entrevista de Luiz Mazetto
Uma das principais referências da cena musical de San Diego, na Califórnia, John Reis é mais conhecido por ter fundado e tocado no Rocket from the Crypt, Drive Like Jehu, Pitchfork e Hot Snakes, quatro das bandas mais interessantes a surgirem no underground dos EUA nas últimas décadas. Mas seu currículo também inclui parcerias e colaborações com nomes como Metz e Sonny Vincent e projetos menos conhecidos, mas igualmente interessantes e barulhentos como Sultans e Night Marchers.
Nos últimos anos, o guitarrista e vocalista vem focando seu tempo e riffs em uma carreira solo que acaba de ganhar um novo capítulo com o explosivo “Time to Let You Down” (2025), um dos meus discos favoritos do ano desde a primeira audição e mais um entre os muitos lançamentos do seu selo Swami – uma referência a um dos seus diferentes pseudônimos. Os outros nomes pelos quais John é conhecido variam de acordo com as bandas em que toca, sendo Speedo o mais conhecido, por ser adotado no Rocket from the Crypt.
Na entrevista abaixo, feito por vídeo em uma agradável tarde de julho diretamente do seu estúdio em San Diego, um gente finíssima John Reis falou sobre os seus últimos discos solo, lançados com um intervalo de poucos meses, comentou sobre os 30 anos do clássico “Scream, Dracula, Scream!”, do Rocket from the Crypt, relembrou a turnê de volta do Drive Like Jehu há cerca de uma década, e contou como um disco “inesperado” dos Ramones mudou a sua vida. Confira!
Ouça o disco “Time to Let You Down” na integhra abaixo
Há alguns meses, você lançou “Time to Let You Down” (2025), que saiu cerca de oito meses depois do seu disco solo anterior, “All This Awaits You” (2024). Então, queria saber: como surgiu esse novo álbum em tão pouco tempo? Você já tinha um “estoque” de riffs esperando para serem trabalhados ou foi mais algo no sentido de você ter ficado tão satisfeito com “All This Awaits You” que quis logo fazer um novo disco?
Acho que a inspiração veio porque com o “All This Awaits You” a gente saiu em turnê. A gente não faz muitas turnês, então sempre que saímos, tentamos ter algo novo ou algo para compartilhar com o público. Fomos para a Inglaterra fazer essa turnê e vimos que, basicamente, ninguém tinha o nosso disco por lá. E eu entendo que hoje em dia não é como antigamente – quase não existem mais lojas de discos, e muitas vezes essas lojas só vendem os títulos maiores, os que realmente vendem. Mas foi frustrante ver que ninguém tinha acesso ao nosso disco. Quando voltei da turnê, estava bem irritado e pensei: “Porra, se ninguém consegue ouvir aquele disco, então vou fazer por conta própria”. Porque aquele disco foi com outra gravadora. E aí foi tipo: vou voltar a fazer as coisas do meu jeito, como eu sempre fiz. Basicamente, fui lá com um sentimento que nem sei o que era, se era raiva, vingança, ressentimento. Mas o sentimento não era exatamente de alegria (risos). Então comecei a compor umas músicas e pensei: vou fazer meu próprio disco agora que tenho essa banda, uma banda que eu realmente gosto, gosto do que estamos fazendo, é algo que posso lançar e ter um certo controle, pelo menos tentar direcionar um pouco melhor as coisas. Estou acostumado a ter muito controle, e muitas vezes, quando algo não é feito ou não acontece, não é porque sou preguiçoso, é só porque aquilo não me interessa. Com “Time to Let You Down”, todas as músicas surgiram logo depois que voltei daquela turnê. Acho que cheguei em casa em novembro e gravamos em dezembro – tipo, gravamos imediatamente, e então começamos a trabalhar no lançamento já no começo do ano seguinte.
Sim, era algo que eu ia comentar, porque “Time to Let You Down” soa um pouco mais duro, um pouco mais agressivo, enquanto “All This Awaits You” traz uma pegada mais para cima – eu consigo ouvir muito Ramones, o início dos Misfits e The Saints.
