Crítica: “Superman” é, de longe, o filme mais desavergonhadamente orgulhoso de suas origens quadrinísticas

texto de Davi Caro

Ao longo dos últimos 20 anos, o grande público pôde testemunhar duas tentativas, bastante distintas entre si, de transpor o Superman, personagem símbolo da DC Comics, para as telas do cinema. Enquanto o Homem de Aço vivido por Brandon Routh (em “Superman: O Retorno”, de Bryan Singer, lançado em 2006) tinha sua caracterização direta e propositalmente baseada naquela outra interpretação imortalizada por Christopher Reeve – uma vez que o longa dava sequência à série de filmes iniciada em 1978 com “Superman: O Filme” – o herói kryptoniano incorporado por Henry Cavill no malfadado Universo Expandido DC (ou DCEU) era sério, “realista”, cheio de conflitos éticos. Se as produções que carregaram a marca imposta por Zack Snyder em “Homem de Aço” (de 2013) ajudaram a encaminhar tramas, por certo, interessantes – ao longo dos projetos a contar com esta personificação do personagem, que se estenderam até 2022, com o pífio “Adão Negro” – estas também tiveram o efeito colateral de “messianizar” a figura do Superman, sempre retratada como um sujeito acima da espécie que o cerca e que o adotou. E que o mesmo jurou proteger.

“Superman”, de James Gunn (2025), usa seus primeiros minutos para desafiar e desmantelar boa parte destes estigmas. O longa representa o primeiro passo cinematográfico dentro de um novo universo expandido, sob o guarda-chuva conceitual dos DC Studios, e supervisionado pelo cineasta junto do parceiro criativo, Peter Safran – embora tanto o documentário “Super/Man: A História de Christopher Reeve” quanto a série animada “Comando das Criaturas” tenham precedido o novo filme como parte da nova iniciativa. Contando com David Corenswet (de “Pearl”, entre outros) na pele do protagonista Kal-El, Gunn deixa suas intenções claras desde o início: embora acenos e reverências respeitosas a encarnações anteriores existam, este Superman é muito diferente. E, paradoxalmente, bastante familiar.

Esta familiaridade é reafirmada nos já mencionados primeiros momentos da nova adaptação. Ao invés de se preocupar em gastar precioso tempo de tela reintroduzindo uma figura cuja história de origem já mora no imaginário popular, o diretor faz uso (bastante esperto) de textos para apresentar o novo universo, assim como a principal característica deste novo Superman: sua falibilidade. Seu primeiro momento em tela é, afinal, não uma tomada aérea triunfal, e sim uma vertiginosa e dolorosa queda livre rumo ao solo. Este kryptoniano não apenas sangra, como comete inúmeros erros ao longo das imperceptíveis duas horas de filme. Verdadeiro a sua essência, entretanto, o herói se mostra capaz de aprender com os erros, sem deixar de lado a esperança e a bondade que carrega em seu âmago.

Três anos após se apresentar oficialmente ao mundo, o protetor alienígena lida com as consequências de seu envolvimento, totalmente unilateral, em um conflito armado entre dois países fictícios, Boravia e Jarhanpur. Se posicionando em favor da população oprimida do segundo país (no primeiro de muitos comentários não tão sutis que conectam o filme aos eventos atuais no mundo real), Superman – e seu alter-ego, o jornalista Clark Kent – precisam lidar com as repercussões de seus atos, que se impõem de todos os lados: seja por meio de sua colega e namorada, a intrépida repórter Lois Lane (Rachel Brosnahan), seja da parte de seus colegas super-heróicos (e membros da promissora equipe “Gangue da Justiça”), ou, mais crucialmente, do ponto de vista governamental, que luta para entender como lidar com a presença de um ser mais poderoso que qualquer potência geopolítica – e, potencialmente, muito mais perigoso. E é aí que entra em cena Lex Luthor (Nicholas Hoult), um inescrupuloso e maléfico executivo disposto a qualquer coisa para eliminar o que percebe como uma ameaça extraterrestre à supremacia humana, com planos sinistros que, incluindo a violenta metahumana Angela Spica, AKA Engenheira (Maria Gabriela de Faria) e o misterioso Ultraman (com poderes muito similares aos do Homem de Aço) ameaçam não apenas Kal-El, como também a raça humana como um todo.

