Série documental “Adidas x Puma: Guerra dos Tênis” traz as tretas por trás do legado das duas gigantes

texto de Elsa Villon

Talvez você não saiba, mas Adidas e Puma transformaram a rivalidade entre irmãos em dois dos maiores impérios da indústria esportiva mundial. Essa é a premissa da série documental “Adidas x Puma: Guerra dos Tênis” (“Sneaker Wars: Adidas vs. Puma”, 2025), recém-lançada pela Disney Plus.

Seguindo a elite dos documentários sobre esportes já conhecidos pela ESPN, ao estilo de “The Last Dance”, da Netflix (que acompanha a temporada de 1997-98 dos Bulls do início ao fim, além de cobrir o restante da carreira de Michael Jordan), a equipe de ““Sneaker Wars” teve acesso há dois anos por dentro das empresas Adidas e Puma. As grandes rivais nasceram ao mesmo tempo, em Herzogenaurach, cidade de 20 mil habitantes na Baviera, Alemanha. Dividida em três episódios de 45 minutos, “Adidas x Puma: Guerra dos Tênis” é boa para maratonar.

A disputa entre as duas gigantes do esporte vem dos irmãos sapateiros Adolf e Rudolf Dassler, que fundaram a Gebrüder Dassler Schuhfabrik, em 1924. Eles ganharam uma projeção enorme quando Jesse Owens, atleta negro norte-americano, conquistou quatro medalhas olímpicas no atletismo nos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, em uma Alemanha já nazista. Owens ostentava um par de calçados produzidos pelos irmãos e a história de como isso aconteceu fica para você descobrir no documentário.

Muito se fala sobre a briga que separou os dois irmãos e é claro que o viés machista permeia as fofocas: uma mulher teria sido o motivo da discórdia. Ninguém nega ou confirma, mas Adi, como Adolf era chamado, fundou a Adidas (Adi do primeiro nome, Das do sobrenome). Já Rudolf pensou na velocidade dos atletas e buscou o puma para fundar a marca de mesmo nome. Detalhe: as duas fábricas ficam nessa pequena cidade alemã, separadas pelo Rio Aurach, ambas de 1948.

A partir disso, a população foi dividida pelos Dassler: bares, açougues, todos os comércios foram segmentados entre frequentadores que eram funcionários da Adidas ou da Puma. Um funcionário não poderia trabalhar na outra fábrica e além das águas de Aurach, as fábricas também dividiram a cidade.

Os dois irmãos passaram a investir nos calçados para atletas, a Adidas como fornecedora oficial da seleção de futebol masculino da Alemanha e patenteando as claves das chuteiras removíveis, o que gerou um embate, pois a Puma – e a família Puma, como os funcionários gostam de se definir, reclama a autoria até hoje.

Se hoje temos os embaixadores das marcas, isso já vinha desde meados dos anos 1950 com as duas alemãs, que tinham um acordo de cavalheiros sobre quais atletas e quanto pagar para que eles usassem suas respectivas marcas. Isso foi por água abaixo na Copa do Mundo de 1950, com Pelé, mas os detalhes você também descobre na série.

Se os calçados de esportes ganharam vez com o atletismo e futebol, logo chegaram as disputas por outras modalidades, como o basquete, que até então era dominado pela americana Converse com o modelo Chuck Taylor, o famoso All Star botinha.

Adidas sempre foi a precursora, mas a Puma não ficava atrás e os episódios vão narrando as disputas a cada novo lançamento, com clássicos como Superstar – a sacada da marca de três listras para desbancar o All Star, a Puma King, chuteira que marcou gerações de estrelas no futebol e assim sucessivamente.

Um dos pontos de virada na Guerra dos Tênis se dá pela música, quando o grupo de rap Run DMC lançou o single “My Adidas” demonstrando que a moda esportiva era a moda das ruas também. E a partir disso, começam novas disputas, não apenas por atletas de alto desempenho – você com certeza associa a Puma ao recordista Usain Bolt ou David Beckham a Adidas, mas também astros da música, da moda, além de outras lendas de diferentes esportes – com ênfase para a Puma chegando na Fórmula 1.

Enquanto a briga era entre dois irmãos alemães durante décadas, em 1964 nascia a Nike. “Just do it” e o sonho americano entram com força e conquistam o mercado norte-americano com rapidez, fazendo Adidas e Puma reinventarem muita coisa dentro do modelo de negócios até então estabelecido no ramo esportivo. A Era Jordan é um marco importante na saga das duas marcas, mas também da cultura e da moda como um todo.

Um nome polêmico da música também é um ponto de virada: a parceria entre Adidas e Ye, o famigerado Kanye West, que dentre suas muitas polêmicas, fez declarações antissemitas que em termos comerciais não pegaram bem para a marca alemã que sim, serviu ao nazismo, mas os detalhes são contemplados no segundo episódio.

A quebra da parceria traz outro ponto de virada: a saída do então CEO da Adidas,Kasper Rorsted, abrindo espaço para Bjorn Gulden, até então CEO da Puma, que gera mágoa na família Puma até hoje.

David Beckham, Usain Bolt, Noah Lyles, Winnie Harlow, Run DMC e Elaine Thompson-Herah são alguns dos entrevistados da série. Neymar também tem uma pequena participação.

Se você gosta de esportes, música, cultura urbana e moda, ou se só gosta de uma boa treta, “Adidas x Puma: Guerra dos Tênis” é a pedida de três horas para sua próxima maratona.

– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas.

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