Richard Ashcroft: “Quando eu jogava bola na rua, queria ser brasileiro”

texto de Bruno Capelas

Ver artistas estrangeiros se derramando de amores pelo Brasil em passagens por aqui não é exatamente uma novidade. Mas Richard Ashcroft, mais conhecido como líder do The Verve, foi um pouco além do protocolo: em entrevista coletiva antes de seu primeiro show no festival Best of Blues & Rock, realizado em São Paulo, o artista confessou uma paixão antiga pelo país. “Em um dia chuvoso, era inspirador estar na Inglaterra e ver um time de brasileiros jogar aquele ‘Sunshine Football’. É por isso que eu quero mandar um salve para gente como Zico, Ronaldo, Sócrates e Júnior. Quando eu jogava bola na rua, queria ser brasileiro, sabe?”, disse o cantor.

Em sua primeira passagem pelo Brasil em mais de 30 anos de carreira, Ashcroft sabia que tinha uma missão: tocar hits como “Bitter Sweet Symphony” ou “The Drugs Don’t Work” (vestindo uma camisa da seleção brasileira, claro). “Como nunca estive aqui, vou tocar o que as pessoas realmente querem ouvir”, prometeu ele na coletiva. O fato de basear o repertório de seus shows nas canções do clássico “Urban Hymns”, porém, não faz com que Ashcroft seja um saudosista. Pelo contrário: “sinto que ainda quero inovar na música. Quero seguir adiante. Na minha cabeça, quero fazer a música do futuro”, afirmou o músico, que mostrou no domingo uma parte dessa aspiração ao tocar “Lover”, single que estará em seu próximo disco previsto para setembro.

Na coletiva, que durou cerca de 20 minutos, o cantor falou sobre vários temas: da ligação que tem com o Brasil à expectativa para os shows aqui, passando pelos novos artistas com quem gostaria de trabalhar. Ele também fez elogios à visão eclética que os jovens têm da música, sem se prender a um ou outro estilo, e falou sobre a oportunidade de abrir a turnê de retorno do Oasis no Reino Unido. “Estou honrado por terem me escolhido. Mas também, quem mais eles poderiam escolher? Não há muita gente que possa abrir para o Oasis. Sabe, quando tem 70 mil pessoas que não querem te ver, é melhor que você seja bom, ter boas canções, saber lidar com o público. Acho que sou uma boa escolha”, disse.

Richard Ashcroft no segundo dia do festival Best of Blues & Rock. Foto @flashbang / Divulgação

TOCAR EM FESTIVAL
“Sei há muito tempo que o público brasileiro está entre os melhores do mundo. Mas hoje eu não vou tocar só para os meus fãs. E como eu nunca estive aqui, vou tocar o que as pessoas querem realmente ouvir, como ‘The Drugs Don’t Work’ ou ‘Bitter Sweet Symphony’. Talvez quando eu vier da próxima vez, em um show solo, vou tocar por duas horas e aí poderei tocar as ‘obras completas’. Quero tocar no Rio, talvez em outros lugares. Mas acredito que quem vier me ver vai estar aqui de corpo e alma”

CALOR LATINO
“Sinto que o público sul-americano é um dos melhores do mundo. Posso estar generalizando, claro. Mas sinto que quando você vive em um lugar complicado, a dificuldade do dia a dia faz com que você aproveite mais os bons momentos da vida. É por isso que sinto que o público aqui no Brasil é tão intenso: eles se entregam porque sabem que os momentos bons são especiais. Isso também acontece na Escócia e na Itália, mas acho que aqui é diferente, é um pouco a mais. Eu já toquei em algumas cidades no México e é uma loucura: tem metralhadoras quando você entra nos festivais. Definitivamente não é Woodstock, mas o público é incrível. Quando as pessoas entendem o quão breve a vida pode ser, elas se apegam fortemente ao que gostam. A música vira algo espiritual, como se Deus estivesse envolvido. E acho que Deus está mais envolvido em países como o Brasil.”

SEM TURISTAGEM
“Cheguei ao Brasil na manhã do sábado e não tive muito tempo para passear. Sei que vou sair hoje à noite e dar uma volta amanhã, mas estou mesmo animado é para tocar. Há um público que espera há 20 ou 30 anos para me ver. O mais importante é o palco, é o que acontece lá – e não o que eu vejo como turista por aí. É claro que quando viajo pelo mundo, gosto de ver as cidades como elas são. Só faço isso quando tenho mais tempo. Da próxima vez que eu vier ao Brasil, quero ficar mais tempo, tocar em mais cidades e descobrir mais sobre esse país incrível, mas essa viagem será um turbilhão. Estou feliz só de estar aqui e fazer esses shows.”

