Crítica: Preciso em sua análise do Brasil, “O Agente Secreto” é um louvor à memória desse país e ao seu Nordeste

texto de João Paulo Barreto

“Pra te proteger do Brasil.” Assim, a personagem com codinome Elza, vivida com altivez por Maria Fernanda Cândido, justifica as ações que o grupo liderado por ela promove para resguardar e proteger pessoas perseguidas durante o período ditatorial. A definição é apresentada a Armando, também conhecido por Marcelo (personagem atormentado de Wagner Moura), durante uma reunião feita na sala de projeção do Cine São Luiz, na Recife de 1977. Marcelo é um pesquisador acadêmico que volta ao seu Pernambuco natal após um período trabalhando no sudeste. Sua temporada em terras sudestinas, no entanto, trouxe uma ameaça à vida do cientista, após uma patente de pesquisa registrada por ele despertar a gana de um industriário ítalo-brasileiro. De volta ao nordeste, precisa viver escondido e sob um pseudônimo.

A frase de Elza que abre esse texto entrega uma definição apropriada para as ações que enquadram o país que, naquele 1977, vivia já há mais de uma década sob o julgo de uma nefasta ditadura militar. Na história de Kleber Mendonça Filho, porém, o Brasil vilanesco, negativo e infiltrado não é a única face a qual somos apresentados. Apesar dessa presença pesada e assombrada fazer valer seu agouro, cuja representação fantasma e oficial (sendo, claro, a do próprio agente secreto do título) surja, como bem observou o amigo e crítico Robledo Milani em um papo de bar sobre o filme, sempre em apropriados zooms dos retratos do presidente militar Ernesto Geisel a cada momento que um prédio público serve de cenário à trama, o Brasil trazido por “O Agente Secreto” (2025) é mais do que isso. Ele também possui alegria, possui música, possui sorrisos que ainda teimam, só de pirraça, existir.

Mendonça, em seu roteiro, deixa isso evidente desde as imagens iniciais, quando o preto e branco de fotos de vários ícones de nossa cultura abrem um filme que se passa em uma época “cheia de pirraça”, como bem define o letreiro de abertura do longa. Do mesmo modo, o carnaval em Recife, às portas do Cine São Luiz, suavizam esse peso nas costas e mente de Armando, que consegue sorrir mesmo ciente dessa sombra a lhe ameaçar e mesmo que a festa popular contabilize mais de 100 mortos como registra um jornal à época. A marca da escrita de Kleber, roteirista consciente da função de seu cinema e consolidado em tais reflexões sociais acerca de seu país em obras como “O Som ao Redor” (2012), “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019), se faz presente de forma ainda mais contundente em “O Agente Secreto”. Aqui, ele oferece para seu espectador uma análise crítica profunda desse Brasil cujas divisas de suas regiões muitos enxerguem como barreiras separatistas.

Mais uma vez, esse preconceito em relação ao nordeste é denunciado pelo diretor em uma crítica voraz, tendo a imbecilidade agressiva de personagens destacada a partir de um racismo e xenofobia velados que, ao mesmo tempo, e por conta de suas confortáveis posições de poder corrupto, surgem de maneira evidente e violenta. A cena em que o citado industriário ítalo-brasileiro busca diminuir todo um setor acadêmico de pesquisa por conta de ser composto por pessoas do nordeste é de uma brutalidade absurda de tão dolorosa. Da mesma maneira, é válido observar, também, como tais atitudes humilhantes surgem entre personagens em posições sociais menores, mas iguais em suas agressividades, como quando o assassino vindo do sudeste (Gabriel Leone, cuja face jovial denota ainda mais a monstruosidade de seu personagem) humilha um outro assassino, mas pernambucano, que ele busca contratar para finalizar um serviço. A ideia de bicho comendo bicho fica clara.

Alvo desses assassinos, Armando/Marcelo tem na expressão de crescente desespero trazida por Wagner Moura uma desconstrução mental do seu personagem diante da concreta possibilidade da própria morte. A angústia é constante e a maneira como a direção de Kleber Mendonça constrói essa tensão de seu protagonista tem, ao menos, o citado momento de descompressão no carnaval em frente ao Cine São Luiz. No entanto, o sufocamento não dá trégua e as horas de trevas avançam na vida do homem. Convém citar aqui o momento quando um cadáver largado ao relento em frente a um posto de gasolina que surge na abertura do filme, bem como uma folclórica fantasia carnavalesca, ganham, em uma cena de puro terror, outro significado na mente e no sono do atormentado cientista, corroborando, assim, uma veia do filme para um bem vindo cinema de gênero.

“O Agente Secreto”, em sua evolução narrativa, vai trazendo essa sensação de sufocamento para seu espectador, homenageando, assim, os pilares do cinema que naquele 1977 estavam sendo exibidas no famoso cinema de rua de Recife. Criando uma angustiante atmosfera semelhante às de “A Profecia” e “Tubarão”, filmes em cartaz na época, o roteiro de Mendonça brinca com esse imaginário popular ao dramatizar uma das crônicas de um jornal da época, que cria uma história envolvendo uma perna encontrada dentro de um tubarão capturado no Recife. A história real por trás de tal membro, claro, entrega a violência que acompanha aqueles dias de folia, quando uma polícia corrupta dita as regras e ainda tem seus representantes exigindo o título de “doutor”, criando uma paralelo com o mesmo personagem sulista que, de origem italiana, diminui nordestinos por se achar superior, mas não passa de um crápula lambe botas e assassino.

Em sua análise de personagens, Kleber Mendonça Filho cria uma sagaz e irônica crítica a essas figuras que têm na violência uma espécie de idolatria cega e medida para uma suposta macheza. Nessa ignorância, demonstram admiração por qualquer coisa que venha de fora, incluindo a figura de um alemão que acham que foi um soldado nazista na Segunda Guerra Mundial, mas trata-se de um judeu vitimado fisicamente pela violência do regime imposto por Hitler. Udo Kier, em mais uma parceria prolífica com o diretor de “Bacurau”, brilha neste momento.

Mas não é só o agouro da morte e a sua tragicidade que move o filme. Dentro daquela fuga constante, seus personagens encontram no Edifício Ofir e em sua anfitriã, Dona Sebastiana (vivida com doçura e vigor por Tânia Maria), um porto quase seguro para quem vive como refugiado dentro do seu próprio país naqueles malditos anos de chumbo. Em uma reunião de pessoas em busca de um norte, as palavras de Dona Sebastiana parecem servir, ao menos temporariamente, como um refúgio e como um sinal de esperança para aquelas vidas.

Quando “O Agente Secreto’ corta para a nossa época atual, criando seus flashbacks a partir de fitas cassetes ouvidas em uma pesquisa feita por acadêmicos nos dias de hoje e que trazem as vozes de Armando, Elza e de outros que ajudaram a criar aquela teia de pessoas que precisavam ser protegidas pelo Brasil, o filme parece querer ecoar a esperança daquele lugar administrado por Dona Sebastiana, naquele carnaval de 1977.

Além disso, parece querer mostrar como essa memória do país precisa ser preservada, estudada e utilizada como forma de denúncia. O passado se perde facilmente, sendo enterrado por mãos obscuras e corruptas, que o manipulam e o tornam mentiroso para a posteridade. E é com dureza que percebemos isso ao final, quando uma página de jornal impresso e uma legenda mentirosa nos mostra um desfecho trágico.

Neste seu novo filme, o diretor de “Retratos Fantasmas‘ (2023) nos mostra como a memória verdadeira, sem manipulações, requer constante atenção e proteção. Bravo!

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– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

9 thoughts on “Crítica: Preciso em sua análise do Brasil, “O Agente Secreto” é um louvor à memória desse país e ao seu Nordeste

  1. Em 1889 ,os Coronéis em retaliação à Lei Áurea, ajudaram a dar o golpe e assim ,a revelia nascia a república das bananas,uma cultura podre,onde a pátria seguer tem um lugar,até os anos de 1960 foram a farra presidencial,em 1961 Jânio condecora Chê, seu vice vai fazer lobby na China, os militares assumem, os comunistas com ajuda de artistas invadem a UNE e proclamam a guerra contra o governo, ai Figueiredo aceita a formação do PT, um partido unido com a guerrilha armada,roubo de bancos e sequestros, Lula direciona as indicações para todas as instituições, Forças Armadas,STJ,STE,Policia Federal,Senado ,congresso, banco do Brasil,Petrobras e ministérios, e hoje vivemos num caos ,e a toda hora se culpa a ditadura ou o governo passado,a hipocrisia reina.

