A volta do Oasis não é apenas sobre música

texto especial por Alexandre Malvestio

Há cerca de 10 anos, o escritor britânico Alex Niven publicou um livro sobre “Definitely Maybe”, o primeiro álbum do Oasis, para a coleção 33 1⁄3, que já analisou mais de uma centena de discos emblemáticos da música pop mundial. No texto, Niven diz que o Oasis escreveu as canções que mais se aproximaram de narrar as esperanças coletivas e sonhos de um povo do que qualquer outra banda naquele último quarto de século.

Ele falava da Grã-Bretanha pós-Margaret Thatcher, cenário onde o Oasis liderava um clima coletivo que exaltava a experiência da classe trabalhadora. Se de um lado havia Londres, um centro financeiro pujante e dinâmico, do outro havia um restante de país às voltas com o aumento nos índices de desigualdade e enfileirando milhões de desempregados.

No noroeste da Inglaterra, os irmãos Gallagher, líderes da banda, cresceram esmagados pela miséria e pelo endividamento que castigavam Manchester havia tempos. Não por acaso, de lá já tinham saído grupos como Stone Roses, Joy Division e The Smiths, para ficar apenas em alguns nomes que também exploraram as dores e ansiedades de uma geração marcada pela alienação e pelo descontentamento.

À sua maneira, o Oasis herdou essa tradição, expressando a frustração de uma juventude que ansiava por mudança. Foi assim que a banda despontou nos anos finais do século XX, cantando com raiva até mesmo quando falava de otimismo e esperança.

Em “Live Forever”, melhor música de “Definitely Maybe”, o Oasis dizia que “eles” nunca verão as coisas que “nós” vemos. Uma divisão que reflete as tensões sociais, culturais e econômicas do país, e que também celebra a busca por coragem para viver intensamente. No mesmo álbum, cinco faixas adiante, em “Cigarettes & Alcohol”, a banda aponta para a apatia e falta de perspectivas.

Essa linha entre “nós” e “eles” não só ampliou a conexão emocional da banda com sua base de fãs, mas também fomentou um senso de comunidade entre aqueles que se sentiam desencantados. Não à toa, o comportamento dos fãs de Oasis na Inglaterra, em termos de fanatismo, era comparado ao de torcedores de futebol.

Em 2015, o semanário inglês NME publicou um especial sobre os chamados “anos gloriosos” do Oasis, que vão de 1993 a 1996. O texto de apresentação diz que eles venderam mais álbuns do que qualquer outra banda, fizeram shows maiores do que qualquer outra banda e tinham mais artigos de jornais escritos sobre eles do que qualquer outra banda. “Eles foram melhores do que qualquer outra banda”, conclui.

Os superlativos são justos no âmbito do movimento conhecido como “Cool Britannia”, que celebrava o orgulho de ser parte do Reino Unido naqueles anos. Algo tão particularmente inglês quanto dizer que um chá da tarde é a melhor escolha para um momento de pausa ou que “fish and chips” é uma iguaria digna das mesas do mundo —são tradições que refletem a mesma devoção que os britânicos tinham pelo Oasis durante o período glorioso, mas que jamais encontraram ressonância equivalente para além das águas que rodeavam a Rainha.

Deixando de lado a veneração sem paralelos, ninguém discute o fato de que no restante do mundo o Oasis também marcou uma geração inteira com seus hinos rebeldes e letras que falavam da vida, de amores e de desilusões. Para essas pessoas, especialmente os agora homens de meia idade que no auge da banda talvez não se sentissem validados para chorarem abraçados com o amigo enquanto ouviam músicas como “Slide Away”, a volta do Oasis não é apenas sobre música.

Fotos de Simon Emmett

Onde foi que tudo deu errado?

“Essa guitarra cristaliza um momento específico na história da música.” Foi assim que o francês Jonathan Berg, lutier e um dos fundadores da casa de leilões Artpèges, especializada em itens musicais, se referiu à Gibson vermelha que seria colocada à venda em maio de 2022.

A guitarra pertencia à Noel Gallagher e foi destruída por seu irmão Liam durante uma briga momentos antes de um show programado para acontecer no festival Rock en Seine, em Paris, em 2009. A poucos minutos do início da apresentação, o público foi informado de que o Oasis não subiria no palco. Na sequência, Noel divulgou um comunicado anunciando que não apenas estava deixando o grupo, mas que o Oasis havia acabado.

Após o fim da banda, Noel chegou a consertar o instrumento. Treze anos depois, decidiu vendê-lo, supostamente porque o fazia “se lembrar demais do Oasis”. Em 2022, a guitarra foi arrematada por mais de 385 mil euros.