Richard Ashcroft duranta a entrevista no festival Best of Blues & Rock. Foto de Liliane Callegari / Scream & Yell

SUNSHINE FOOTBALL
“Quando eu era jovem, eu gostava de música e de futebol. E o Brasil é um dos países que mistura isso muito bem. Nos Estados Unidos, as coisas são separadas: ou você é um atleta ou você gosta de música. A exceção fica por conta do hip-hop e do basquete, há uma ligação ali, mas é só. Na Inglaterra, não: futebol e música andam juntos. E no Brasil, na Argentina e no México também. Em um dia chuvoso, era inspirador estar na Inglaterra e ver um time de brasileiros jogar aquele ‘Sunshine Football’. Eles trazem energia e amor para o jogo, é incrível. É por isso que eu quero mandar um salve para gente como Zico, Ronaldo, Sócrates e Júnior. Esses caras eram nossos ídolos. Quando eu jogava bola na rua, queria ser brasileiro, sabe? Queríamos ser grandes como artistas, seja no palco ou no campo. É algo único que o Brasil tem – e é por isso que estou tão animado de estar aqui. (toca o chão efusivamente). Estou aqui, isso é o Brasil, sabe? Mal posso acreditar! Espero não esperar mais 30 anos pra voltar aqui, senão terei 84. Talvez eu esteja muito velho pra tocar.”

NOVOS ARTISTAS
“Há muitos artistas novos talentosos por aí. Mas se fosse para escolher um para trabalhar junto, ficaria com meu filho Sonny. Ele tem escrito uma série de canções boas e estamos trabalhando no estúdio. Sabe como é, um negócio de família, é preciso manter as coisas dentro de casa. Esperem até ouvir as músicas deles. Outro nome que eu gosto muito é o Ren, que fez uma versão incrível de “Bitter Sweet Symphony”. Ainda não está no Spotify, mas dá para ouvir no YouTube. Ele é muito talentoso”.

ECLETISMO
“Acho que os jovens estão hoje num lugar em que sempre imaginei que a música deveria chegar. É tudo muito eclético hoje em dia. Podemos formar e misturar diferentes estilos e olhar para o futuro. Hoje, não é preciso ser só um artista de rock. Você pode fazer soul, hip-hop, blues, jazz, você pode fazer o que você quiser agora. É algo que eu sempre sonhei que poderia acontecer, que a música seria eclética e teria alma, mas que não importaria qual seria a sua base. Acho que os jovens sabem disso hoje e vão nos levar a um lugar bem interessante. Eles não discriminam a música por idade ou por estilos – eles gostam do Fleetwood Mac por causa do TikTok, sabe? Essa visão nos levará a um futuro diferente na música, onde todos os estilos vão combinar – mas, acima de tudo, haverá alma.”

SEMPRE EM FRENTE
“Acabei de lançar um novo single chamado ‘Lover’. Estou animado com essa música e com meu disco novo, que sairá em setembro. Talvez eu a toque hoje à noite. ‘Lover’ nasceu de um sample de Joan Armatrading e tem tudo a ver com o que eu falei antes: sinto que ainda quero inovar na música. Quero seguir adiante. Na minha cabeça, quero fazer a música do futuro. Coisas que as pessoas não saibam mesmo dizer o que são, sabe? Para mim, ‘Lover’ é isso: é uma música cheia de melodia e êxtase. Mas é rock? É hip-hop? É soul? Não sei. Aconteceu a mesma coisa com ‘Bitter Sweet Symphony’. Na época, as pessoas não sabiam dizer o que era aquilo. Até a gravadora reclamava que não tinha refrão. ‘Cadê o refrão?’. Bem, estamos aqui depois de bilhões e bilhões de visualizações.”

CHINELOS, CHARUTOS E OASIS
“Infelizmente, acho que só vou fazer os shows de abertura do Oasis no Reino Unido. Acho que eles têm alguém em mente aqui para o Brasil. Seria incrível segui-los aqui na América do Sul, mas não vai acontecer. Dito isso, estou muito animado para esses shows na Inglaterra. Vai ser um evento histórico. Estou animado por eles, como um irmão, e também animado pelos fãs. Muita gente nunca teve a chance de vê-los antes e verá agora. Estou honrado por terem me escolhido. Mas também, quem mais eles poderiam escolher? Não há muita gente que possa abrir para o Oasis. Sabe, quando tem 70 mil pessoas que não querem te ver, é melhor que você seja bom, ter boas canções, saber lidar com o público. Acho que sou uma boa escolha – e meu show não é longo. Vai ser incrível. Meu trabalho está feito, acho que posso pegar meus chinelos, meus charutos e comemorar.”

Richard Ashcroft no primeiro dia do festival Best of Blues & Rock. Foto de Liliane Callegari / Scream & Yell

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

6 thoughts on “Richard Ashcroft: “Quando eu jogava bola na rua, queria ser brasileiro”

  1. Deu vontade de chorar lendo essa entrevista.
    E um ser acima do seu tempo, compreensão clara das coisas e onde quer chegar.

    1. Pourra, lamento que não seja ele quem vai abrir para o Oasis em novembro. O show em SP foi do caralho!!! Vamos cobrar esse retorno!!!

  2. Fan do Verve depois do Oasis pra mim a banda mais top do tal chamado Britpop, Richard e o tipo de cara que seria uma honra tomar umas brejas!!!!

  3. “…Acho que eles têm alguém em mente aqui para o Brasil…” – Tomara que não seja o Ego Kill Talent.

  4. Richard é de mais. Que pessoa…
    Ele é muito verdadeiro, quando a gente olha pra ele cantando, suas músicas incríveis…ele passa pra gente exatamente o que ele disse na entrevista, ele é isso que a.gente sente quando ouve e olha .De mais!

  5. Richard é demais. Comecei à amá-lo desde que ouvi pela primeira vez a música Bitter sweet synfhony.

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