É, não sei. Eu sempre sinto que tenho algo a provar, mas não para os outros, e sim para mim mesmo. Às vezes crio umas barreiras imaginárias ao meu redor só para poder derrubá-las depois. Talvez seja como um jogo artístico que jogo sozinho, comigo mesmo. Entendo que não sinto que as pessoas me devem alguma coisa, não acho que as pessoas tenham que prestar atenção em mim. Então, o descaso não é algo que me motiva. Já estou acostumado com isso. É mais sobre criar esses obstáculos ao meu redor. Pode parecer infantil, mas estou apenas tentando ser honesto. Tipo, às vezes me pego pensando: “Você tem 55 anos, talvez seja hora de se desafiar”. E com esse material, já que eu tinha inspiração e energia, pensei: “Talvez você devesse tentar focar tudo isso em um disco bem específico, super direto, sabe?” E sim, todas essas influências ainda estão lá, com certeza. Obviamente os Ramones, os Saints são uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos, acho que isso é bem evidente. O início dos Misfits também. E bandas mais “novas”, não tão novas assim, que estão aí há uns 30 anos, como The Spits, Marked Men, essas bandas meio que da minha geração, fazendo punk. E os Dickies também foram uma grande influência nesse disco. Acho que tem diversão ali, e acho que ainda tem bastante positividade na mensagem. Musicalmente também, acho que tende mais para músicas em tom maior, que… que têm mais chance de as pessoas cantarem junto. Isso nunca foi a intenção, mas era o tipo de som que eu estava ouvindo muito, e senti que tinha encontrado algo. Como se você estivesse garimpando ouro, você acha um fiozinho e vai seguindo, cavando, vendo até onde ele leva. Às vezes leva ao ouro de verdade, às vezes leva à uma ilusão.
Li que no disco anterior (“All This Awaits You”), você quis mudar o nome da banda para Bed of Nails porque achou que poderia confundir as pessoas, já que você estava discotecando como Swami John Reis. Foi isso mesmo?
É sempre confuso. Tipo, parece que o meu principal talento – e eu tenho consciência disso – é a minha capacidade de confundir as pessoas. Eu estava tentando simplificar, porque faço muitas apresentações como DJ aqui em San Diego, tocando vinis de 7 polegadas. Não viajo muito, e essas apresentações sempre são como Swami John Reis – ou Swami Sound System. Eu também fazia um programa de rádio chamado Swami Sound System, então as pessoas achavam que, quando eu estava em turnê como Swami John Reis, eu iria discotecar. Ou pelo menos achavam que eu estaria envolvido com isso de alguma forma. Não sei, foram só algumas pessoas que escreveram, mas quando só algumas pessoas escrevem e todas dizem a mesma coisa, você começa a pensar: “Será que todo mundo acha isso?” Não sei, eu realmente não sei o que as pessoas pensam. Eu chamei (a banda) no disco de Bed of Nails porque achei que era um bom nome. Mas quando ele saiu em formato digital, não foi listado como parte do mesmo projeto (John Reis) e aí eu pensei: “Que droga.” Porque, pra mim, isso é ainda mais confuso. Agora as pessoas têm que saber que precisam procurar em outro lugar. Então decidi voltar a usar só Swami John Reis, porque pensei: quero que tudo exista no mesmo lugar, pra que quem já gosta do que faço, ou tem interesse e quer conhecer, consiga encontrar com mais facilidade. Acho que é isso.
O lance do streaming é bem frustrante, porque se você não existe lá, pra muita gente é como se você simplesmente não existisse – como se a sua música não existisse. Então sim, uma parte de mim se importa com isso, porque eu quero que as pessoas ouçam a música. Mas, mesmo assim, eu sei como é difícil acompanhar tudo hoje em dia. Então, mesmo que você tente cobrir todas as bases, ainda assim é fácil das pessoas perderem, mesmo se estiverem interessadas nesse tipo de som.
Mas agora está tudo sob o nome de Swami John Reis, certo? Vi que agora está tudo junto no Spotify.
Sim. E o Spotify é tipo… dá pra imaginar como é difícil conseguir fazer qualquer coisa lá, porque tudo é automatizado. Só conseguir falar com uma pessoa já é algo praticamente impossível. Porque aquele desgraçado está investindo todo o dinheiro em coisas como gasto militar, essas porcarias, investindo em empresas que estão tentando fazer bombas e coisas do tipo. Quer dizer, não sei ao certo, mas são coisas de contrato militar. Então acho que estamos chegando num ponto em que acho que preciso começar a considerar outras opções, porque realmente não quero continuar participando disso. Se surgir algo melhor, com certeza vou migrar. Mas ao mesmo tempo, sou mais velho. Não que eu seja super velho, mas já vi muita coisa mudar na minha carreira musical, então sei que as coisas vao mudar de novo com certeza. Só que toda mudança até agora foi pra pior (risos). Então, quem sabe a próxima seja ainda pior, né?
E agora tem essas bandas geradas por IA no Spotify. Tipo, eu li outro dia sobre uma chamada The Velvet Sundown, que é como uma mistura de Velvet Underground com The Doors e um monte de outras coisas… e eles têm tipo 500 mil ouvintes mensais.
O que são essas bandas? São outros robôs ouvindo música feita por robôs?
