Entrevista: O quarteto A Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável fala sobre seu novo EP, “ident II dades”

entrevista de Danilo Souza

Formada em 2022, a banda paulista A Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável tem um álbum cheio, dois EPs e alguns singles, dentre eles um cover de “Olhar Pra Trás”, da terraplana, e “A Odisseia de 80 Dias”, um épico de quase 19 minutos que combina, em alguns trechos, bateria acelerada, solos metalizados de guitarra e vocais desesperados, para, depois, ser conduzida levemente por piano e teclado. O nome, “sorteado” em uma roleta do Google, os aproxima de outra banda indie paulistana, E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, e tudo isso serve de pistas para o que o ouvinte irá encontrar quando der play em algum som dos caras. Mas não só…

“A gente não fez (o primeiro disco) pensado para ser shoegaze, aconteceu”, revela o guitarrista e vocalista João Zablonski, que define a sonoridade do álbum “a terra vai se tornar um planeta inabitável”, lançado em janeiro de 2023, como resultado da pouca técnica da banda na época, aliada ao material para produção, ainda escasso. “Na nossa cabeça era post rock. (Mas) Nos projetos seguintes, a sonoridade ficou melhor”, acredita Zablonski – completam a banda Guilherme Oliveira, Felipe Amaral e Carlos Eduardo.

Em junho, o quarteto liberou o EP “ident II dades” (2025), com seis faixas (em pouco mais de 16 minutos) que reforçam a estética experimental da banda, que compõe sobre relacionamentos, despedidas e o fim do mundo. O EP já faz parte de um processo de paixão do quarteto pelos shows. “Lançamos de dia, chegamos de noite para tocar e os caras já estavam cantando a música, todo mundo”, conta um impressionado João Zablonski, que ainda revela que a banda já está trabalhando no segundo disco com foco no ao vivo: “É muito mais bonito assim”, diz ele. Leia a conversa na integra abaixo.

Ouça o EP na integra abaixo

Vamos começar pela gênese: quando e como foi o Big Bang da A Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável? Há quanto tempo vocês se conhecem?
Em meados de 2022, eu estava sem fazer nada, tinha acabado de chegar de um lugar com amigos, a gente estava passeando e eu estava com a ideia de fazer uma banda. Esse negócio estava na minha cabeça fazia muito tempo. Então cheguei em casa e tinha uns amigos na internet que faziam música, já estava começando a borbulhar um negócio no Twitter de gente fazendo música e fiquei muito interessado. Pensei: “Pô, cara, também sou músico, mas não tenho banda”. Tinha um amigo (de longa data) chamado Caio Bueno, mandei mensagem pra ele – ele era musicista também. A gente trocou uma ideia: “Vamos fazer um projeto?”. Aí eu pensei em mais gente para chamar. Chamei um outro amigo também e aí a gente começou a rascunhar esse projeto de noite, tipo, no mesmo dia! A gente já começou a abrir a ideia de nome, de qual sonoridade a gente poderia fazer e tal. De começo, a gente chegou na ideia do nome assim: cada um da banda deu três nomes e ninguém sabia qual era o melhor, [então] falamos: “Vamos colocar num site de roleta no Google e o que cair a gente usa, não pode trocar”. Aí ficou A Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável.

Por qual motivo vocês optaram por explorar essa sonoridade um pouco mais experimental, o que, de certa forma, faz com que não seja possível definir um estilo musical exato para a banda? Isso é bom?
É que às vezes acontece sem querer, sabe? No primeiro disco a gente não fez pensado para ser shoegaze, aconteceu porque nosso nível de técnica, na época, era muito escasso e o que a gente tinha de material para produzir também era muito escasso. Então acabou sendo tudo de baixa qualidade e gerou esse negócio shoegaze, mas a gente nunca pensou no disco em si. Na nossa cabeça era post rock. Era uma influência que a gente tinha na época. Só que aí a gente foi trabalhar em outros projetos e a sonoridade melhorou, a gente ficou mais acostumado a trabalhar, e surgiu essa possibilidade de a gente fazer, sei lá, a cada lançamento, um gênero diferente que acaba ficando muito distante do outro (que havíamos feito).

Porque se você pegar o primeiro disco e ouvir na íntegra, você vai achar uma coisa. Se você pegar “A Odisseia de 80 Dias”, que é uma música nossa de 20 minutos, vai achar outra coisa. Nossa cabeça vai mudando, a gente vai amadurecendo nesse meio tempo, então nunca acaba sendo a mesma coisa. Acho que é bem positivo, porque é um diferencial que a gente encontrou nesse nosso modo de fazer as coisas. Porque a gente geralmente pensa e ouve coisas muito parecidas, as nossas influências são quase as mesmas, mas aí, sem querer, no processo, uma coisa muda totalmente e o resultado fica dissonante. Acho isso muito lindo.

