texto e vídeos de Alexandre Lopes
fotos por Arthur Roessle
Existe uma estrada no interior do Paraná onde o asfalto termina e o rock começa. Você dirige por quilômetros cercado de plantações de soja e cana até que o cheiro de churrasco e chope artesanal começa a competir com o cheiro de terra. É ali que fica o Paraíso do Rock – um oásis elétrico que desde 2008 transforma a pequena Paraíso do Norte, a 100 km de Maringá, em refúgio para tudo o que ainda pulsa em nome da música além das AMs e FMs.
No CTG São Jorge, o público confere shows de graça, bebe chope das cervejarias locais e devora os pastéis e cachorros-quentes servidos pela APMI (Associação de Proteção à Maternidade e à Infância), entidade beneficente que reverte toda a renda obtida em projetos culturais para as crianças da cidade. Nada de patrocínio de grandes marcas ou stands de ativações corporativas: o festival idealizado por Beto Vizotto (atual prefeito da cidade) e co-curado por Leonardo Vinhas (jornalista e escritor que também colabora com o Scream & Yell) é uma micropolítica da música independente, onde o rock continua sendo um apoio comunitário e uma forma de resistência cultural em uma das regiões mais rurais e conservadoras do país.
Além de ter espaço para o rock paranaense e abrigar nomes de outras regiões brasileiras, a curadoria tem a proposta de integrar bandas de variadas nações sul-americanas. Por exemplo: a edição deste ano aconteceu nos dias 17 e 18 de outubro, contando com Otto, The Mönic, Lucho Al Attaque (Argentina), Buítres (Uruguai), Combo Cordeiro, Lúcio Maia, Búfalos D’Água e Guglielmi Blues Band.

Antes mesmo dos dois dias oficiais, o clima de confraria já tomava conta: um esquenta no Tribo’s Bar, em Maringá, reuniu Bob Wayne (EUA), Farol Negro e Cigarras. Em Paraíso do Norte, a Casa de Cultura virou ponto de encontro entre o jornalista e escritor Jotabê Medeiros (divulgando seu livro “A Culpa é do Lou Reed” e dando uma prévia de sua aguardada biografia sobre Luiz Gonzaga), Vinhas (que falou sobre seu livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria” e deu pistas de seu próximo lançamento, um livro sobre o disco “Psicoacústica”, do Ira!) e Vizotto, encerrando com o grupo local Combo Duarte tocando canções dos personagens dos livros na Cervejaria Paraíso.
Sexta-feira, 17 de outubro
Abrindo os trabalhos no CTG São Jorge no primeiro dia do festival, a Guglielmi Blues Band, de Paranavaí, iniciou seu set por volta das 22h. O som no palco foi bem menos previsível do que o nome do projeto sugere: sob comando de Thiago Guglielmi, o grupo mostrou um groove pesado e balançante com solos de guitarra inspirados que também sabiam ceder o destaque para os vocais poderosos e a presença de palco da convidada Núbia Rafaela. A plateia, formada originalmente por cerca de 60 pessoas e um cachorro atento, acompanhava a boa apresentação, enquanto mais espectadores ainda chegavam ao festival. No intervalo, a discotecagem soltou “Por Entre As Mãos”, do Superguidis – como se fosse uma piscadela cúmplice à herança gaúcha que o CTG carrega em seu DNA.

Mas o clima esquentou mesmo foi com a Combo Cordeiro, dupla de pai e filho (Manoel e Felipe) que trouxe diretamente do Pará a tradição da guitarrada. Em um show contagiante, o veterano Manoel Cordeiro, 69 anos, tirava “ondinhas” de sua guitarra e arrancava sorrisos e remelexos da plateia. O filho Felipe, vestido de forma extravagante (algo entre um cruzamento de Prince e Bootsy Collins) também solava mas deixava a maior parte dos holofotes para o pai, devidamente paramentado com um boné escrito “Belém”. O público dançou sem cerimônia ao som da cozinha muito bem entrosada de baixo e bateria, que não deixou a empolgação baixar. A certa altura, o quarteto emendou “Come As You Are”, do Nirvana, com “Alagados”, do Paralamas do Sucesso – ou talvez “Invocado”, de Marinho para os iniciados – e o público nem tentou entender essa espécie de mash-up antropofágico, apenas aceitou que era tudo uma coisa só e se pôs a dançar e bater palmas. Indiscutivelmente o melhor show do festival.
De Buenos Aires, veio Lucho al Ataque – projeto solo de Luciano Scaglione, baixista e vocalista do lendário Attaque 77. Com carisma e peso, ele transformou o CTG em uma extensão do punk portenho. “El Cielo Puede Esperar”, “Porque Te Vas”, “Chicos y Perros” e uma emocionada versão de “Fábrica” da Legião Urbana fizeram o público cantar junto. “Gracias, Renato!”, gritou Lucho, mas ninguém respondeu “de nada” porque ainda estavam tentando processar o que presenciaram. “Pescado Podrido”, “El Jorobadito” e “Exodo Ska” serviram para botar a plateia para dançar freneticamente antes de encerrar com coros em “Donde las Águilas se Atreven”.