Pois é, essa é a pergunta – eu não sei (risos)
Mas, tipo, se soa bem, soa bem, né? Mas eu tenho dificuldade de acreditar nisso. Eu sei, eu sei que já tem muita gente perdendo emprego, isso já está acontecendo. E vai ficar muito, muito pior. Não precisa ser um gênio pra entender pra onde isso está indo. Então, sabe, pensar na possibilidade de eu perder meu trabalho como músico… Tipo, se a gente vive num mundo onde todos os artistas perdem seus empregos para computadores, então, sim – basicamente é o fim do mundo. E não estou dizendo que a arte dita tudo, necessariamente. Mas se a gente perde a nossa capacidade, como espécie, de se interessar pelas nossas próprias vozes, então a gente merece mesmo ser simplesmente espirrado pra fora do planeta.
Seus dois últimos discos solo saíram após a morte do Rick Froberg. Vocês tiveram uma parceria e amizade que durou quase quatro décadas, desde o começo com o Pitchfork, passando pelo Drive Like Jehu e depois pelo Hot Snakes. Vocês passaram por diferentes bandas e fases da vida. E, mesmo quando ele estava no Hot Snakes, morando em Nova York, vocês continuaram se comunicando de outras formas. O que você acha que havia entre vocês dois que criou essa conexão tão forte? Você percebeu isso desde o começo, quando começaram a tocar juntos, que existia um laço especial que ia além daquela primeira banda?
Não, eu não sabia logo no começo. Acho que você não sabe, a gente tinha 18 anos. Então, tipo… eu realmente não sabia. Era minha primeira banda de verdade (Pitchfork). E a gente começou, e o Rick era o cara que estava com o Pitchfork. Foi o Rick quem reuniu a banda. Mas ele não estava na banda. Ele só já conhecia todo mundo antes. E aí, quando ele começou a cantar, foi basicamente a primeira vez que toquei com um vocalista de verdade, alguém com quem ensaiávamos bastante e tudo mais. Só fui perceber mesmo quando comecei a tocar com outras pessoas ou a ver outras bandas, depois de alguns anos. E também ao acompanhar a cena aqui em San Diego. Havia tanta gente talentosa, tantas bandas incríveis, pessoas fazendo coisas muito legais. Foi uma época maravilhosa para se estar vivo, com certeza, e para estar em uma banda em San Diego no final dos anos 1980, quando tudo estava começando a virar os anos 1990. Mas não existia exatamente um “som”. Todo mundo meio que vinha do punk rock, mas ao mesmo tempo queria se afastar da violência que havia no punk. E aí, tocando com o Rick, sempre senti que, eu até falei isso pra ele, e foi meio esquisito porque, anos atrás, acho que a gente estava dando uma entrevista juntos e alguém fez uma pergunta parecida. E eu disse: “Sabe, eu me sinto muito sortudo. Muito sortudo mesmo por ter feito amizade com esse cara”. E o mais incrível é que eu nunca precisei me perguntar ou imaginar como seria minha vida sem ele. Eu não preciso imaginar, porque eu tive – tenho – uma vida linda com ele sendo uma parte essencial da música que eu criei, que nós criamos. Criamos juntos. E nós dois mudamos muito como pessoas ao longo dos anos. E se tem uma coisa, é que o Rick se tornou ainda mais motivado musicalmente com o tempo. Porque, quando o conheci, ele era mais voltado para as artes visuais. E ele fazia de tudo. Era pintor, obviamente um ilustrador incrível. Trabalhou com cerâmica, se aventurou na arte do vidro soprado, fazia gravuras em madeira – basicamente, tudo que envolvia moldar algo, criar algo a partir do nada. Ele mandava muito bem em artes visuais, era muito talentoso e tinha uma visão artística incrível. E quando se tratava de música, a gente sempre concordava em tudo. Sinceramente, não me lembro de termos tido opiniões diferentes em nenhum momento. E quando você tem essa conexão, em que você não precisa explicar o que está fazendo, não precisa dar contexto, você simplesmente cria algo, entrega para a outra pessoa, e ela eleva aquilo para um nível que você jamais conseguiria alcançar sozinho… é isso. Toda vez que fiz uma música com o Rick, foi assim. Sempre. Ele sempre ultrapassava o que eu achava que era o potencial daquilo. Ele levava a música para um lugar onde eu nunca conseguiria levar. Nem conseguiria imaginar esse lugar. Minha mente nem ia por esse caminho, sabe?
Tive a sorte de ver vocês dois juntos em Portugal, quando voltaram com o Drive Like Jehu, no Primavera Festival, no Porto, em 2016, e foi um dos shows mais intensos que já vi. Vocês pareciam realmente felizes tocando juntos, toda a banda. Vocês já tinham tocado juntos em outros contextos, mas considerando tudo que aconteceu, poder ter essa nova chance de mostrar a música do Drive Like Jehu para novos públicos foi um momento especial pra você?