Em 27 de agosto de 2024, um dia antes de se completarem exatos 15 anos de sua separação, o Oasis anunciou que retornaria aos palcos em 2025. A escolha da data pode ter sido uma coincidência, especialmente se você ignorar o poder de influência do marketing bilionário. Pessoalmente, quero crer que em alguma sala de Princeton há um cientista elaborando uma teoria sobre uma realidade onde o dia 28 de agosto, data da separação, nunca existiu. Foi só uma fenda no tempo.

Pare de se lamentar

Durante a cobertura sobre o anúncio da volta do Oasis, em agosto passado, o jornal inglês The Guardian convidou Alex Niven, aquele do livro sobre o primeiro álbum da banda, para escrever um artigo sobre o seu retorno. No texto, Niven sugere que se ignore o que o Oasis se tornou e se relembre a visão radical que impulsionou sua ascensão e fez com que o Reino Unido os abraçasse.

Ele argumenta que, após seus primeiros álbuns, o Oasis foi engolido por uma avalanche de dinheiro e excessos, perdendo sua posição de escrever músicas sobre estar do lado de fora e ansiar por algo melhor. Niven observa que, embora a reunião da banda possa não alterar o curso dos eventos, ainda existe a expectativa de que sua música desperte uma sensação peculiar de união e esperança coletiva.

Fora do Reino Unido, a ideia de que a volta do Oasis pode fazer ressoar a possibilidade de um ‘país melhor’ ganha outros contornos, sugerindo uma aspiração mais ampla, por uma ‘vida melhor’. Agora, com os irmãos ostentando uma coleção de cabelos brancos e linhas de expressão, não tem como afastar a expectativa de que o seu retorno possa despertar novas emoções. “Pode reacender um sentimento populista que inspira não apenas os fãs, mas também uma geração em busca de um futuro mais promissor”, escreveu Niven.

Consumidor voraz da coluna do Álvaro Pereira Júnior no finado Folhateen, da Folha de S. Paulo, lembro de uma coleção de textos e frases dando conta desses sentimentos relacionados à banda. Em 1999, ele escreveu sobre “a melancolia que atravessa tudo o que já foi feito pelo Oasis”. Em 2002, num relato sobre um show em Orlando, na Flórida, para a turnê do álbum “Heathen Chemistry“, Álvaro escreveu um dos textos essenciais sobre a experiência de ver o Oasis no palco. “(…) apesar de toda a imagem de arrogância que construíram, o teatro onde se apresentam se transforma, por pouco menos de duas horas, no melhor lugar do mundo, onde se pode, como diz uma das letras de Noel, viver para sempre”, escreveu.

É verdade que o tempo passou para o Álvaro tanto quanto passou para os irmãos Gallagher e para cada um de nós, mas não deixa de ser curioso notar uma renegação gratuita a qualquer tipo de relevância que o Oasis tenha alcançado em algum momento de sua história.

Alex Niven, de novo ele, diz que a verdade sobre o legado da banda está em algum lugar entre a bajulação dos fãs e o cinismo de seus detratores. Ao repercutir a notícia do anúncio dos shows do Oasis no Brasil, marcados para novembro deste ano, Álvaro Pereira Júnior usou uma fala pouco amistosa em uma postagem no X: “ainda existe esperança. Talvez até lá o mundo já tenha acabado”.

A parte mais interessante dessa geração ansiosa pela volta da banda pode estar em diferentes lugares entre o cinismo do meu jornalista de estimação e o tipo de fã que usa teoria científica para explicar a escolha da data do anúncio do retorno. Também é possível que boa parte das pessoas que passaram madrugadas e manhãs atualizando incansavelmente a página em busca de um lugar na fila para comprar ingressos para a turnê de retorno não esteja somente em busca de ir à um show. Talvez elas ainda estejam, 30 anos depois dos “anos gloriosos” do Oasis, em busca de um futuro mais promissor.

É por essas e outras que chega a parecer razoável financiar um ingresso em 32 prestações para ver o Oasis no Morumbi, famoso por sua capacidade de abrigar multidões em um espaço onde o conforto se torna um conceito relativo. Também faz sentido que as entradas para os shows tenham evaporado tão rapidamente em todo o mundo.

Força da natureza

Considerando o lançamento do primeiro álbum, em 1994, e o anúncio do fim da banda, em 2009, o Oasis durou 15 anos. Quando eles retornarem à ativa, neste 2025, terão completado mais tempo separados do que em atividade.e.