Fechando a primeira noite, as paulistanas do The Mönic se empenharam em virar o jogo e entregaram um show elétrico e com fúria, começando com “Sabotagem”. Sem a baixista original Joan Bedin (que não pôde vir por “questões de CLT”), substituída por Camila Brandão (da banda Charlotte Matou um Cara), o quarteto se apoiou em riffs cortantes, refrões diretos e uma energia que contagiou os poucos espectadores que ficaram até o final, principalmente durante a pesada “Lobotomia”. Em certo momento, a fronteira entre palco e público evaporou: Dani Buarque perguntou se alguma menina no CTG sabia tocar guitarra, mas não teve sucesso (dizem que uma moça tímida até se escondeu para não ser convocada). Sem a resposta que gostaria, Dani intimou um rapaz para o palco, ensinando os acordes e ritmo de “Nocaute” e o colocou para tocar, assumindo o microfone no meio da plateia. Foi um belo momento e deixou o show mais marcante, mas realmente seria difícil superar a apresentação do Combo Cordeiro. Não é à toa que propostas mais dançantes sempre ganham a adesão e coração do público – como Maciel Salú na edição de 2023, Siba em 2018 e Félix Robatto no festival de 2019.

Sábado, 18 de outubro
Após uma chuva chatinha durante a manhã e à tarde, o frio do noroeste paranaense chegou a dar um pouco as caras na noite de sábado. Mas a londrinense Búfalos D’Água tratou de aquecer os ossos de quem foi assistir ao início do show deles no CTG São Jorge, com “Carranca”. Com quase três décadas de estrada, o grupo soou como uma máquina bem azeitada, com saxofone, baixo, bateria e guitarra em perfeito equilíbrio. O quarteto mostrou vigor e senso de humor ao apresentar sua surf music “versão brasileira Herbert Richers” (como bem colocou um dos integrantes) e o saxofonista usava o microfone do próprio instrumento para conversar com o público entre as canções. A cada música, mais copos do chope local se erguiam e o verão voltou temporariamente em forma de sax, groove e uma informalidade deliciosa.
Na sequência, Lúcio Maia (ex-Nação Zumbi) subiu ao palco acompanhado de Marcos Gerez (baixo) e Arquétipo Rafa (bateria). Sem ter passado o som anteriormente, a banda atrasou sua apresentação por uns bons 30 minutos e isso deu uma dispersada na buena onda anterior. Mas logo o trio se encontrou, fazendo um show despojado, alternando faixas como “Enrolando Salsa” com improvisos e distorções psicodélicas meditantes. Foi quase transcendental, mostrando o instinto de quem confia no próprio instrumento como extensão da alma. Armado com uma guitarra Stratocaster com captadores P90 (uma escolha pouco usual) e um baixo Steinberger (outra escolha menos usual ainda), o trio apresentou sua versão suingada de “Lithium” (a segunda citação ao Nirvana no festival) e costurou riffs em delays e wah wah em uma deliciosa releitura de “Jorge da Capadócia” de Jorge Ben, além de sua reinterpretação de “Um Sonho” da Nação Zumbi. Ao final, ele sintetizou o espírito do evento: “A música é um trabalho de formiguinha. Vamos seguir em frente como resistência”.
O clima de irmandade atingiu o ápice com os uruguaios do Buitres. O grupo é um desdobramento da mítica banda Los Estómagos (relembrada durante o show com a pesada “Frío Oscuro”) e já celebra 35 anos de estrada. Transformando o frio paranaense em calor humano, a plateia estava repleta de fãs que vieram de longe para vê-los – mesmo que uma parte deles era a própria família dos membros da banda. Mas arriscaria dizer que o CTG se transformou em uma pequena Montevidéu de alma punk por pouco mais de uma hora, depois que “Condenado el Corazón” foi tocada. O vocalista Gabriel Peluffo e o guitarrista Gustavo Parodi conduziram um ritual punk latino com canções que falam de perda, lealdade e persistência. Há algo de comovente na longevidade deles; tantos anos mantendo viva uma música que o mercado já abandonou, alimentada apenas pela fé dos que ainda acreditam que o ruído pode unir as pessoas. Foi um show bonito de se ver.