Foi definitivamente um momento especial. A banda merecia aquele momento, aquele reencontro, a banda realmente merecia viver bons tempos como aqueles. E não apenas porque as pessoas queriam ouvir a música ou porque gostavam da banda. Claro, isso é legal, mas não é bem sobre isso que estou falando. Como pessoas e como banda, a gente pôde se divertir muito mais. A formação original do Drive Like Jehu era bem intensa, sabe? Embora houvesse muita alegria no processo de compor a música, recriar aquilo depois já era outra coisa. A banda não era exatamente feita para sair em turnê pelo mundo 300 dias por ano. Então acho que, como pessoas e como amigos, a gente merecia aquele tempo. Foi ótimo ter aquele momento, aquele ano em que pudemos tocar vários shows e nos divertir pra valer. Foi tão bom quanto a formação original da banda? Bom, éramos bem mais velhos… então provavelmente não. Não vou mentir e dizer que estávamos tão bons quanto antes. Mas, na minha opinião, foi muito melhor. Justamente por causa dessa alegria, dessa leveza, tudo estava mais solto. E acho que havia um foco muito maior simplesmente em curtir fazer os shows. Não era como se estivéssemos entrando numa van e sentindo que estávamos gritando para uma parede. Parecia que a gente estava gritando junto com outras pessoas que também estavam gritando com a gente.
Ah, e a propósito, o seu sobrenome, Reis, é português? Você tem alguma descendência portuguesa?
Sim, minha família é da Ilha da Madeira.
Ah, que legal. E claro que você já foi a Portugal para tocar, mas conseguiu conhecer o país?
Sim, já estive em Portugal umas quatro vezes. E só uma foi pra tocar… ou talvez duas. Acho que fui cinco vezes, e duas foram para tocar. Sim, porque acho que o Hot Snakes tocou. Sim, o Hot Snakes também tocou no Primavera Porto, o Hot Snakes foi antes. Eu adoro Portugal. É engraçado, só estive na Madeira uma vez, para ver o lugar de onde minha família veio, que é surreal. É tipo a menor vila possível, com um penhasco e o oceano. E só isso, sabe? É incrível pensar no que minha família teve que passar para, eventualmente, vir para os Estados Unidos e construir uma nova vida aqui, com uma família maior. Mas é um país lindo, só queria poder ir mais vezes. Porque, quando estou lá, sempre fico procurando discos e tentando encontrar um clube de rock, punk ou qualquer coisa mais ligada ao rock, e em Portugal parece que isso não é tão comum quanto na França ou, obviamente, na Espanha, lugares onde já encontrei muito mais cultura de rock’n’roll. Se isso existe lá, alguém precisa me contar onde fica.
E você fala um pouco de português?
Não, não. Quando eu era criança, era comum que não ensinassem para os filhos, porque queriam que a gente fosse americano, sabe? Então é uma pena, mas é isso. Eu estava em Lisboa quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo. Quando foi isso?
A última vez foi em 2002.
Antes disso, antes disso…
Em 1994, quando a Copa foi nos Estados Unidos.
Eu estava em Lisboa em 1994, no dia em que o Brasil ganhou. Então a gente comemorou em todos os lugares brasileiros em Lisboa naquela noite. Eu estava em turnê com o (Drive Like) Jehu. Não em Portugal, mas a gente tinha uns cinco dias de folga na turnê, então o Mike (baixista da banda) e eu fomos para Portugal e ficamos curtindo em Lisboa. E foi justamente na época da Copa. Foi divertido pra caramba.
2025 marca o 30º aniversário do disco mais conhecido do Rocket from the Crypt, “Scream, Dracula, Scream” (1995). Quando vocês estavam gravando, tinham a sensação de que esse seria um disco grande, que ia marcar as pessoas e continuar sendo falado por muitos anos depois?
