sobre o encontro Molho Negro e Jair Neves: já tinha rolado esse encontro ano passado no Centro da Terra (em Novembro), não ? Fui conferir no site do Matias e a resenha está lá.