texto de Marcelo Costa
fotos de Fernando Yokota
2025 foi o ano em que a Arena Ibirapuera se consolidou como um espaço viável de grandes shows em São Paulo. Do C6 Fest, que já vinha ocupando o local desde 2023, ao Popload Festival, que soube utilizar o espaço de forma irrepreensível ao montar um pequeno segundo palco bastante funcional, passando pelo Festival Best of Blues & Rock e, ainda, shows solo como o de Sting (dos raros eventos com confusão na entrada), um dos parques mais amados da capital paulista se tornou, também, a casa da música para o público da cidade. E o festival da label Índigo, encabeçado pelo Weezer na Arena, surgiu como prova ao abrigar o evento em um dia de (pouca) chuva, (alguma) lama e promessas não cumpridas de tempestade.

Se a adequação do local ao tempo chuvoso, com placas de plástico nas áreas de maior concentração de público, foi um acerto, a falta de alternativas para o público descansar nos intervalos da maratona (que começou às 13h e acabou próximo das 22h) é um ponto a ser revisto. Porém, o real grande vilão do Índigo Festival foi o som, que começou bastante baixo já na primeira atração, das japonesas do Otoboke Beaver, soou quase como um sussuro frustrante no set do Mogwai e chegou confuso em parte da grande atração do dia, o Weezer – vale lembrar que a 30e, dona do selo Índigo, também foi responsável pelas turnês de Titãs e de Gilberto Gil, dois exemplos de som impecável em espaço aberto no cenário recente.

Seria cômico se não fosse triste: se os shows sofriam com o som baixo (vez ou outra, uma das quatro fileiras de caixas de som apagava do nada), na entrada dos Djs o som era elevado de tal forma – e muito mais alto que os shows – que o símbolo de interrogação na face de diversas pessoas era visível, como se alguém estivesse aplicando uma peça no público. Esse vacilo não impediu que a plateia pudesse perceber a qualidade dos artistas sobre o palco, mas era nítido que algo não estava funcionando direito – e não era a previsão do tempo que, felizmente, errou – e que o impacto de cada um shows fosse diminuído, como se cada artista estivesse entregando apenas 60%, quando muito 70% de seu potencial ao vivo.

Perfeitamente adaptadas a cidade após um show solo consagrador no Cine Joia dois dias antes, as japonesas do Otoboke Beaver foram escaladas para abrir o evento em meio a uma leve garoa, e honraram a tarefa de aquecer um público que temia pelo pior: segundo a previsão do tempo, uma tempestade desabaria durante o show do Bloc Party, mais à frente, mas nada de chorar sob a capa de chuva molhada, afinal, a guitarrista Yoyoyoshie estava se divertindo com o público parecendo Pikmin. Comandadas por ela, elétrica e impagável, suas parceiras de Otoboke Beaver mostraram que são muito mais do que hardcore como tentam resumir uns e outros. Talvez trilha sonora de videogame fosse mais acertado, mas elas vão além disso.

A sensação, em diversos momentos do show do Otoboke Beaver, é que elas pegam um pouco do Guitar Wolf, um tanto do Shonen Knife (Emi Morimoto, que está cobrindo a vaga de Kahokiss, é ex-baterista de uma das bandas favoritas de Kurt Cobain, que toca em São Paulo em dezembro), aplicam pitadas de Pizzicato Five e acrescentam um tempero próprio hardcore à mistura, empolgante e divertida. O show, mesmo com som baixo (perdão pela insistência) foi um ótimo cartão de visitas, com diversas pequenas pérolas popcore de “ITEKOMA HITS” (2019) e “SUPER CHAMPOM” (2022) como “First-Class Side-Guy”, “PARDON?”, “Datsu . Hikage no onna”, “I don’t want to die alone” e “Don’t light my fire”, entre tantas. Showzão.