Eu não sei. Eu realmente não pensava muito no que as pessoas iriam achar. Eu só estava tentando… era uma época em que eu estava muito produtivo. Estava em duas bandas, e com as duas a gente estava compondo e gravando bastante. Com o Rocket, tínhamos provavelmente material para uns três ou quatro álbuns em desenvolvimento. E eu lembro que, quando lançávamos esses discos diferentes, sempre tinha uma música forte que parecia ser o núcleo daquele álbum — e eu construía o resto em torno dela. Mas com o “Scream, Dracula, Scream”, eu estava, obviamente, pensando: “Esse é o disco”. Eu queria guardar as melhores ideias e dedicar o máximo de tempo, trabalho e reflexão nesse álbum — de longe, mais do que nos outros. Porque era o nosso primeiro disco realmente grande. Ia ter boa distribuição por uma gravadora grande e… o orçamento era, pra gente, incrível. Tipo, a gente nem sabia como ia gastar todo aquele dinheiro. Ficávamos tipo: “Talvez a gente possa alugar… sei lá, uma orquestra?” E foi o que fizemos — alugamos uma orquestra. E meio que fomos testando tudo. Foi, de certo modo, um rito de passagem, um disco de passagem. Acho que muitas bandas estavam na mesma situação que a gente: tinham a chance de fazer um álbum com orçamento maior e melhor distribuição, na esperança de conectar sua música com um público mais mainstream. Com o Rocket, tínhamos saído de um primeiro disco muito garageiro, meio pop, mas ainda assim bem punk. E o segundo disco era mais no estilo do The Saints, tipo “Know Your Product” (faixa do clássico “Eternally Yours”, de 1978), mas ainda assim acessível, com melodias, um som mais cativante. Aí, com o “Scream”, decidimos fazer um disco que não tivesse as mesmas melodias dos anteriores. Era um som com uma energia mais bruta. E a ideia era fazer um disco de garage rock, mas tratá-lo como se fosse uma daquelas bandas dos anos 1970, sabe? Aquelas em que os caras exageravam na cocaína no estúdio e repensavam tudo demais. A gente não fez isso (risos), mas foi meio isso — juntar dois pontos de vista opostos, duas abordagens artísticas bem diferentes, e fazer elas colidirem. E foi isso que fizemos. O Rocket sempre foi sobre ter um som grande. Sempre tivemos metais, e muitas vezes empilhávamos camadas de metais com guitarras, e depois os vocais — com seis pessoas na banda, às vezes todo mundo gritava ao mesmo tempo. Nosso lema sempre foi “mais é mais”. Nunca foi “menos é mais”. E não era sobre dinâmica, era sobre impacto. Tipo um caminhão de lixo descendo o beco, essa era a vibe. Quando estávamos gravando esse disco, eu estava super focado nisso. A gente teve a oportunidade de fazer um disco dos sonhos — e foi o que fizemos. Testamos tudo que sempre quisemos testar. E é por isso que digo que foi um rito de passagem. Muitas bandas naquela época passaram por isso. E apenas alguns anos depois a gente já estava de volta ao nosso estúdio de ensaio, fazendo os discos por conta própria de novo — e sabíamos que era pra lá que íamos voltar de qualquer jeito. Então, aproveitamos aquele momento ao máximo. E, mais importante ainda, nos divertimos com isso. Porque a banda sempre foi também sobre se divertir.

Você se surpreendeu com o quão popular vocês ficaram, em especial no Reino Unido, onde vocês tocaram no Top of the Pops, na TV, e em grandes festivais como Reading e Glastonbury?
Eu fiquei. Na verdade, nunca pareceu que ficou tão grande assim, pra ser honesto com você. Quer dizer, teve algumas vezes em que foi tipo: “Uau, isso está além das minhas expectativas, com certeza”, porque eu nunca tive expectativas de popularidade. Era mais pela música, sabe? Expectativas de… tipo, quão boa a banda poderia ser? Quão entrosada a banda poderia ser? A gente era muito focado na nossa performance ao vivo. Então sempre era tipo: como podemos ser uma banda melhor? A gente realmente era muito competitivo quando se tratava de tocar ao vivo. A gente queria ser realmente os melhores, sabe? E simplesmente tocar com mais energia, mais rápido, e dar às pessoas algo bem diferente do que estava rolando naquela época, que era muito grunge e tal. E depois veio aquela fase mais garage, depois que a gente já estava fazendo aquilo. Então acho que a gente meio que se encaixava num lugar esquisito, onde a gente não pertencia de verdade. E isso é uma sensação boa, de não pertencer. Porque não é meio que isso que ser punk sempre quis dizer? Esse sentimento de alienação, de ter que encontrar a sua tribo, ter que descobrir onde você pertence e achar pessoas com quem se conectar. Então, pra mim, isso sempre pareceu meio que parte da minha vida inteira — sempre foi meio assim. Isso nunca foi algo ruim ou até mesmo tão diferente assim.
Um bom amigo meu foi ao Reading em 1996, quando vocês tocaram e disse que o show de vocês foi realmente bom. Ele também me contou que a energia do palco caiu algumas vezes durante a apresentação e que você bebeu uma cerveja do seu próprio sapato. E que você talvez tenha passado um pouco mal depois disso. Isso é verdade?