Sua tão esperada volta não representa apenas um revival nostálgico, mas também uma reflexão sobre a trajetória de seus integrantes. Agora mais maduros, eles estão diante de um novo cenário.

Nos últimos anos, o discurso sobre masculinidade passou por transformações relevantes. A antiga ideia de que homens devem ser insensíveis ou invulneráveis se esvaziou, dando lugar a uma nova abordagem que valoriza a vulnerabilidade, o emocional e a expressão dos sentimentos. Nesse contexto, o retorno do Oasis ecoa não apenas como um fenômeno musical, mas também reflete uma evolução. Há 30 anos, os irmãos Gallagher e seus companheiros de banda arrastaram multidões com suas letras que falavam de amor, conflito e anseios juvenis, encapsulando a rebeldia de uma geração. Agora, ao retornarem, podem trazer junto um novo entendimento sobre a própria identidade e a dor que acompanhou o envelhecimento.

Há cerca de duas décadas, fãs de Oasis vibravam com a banda cantando sobre ser uma estrela do rock por uma noite. Agora, esses fãs, que talvez já se sintam mais velhos do que gostariam (como Noel cantou em “Rockin’ Chair, em 1995), vão deixar as crianças com os avós e vestir camisetas do Manchester City para irem aos shows. Então deverão se conectar com artistas que podem mostrar que o tempo não traz apenas cicatrizes, mas também lições profundas sobre amor e perda  —artistas que também devem embolsar algumas dezenas de milhões de libras para trabalharem por apenas seis meses, mas isso é assunto para outro texto.

Ainda que uma fatia do público que irá aos shows do Oasis possa ter conhecido “Wonderwall” no TikTok, é certo que estamos falando de uma gente cada vez mais atenta à necessidade de conversas sinceras sobre dor e vulnerabilidade. Mas também há o grupo sedento por reviver experiências que moldaram uma geração. É por tudo isso que a nova conexão entre a banda e seus fãs tem chances de ser tão supersônica quanto a própria música que os uniu, lá atrás.

A trajetória de cada um (Oasis e público), marcada pelo tempo e suas lições, promete definir não apenas o espetáculo, mas também o sentido de pertencimento que surge desse encontro.

Don’t look back in anger.

– Alexandre Malvestio é jornalista e ilustrador. A fotomontagem que abre o texto foi feita pelo perfil Oasis World

Leia também:
– Top 20: As músicas do Oasis mais tocadas no Brasil (aqui)
– Faixa a faixa: “Definitely Maybe”, o clássico disco de estreia do Oasis (aqui)
– “Supersonic”, de Whitecross: “Não espere um documentário completista” (aqui)
– Noel Gallagher ao vivo em São Paulo em 2012, por Leonardo Vinhas (aqui)
– Oasis ao vivo em São Paulo e Curitiba, por Marcelo Costa e Murilo Basso (aqui)
– “Definitely Maybe – 20th Anniversary Edition”, Oasis: um relançamento nota 10 (aqui)
– “Dig Out Your Soul”, o 7º álbum de estúdio dos Gallagher faz bonito, por Mac (aqui)
– Demanda reprimida por Oasis: há momentos em que a música morre (aqui)
– “Don’t Believe The Truth”: Nenhuma banda envelheceu tanto quanto o Oasis (aqui)
– “Heathen Chemistry”: o bom e velho Oasis, para o bem e para o mal (aqui)
–  Ao vivo: Liam Gallagher em 2022 foi mais animado do que Oasis no Rio em 1998 (aqui)
–  Ao vivo em São Paulo em 2006, Oasis faz grande show no estacionamento do Credicard Hall (aqui)
– Livro: “Ascensão e Queda do Britpop”, de John Harris, por Mateus Ribeirete (aqui)

3 thoughts on “A volta do Oasis não é apenas sobre música

  1. Texto bem bom. Escorrega quando exalta Álvaro pereira Jr, que faz parte da tropa anti música brasileira, que assolou o jornalismo cultural paulista e influenciou negativamente uma geração inteira. Trabalhei em jornal na época e vi isso com meus colegas que trabalhavam no caderno de cultura. Hoje, todos olham pra trás e renegam aquilo e Caetano, Gil, Lenine, João Gilberto,Arnaldo Antunes, Marisa monte, Guilherme Arantes, entre outros , voltaram ou passaram a ser respeitados.

  2. E ai fui clicar no texto do tal pereira. Que nem é um seu pereira. E lá tem o cara dizendo que o Brasil é o fim do mundo, que não se faz rock aqui e mandando ejetar Otto e Zeca baleiro. Só reforçando o total desprezo que tenho por um sujeito desse naipe.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *