Teatro: “Não é um filme” rememora o jogo das comédias românticas para falar sobre novas cirandas afetivas no mundo gay

texto de Renan Guerra

Nos anos 2000 acompanhamos o canto do cisne das videolocadoras: migramos do VHS para o DVD e, em tempo recorde, fomos vendo uma a uma delas minguar, até a quase extinção desse espaço único em nossas memórias. Neste caminho dos anos 2000, assim como as locadoras iam fechando, fomos vendo as opções de filmes de comédia romântica diminuir a cada ano; com menos rom-coms chegando aos cinemas chegou a se falar na morte desse gênero. Mas ainda há muito amor nesse mundo e as rom-coms foram só ganhando novas formas: o streaming deu sobrevida ao gênero e mostrou que é tempo de contarmos outras histórias. E aí você se pergunta: vamos falar aqui de cinema ou de teatro? É teatro, mas feito por quem também ama cinema. “Não é um filme”, peça com direção de Augusto Baraldi e texto de Fernando Américo, fala sobre os amores de personagens em torno dos 30 anos, uma geração que cresceu alugando filmes românticos em videolocadoras e que acabou num mundo com cada vez menos filmes de amor e sem qualquer resquício das nostálgicas lojas de aluguel de filmes.

“Não é um filme” gira em torno de quatro personagens que circulam pelos mesmos meios: Caio (Mário César), Bernardo (David Pussi), João (Rodrigo Reis) e Olavo (Gui de Rose). Caio, que vive entre múltiplos encontros casuais marcados via aplicativos, convence seu melhor amigo, Bernardo – solteiro há um ano -, a explorar o mundo dos encontros amorosos. Só que Bernardo não esperava que João fosse se apaixonar tão rápido por ele, logo após um encontro. Nem João esperava que Bernardo fosse lidar tão mal com os próprios sentimentos – e com a reaproximação do ex-namorado, Olavo. A quadrilha de Drummond em versão pós-moderna: “João que amava Bernardo que ainda não sabia se seguia amando Olavo que gostava mesmo é de sair pela noite entre bares e cinemões – diferente de Caio que só saía direto para um encontro com quem já tivesse local”. Com isso, o texto de Fernando Américo parte de um recorte específico da comunidade gay para se desdobrar sobre a fluidez e as incertezas dos relacionamentos atuais – sejam eles gays ou heterossexuais.

Em curta temporada (quartas e quintas: ingressos aqui) no Teatro Pequeno Ato, na Vila Buarque, em São Paulo, o espetáculo se aproveita do pequeno espaço para criar possibilidades cênicas bastante ricas em sua simplicidade: um apartamento em mudança é o ponto de partida, mas a cada remodelação dos pequenos assentos presentes no palco, o público é convidado a passear por livrarias, cafés, baladas e, claro, cinemas – dos comuns aos +18. O título diz “Não é um filme”, mas poderia ser, pelo menos é o que idealiza Bernardo, que ainda vive suas fantasias nostálgicas nascidas entre as gôndolas das videolocadoras, por isso mesmo o espetáculo é recheado de referências e pequenos acenos ao cinema, bem como a outras artes, como um divertido uso de “O Quarto de Giovanni”, de James Baldwin ou nas refs musicais, que vão de Sonic Youth a uma trilha sonora que pula de Tim Bernardes e Djavan a hits pop LGBTs.

“Não é um filme” brinca com os clichês e as nuances das comédias românticas: estão ali o vai e vem dos casais, as dúvidas dos relacionamentos e os altos e baixos, entre o drama e o humor. Essa estrutura transforma o espetáculo em um respiro de leveza, sem a necessidade de se transformar em um tratado baumaniano sobre os relacionamentos modernos, mas funciona muito mais como uma polaroid geracional, uma registro simples sobre os amores em tempos de apps, sexo casual e avanço das liberdades LGBTQIA+. Durante cerca de 80 minutos somos convidados a vivenciar aqueles dramas dos quatro jovens personagens e esquecemos um pouco dos dramas maiores do mundo, tal qual numa boa comédia romântica, em que nos interessa mais a sedução, os encontros e os desenlaces de cada casal ali em nossa frente. Com isso, o espetáculo dirigido por Augusto Baraldi e escrito por Fernando Américo se torna uma fugaz alegria para quem ainda acredita – e se encanta – com o amor; seja no teatro, no cinema ou na vida real…

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

One thought on “Teatro: “Não é um filme” rememora o jogo das comédias românticas para falar sobre novas cirandas afetivas no mundo gay

  1. Eu já vi e quero rever! Um espetáculo que te prende pq todo mundo passou ou conhece alguém que passa pelos dramas das personagens.

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