Pensando nessa questão, isso abre um leque de possibilidades para ter mais referências para suas letras e composições. O que toca nos fones de ouvido de vocês?
Eu sou mais da MPB, do rock mais leve; o Gui já gosta das coisas japonesas e nunca está ouvindo uma coisa mainstream, o mais [mainstream] que ele ouve é Mac DeMarco, que todo mundo conhece, mas ele entra para mostrar uma música e mostra uma que foi gravada por uma banda em 1990, só tem aquele lançamento no YouTube e ninguém sabe quem que é o cara que fez a música (risos). Aí tem o Edu, que gosta de um negócio mais pesado, mais porrada. Cada um traz uma vertente e a gente consegue se encontrar nesse meio termo de tudo que a gente gosta, sabe? A gente sempre faz uma música pensada por querer agradar o meu eu, o eu do Edu, o eu do Gui. Porque a gente pensa não só na diversão de tocar a música juntos, mas na diversão de se agradar primeiro e a sonoridade de cada um estar confortável tocando o que gosta realmente, porque é totalmente diferente a gente fazer uma música que, sei lá, só eu trouxe a música e fazer uma música que todo mundo colabora e que todo mundo traz aquele sentimento, aquela virtude que só ele tem tocando. É uma referência musical individual, acho muito bonito também.

Em 2023 a banda lançou seu álbum homônimo de estreia (acima), que foi produzido e publicado de forma independente. O que esse disco significa para a história do grupo e de que forma o processo de ser responsável pela produção total das faixas impactou vocês?
Foi um processo muito doido que a gente pegou do começo ao fim trabalhando intensamente à distância, então dificultava tudo. E aí, depois que a gente lançou, teve um sentimento de conforto e de paz, a gente se encontrou musicalmente, porque deu muito trabalho fazer. De 15 músicas que a gente fez, só nove ficaram, tem músicas que a gente fez e nunca lançou. Mas a gente encontrou um momento de paz, de conforto, um sentimento que a gente tem hoje só de agradecimento, porque foi o trabalho que levou a gente para lugares que a gente, hoje em dia, não imaginaria chegar se não fosse esse lançamento. É muito individual esse sentimento para cada um. Cada um ali pensa de um jeito, mas para mim, que sou o único daquela [primeira] formação, é muito gratificante, porque acho que não tem nada mais bonito do que a arte explícita que a gente fez naquela época, com o pouco recurso que a gente tinha. (Tem música que) a gente chegou a fazer no celular gravando com a guitarra dentro do guarda-roupa. Foi um processo muito lindo. O sentimento que eu tenho é de agradecimento mesmo e paixão por esse trabalho.

Depois veio o EP “o fim é um começo” (2024), que, inclusive, é colaborativo com outra banda, a Magnólia. Vocês lançam por meio de um selo musical, o “Quituts”. Fazendo um paralelo entre a produção independente e a produção colaborativa com um outro coletivo, o que vocês sentiram e perceberam de diferente?
No processo individual como banda, a gente leva mais em consideração passar um tempo junto do que fazer música. A gente preza muito o contato, da gente se encontrar e ficar conversando antes mesmo de começar a realizar uma produção de uma música, então as ideias surgem (de forma) muito natural. Num processo colaborativo é mais difícil porque a pessoa chega e está “de outra cor” para a gente, sabe? Geralmente quando a gente está fazendo uma música de banda, a gente está todo mundo amarelo, por exemplo, e chega uma pessoa diferente, de azul. E as ideias ficam diferentes. É um processo muito mais difícil, acaba saindo quando vem com uma ideia legal, mas é difícil.

