Faixa a faixa: João Jardel apresenta “Anti-Pop”, um disco inspirado em Swans, Tantão e os Fitas, Wu-Tang Clan, Bad Brains e NIN

texto de introdução de Diego Albuquerque

João Jardel é um produtor, experimentador, cantor e compositor de Itabira, interior de Minas Gerais. Filho e neto de Joãos, ele vem explorando suas fronteiras musicais e lançando sons solos desde 2020. Depois de alguns singles, registros ao vivos e bons EPs explorando sonoridades ligadas à diáspora sonora brasileira, mundial e regional, mas sempre misturando elementos sonoros mais pesados, ele finalmente apresenta seu primeiro álbum cheio.

“Anti-Pop” (2025) compila 12 faixas construídas entre 2021 e 2024 em parceria com R.Honório. Um trabalho concebido na procura por uma sonoridade que mesclasse elementos afro diaspóricos ao pós-punk, à música industrial e ao spoken word, numa tentativa de causar um desconforto à ouvidos acostumados com a música pop tão massificada. “Eu quis transformar em sonoridade as dificuldades pós-pandêmicas que sentia, relativas a socialização, grana e autoaceitação”, comenta João.

“’Anti-Pop’ é um disco sobre lidar com depressão, medicação, excessos e como isso afetou a escrita do álbum como um todo”, comenta João Jardel. “Eu brinco que a realidade me assusta mais do que qualquer filme de terror”, complementa. “Anti-Pop” – lançado pelo selo Diáspora – é para ouvidos atentos, mas também serve como contraponto à estrutura pop que rodeia a música brasileira e mundial na atualidade. Abaixo, João comenta o álbum – disponível nas principais plataformas – faixa a faixa.

01) O Pretocore: a faixa que abre o disco serve tanto como uma apresentação quanto como continuação do discurso presunçoso de “eu sou o sol e vocês giram ao entorno da minha genialidade” que fiz na faixa “Banquete dos Ratos”, do meu single “duas canções” (2020). Tem alguma influência do Wu-Tang Clan, meu grupo de rap predileto, e também do Bk’, que já era o sol antes de mim.

02) O Cínico: Essa é bem influenciada por Tantão e os Fitas e Swans na forma da letra que eu escrevi. R.Honório fez a música praticamente sozinho num dia em que a gente estava brincando de fazer música para videogame. Essa faixa é uma irritada manifestação desses discursos privilegiados contra alguns poucos que realmente vencem, quando uma grande maioria só se fode. Foi uma letra que escrevi bem puto, quando vi um playboy de BH falando que a favela venceu, basicamente.

03) O Excesso: Primeira faixa que trabalhei com R.Honório, e cuja a parceria definiu como seriam as composições, as abordagens e até as influências que usamos para poder terminar os arranjos das outras faixas. Essa é a faixa mais industrial, mas com alguma influência de stoner rock no baixo. A letra é direta e repetitiva. Escrevi como manifesto sobre questões que tratei na terapia tentando elaborar de forma artística, insights sobre questões pessoais que me atravessavam.

04) O Cronista: Essa esquerda cirandeira me cansa muito e eu quis critica ela, as manifestações nas redes sociais e essa super-importância que ela se atribui. Tem uma autocrítica incluída, por me ver parte dessa classe média que teve a possibilidade de estudar e posta um monte de merda, ao invés de resolver de verdade, mas é isso.

05) O Corpo: Voltando aos processos terapêuticos, “Anti-Pop” é um disco sobre lidar com depressão, medicação, excessos e como isso afetou a escrita do álbum como um todo. “O Corpo” é um texto que escrevi sobre a sensação de me sentir cerceado ou limitado ou mesmo adestrado por medicações diante de questões que pareciam mais externas do que internas. Primeira letra que escrevi para o disco. A música tem um instrumental composto em sua totalidade por R.Honório, inspirado num vídeo que assistimos do Daft Punk.

06) O Anti-Pop: A faixa que dá nome ao disco é uma mistura entre as canções “O Cronista” e “O Corpo”, onde eu me vejo me criticando, porque todas as minhas lutas perdem o sentido quando meu aluguel vence, quando eu tenho que comprar comida ou quando eu me coloco como prioridade pra sobreviver ao capitalismo, sendo uma faixa que trata da hipocrisia e do adestramento medicamentoso.

07) O Agogô: Essa é a faixa mais suingada do disc. Ela fala do momento em que vim para BH e comecei a invisibilizar as coisas que estavam ao meu redor e entrar num modo entorpecido diante do que eu via. Ela também trata de um processo de luto que vivi, mas escolhi ignorar, por estar muito acostumado com o caos e com os sons da cidade e o distanciamento natural que se sente num lugar grande: algo meio: “i feel the pain on everyone, then i feel nothing”.

08) O Catalisador: Queria fazer uma faixa inspirada em Bad Brains e Minor Threat e isso foi o melhor que eu consegui. Essa faixa trata de um momento pós-pandêmico onde eu me sentia absorvendo o caos, o medo, os sentimentos pesados de todos que estavam ao meu entorno e deixando os meus de lado. Eu fiz essa faixa para pedirem para me deixar respirar um pouco.

09) O Corte: Fiz essa letra inspirado numa cena da série “Luke Cage”, onde o personagem Bushmaster se vinga de seus inimigos, arrancando suas cabeças e as expondo como forma de demonstração de poder. Fiz essa letra dias depois de uma situação de racismo e imaginei como seria fazer como aquele personagem e apenas expor o racista dessa forma como resposta, porque nem sempre dá pra resolver na paz.

10) O Medo: Ligada à música “O Excesso”, “O Medo” é uma faixa que eu fiz baseado no que vinha mais de forma do que de dentro e de um fracasso em algumas relações que tive nos últimos anos. Foi uma forma de eu tentar tirar um pouco do peso de qualquer culpa que eu pudesse sentir em relação ao término dessas relações.

11) O Spoiler: Essa tem a mesma inspiração da música “O Anti-pop”, mas eu quis fazer de forma meio debochada, passivo-agressiva e teatral, como se fosse um papo de boteco. É inspirada em “Hurt” do Nine Inch Nails.

12) O Amor: Para fechar o disco escrevi essa letra baseado em olhar para mim mesmo e ver várias contradições, várias frustrações, diversas dificuldades e confusões que se passavam na minha cabeça. Também trata de um processo de término, mas em um lugar mais melancólico de me ver como culpado.

Arte da capa do álbum “Anti-Pop”, de João Jardel

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.

One thought on “Faixa a faixa: João Jardel apresenta “Anti-Pop”, um disco inspirado em Swans, Tantão e os Fitas, Wu-Tang Clan, Bad Brains e NIN

  1. Bah!!! nem ouvi mas só pelas descrições já me sinto super identificado, o Rock ” pop “, desculpe a musica brasileira precisa de um cara como esse!!!

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