Entrevista – Molho Negro lança disco pela Deck e João Lemos avisa: “Vamos continuar nessa de fazer o que bem entender”

entrevista de Bruno Lisboa

Formada por João Lemos (vocal e guitarra) e Raony Pinheiros (baixo) em Belém, Pará, em 2012, e hoje, fixados em São Paulo e com Antonio Fermentão na bateria,  a Molho Negro acaba de lançar seu quinto álbum, “VIDAMORTECONTEÚDO“, o primeiro pela gravadora Deck. O novo disco surge como um reflexo das experiências e transformações vividas pela banda ao longo de mais de 10 anos de estrada, mas também traz inovações que apontam para novos horizontes. “Estou sempre testando os limites do que a gente consegue fazer”,  avisa João Lemos, em conversa por e-mail.

Liricamente, as novas composições trazem como pano de fundo o cotidiano marcado pela hiper conectividade, o excesso de telas e a precarização do trabalho: “Todo o disco foi feito sob a luz das telas constantemente cobrando produtividade, atenção, urgência. É um alarme tocando o tempo todo o dia inteiro”, comenta Lemos. “Acho que como sociedade a gente ainda está, aos poucos, descobrindo como silenciar isso. Particularmente como artista da era moderna, estamos num dos elos mais vulneráveis dessa escravidão”,  reflete.

Com produção de Gabriel Zander (parceiro de longa data do grupo), a sonoridade de “VIDAMORTECONTEÚDO” se mantém fiel à essência do trio, mas com caminho aberto para experimentações percebidas em faixas como em “Bombas e Refrigerantes”, que incorpora elementos eletrônicos e samples. Na conversa abaixo, João Lemos fala sobre a entrada recente de Fermentão, as orientações dadas por Rafael Ramos antes da gravação, a influência da cidade de São Paulo no fazer artístico do grupo, os males de se viver num mundo hiper conectado e mais. Leia abaixo.

Ouça o disco na integra abaixo

A Molho Negro chega ao quinto disco com uma trajetória já bem consolidada no rock independente. O que esse novo trabalho representa para vocês dentro dessa caminhada de mais de uma década?
Honestamente pra mim é sempre a mesma coisa tudo de novo. Existe sempre uma animação/suspeita/ansiedade em relação a como essa obra vai ser recebida no mundo, não exatamente relacionada aos resultados, as métricas (que hoje tanto se busca), mas você está ali falando as coisas com um megafone, né? Alguém vai ouvir, alguém vai interpretar etc. Isso acho que nunca vai mudar

Esse é o primeiro disco com o baterista Antônio Fermentão. Como a entrada dele influenciou o som e a dinâmica criativa da banda?
Quando a gente precisou ir atrás de um novo integrante me bateu um certo pânico. Tudo na banda sempre foi dentro de um círculo social bem fechado, pouco feat, pouca galera ao redor num geral, mas a gente (deu) um baita golpe de sorte de conseguir o combo perfeito de um nerdola que toca muito bem, como poucos. Então tudo pareceu bastante natural, a entrada dele na banda, e ouvindo o disco que fizemos juntos parece tudo no lugar, como deveria ser

“VIDAMORTECONTEÚDO” foi um disco que foi feito com mais calma, num processo diferente dos anteriores. De que forma essa desaceleração impactou o resultado das músicas?
Eu tive mais tempo de voltar nas composições, mexer, mudar e mexer de novo. Quando a gente entrou no estúdio pra gravar eu tinha quase o dobro de músicas pra escolher do que o de costume, isso foi uma coisa nova em relação aos discos anteriores.

Isso surgiu do Rafael Ramos, da Deck, certo? Ele sugeriu que vocês compusessem mais músicas para depois escolher as que entrariam no disco. Como foi lidar com esse tipo de direcionamento externo e o que mudou na forma de vocês pensarem o repertório?
Passada uma certa resistência inicial da minha parte foi ótimo na verdade. Como eu falei, a gente acabou tendo quase o dobro de material pra sentar, ouvir, escolher, editar etc. Já que eu me dei e tomei tanto tempo pra fazer esse álbum é ótimo no final de tudo ter escolhas.