Não. Eu não passei mal. Eu fiquei bem, meus pés são limpos (risos). Sim, foi uma situação infeliz, foi tipo um conjunto de circunstâncias meio azaradas. Aparentemente isso acontecia direto no Reading naquela época. Parece que sempre acabava a energia do gerador mais ou menos no mesmo horário no palco em que a gente tocou. Eu não sabia disso, mas a gente tinha tipo… efeitos especiais, explosões de luz – coisas que nunca tínhamos usado antes – e pensamos: “Ok, vamos transformar isso num espetáculo. Vamos ver até onde conseguimos levar essa loucura”. E aí a energia acabou. Quando você está no palco no escuro – eu não sei por quanto tempo foi, talvez tenha sido só uns quatro minutos, mas parecia uma eternidade. Então acho que muito do que eu estava fazendo naquele momento era basicamente tentar manter as pessoas conectadas conosco, mesmo sem nenhuma eletricidade – estávamos no escuro, sem PA, sem nada. E não foi uma boa situação, sabe? Quero dizer, foi uma das piores coisas que já aconteceram durante um show nosso. E foi nesse mesmo momento que eu estava jogando cervejas para o público. Tinha uma luz, tipo uma luz de emergência, bem atrás de mim. E com ela eu conseguia ver as pessoas na frente. Mas eu não sabia que elas não conseguiam me ver por causa do ângulo da luz. Então eu estava jogando cervejas para a galera, e joguei uma que, aparentemente, acertou uma garota na cabeça, e ela se machucou. E ninguém me contou na hora. Depois do Reading, a gente saiu em turnê pela Europa e só quando voltamos para o Reino Unido é que me contaram. Não sei por que não me contaram antes, mas só me falaram quando voltamos. E disseram: “É, você vai ter que ir à delegacia… e ser preso.” E eu fiquei tipo: “Por que? Por que eu vou ser preso?” E eles: “Porque você fez isso.” E eu: “O quê? Como assim?” Então eu fui até a delegacia e eu me senti tão mal, sabe? Tipo, eu não queria… Quer dizer, como eu disse, eu só estava tentando transformar limões em limonada, dar cerveja para a galera e tentar manter as pessoas animadas. Não foi intencional, obviamente. E eu nem tinha ideia do que tinha acontecido de verdade, mas consegui pedir desculpas e tudo, e no fim das contas não deu em nada. Mas até hoje… sabe, eu aprendi muito com esse episódio. Não só que eu nunca mais vou fazer isso de novo, mas também que… sabe, eu quero que as pessoas gostem da banda — não me entenda mal. Eu não estou disposto a mudar nada do que faço artisticamente só para agradar. Mas quando termino algo que me empolga, eu quero compartilhar com as pessoas, e minha esperança é que elas gostem. Se não gostarem, tudo bem, elas estão erradas (risos). Mas tudo bem. Só que a última coisa que eu quero é ferir ou causar qualquer tipo de dano a alguém. Desconforto? Isso, tudo bem (risos). Mas machucar alguém, nunca. Especialmente alguém que veio ver um show. Então, mesmo depois de 30 anos, isso ainda é um daqueles arrependimentos que carrego. Me sinto péssimo por isso. E sei que ela já superou completamente, está bem e provavelmente nem pensa mais nisso. Mas penso nisso o tempo todo, até hoje. E ainda me sinto péssimo.

Vi alguns vídeos de vocês tocando recentemente com a sua banda solo e todos estavam usando camisas combinando, meio no estilo havaiano, em preto e branco. E claro, vocês sempre tiveram isso com o Rocket, de ter roupas combinando, vocês têm esse espírito de unidade, tipo os Ramones. Eu li que os primeiros shows que você assistiu foram Jackson 5 e Kiss, que obviamente são duas bandas completamente opostas, mas que têm, cada uma do seu jeito, esse apelo visual e de espetáculo muito forte. Você acha que, por esses dois shows terem sido os primeiros que você viu, isso de alguma forma ficou lá no fundo da sua mente quando você começou a tocar e pensava sobre o que queria apresentar para o público?
Com certeza. E mesmo uma banda como o The Damned. Bom, ok, eles não têm um uniforme. Mas quando você olha pra eles, parece que eles têm, sabe? Ou tipo os Ramones. Eu sei que eles se vestiam assim o tempo todo, mas quando você vê eles. Ver os Ramones pela primeira vez quando criança foi ainda mais impactante do que ver o Kiss quando eu era mais novo. Porque com o Kiss, você está olhando pra, tipo, personagens de gibi, algo maior que a vida. Mas com os Ramones, você está olhando pra caras da rua. E não parecia um ato, uma encenação. E ver os Ramones, Nova York, também parecia tipo um choque cultural quando você está crescendo em San Diego, perto da praia, pescando o tempo todo, esse tipo de coisa. Mesmo sendo no mesmo país, poderia muito bem ser em outro planeta, de tão diferente que era. Então sim, essas coisas definitivamente causaram uma grande impressão. E muitas bandas punk tinham isso. O Dead Kennedys, com o “S” que eles usavam com a gravata parecendo um cifrão de dólar. E o Devo…vendo o Devo muitas bandas pareciam ter uma estética que complementava o som. Então eu acho que com o Rocket, a gente só não queria parecer só um monte de caras em cima do palco, a gente queria parecer como uma coisa só. Então era isso. E começamos a fazer isso desde a primeira turnê e meio que nunca mais paramos. Acho que antes dessa primeira turnê, a gente não usava, a gente só usava o que tivesse por aí. Qualquer coisa. Acho que no primeiro disco, estou usando um maldito chapéu de cowboy. Deve ter sido a única vez que usei um chapéu de cowboy na vida. E eu decidi usar bem no disco. Tipo, quem faz isso? Eu nunca usei um chapéu de cowboy e aí resolvo usar um pra tirar a foto do disco.
Ah, estávamos falando sobre você tocar em Portugal e em outros países, mas você já foi convidado para tocar no Brasil com alguma das suas bandas?
Sim, sim. O Rocket foi chamado algumas vezes. Eu não lembro direito, sei que uma das vezes era para tocar com o Aerosmith e foi tipo “Sério? Uau. Tipo, ah, isso vai ser divertido. Tocar em uns shows de rock gigantes”. Mas acho que a gente tinha acabado de fazer uma tour com o Soundgarden ou algo assim. E foi tipo: “Sabe de uma coisa? Chega de shows de rock enormes, porra”. E o Aerosmith faz um show a cada quatro dias, então é uma turnê cara de participar, porque você acaba tendo muito tempo livre. Nunca tivemos uma oferta realmente boa no sentido de cobrir todas as despesas e coisas assim. A gente quer muito ir, e eu acho que agora com o Rocket é muito difícil para a gente sair em turnê, com todo mundo tendo trabalho, família. Um dos integrantes da banda é médico, outro é professor, e tipo… eu sou o fracassado da turma (risos). Mas é isso, se surgir o momento perfeito, a gente faria. E com certeza, “come to Brazil” virou tipo um meme, né?
Sim, o Offspring até lançou uma música chamada “Come to Brazil” – aliás, eles fizeram uma turnê por aqui há alguns meses, com o The Damned e outras bandas.
Sim. Eu definitivamente recebo mensagens, pessoas entrando em contato, especialmente agora… eu não uso muito o Facebook, mas uso o Instagram e sempre tem gente dizendo “vem pra cá”, “vem pra cá”. Eu adoraria, de verdade. O Rick falava muito do Brasil porque ele foi tocar aí. Pelo menos uma vez, talvez duas, mas com certeza uma vez ele fez aquela turnê com o Metz, o Mudhoney e o Obits (banda em que Rick tocava). E ele falava como foi foda pra caralho e como foi um dos lugares favoritos dele, que ele tinha curtido muito tocar aí (Nota: os shows em questão aconteceram em 2014 no Sub Pop Festival).

As duas últimas perguntas: me diga, por favor, três discos que mudaram sua vida e porque eles fizeram isso. Sei que é difícil escolher apenas três, mas seriam três dos discos que tiveram esse impacto em você.
É muito difícil, porque são tantos, e a lista vai mudar. Já começo dizendo: o que eu falar agora, amanhã pode ser diferente. Mas vamos lá. Três discos… Cara… Eu diria que um disco dos Ramones que mudou minha vida foi “End of the Century” (1980), que não seria uma escolha muito popular olhando de fora. Mas esse disco saiu quando eu tinha uns 12 anos. Era o disco novo dos Ramones na época, e eu era só um moleque. Então esse disco definitivamente mudou a minha vida. Depois, claro, eu voltei para ouvir e descobrir todos os discos anteriores e achar tanta inspiração neles. Mas se você pensar em como o rock estava naquele momento, com os instrumentos de metal e tudo mais, dá pra ver que esse disco teve mais impacto em mim do que eu percebi na época. Foi realmente importante para mim.
Em relação à guitarra, eu tenho que dizer que o “Rictus” (1989), do Honor Role. Esse álbum mexeu comigo, de verdade. Eu tinha visto a banda tocar — eles eram de Richmond, Virgínia — eles tocaram em Long Beach, na Califórnia, que fica a umas duas horas de carro de San Diego. Eu dirigi até lá para vê-los num show incrível com eles, Corrosion of Conformity e, se não me engano, o Bl’ast. Foi um show cru, intenso, bem no começo da cena hardcore. Eles eram tão diferentes de todas as outras bandas. Eu já tinha o primeiro disco deles, que eu curtia, mas dava pra sentir que estavam fazendo algo realmente novo, separado de tudo que rolava na época. Então eu esperava muito pelo lançamento do “Rictus”. Parecia que demorava uma eternidade para aquele disco sair. Mas quando finalmente saiu, já era meu disco favorito antes mesmo de eu ouvir, porque eu sabia que ia gostar. E ele superou as expectativas. O Pen (Rollings) é um dos meus guitarristas preferidos, e esse disco é talvez o mais próximo de se ter uma conexão realmente visceral e cheia de alma entre uma pessoa e sua guitarra naquele período. Aquela época carecia disso, e esse álbum trouxe isso. Era uma banda muito especial, muito mesmo. Rick e eu nos conectamos muito por causa desse disco, que acabou influenciando bastante o Pitchfork e mais tarde o Drive Like Jehu. As duas bandas foram muito influenciadas pelo Honor Role. Então esse seria o segundo.
E o terceiro… Eu nem lembro o nome do disco, preciso procurar. Era meio que um disco de exploração comercial, tinha só músicas dos anos 1950 e 1960, com uma foto enorme do Fonzie na capa (Nota: o disco é provavelmente chamado de “Fonzie Favorites” e saiu em 1976). Eu tinha uns 7 anos quando comprei, na época em que Happy Days era o maior sucesso da TV – eu era fissurado em Happy Days. Basicamente era um disco cheio de clássicos dos anos 1950 e 1960 — Coasters, Bobby Darin com “Splish Splash”, várias daquelas músicas que eram hits daquela época. Mas o mais curioso é que em cada lado do vinil, a última faixa era um esquete com dubladores. Tinha um cara imitando o Fonzie (não era o de verdade, dava pra notar), fazendo essas encenações de “ficar de boa com os amigos”. E também tinha o tema de Happy Days, a música da abertura do seriado.
Quando era criança, eu adorava esse disco. Só mais tarde percebi que, na real, ele foi o que me expôs pela primeira vez à música dos anos 1950 e começo dos 1960. Foi o meu portal para aquele tipo de som. Acho que isso acabou criando e enraizando em mim um amor por aquela era musical. Até hoje, minhas músicas favoritas continuam sendo das décadas de 1950 e início dos 1960. São as que eu coleciono até hoje, com certeza.
Essa é a última pergunta. Você tocou em várias bandas, influenciou muita gente, criou ou ajudou a recriar alguns gêneros e viajou o mundo com suas bandas. Existe alguma coisa da qual você se sente mais orgulhoso, de alguma forma, na sua carreira?
Existem certas coisas. Fico muito feliz sempre que faço um disco. Não considero isso como algo certo, algo garantido. Esse sentimento que tenho é porque leva muito tempo, e especialmente nessa fase da vida, quando as pessoas não têm tanto tempo para se dedicar a uma ideia. Então, eu sempre… É, “orgulho” é uma palavra estranha, não sei se é bem isso. Talvez seja uma forma de orgulho ou talvez apenas a sensação de realizar algo. É mais um sentido de propósito, porque no fim das contas estamos tentando encontrar nosso lugar aqui, na vida e no mundo.
Mas penso em algumas coisas. Por exemplo, quando o Drive Like Jehu voltou e nós tocamos com o órgão de tubos. Era uma ideia tão absurda, mas foi uma sensação incrível estar cercado de tantos amigos e familiares em San Diego. Eu amo muito minha cidade e cresci assistindo aos concertos de órgão nesse Pavilhão do Órgão. Então poder fazer uma espécie de desconstrução atonal de uma banda de rock naquele cenário lindo, naquele parque com aquele órgão gigantesco… havia algo de tão ridículo nisso, mas ao mesmo tempo me deu uma sensação muito forte de conexão com outras pessoas, com meus amigos, minha família e minha cidade. Foi um sentimento muito bom. E poder tocar com o Jehu de novo, mesmo que fosse uma versão meio “bastarda” da banda, ainda assim foi o que deu início à reunião. Então isso foi realmente especial.
Outra coisa: tocar no Top of the Pops algumas vezes com o Rocket. Não foi tanto um sentimento de realização, mas de algo surreal. Estávamos nos olhando como que dizendo: “Que merda estamos fazendo aqui?”. Eu gostei disso. E ainda tinha a legenda na tela escrito “Rocket from the Crypt”, e nós lá, completamente deslocados, sabe? Acho que até cancelamos algumas datas de turnê para voltar e fazer isso. E o engraçado é que uma das outras bandas que estavam no programa era, tipo, Os Smurfs. Não era nem uma banda de verdade. Então você ficava: “Caramba, é uma honra estar aqui. Quem mais está tocando? Os Smurfs? Nossa, que honra!”. A tradição de tanto talento e, no meio disso, Os Smurfs (risos). Foi ótimo.
– Luiz Mazetto é autor dos livros “Nós Somos a Tempestade – Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA” e “Nós Somos a Tempestade, Vol 2 – Conversas Sobre o Metal Alternativo pelo Mundo”, ambos pela Edições Ideal. Também colabora coma a Vice Brasil, o CVLT Nation e a Loud!