Na sequência, e completamente deslocada do viés rock da programação do dia, a espanhola Judeline entrou em cena para testar a paciência dos Pikmin do Ibirapuera. Misturando inglês e espanhol, muitas vezes na mesma frase, ela tenta cativar quem estava esperando Mogwai com um pop trap que já foi elogiado por outros famosos do estilo, mas que aqui não significa grandes coisas. Ela tenta quebrar o gelo dizendo que Gal Costa é uma de suas artistas favoritas, chama a mineira MC Morena para um feat, canta um cover de Shakira que passou batido e faz joguinho de cena com um dançarino escravo sexual que mira as câmeras tão bem que demostra que eles estudaram diretinho as aulas dos shows de Rosalía, mas tudo que recebe de volta é bocejo. Zzzzzzzzzz.

Em sua quarta passagem pelo país, os escoceses do Mogwai tinham apenas 50 minutos para condensar os destaques dos dois álbuns lançados após o show de 2018 – “As the Love Continues” (2021), que foi número 1 na parada inglesa, e o novíssimo “The Bad Fire” (2025) – e, quem sabe, colocar alguma pérola para os fãs mais antigos (sorry, guys, mas “My Father My King”, sozinha, tomaria metade do tempo destinado a eles para o show TODO). “God Gets You Back” e “Hi Chaos”, as duas faixas que abrem o disco lançado em 2025, abriram também o set no Ibirapuera conduzidas por teclados de tom oitentista (e dark). A segunda, porém, com momentos de trovoadas guitarristicas no álbum, antecipou logo nos primeiros minutos do show que um componente estratégico no som do Mogwai não estaria presente nesse festival: o caos. Afinal, se há uma banda no mundo que necessita de VOLUME, essa banda é o Mogwai, e o som de caixinha de bailarinha que saia pelos alto-falantes não esteve a altura do grupo.

Isso quer dizer que o show do Mogwai foi ruim? De maneira alguma. E ainda que relatos deem conta de conversas paralelas na pista comum suplantarem o som das guitarras que saia pelas caixas, na pista vip o silêncio reinava de maneira impressionante e até inesperada, permitindo que tanto o voo rasante de um pássaro, o som de um avião levantando voo em Congonhas ou mesmo o trânsito na avenida paralela ao Auditório se conectassem de certa forma com “How to Be a Werewolf” (de um dos melhores títulos de disco da história: “Hardcore Will Never Die, but You Will”, de 2011) e o hino “Mogwai Fear Satan” (do clássico de primeira hora “Young Team”, de 1997). “Fanzine Made of Flesh” e “Lion Rumpus”, mais duas do ótimo “The Bad Fire”, trouxeram a atmosfera dark de volta ao parque promovendo um pequeno milagre: as nuvens, antes densas, se dissiparam completamente, e até o sol deu as caras para assistir ao crepúsculo de um show que, apesar de todos os pesares, foi muito bonito.

Com a tempestade cada vez mais distante (o que não quer dizer muita coisa para o povo paulistano, acostumado a viver em uma cidade que, muitas vezes, oferece as quatro estações do ano no mesmo dia), o Bloc Party surgiu em cena “com um repertório dedicado aos dois discos que realmente valem a pena em sua discografia” (frase, entre aspas, emprestada do texto sobre o show do Interpol em junho do ano passado, outra banda que desistiu de esmurrar faca gravando discos novos vexaminosos e passou a valorizar a inocência dos primeiros lançamentos): tanto “Silent Arm” (2005) quanto o pequeno clássico “A Weekend in the City” (2007) são obras impecáveis, um curto fragmento de tempo em que o Bloc Party e seu líder, Kele Okereke, eram tidos como a vindoura nova realeza do rock britânico, uma promessa que não se concretizou nos discos seguintes, causando uma debandada da formação original.

Em São Paulo, junto com Kele, apenas Russell Lissack, o guitarrista metido a geniozinho dos pedais que cria sons inimagináveis, seguem levando o legado do Bloc Party pra frente ao lado de pistoleiros de aluguel – a baterista Louise Bartle assumiu as baquetas em um festival holandês que o Scream & Yell esteve presente, o Best Kept Secret 2013. Ao vivo, eles continuam soando uma banda estranha: as canções, você sabe, são boas demais em estúdio, mas no palco parece faltar cola, algo que transforme o som que sai das caixas em uma massa bruta tão forte quanto a registrada nos álbuns. Ainda assim, não há como não sorrir, cantar e dançar como se estivesse na Funhouse ou no Bailindie diante de hinos como “Banquet”, “Song for Clay (Disappear Here)” e a matadora “Hunting for Witches” (que, ao vivo, soa um mero rascunho da antológica versão de estúdio). “This Modern Love” fechou o set de forma bonita com todo mundo cantando junto de Kele.