A capacidade de James Gunn em trazer à vida personagens e narrativas das HQs para as telas é, à esta altura, no mínimo indubitável. Basta olhar seus trabalhos ao lado da concorrente Marvel (onde o diretor construiu êxitos enormes com a trilogia “Guardiões da Galáxia”) ou seus esforços junto à própria DC (com quem iniciou seus trabalhos com “O Esquadrão Suicida”, de 2021). Mesmo levando em consideração os sucessos colecionados pelo cineasta nos últimos anos, é muito bom poder dizer que “Superman” é, de longe, o filme mais desavergonhadamente orgulhoso de suas origens quadrinísticas a chegar aos cinemas em muito tempo. O trunfo aqui não está só em criar uma produção que apele para o público em geral, capaz de ser compreendida por espectadores de todas as idades e com diferentes níveis de familiaridade com as histórias originais. Para além disso, Gunn e Safran deram um primeiro passo em um universo que carrega com louvor referências da Nona Arte que são capazes de fazer qualquer nerd de primeira hora pular na cadeira de satisfação. Em um mundo no qual boa parte dos fãs de filmes baseados em HQs raramente se dispõe a procurar contato com o material original, é fenomenal poder testemunhar um longa que, de forma espontânea, tem o potencial de gerar mais curiosidade para, e despertar interesse por, histórias em quadrinhos. Os efeitos visuais, aliás, são parte fundamental disso: esbanjando cores e fazendo uso de espertas tomadas e ângulos, a experiência de acompanhar um filme inspirado em quadrinhos nunca foi tão imersiva.

Mas é claro que o dinâmico enredo criado pelo diretor não funcionaria sem um elenco à altura da empreitada – e mais uma vez Gunn merece aplausos: David Corenswet encarna o Superman em sua faceta menos amargurada, e decididamente mais esperançosa e (no melhor sentido) ingênua com identificação e entrega ímpares. Além de incorporar muito do que catapultou a interpretação de Christopher Reeve ao status de icônica, a versatilidade do ator ao intercalar entre o destemido herói e sua tímida identidade secreta é uma peça chave para o que, ao longo dos anos, deve se provar uma atuação memorável. E sua química irresistível com o resto do elenco é instrumental para o triunfo do novo filme: Rachel Brosnahan conjura a determinação que esbanjou em seu papel à frente da série “A Fabulosa Sra. Maisel”, e sua Lois Lane se sobressai em sua determinação e caracterização impecáveis, totalmente no comando das cenas em que aparece enquanto canaliza muito da energia caótica trazida pela saudosa Margot Kidder no filme de Richard Donner. Os outros heróis apresentados no filme vão além de serem meros coadjuvantes: Nathan Fillion nasceu para o papel de Guy Gardner, o debochado, briguento e arrogante Lanterna Verde da Gangue da Justiça (papel este que o ator deve reprisar em “Lanternas”, vindoura série live-action do DC Studios); Isabela Merced traz um tipo de energia parecido com o de sua personagem na recente segunda temporada de “The Last of Us”, embora sua Mulher-Gavião aqui pudesse se beneficiar de mais tempo de tela; e Edi Gathegi, no papel do estoico Sr. Incrível, é o mais bem desenvolvido dos outros vigilantes explorados no longa, com seus momentos de seriedade entrecortados por respiros muito bem vindos de bom humor.