O título do disco — “VIDAMORTECONTEÚDO” — parece sintetizar o nosso tempo, marcado por excesso de estímulos, trabalho precarizado e ansiedade digital. Como esse contexto contemporâneo atravessou as composições?
Eu acho que tem sim dentro de um verso ou outro alguma denúncia mais explicita desse desconforto, mas acho que todo o disco foi feito nessa aura, sob a luz das telas constantemente cobrando produtividade, atenção, urgência. É um alarme tocando o tempo todo o dia inteiro. E eu acho que como sociedade a gente ainda está, aos poucos, descobrindo como silenciar isso. Particularmente como artista da era moderna, estamos num dos elos mais vulneráveis dessa escravidão.

O single “Ficar Morto Vende” tem o tema a paralisia do sono que aparece como uma metáfora potente. Como foi transformar essa experiência em uma canção e o quanto há de autobiográfico ali?
Essa música pra mim tem essa coisa do “alarme” que eu falei, é ansiedade pura embalada por um riff de guitarra. E pô, as vezes eu acho que isso infelizmente acaba me definindo. Riffs e ansiedade (risos).

A Molho Negro sempre transitou entre ironia, sarcasmo e uma sinceridade crua nas letras. Como equilibrar humor e crítica sem cair em fórmulas ou repetições?
Eu acho que eu nunca intencionalmente quis fazer uma piada dentro de alguma música da banda. Eu tenho até um certo horror a isso. Eu basicamente tento ser o mais brutalmente honesto que eu consigo e torcer pelo melhor. Talvez isso ajude a fugir da fórmula, porque provavelmente se eu sentir o cheiro de malicia no que eu tô fazendo, se eu sentir que eu tô usando uma fórmula repetida, que eu tô tentando fazer algo pra atingir um determinado resultado, eu travo. Se eu me sentir desonesto em relação aos meus propósitos eu definitivamente travo.

O disco foi novamente produzido pelo Gabriel Zander, com quem vocês já têm uma relação antiga. O que faz dessa parceria algo que ainda rende artisticamente?
O Gabriel foi uma das primeiras pessoas que sem ser um integrante da banda, virou pra mim e explicou o que ele achava da banda. O que ele achava que a banda tinha de peculiar etc. E quando ele disse isso basicamente ele tinha a mesma definição que eu, nesse momento eu saquei que eu tinha como confiar, ele ia entender o que a gente estava buscando. E o melhor de tudo é que ele tem as ferramentas pra nos ajudar a soar assim. É um elemento muito precioso pra mim.

Voltando a falar de algumas faixas, em “Bombas e Refrigerantes” e “Claustrofobia” vocês trazem elementos eletrônicos e uma massa sonora mais densa. Esses experimentos apontam um novo caminho estético para a banda?
Estou sempre testando os limites do que a gente consegue fazer. Na ingenuidade mesmo. E quando o Antônio apareceu com uma SPD-S, um portal quase ilimitado foi aberto (risos), mas acho que a gente vai encontrar a nossa forma de aplicar com uma certa parcimônia.”Bombas” é um teste com isso, e eu tenho achado superdivertida de tocar.

Vocês migraram de Belém para São Paulo há alguns anos. De que maneira essa mudança de cidade, de cena e de cotidiano impactou o som e o discurso da Molho Negro?
Eu acho que naturalmente cenários e problemas novos começaram a aparecer nas músicas. Eu não tenho a pretensão de ser o cara que define os lugares por onde passa através das músicas que faz, mas ainda naquele contexto da brutal honestidade. É natural que aos poucos comecem a aparecer esses indícios, porque a gente acaba falando sobre o que nos cerca e São Paulo me provoca assim como Belém já fez, e as vezes ainda faz… talvez vá fazer pra sempre.