Grande atração do dia, o Weezer que chegou ao Brasil pela terceira vez (a segunda em São Paulo) trazia consigo, em posts da Índigo, a promessa de reverenciar seu álbum de estreia, o icônico “Blue Album”, de 1994, e “My Name Is Jonas” deu início ao sonho indie turbinado por guitarras ruidosas e coro adultescente. “Dope Nose”, single de “Maladroit”, o quarto disco lançado em 2002, trouxe ao cabo uma citação de “Troubmaker” (single do “Red Album”, de 2008) cravando a ideia de que a banda não seguiria um script padrão, tocando seu primeiro álbum de cabo a rabo, mas intercalando canções dele com sucessos de diversas fases numa dignissima surra de hits para não deixar nenhum fã triste – ok, o som (Zzzzz) falhou em alguns momentos e, em outros, surgia tão embolado a ponto de tornar irreconhecível o começo de uma canção altamente reconhecível como “Hash Pipe” (do “Green Album”, de 2001).

Se quem está na chuva é pra se olhar (é só ditado popular, ok, pois já não chovia – obrigado São Pedro pela graça alcançada), quem está em um show de hits é para cantar, pular, fazer air guitar, air drums (ninguém engoliu muito bem o fato de Josh Freese, o baterista reserva mais requisitado da história, ter assumido a bateria enquanto o baterista original do Weezer, Pat Wilson, posa de sideman tocando violão e guitarra num canto do palco) e, em alguns momentos, chorar como chorava trancado no quarto ouvindo no último volume “The Good Life” desejando açúcar e um pontapé na solidão e na depressão. Brincalhão, Rivers adaptou “Goddamn you half-Brazilian girls” em “El Scorcho”, trocou Timbaland por Milton Nascimento no topo das paradas em “Pork and Beans” (numa versão pálida, mas ainda assim bela), Beverly Hills por São Paulo no single do álbum “Make Believe” (2005) enquanto dispensava todas as presepadas que a banda lançou nos últimos 10 anos. Foi tudo tão bonito e tão alto astral (“Undone – The Sweater Song”, “Island in the Sun”, “In the Garage”, “Say It Ain’t So”, “No One Else”) que o bis, apenas com “Buddy Holly” faltando 20 minutos para o limite do tempo, soou como um coito interrompido. Cabia mais, ô se cabia.

Em um novembro superlotado de ofertas de shows como o de 2025, marcado pela falta de um festival que conseguisse juntar o máximo de nomes sob a mesma curadoria (uma pena, por exemplo, o James ter ficado de fora desse domingo do Weezer tendo sido deixado a sorte de concorrer dias depois com o Massive Attack), o Índigo Festival se provou um evento montado meio às pressas (as falhas no som, a falta de ativações de marca e mesmo a estrutura, quase nua, demonstravam isso), mas que, ainda assim, resultou em um dia repleto de boas experiências musicais, principalmente para quem temia que Rivers Cuomo e sua turma ignorassem o Brasil como fez Damon Albarn e seu Blur tempos atrás (e como o Cardigans deve fazer em fevereiro). Eles vieram, fizeram um grande show, e ainda abriram espaço para que Otoboke Beaver, Mogwai e Bloc Party, cada um a seu modo, encantassem também. Não foi o festival da vida de ninguém, mas é preciso agradecer a oportunidade de dormir feliz no domingo e acordar sorrindo na segunda-feira por causa da boa música. Nem sempre acontece, nem sempre.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br
O som no Mogwai estava tão baixo que passou um drone sobre o público e depois um avião lá onde avião passa e deu não só pra ouvir o som de ambos como achar que vinham do palco.
Já no Weezer ficou redondinho.
Nunca esquecerei desse show, meu sonho era ouvir ao vivo o weezer.
Gostei do bloc party.
Nesse ano fui ao guns , uma semana antes do weezer e em agosto fui a outra banda que amo, Supergrass.
2025 fechado com sucessos literalmente