Salvo exceções – como o muito bem caracterizado Jimmy Olsen de Skyler Gisondo, nunca tão fiel ao personagem dos quadrinhos – o restante do elenco de apoio cumpre seus breves papéis com louvor: Beck Bennett, Mikaela Hoover e Christopher McDonald têm breves, embora eficazes, passagens como os repórteres Steve Lombard, Cat Grant e Ron Troupe, todos membros do jornal Planeta Diário. Cabe uma ressalva à pouca participação do excelente Wendell Pierce, cujo Perry White merecia mais atenção. Do lado dos antagonistas, porém, a situação é um pouco diferente: a dualidade do personagem Metamorfo, vivido por Anthony Carrigan, é explorada de forma rápida, porém certeira, e faz crescerem as expectativas por futuras aparições do personagem. Maria Gabriela de Faria e Sara Sampaio são como extremos opostos em suas atuações: enquanto a Engenheira da primeira é mais unidimensional em sua obstinação, a Eve Teschmacher da segunda contém subtextos que surpreendem em seu desenvolvimento, um dos muitos aspectos que servem como testamento para o esmero na confecção do roteiro. Mas, acima de qualquer coisa, é imprescindível exaltar a rica interpretação de Nicholas Hoult. Trilhando um caminho à parte das versões anteriores do eterno antagonista do Superman, seu Lex Luthor é mais maquiavélico e perturbado do que qualquer outra encarnação do personagem já vista em tela, algo como um equilíbrio entre a mitomania classuda de Gene Hackman (que viveu Lex em 1978) e a a dubiedade perturbadora de Michael Rosembaum (que esteve na pele do vilão em “Smallville”). Talvez seja a maior surpresa do filme, e serve como a constatação definitiva de que Hoult é um dos mais impressionantes atores de sua geração. E não se pode deixar de mencionar o Super-Cão Krypto, vivido pela atriz canina Jolene a partir de modelação 3D. Com sua desobediente e adorável personalidade baseada no cachorrinho Ozu, adotado por James Gunn no início da produção do filme, Krypto rouba todas as cenas nas quais aparece, e é a carta na manga de um filme repleto delas. Aliás, falando em cartas na manga: Pruitt Taylor Vince e Neva Howell brilham em suas interpretações como Jonathan e Martha Kent, figuras chave em um roteiro que subverte muito do que já foi feito em relação ao protagonista nos cinemas, com excelentes resultados.

Balancear tantos elementos em um filme relativamente curto é um desafio para poucos. Quem dirá se utilizar de tais elementos para trazer à tona questões delicadas, embora necessárias: “Superman” é, como não poderia jamais deixar de ser, a história de um imigrante, criada originalmente por dois filhos de imigrantes (Jerry Siegel e Joe Schuster) e, como tal, suscita perguntas que ressoam pertinentes no cenário atual que o mundo vive. A caracterização de Luthor é uma referência nem um pouco velada a muitas personalidades (e provavelmente uma em especial) que podem ser vistas em noticiários de todo o mundo, e determinadas passagens do roteiro não poupam esforços em mostrar o posicionamento de Gunn, Peter Safran e do DC Studios, frente a acontecimentos como o genocídio assistido da população da Palestina por parte de Israel. Tal comprometimento, aliado à capacidade de contar boas histórias, são apenas alguns dos muitos motivos para se ter esperança pelos próximos passos deste novo universo.

Estas (entre muitas outras), são algumas das razões pelas quais “Superman” é um filme que, nas semanas, meses e anos por vir, deve ser debatido, reassistido e conversado. E este é, desde o início, o objetivo nada velado do longa. Richard Donner fez, em um já distante 1978, o mundo acreditar que um homem poderia voar. Coube então a James Gunn salientar (ou ajudar a relembrar) a fundamental humanidade por trás da capa, do uniforme azul e vermelho, ou de uma herança ao mesmo tempo alienígena e tão terráquea. O Superman sempre foi, e segue sendo, o mais virtuoso dos heróis dos quadrinhos – e nunca foi tão fácil recordar-se do porquê.

Leia também: “Superman”, de James Gunn, é divertido, reflexivo e violento na medida certa

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

16 thoughts on “Crítica: “Superman” é, de longe, o filme mais desavergonhadamente orgulhoso de suas origens quadrinísticas

  1. Interessante – não curto nem um pouco esse personagem – mas não é disso que se trata. É o primeiro texto que leio que elogia esse filme. Até agora, o que li é bem distante dessa análise. Como não verei, apenas acompanho os textos diversos de forma curiosa.

    1. De fato, é um filme que deve seguir dividindo opiniões – o que, é claro, não é problema algum, visto que só enriquece o debate sobre os temas abordados. Pessoalmente (e como fã do personagem), até veria de novo 🙂

    1. A origem do personagem é essa, o filme foi fiel. Achar que sensibilidade é destronar um ser poderoso é típico de quem não entendeu nem quer entender aensagem.

    2. Começar o filme e ver ele sangrando ja não da ne? Ele é de aço e nao de carne e osso, e pra estragar de vez, um cachorro com super poderes, esses novos diretores viajam na maionese, estragam todo um legado, pra que mais de duas horas de uma história assim, quem sabe oque é o filme supermam sabe oque estou dizendo. Que porcaria!!

    3. Assisti quando bem criança alguns dos originais de Christoffer Reeve e moderadamente assisto a filme de heróis , isto é sem exagerado fanatismo, porém em contraste com os últimos bons filmes que vi da MARVEL, percebo um clima de Esperança, Bondade e até mesmo de ingenuidade, todas essas 3 citadas estão quase em desuso – seja na humanidade em geral, seja nos próprios filmes de heróis… SUPERMAN, resgata agora o desejo de revermos esses filmes com carisma, uma leveza que é inclusive levada a algumas cenas de luta e a preocupação de cuidar, curar e proteger ( de pessoas, cachorros e até esquilos ).
      É um antigo novo simbolo – e que todos nós precisamos sim, quer assistamos ou não filmes de heróis.
      O herói mais empático que já vi !

  2. Colocaram os pais biológicos como vilões. Ele apanha demais, longe das proezas dignas de um dos seres mais poderosos do universo. Uniforme que é incompatível com os dias atuais (cultura, com todo desenvolvimento tecnológico, etc). E o que dizer de um Lex dando chilique e chorando no final!!!!! Esse perfil de superman meio boco esta longe de representar a grandeza que ele esta destinado. O filme é ruim? Não, mas longe de ser um super sucesso. Filme bonzinho de assistir. Eu ainda aguardo uma versão repaginada, atualizada e coerente do kal El. As pessoas ficam muito estericas querendo preservar tudo como o original. Impossível, isso não ira manter o publico. Nas continuações, a bilheteria irá cair. O mundo mudou. Precisamos preservar a essência, não figurino ou perfil de personalidade.

    1. Entendo seu argumento. Vale lembrar que a fragilidade do Superman como personagem procede de várias interpretações (bastante aclamadas, diga-se de passagem) do personagem em diferentes mídias. Mas diversas opiniões ajudam a enriquecer o debate, o que é sempre bom. 😉

  3. Pior filme “super”man. Terror!!! A gente ja sofre na vida, ai tem que ir ao cinema para ver o “super” man apanhando o filme inteiro… tragédia. Sem falar que esse filme parece da marvel, sem falar que tem muito humor sem graça, sem falar que descaracterizou o personagem com esses humores. Pensei que esse produtor ia ajudar a DC, mas pra mim só piorou.

    1. Realmente, este pode não ser um filme que necessariamente agrade todo mundo. Mas o próprio James Gunn comentou sobre trabalhar com diferentes visões criativas nos próximos projetos e personagens que serão apresentados…então, para quem não curtiu este, ainda pode haver esperança para o futuro bem próximo. 🙂

  4. Infelizmente serei obrigado a discordar de boa parte dos comentários do filme. Ainda que o longa possa ser a adaptação mais fiel aos quadrinhos, ele peca pelo excesso de não realismo cômico que ditam o ritmo do roteiro. Enquanto os filmes anteriores do personagem buscavam deixar a história um pouco mais próxima de uma realidade (não fosse um personagem baseado em ficção não científica), a mais nova adaptação realmente deixa claro que o Superman é um personagem de ficção, num mundo escancaradamente ficticio, transpondo o absurdo, por vezes. Isso faz com que as pessoas como eu não se sintam tão imersas no filme. Não consegui comprar o personagem, muito embora reconheça o esforço dos atores, alguns em excelente trabalho, como Nicholas Hoult. Infelizmente este filme me decepcionou bastante, sob vários aspectos e me trouxe uma certeza de que eu não seria tão fã do personagem se ele tivesse sido retratado desta forma nos filmes anteriores. Saudades do realismo e da interpretação icônica de Chris Reeve no filme dos anos 70. Muitas saudades do realismo do filme e do personagem de Henry Cavill, carregado de conflitos tão reais que nos faziam acreditar que aquilo realmente poderia acontecer em nosso mundo, por mais que soubessemos ser uma história de ficção. E, por fim, muitas saudades da inocência cômica meio distópica do personagem vivido por Tom Welling, esta sim talvez sendo a adaptação não só fiel ao personagem dos quadrinhos, mas, na maior parte das vezes, realista o suficiente para para nos mater imersos naquele universo sem que tivessemos a certeza de que se trata de uma história em quadrinhos transportada para o cinema. Infelizmente esta nova versão do personagem enterrou o desejo de assistir qualquer continuação desta ou de qualquer outra história envolvendo os heróis do nosso universo DC.

Deixe um comentário para Claudionor Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *