“¡El Baile Rock!” e a insurreição sonora do Norte: quando o rock brasileiro olha para a América Latina

texto de Ismael Machado

A chuva já tinha passado e o Paysandu acabara de vencer seu maior rival, o Clube do Remo, pelo placar mínimo, numa disputa na série B do Campeonato Brasileiro. E coincidência ou não, uma das músicas que ouvira logo no início da semana havia sido justamente sobre o clássico mais disputado do mundo (sim, para quem não sabe é Remo e Paysandu – o consagrado Re-Pa) da banda paraense Les Rita Pavone. A música animada no estilo samba-rock se chama “Hoje é dia de RexPa” e certamente abriria um largo sorriso em Jorge Benjor, Fred 04 ou Bebeto. E esse é apenas um dos méritos dessa comunidade musical que, para variar, está ‘longe demais das capitais’.

Por muito tempo, o rock e o pop brasileiro foram um espelho voltado para o sul. A tradição do gênero por aqui sempre dançou entre as referências anglófilas e o filtro do pop-rock radiofônico vindo do eixo Rio-São Paulo. Tudo fora disso era, em geral, ruído periférico — algo não ouvido com a devida atenção. Mas de tempos em tempos surgem bandas que não pedem licença: chegam como vento quente atravessando as estruturas e obrigam a redefinir o mapa. É nesse gesto que se inscreve Les Rita Pavone.

Com diversas formações ao longo do caminho, o Les Rita Pavone lança agora seu primeiro álbum completo — “¡El Baile Rock!”, que chegou às plataformas digitais no dia 30 de maio, pelo selo Maxilar Music, de Gabriel Thomaz (Little Quail and The Mad Birds, Autoramas). A formação atual reúne Gabriel Gaya (voz), Arthur da Silva (violão e voz), Helênio Cézar (baixo), Jimmy Góes (guitarra) e Luiz Otávio de Moraes (bateria).

Não se trata apenas de um disco. É um posicionamento estético e político. Uma declaração de pertencimento não a um centro imaginado, mas a uma outra cartografia possível — latino-americana, amazônida, mestiça, dançante. Ao invés de seguir a fórmula consagrada do pop rock brasileiro, o álbum aponta em outra direção, propondo uma estética calcada no rock latino-americano, misturando brega, bolero, bossa, reggae e soul, sob o filtro da experiência belenense. O resultado é um disco plural, mestiço, dançante — uma verdadeira ode à hibridez sonora. “Partimos de um conceito de rock latino, livre do formato tradicional brasileiro. É uma sonoridade que abre espaço para outras linguagens, outros ritmos”, afirma Gabriel Gaya.

Nascido em Belém do Pará, o Les Rita Pavone é, antes de tudo, um corpo coletivo. Não no sentido raso da “banda com muitos integrantes”, mas como um projeto orgânico, de constante reinvenção e troca. Ao longo dos últimos anos, o grupo se alimentou de suas próprias mutações. O que se ouve em “¡El Baile Rock!” não é o som de uma formação fixa, mas de uma comunidade sonora, viva, fluida, híbrida — um palimpsesto musical feito de encontros, afetos e camadas. Algo que encontra afinidade, de certa forma, com outro grupo paraense com essa mesma ideologia, embora com outro formato musical, o Bando Mastodontes, que também precisa ser ouvido pela parte de baixo do mapa brasileiro.

Essa ideia de banda-família está na espinha do álbum. Gravado entre 2022 e 2024, “¡El Baile Rock!” carrega traços de todas as fases da banda. Algumas faixas nasceram ainda com ex-integrantes, que continuam colaborando criativamente. A instrumental “Chinatown”, por exemplo, foi composta por Mael Anhangá, primeiro baterista da banda, e atravessou a janela do tempo antes de ser registrada em estúdio. Outras contam com participações de músicos convidados. Essa marca coletiva é um traço fundamental da identidade do Les Rita Pavone. Além do núcleo atual, participam do disco músicos como Theo Silva (trompete), Douglas Silva (Dodô), Larissa Mê (percussões), além de ex-integrantes como Mateus Moura e Rafael Pavone, que contribuíram com composições e vocais.

Há trompetes, percussões, guitarras sujas, boleros sentimentais, riffs tropicais. E isso não é nostalgia: é arquitetura de memória. O Les Rita Pavone constrói com o que o tempo não apaga. Para quem não sabe ou nem imagina, Belém talvez seja a capital da saudade musical. Na cidade, repleta de ‘bailes da saudade’, se dança Kraftwerk de rosto coladinho atravessando o salão e Lipps Inc e sua Designer Music é uma instituição sonora para todas as gerações.

Mas se a estrutura da banda é coletiva, o gesto é incisivo: “¡El Baile Rock!”, mesmo sem a intenção original, é uma crítica sonora ao rock brasileiro pasteurizado, domesticado pelas gravadoras e playlists. O disco recusa o molde e, em vez de reproduzir o som das capitais do sul, prefere sintonizar com outros territórios do rock — os Andes, o Caribe, os guetos das periferias sonoras, os salões de festa onde a guitarra dialoga com o tambor.

A escolha pelo título em espanhol, com direito às exclamações típicas — “¡El Baile Rock!” — é também um gesto simbólico: não se trata de afetação estética, mas de inscrição política. O Les Rita Pavone não quer ser a exceção regional que “deu certo”. Quer deslocar o centro, inverter a bússola, lembrar que há Brasil demais nesses territórios todos — e que esse Brasil canta, dança e distorce acordes de forma própria.

Gabriel Gaya, um dos vocalistas, explica com clareza: “Esse disco propõe um olhar diferente para o rock brasileiro. É feito em Belém, mas dialoga com a América Latina”. E essa frase, dita com simplicidade, carrega a intenção. O Norte deixa de ser borda e se torna eixo. O disco é um baile, sim — mas também um manifesto. Convida a dançar, mas não à toa. Cada passo carrega a dúvida, cada riff propõe uma travessia.

O histórico da banda também ajuda a entender sua força. O Les Rita Pavone passou por palcos diversos e festivais alternativos aos coletivos musicais que sustentam a cena independente de Belém. São filhos e irmãos de uma cidade onde o brega é sofisticado, o bolero é rock e o som é sempre mistura. Belém é uma encruzilhada — e o Les Rita Pavone sabe tirar música desse trânsito.

¡El Baile Rock!” é, portanto, mais que um álbum de estreia. Ele chega como síntese e virada. É a celebração de um percurso coletivo, mas também um manifesto que propõe repensar o que se entende por rock brasileiro. Ao invés de reforçar os centros — Rio e São Paulo —, o álbum convida a escutar os sons do Norte, do Caribe, da Amazônia e de toda a riqueza cultural que vibra além das rotas comerciais da música brasileira. É uma linha traçada no chão: esse é um dos caminhos possíveis para o rock feito no Brasil. Um caminho mais interessado em se conectar com as vozes do continente. Porque, ao fim, o que a banda nos lembra é simples e essencial: não há centro sem escuta, e não há futuro sem dança. É, em última instância, um convite ao corpo e ao pensamento: para dançar, sim — mas também para deslocar os ouvidos, abrir os olhos e repensar fronteiras.

– Ismael Machado é escritor, jornalista e, por que não, cineasta. Publicou cinco livros e é ganhador de 12 prêmios jornalísticos. Roteirista dos longas documentários “Soldados do Araguaia” e “Na Fronteira do Fim do Mundo” e da série documental “Ubuntu, a partilha quilombola“.

7 thoughts on ““¡El Baile Rock!” e a insurreição sonora do Norte: quando o rock brasileiro olha para a América Latina

  1. Parabéns pelo texto, Ismael. E parabéns para o Les Rita. A música deles tem uma variedade de sonoridades e as letras são divertidíssimas. O disco está bem gravado, um ótimo trabalho e os shows dos Les Rita são leves, a gente ri do início ao fim e sai extasiado com a qualidade do som e a irreverência da banda, em apresentações vibrantes de corpo e alma. Eles são bons!!

    1. Esse álbum foi uma grande surpresa pra mim, uma das manifestações mais autorais dos últimos tempos. Viva Les Rita!!

  2. Grande álbum da Les Rita Pavone com sua alegria e a mistura de sonoridades feita com a naturalidade de sempre! Viva!!!

  3. Les Rita Pavone é a banda mais diversificada que eu conheço. Acompanho a trajetória deles praticamente desde o início.
    Sempre que posso marco presença nos shows
    O primeiro disco já faz parte da minha playlist, e sempre indico pros amigos que aínda não conhecem. Desejo vida longa ao Les Rita Pavone e muito sucesso.

  4. Pô, mano. Muito bom ler esse texto. Fortalece demais. Obrigado pela escuta generosa. Dias de luta e dias de glória, né?

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