Já era quase uma da manhã quando Otto assumiu o palco com seu magnetismo peculiar. O pernambucano começou com “Crua” e avisou que grande parte da apresentação seria dedicada ao repertório do disco “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos“, lançado em 2009. Emendou com “Janaína”, desencadeando coros de “Iemanjá” do público. Mas também teve espaço para faixas dos álbuns “Condom Black” (“Dias de Janeiro”, “Pelo Engarrafamento”) e “Samba Pra Burro” (“Bob” e “Low”). Em dado momento, Otto reafirmou o sentimento iniciado por Lúcio Maia: “Música é forma de resistência, por isso esse festival é tão importante”. E desceu do palco para caminhar entre o público, convocando a pertinente “Ciranda de Maluco”. No final, dedicou “Cuba” a Chorão, e encaixou versos de “A Praieira” de Chico Science & Nação Zumbi. O show terminou às 2h06, enquanto o público ainda numeroso pulsava empolgado pela percussão das últimas músicas.
Em seus 14 anos, o Paraíso do Rock sobrevive como uma espécie de lenda no circuito alternativo brasileiro: um evento que não gera lucros exorbitantes, não atrai multidões e a atenção de influenciadores. Em um tempo em que festivais se tornaram vitrines (e dependentes) de marcas, o Paraíso do Rock segue sendo um espetáculo que ainda acredita em curadoria, comunidade latina e diversidade artística. Aqui, fica evidente que o foco é a música e o que ela ainda pode significar quando compartilhada entre estranhos sob o mesmo teto.
É imperfeito sim; os intervalos longos entre os shows em um palco único cansam, o público não chega perto de lotar a capacidade do lugar (principalmente na sexta-feira) e o frio pode atrapalhar, mas isso não faz com que deixe de ser verdadeiro, humano e necessário. O som geralmente é bom, o astral é genuíno e o propósito dele ainda existir é claro. Num estado onde o sertanejo é hegemonia e o rock é quase uma anomalia, o festival cumpre o papel de mostrar que existe uma pluralidade musical, além de desafiar a caretice reinante. Se não houvesse Paraíso do Rock na cidade, o que restaria para quem não se interessa pela monocultura da mesmice rural? Beber no aconchegante Bar do Macaxeira? Pular o muro do Cemitério Municipal Ademar Basílio para roubar coroas de flores e jogá-las no lago mais próximo? Lembrando que qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência…

Não é que o Paraíso do Rock prometa uma fuga do grande sistema de entretenimento que os shows viraram, mas ele oferece algo mais raro: pertencimento. E, entre shows instigantes e copos de chopp artesanal, lembramos que resistência também pode ser sinônimo de celebração. E talvez seja esse o real paraíso – não um lugar onde tudo é perfeito, mas onde o imperfeito ainda é terreno fértil para florescer o entusiasmo artístico e gerar cultura – sem firulas, sem distrações, só pela música.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
Que festival interessante! Agora, sem querer desmerecer o disco, mas acho curioso que psicoacustica tenha essa relevância toda para a crítica. E acho curioso tbm que por conta da ação orquestrada entre Forastieri, Rogério de campos e outros, o disco clandestino tenha sido posto abaixo, quando é um dos discos mais fodas do ira! Nasi me falou isso numa entrevista, que não entendia ele ser desvalorizado. E, para encerrar, nenhum disco do ira! Realmente supera os dois primeiros, principalmente o vivendo e não aprendendo, esse sim, o grande álbum da banda.