    1. Tentar reconstruir a história, como vc está pretendendo fazer com mentiras e meias verdades, não vai mudar os fatos horríveis perpetrados pela ditadura iniciada em 1964.
      Só idiotas descerebrados e canalhas ultra reacionários acreditam nessas lorotas de neonazifascistas, como você!

  2. Muito bom o
    Filme como toda a obra de Kleber Mendonça Filho. Mas, entendi q o personagem Armando havia estudado no exterior. Nao concordo com esta oposiçao nordeste versus sudeste. Venho trabalhando com um sudeste profundo com baixo IDH e situacoes de extrema violencia e precariedade. O personagem q representa o funcionario da Eletrobras representa uma parcela corrupta das
    Estatais no Brasil durante a ditadura militar, em
    Especial durante o Governo geisel, funcionarios q criavam esquemas para enriquecimentos ilícitos. Isto nada tem a ver com uma divisao entre sudeste e nordeste. Precisamos sair destas oposiçoes e analisar a complexidade dos esquemas de
    Enriquecimento ilícito durante a ditadura militar. Parabens Kleber! Parabens Wagner Moura e todo este incrível elenco! Vcs nos representam!

  3. Na hora de tirar um 10, o filme peca em não mostrar o fim do Marcelo/Armando. Faltou dinheiro para filmar o final????

  4. HISTÓRIA, MEMÓRIA, JUSTIÇA E REPARAÇÃO.
    “O AGENTE SECRETO” , recorte genial do Kleber estrelado por esta equipe de atores maravilhosos liderado por Wagner Moura ambientado no histórico Recife, de um Brasil sombriu, canalha, torturador, assassino, terrorista, retrógrado, ditatorial da Ditadura Civil Militar de 1964 , dos Doi-Codis , DOPS e Esquadrão da Morte instituídos em todo país, revelado e memorizado no notável filme escrito e dirigido por Kleber.
    Estado Democrático de Direito e Ditadura Nunca Mais, penso que é a linda mensagem do ” O Agente Secreto”
    Obrigado.

  5. Filme de uma abordagem maravilhosa desse tema onde o autor, une roteiro fotografia, sonoplastia, e mensagem deixando os telespectadores com a capacidade de se transporta para aquela época sem perder a nostalgia e a memória da época. Parabéns Kleber Mendonça, mais uma obra prima.

  6. Não é filme postar Oscar e nosso amado Wagner moura não teve uma atuação para concorrer a estatueta; o filme vai morno até os 50 últimos minutos onde a coisa se desenrola e no finalzinho nos apresenta um fim bobo, com apenas um destaque de jornal da morte da personagem Armando. Vai ter sequência? As primeiras uma hora e 50 minutos de filme ficamos na expectativa de alguma coisa que não veio. Nem a Maria Cândido e nem a sua personagem tiveram essa altivez destacada aqui na reportagem. Não há perseguição entre o Nordeste e Sudeste ou mesmo concorrência quando o assunto é usar o mecanismo estatal para obter lucros privados. Eles fazem isso em qualquer região do país. O filme mostrou o que a ditadura é capaz se retornar, mostrou como o privado ainda enfia a mão nos entes federativos para benefício próprio e fazem isso com a mesma ardilosidade. Mas isso é coisa que todos nós já sabemos. Enfim, Ainda bem que paguei barato em uma sessão de cinema pois se tivesse pagado caro eu teria saído da sala, além de frustrado, muito bravo. De qualquer forma, muito parabéns ao cinema brasileiro

  7. Excelente filme. Relatou com muita precisão o que vivenciamos na época. Não podemos esquecer jamais! E devemos cuidar para não repetir, repetir de forma diferente, mas repetir.

  8. Realmente foi uma decepção esse filme, tem muitas trechos deixados sem conclusão.
    Me pareceu um filme médio, sem gabarito para ser lançado no exterior .
    Não merece Oscar.

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