O disco fala muito sobre viver num mundo hiper conectado. Como vocês lidam pessoalmente com essa relação com as redes, especialmente sendo artistas que dependem da internet para circular?
A linha do que é arte e o que é conteúdo foi totalmente bagunçada na realidade que a gente vive hoje. E se a gente não conseguir entender os próprios limites e saber quando se desligar dessa dopamina barata do feed, a doença só vai se agravar mais e mais. Eu vivo o processo de aceitar e respeitar que o meu tempo precisa ser respeitado e se eu perder tração em algum momento. Por isso, se eu perder o “timing”, ainda acho que é melhor do que perder a sanidade. Eu me esforço em fazer música real o suficiente pra mim, pra que com alguma sorte pessoas se conectem genuinamente e daí em diante já não é mais minha responsabilidade. Se eu entrar na corrida de atenção de perseguir o que plataforma x ou rede y tá impulsionando no momento, eu perco a vontade de fazer o corre da música. Eu prefiro ir andar de skate, prefiro ficar com a minha família, meus amigos, tem inúmeras coisas mais valiosas do que isso.

A Molho Negro é conhecida por refrões diretos e melodias marcantes. Quando vocês começam uma música, pensam mais na energia do show ou no que ela comunica enquanto canção?
Pergunta complexa, porque eu tenho uma certa dificuldade de visualizar como seria essa pessoa ouvindo minha música e tal. Mas, sem dúvida, é legal quando você faz algo e consegue sentir aquela energia de “essa aqui talvez consiga ir do fone de ouvido sozinho no caminho do trabalho, pro grito coletivo no show junto com a banda”.

Olhando para trás, de “Molho Negro” (2012) até “VIDAMORTECONTEÚDO” (2025), o que vocês acham que mais mudou na forma da banda compor e se entender artisticamente?
Acho que aos poucos o verniz da piada foi esmaecendo e isso trouxe pra banda um drama diferente. Dói se entender, mas vale a pena. Eu gosto muito quando o Frusciante canta “you don’t throw your life away going inside” (da faixa “Going Inside”) porque eu me sinto exatamente assim.

O rock brasileiro contemporâneo tem se mostrado diverso e fragmentado. Como vocês enxergam o espaço que a Molho Negro ocupa hoje dentro dessa cena?
Eu brinco com o Gabriel Zander que nós somos a galera sem galera. Por um lado é uma maravilha, a gente consegue transitar a ponto de fazer um show com o Krisiun, com o Terraplana e até com os Mutantes, mas por outro nós não desfrutamos de algumas vantagens que se tem de fazer esteticamente parte de uma “cena”. Sempre foi assim e acho que a essa altura do campeonato eu já me habituei a isso. A gente vai continuar nessa de fazer o que bem entender.

Por fim, como compositor qual foi a última música — de qualquer artista — que fez vocês pensarem: “era isso que eu queria ter escrito”?
Nossa isso acontece direto, mas a última que isso me bateu forte acho que foi “Veneno” do Kiko Dinucci e do Rodrigo Ogi, um violão, um flow excelente e uma ótima história, impecável.

 Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 

3 thoughts on “Entrevista – Molho Negro lança disco pela Deck e João Lemos avisa: “Vamos continuar nessa de fazer o que bem entender”

  1. João parece ter perdido uns quilos (eu só ganhei). Se ainda tivesse a “treta” já não seria mais atacante “banheira”. Boa sorte, cumpadi.

  2. Mais um ótimo disco na carreira do Molho. E esse é sim, bem diferente dos outros, mas continua tão bom quanto. O Molho é daquelas bandas que não lançam discos ruins. Impressionante.

  3. O Albim tá muito e com muita cara que vai render uns shows cheios de gritaria da galera. Logo logo o Molho vai ter que aceitar que tem uma galera sim.

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