Entrevista: “Rondônia é uma terra indígena por direito, mas também é negra por história”, diz Marcela Bonfim

entrevista de Bruno Capelas

Destaque das duas últimas edições do Festival Casarão, Marcela Bonfim parece um segredo bem guardado de Rondônia. Ao longo dos últimos anos, ela vem chamando a atenção nos palcos do Estado com um repertório intenso e poético, que vem sendo gestado calmamente. Quem procura por seu nome nas plataformas de streaming, porém, pouco encontra. Felizmente, isso está para mudar – e radicalmente. Para 2025, ela promete não só o lançamento de um, mas de dois trabalhos diferentes.

O primeiro passo já veio no começo de julho, com o lançamento do single “Tereza”. Inspirada em Tereza de Benguela, líder de um quilombo na Amazônia, a canção antecipa “Amazônia Negra”, EP que venceu o edital da Natura Musical em 2022 e será lançado até o final do ano, com nomes como Thiago Maziero (Os Últimos) e Rodolfo Bártolo (Wari) na banda de apoio. Mais do que apenas evocar uma figura histórica, o trabalho busca reconfigurar o mapa da região.

“Quem chega em Rondônia costuma imaginar uma Amazônia indígena, uma Amazônia verde, dentro de tudo aquilo que está no inconsciente comum”, diz a artista. “Rondônia é uma terra indígena por direito, mas também é uma terra negra pelo fluxo, pela história – e é muito legal a gente celebrar essa presença negra”, complementa ela, em entrevista rápida ao Scream & Yell realizada durante o Festival Casarão, etapa de Porto Velho, no final de julho.

No papo a seguir, Marcela Bonfim não só se apresenta (“é uma surpresa que Rondônia revelou”), como também explica o que está por trás dos dois trabalhos que vem por aí – o outro disco, financiado com recursos da Lei Paulo Gustavo, tem como espinha dorsal a “cabeça de peixe”.

“Aqui, todo mundo sabe que a cabeça de peixe vale ouro. Lá fora, os caras deixam a cabeça de peixe de lado. O disco traz essa ideia: de falar sobre o ouro, o verdadeiro ouro que existe nessa terra”, diz a artista, que é economista de formação, mas descobriu no Estado a capacidade de se expressar como poeta, cantora e fotógrafa. “Rondônia me ajudou muito como uma mulher negra. O Sudeste ensina mal, mas Rondônia ensina muito bem”, diz. Leia a conversa abaixo.

Marcela, você foi um dos principais destaques do Festival Casarão em 2023, participando do show do Diogo Soares. Em 2025, você voltou a fazer uma grande apresentação. Mas antes de tudo, é importante saber: quem é Marcela Bonfim?
Marcela Bonfim é uma figura que chegou em Rondônia e se reconheceu como tudo aquilo que não pensava que existia dentro dela. Marcela Bonfim é uma surpresa que Rondônia revelou.

Você não é daqui?
Não nasci aqui, mas agora sou.

Uma das ideias que aparece no teu show é o conceito de “Amazônia Negra”, que é também o nome do seu disco que está para sair. Como surgiu esse projeto?
Esse projeto surgiu de uma quebra do imaginário. Quem chega em Rondônia costuma imaginar uma Amazônia indígena, uma Amazônia verde, dentro de tudo aquilo que está no inconsciente comum. Quando eu cheguei aqui e comecei a entender um pouco a cidade, percebi imagens que não imaginava existir – e, sobretudo, essa frequência da imagem negra. Quando começo a entender o que está por trás dessas imagens, surgem as histórias dos fluxos migratórios negros para a região, que envolvem tanto [a construção] da Madeira Mamoré, como o fluxo do ouro, o fluxo também negro que construiu o Forte Príncipe da Beira [em Costa Marques (RO), na divisa com a Bolívia], o Pará, o Maranhão, a Bahia. Nisso, começo a ver como essas ideias são passadas de uma forma diferente para a gente do lado de fora. Entendi o que é poder pertencer, estar do lado de dentro. O poder é conhecer e reconhecer uma coisa que a gente não imaginava, e o quanto isso pode mudar a vida de uma pessoa. Mudou a minha.

Você ganhou o edital da Natura Musical em 2021, então esse é um trabalho que está sendo gestado há um tempo. Quando é que a gente vai ouvir esse disco?
Na verdade, são dois discos. O primeiro sai agora pela Natura Musical, é um EP que a gente passou no edital em 2021. O primeiro single sai(u) agora em julho, o mês da mulher negra e afro-caribenha, que fala sobre Tereza de Benguela. “Tereza” fala sobre essa presença que existiu dentro da Amazônia, sobretudo em Rondônia, dentro desse deslocamento negro que aconteceu no século passado. A música conta um pouco dessa história. Agora, o segundo álbum que a gente vai lançar mais para o final do ano, pela Lei Paulo Gustavo, é um disco que traz o conceito da “cabeça de peixe”. Rondônia é uma terra que reúne muitos povos e muita cultura, que está latente aqui dentro. Aqui, todo mundo sabe que a cabeça de peixe vale ouro. Lá fora, os caras deixam a cabeça de peixe de lado. O disco traz essa ideia: de falar sobre o ouro, o verdadeiro ouro que existe nessa terra. Ao todo, são 16 faixas que vão chegar esse ano. O primeiro disco traz um contexto mais geral da terra, já o segundo vai trazer mais o ritmo da terra, o carimbó, até um pouco desse axé que existe em Rondônia, que é uma terra muito negra. Rondônia é uma terra indígena por direito, mas também é uma terra negra pelo fluxo, pela história – e é muito legal a gente celebrar essa presença negra.

É muito interessante, porque para quem vem de fora, a imagem de Rondônia muitas vezes é a da colonização branca, pelo sul, da cultura de gado.
Exatamente. Quando eu vim pra cá, muita gente me avisava: “olha, tem muito sulista”. Mas quando eu cheguei, deu um parafuso, rolou uma quebra. A terra foi me explicando devagarinho. A fotografia foi essencial para isso. A partir da imagem, comecei a entender como os negros foram chegando aqui. E a musicalidade, logo em seguida, foi me ajudando inclusive com a fotografia. A gente fotografa com o ritmo, né? Entendo que uma coisa está dentro da outra – tanto que acredito que os dois álbuns são mais do que apenas musicais. Eles são imagéticos. Unir o útil ao agradável, dentro desses dois processos, é muito fabuloso.

E quais são os planos para mostrar esse show para o resto do Brasil?
Em 2026, a gente tem que andar. Estamos inscrevendo vários projetos em editais. Um álbum autoral é uma conquista nossa de cada dia. A gente corre muito por todos os lados para poder fazer acontecer. Rondônia me ajudou muito como uma mulher negra. Eu vinha de um conceito muito complicado. O Sudeste ensina mal, mas Rondônia ensina muito bem. Hoje eu entendi o que é uma carreira autoral. Eu nunca imaginei poder fotografar, cantar, fazer tudo o que eu faço. Eu sou economista de formação, vim para cá procurar um primeiro emprego – e olha quanta coisa eu achei. Achei uma nova forma de fazer economia, que busca um espaço, um lugar. E agora estamos correndo atrás para o ano que vem, inscrevendo em editais de circulação, mas tentando fazer o corre daqui. Não volto mesmo para São Paulo. Quero é fazer um show a partir daqui, buscando tocar o nosso coração primeiro, para depois encontrar o coração de quem a gente conseguir atingir. Uma hora a gente chega lá.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010. 

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