Tem um single bem interessante e curioso da banda, “A Odisseia de 80 Dias”, que é uma música com 18 minutos de duração. O Spotify chega a caracterizar como um EP por conta disso, mesmo sendo um disco de apenas uma faixa. Levando em consideração o padrão de consumo e produção da indústria da música, isso, hoje, é uma loucura. Como vocês lidam com essa questão das plataformas de áudio e de vídeo, onde tudo tem que ser condensado em dois ou três minutos para ser aceito e consumido pelo público mainstream?
Hoje em dia é mais preocupante do que era antigamente, sabe? No começo a gente fazia por fazer mesmo, porque a gente gostava e tal. Hoje em dia a gente pensa em fazer músicas mais compactas para o processo de distribuição, que é para gerar renda para gente conseguir viver só disso e, especialmente, ter só esse caminho para fazer, ter só esse zelo, ter a liberdade de tempo de fazer uma música. Então a gente, hoje em dia, pensa por um caminho mais comercial do que era antigamente, mas na época foi doideira. A gente se reuniu e durou, sei lá, três semanas de produção, ficando todo final de semana junto. A gente nem imaginava que ia chegar a 20 minutos de música, a gente só foi fazendo, fazendo, fazendo, fazendo e chegou. É o maior trabalho que a gente tem até hoje disparado, a gente lançou sem pretensão nenhuma e é uma música que atingiu, sei lá, 30 mil streamings em menos de um ano de lançamento. A gente não entendeu, ficou todo mundo: “Pô, como é que essa música tem 30 mil streams? Ela tem 20 minutos!”, e tem música de, sei lá, dois minutos, que tem 10 mil, 15 mil, não chega nem perto. É o nosso trabalho mais elogiado, que se compara muito ao Pink Floyd, com as doideiras da vida aí.

E de que forma vocês enxergam esse mainstream enquanto artistas? É um objetivo? Consideram que o som de vocês seria aceito pela grande massa?
Os trabalhos que a gente fez até agora são mais nichados para agradar o nosso público, que já é fiel desde o começo da banda. Mas a gente hoje em dia pensa em fazer músicas que, sei lá, de algum jeito, consiga furar essa bolha. A gente quer fazer isso do nosso jeito. Acho que a massa que domina isso ainda é muito plástica, é muito reta, tem que fazer certinho para realmente dar certo e tal. Mas a gente quer tentar fazer isso do nosso jeito.

Vocês já se apresentam ao vivo, inclusive fizeram dois shows alguns dias antes dessa conversa. Experimentar no palco é muito diferente do experimentar em estúdio? O que veio de novo com o som ao vivo?
Eu acho que ficou a facilidade da gente compor. Antigamente a gente não tocava ao vivo, era só banda de estúdio mesmo. E aí no começo desse ano a gente começou a se apresentar ao vivo e era mais ou menos assim: a gente tocava as músicas e sentia que as músicas no ao vivo funcionavam mais que no estúdio. Então, hoje em dia a gente faz música mais pensada para tocar ao vivo do que para funcionar em estúdio. Porque a energia do show é totalmente diferente e parece que é um negócio mágico. E para gente é muito mais gratificante tocar ao vivo do que só ficar lançando música. A gente já pensa nos instrumentos. Tipo, se tem dois guitarristas, a gente pensa, “pô, vamos colocar umas duas guitarras”. Na música não dá pra colocar quatro guitarras, senão vai ficar um pouco difícil de fazer [ao vivo]. A gente pensa de uma forma muito diferente do que quando a gente fez antes.

E o público tem abraçado vocês no ao vivo, além do Spotify?
Pô, demais, tinha galera cantando as músicas que a gente tinha lançado no dia do show de abertura do EP. Lançamos de dia, chegamos de noite para tocar e os caras já estavam cantando a música, todo mundo. A gente ficou muito louco, porque é de outro mundo, a gente não é nem famoso para isso. Depois que acabou o show, pensamos “acertamos mesmo!”.

Aproveitando essa temática, o que vocês planejam para o futuro da Terra Vai Se Tornar Um Planeta Inabitável? Mais trabalhos de estúdio ou é hora de tocar ao vivo o que já foi lançado até aqui?
Já começamos a produção do segundo disco. A gente quer fazer o melhor trabalho da banda! Começamos (a pré) um ano antes para gravar só no ano que vem, lançar só no final do ano. Estamos trabalhando intensamente as músicas. Mas a gente está fazendo sempre tudo pensado ao vivo, porque o ao vivo conquistou a gente depois que a gente começou a tocar. É muito mais bonito assim, ver a música como ela é ao vivo do que em estúdio. Não que eu não goste das versões de estúdio, eu amo, mas ao vivo não tem preço. O sentimento de você ver as pessoas cantando e ver os instrumentos soando, quando entra a bateria, nossa, é tudo muito bonito. É uma coisa que a gente está estudando mesmo, é fazer música pensando no ao vivo para melhorar a experiência de show e, consequentemente, a pessoa que ouve o áudio no Spotify ou no YouTube tem o mesmo sentimento ouvindo ao vivo, é até melhor.

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/

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