texto de Flavia Denise Paiva
Depois de nos presentear com obras como “Bacurau” (2019) e “Retratos Fantasmas” (2023), Kleber Mendonça Filho retorna às telas com “O Agente Secreto” (2025), um filme que mistura suspense político, surrealismo e, claro, muito nordeste. Ambientado em 1977, em plena ditadura militar, o longa mergulha nas tensões de um Brasil sufocado pela repressão e pela vigilância. O filme estreia em 6 de novembro no Brasil, mas foi exibido em sessão especial no Cine Teatro São Luiz, durante o 35º Cine Ceará, festival que todo ano transforma Fortaleza em ponto de encontro para o cinema.
A trama de “O Agente Secreto” acompanha Armando, vivido por Wagner Moura em um dos papéis mais importantes da sua carreira. Viúvo, professor e pesquisador de tecnologia, ele é obrigado a se esconder sob outra identidade depois de se ver no meio de um esquema de corrupção envolvendo pesquisas acadêmicas. Ao tentar se reaproximar do filho em Recife, acaba emaranhado numa rede de perigosa perseguição. Moura encarna bem esse “agente secreto” improvável: um homem comum transformado em inimigo pelo próprio Estado.

Mesmo com mais de duas horas e meia de duração, a narrativa não perde o ritmo. Kleber dosa a tensão de um thriller político com momentos de humor ácido e imagens que beiram o surreal, como a aparição da Perna Cabeluda, lenda urbana (citada, inclusive, em uma música de Chico Science & Nação Zumbi) que circulava por Recife nos anos 1970 e que o filme resgata com ironia. Esse equilíbrio dá ao longa uma cara única, que denuncia os absurdos da repressão sem deixar de rir do ridículo que sempre acompanha regimes autoritários.
O elenco é robusto, com nomes como Alice Carvalho, Maria Fernanda Cândido, Thomas Aquino, Hermila Guedes e Robério Diógenes. Mas quem rouba a cena é Dona Sebastiana, interpretada deslumbrantemente por Tânia Maria. Carismática, generosa e engraçada, ela abre as portas de sua casa para perseguidos políticos, oferecendo não só abrigo, mas um respiro de leveza em meio ao caos.
A recriação histórica chama atenção de imediato. A direção de arte faz a Recife dos anos 1970 ressurgir na tela com tamanha precisão que chega a incomodar, como se o público fosse puxado para dentro do período. Mas o filme vai além da simples reconstituição visual e sugere que os fantasmas daquela época ainda circulam por aqui, num país que insiste em disputar espaço com o esquecimento.
Um dos objetivos principais de “O Agente Secreto” é abordar este esquecimento. Ele não está só nos pequenos detalhes, mas também em cenas que realmente machucam, como quando Fernando, filho de Armando, admite que começou a esquecer da mãe. É uma cena forte que mostra o quanto a memória pode corroer vínculos e apagar não só as histórias, mas também partes de quem a gente é. O próprio personagem de Fernando, já adulto, nos surpreende novamente ao dizer que infelizmente não tem memórias de seu pai e que tudo que sabe foi contado pelo seu avô, interpretado brilhantemente pelo ator Carlos Francisco. Isso é algo que de certa forma decepciona o público, que desenvolveu um carinho enorme pelo personagem de Marcelo ao longo do filme. Isso não é à toa, afinal Mendonça faz um paralelo sobre como nosso país parece as vezes viver em amnésia e prefere por muitas vezes esquecer do passado e da repressão conduzida nesse período.
O final abrupto e realista pode gerar um sentimento de anticlímax no público, que talvez espere uma explicação mais detalhada de como tudo aconteceu. No entanto, ao negar um desfecho convencional, o diretor opta por outra via, nos guiando para o presente, forçando-nos a confrontar o aqui e o agora. A sensação é de que independentemente de tudo que se deu até ali, a vida continua. Mas não se engane, o final não é uma conclusão, mas um ponto de partida para a reflexão, em meio à impunidade que, ainda hoje se passa despercebida. Aqui a película exclama: não se esqueçam!
Mais do que apenas um filme, “O Agente Secreto” é divertido, realista e potente ao resgatar a memória de um tempo sombrio de uma maneira que apenas Kleber Mendonça poderia fazer. Mas a pergunta final que fica é: raparigou ou não raparigou?
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– Flávia Denise Paiva é jornalista e escreve no Scream & Yell desde 2014
Muito bom! Já irei querer assistir pra entender ainda mais.
Adorei a crítica! Já tava interessada, mas agora preciso assistir urgente! Fiquei mais animada ainda!
Eu nem estava muito a fim de assistir a esse filme, mas depois desse texto me deu vontade. Agradeça à Flávia, Kleber Mendonça.
Espetacular! Crítica extremamente sólida e instigante, parabéns! Me deu vontade de assistir kkkkk
Excelente analise!