entrevista de Leonardo Vinhas
Quem frequentou os ambientes mais permeáveis ao rock nos anos 1990 e 2000 carrega uma inegável nostalgia de um tempo em que parecia haver uma banda tocando em cada esquina. Claro que não era literalmente nessa proporção, e que nem tudo que soava nos amplificadores era digno de nota, mas foi um período com ampla circulação de bandas das mais variadas vertentes do estilo por diferentes estados, tocando tanto em bares e casas noturna (mais nos anos 1990 que nos 2000, é verdade) quanto em festivais. E sim, isso é passado, mas se alguma capital tem um presente que honre essa história, essa é Goiânia.
Além de festivais tradicionais, como Goiânia Noise, Vaca Amarela e Bananada, a cidade mantém uma movimentação constante de bandas, com uma predominância das vertentes mais pesadas do estilo, mas sem jamais se fechar em uma monocultura – basta lembrar que uma das melhores bandas da última década, Boogarins, surgiu por lá.
Lançado em 2024 graças à parceria entre a Monstro Discos e o Sesc, o álbum “Estúdio Sesc – 28º Goiânia Noise Festival” é um registro importante dessa movimentação. Gravado ao vivo durante o evento que lhe dá nome, o álbum registra gravações de bandas escolhidas pela curadoria do Noise em parceria com o produtor Gustavo Vazquez. Entre veteranos e novatos, o resultado é um belo retrato da cena local, com canções inspiradas de Sheena Ye, União Clandestina, Sótão, AnarkoTrans com DJ Johnny Black, entre outros. Do hardcore mais extremo ao peso eletrônico influenciado por funk e outros beats, tem pra todo mundo – menos pra quem ainda está confinado no próprio passado, com aquele discurso cansado de “na minha época era bom”.
Leonardo Razuk, um dos sócios da Monstro Discos, conversou com o Scream & Yell sobre essa iniciativa, a longevidade da Monstro Discos e da cena roqueira local, e dos planos para manter a intensidade da movimentação roqueira na cidade em 2025.
O álbum “Estúdio Sesc – 28º Goiânia Noise Festival ” reúne bandas novíssimas e outras veteranas. Qual foi o critério para estabelecer essa seleção?
A gente foi o mais amplo possível nessa edição. O regulamento que criamos condicionava as inscrições apenas para bandas de Goiás (nesse teve a Nienori, que é de Rio Verde, região Sudoeste do Estado) e que fossem gravar um material inédito e autoral. Foram dezenas de inscrições. O grupo curador era formado por nós da Monstro e pelo Gustavo Vazquez, produtor musical do disco. Ouvimos tudo, avaliamos, discutimos, votamos e chegamos a esses 12 nomes. A ideia das inscrições era até pra gente ir conhecendo novos artistas também. Mesmo que não tenham sido selecionados pro Estúdio, é um exercício importante pra gente porque muita coisa que a gente escuta e avalia fica no nosso radar. Pode ser que a banda não entre na programação do Estúdio, mas depois convidamos para outros dos nossos eventos ou mesmo para uma próxima edição do festival.
O projeto existe desde 2007, mas só ganhou disco na edição de 2024. Quais foram algumas das bandas que passaram por ele e tiveram uma carreira marcante na cena goiana?
Na verdade não é o primeiro disco. O de 2016 também está nas plataformas de streaming e, antes disso, quando não havia Spotify, Deezer e afins, a gente subia tudo no Youtube, com um registro audiovisual. Se procurar lá no nosso canal, tem muita coisa legal. O estúdio sempre teve esse objetivo de dar uma entrega para os artistas de um registro fonográfico ou audiovisual. Só que não teve o estúdio em todas as edições do festival. A gente sempre faz quando há recurso ou um parceiro que ajude a viabilizar. Sobre as bandas, já passaram nomes importantes da cena local como Bang Bang Babies, Barfly, Heaven’s Guardian, Ressonância Mórfica, Black Lines, Kamura, Ultravespa, que era um trio do Dinho, hoje vocalista do Boogarins… é muita coisa. Muita banda legal que teve material registrado por causa do Estúdio Noise.
Pelo próprio fato de ser um estúdio e se dispor a mostrar making of e afins, as gravações do projeto aconteceram num ambiente mais contido dentro do Centro Cultural Oscar Niemeyer. Vocês pensam em alguma maneira de integrar mais o projeto ao festival – talvez incluindo alguma banda num dos palcos maiores?
Ao longo desses anos o Estúdio já teve diversos formatos. O mais comum é esse do “aquário”, com as bandas gravando dentro e o público acompanhando de fora. Mas já fizemos também alguns em que o público podia entrar e a banda tocava não só uma música, mas fazia um pocket show, com a plateia se espremendo lá dentro do estande… Em 2022, ele era aberto na frente e funcionou mesmo como um terceiro palco, com as bandas fazendo show. Esse tem o registro todo no Youtube, por exemplo, e já pensamos até em levar bandas da grade do festival para gravar também. Ainda não pensamos como será este ano, mas queremos fazer e sempre criar algo que seja legal para os artistas e para o público. E, claro, ter esse registro no fim de tudo.
O que a gravação de um álbum representa, hoje, para uma cena local? Ou, em uma pergunta mais direta: em tempos de streaming e menos lugares para som ao vivo, o que um álbum como esse pode trazer para a cena underground goiana?
Em primeiro lugar acho que o álbum é um registro de um momento. Da música local, da produção, dos artistas… como falei, muitos artistas deixaram um registro por causa do Estúdio Noise. É um retrato histórico. Olhando para trás, depois de 30 anos de festival, a gente vê quantas coisas legais passaram pelo Noise e que se perderam no tempo por falta de registro. Ou mesmo bandas da cidade. Volta e meia a gente recupera alguma coisa, posta nos nossos canais e redes sociais não só para relembrar, mas também para mostrar para públicos novos que existiu a banda tal, o disco tal… o show… E acredito que todo artista quer gravar sua música. Deixar esse legado, essa marca temporal. Que seja no streaming, no Youtube, em CD, fita K7… a gente faz tudo e topa tudo se a banda for bacana. No caso do Estúdio, mesmo que hoje seja mais fácil e acessível gravar, é ainda um presente, um incentivo e um reconhecimento a artistas que estão lutando e buscando divulgar seus trabalhos. Não tem custo nenhum de gravação e ainda é com um produtor foda! O Vazquez, que todo mundo chama carinhosamente de Mestre, é um cara premiado e reconhecido no Brasil todo. Trabalhar com ele é um sonho para muitos artistas e o resultado é absurdo.

O rock não morreu em lugar algum, isso é óbvio. Mas a movimentação em Goiás tem uma vivacidade raramente equiparável a outras cidades: são festivais como o Noise e o Vaca Amarela, a longevidade da Monstro enquanto loja e selo, mesmo espaços como o Shiva mantendo-se ativos com bandas autorais. O que mantém essa disposição para não deixar a cena sucumbir ao próprio zeitgeist, em que há mais artistas individuais que bandas?
Cara… difícil responder assim. Essa pergunta leva a mil análises e é tema de mestrado, doutorado, sei lá… (risos) Mas acredito que essa coisa do rock em Goiânia já está enraizado na cultura e no comportamento da cidade. São 30 anos só do Noise. São gerações que cresceram frequentando, curtindo, tocando nesses festivais, nas casas que já tiveram… vendo os shows mais absurdos, loucos e improváveis passarem por aqui. Muitas bandas que fizeram história, mesmo que só local, mas influenciaram e ainda influenciam outras… Acho que isso já está mesmo no espírito de muita gente aqui. Na essência da cidade. A tal “Goiânia Rock City” que era uma brincadeira, que virou comunidade do Orkut, projeto de shows, site de notícias, discos e agora até um filme… esse jargão de quem frequenta esses lugares e eventos, realmente existe. E rock tem muito a ver com banda, né? O espírito de banda e não de artista solo. Claro, o rock tem artistas solo incríveis… mas acho que a banda tem algo da união, da amizade, do sonho coletivo, do se foder junto… (risos), sei lá. Esse tipo de pergunta é boa é pro doutor Márcio Júnior responder. (risos)
O Goiânia Noise de 2025 já tem data para acontecer.? Pode adiantar alguma coisa sobre o evento – e sobre como será o Estúdio Sesc nessa edição?
Tem. Inicialmente a gente tinha programado tudo para maio e já íamos soltar as datas, mas houve um pequeno problema em relação à agenda do espaço e agora estamos ajustando isso. Daí, ele deve acontecer em setembro. Ainda não podemos precisar e divulgar porque estamos acertando esses últimos detalhes com o Centro Cultural Oscar Niemeyer e o governo do Estado, que administra o espaço.
Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.
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