Entrevista: Dinosaur Jr.

entrevista por Leonardo Tissot

A metáfora é velha, mas não deixa de ser verdadeira. Na estrada há 37 anos, o Dinosaur Jr. é como um bom vinho — fica melhor a cada ano que passa. Uma das poucas bandas da cena alternativa americana dos anos 1980 que continua ativa com seus membros originais, o trio de Amherst, Massachusetts, se beneficiou de um respiro no convívio entre seus integrantes.

O baixista Lou Barlow foi o primeiro a sair, em 1989, para formar o cultuado Sebadoh, enquanto o baterista Murph largou a banda em 1993 e foi tocar com os Lemonheads, deixando o guitarrista e vocalista J. Mascis responsável por manter o grupo ativo com formações diversas — que incluíram nomes como o baixista Van Conner (Screaming Trees) e o guitarrista Don Fleming. Mas até ele precisou de um tempo, optando por dar uma pausa na banda em 1997, pouco após o lançamento de “Hand It Over” (último disco do Dinosaur por uma grande gravadora).

Em 2005, Mascis, Barlow e Murph decidiram retomar a carreira juntos, lançando cinco discos bem-sucedidos desde então — algo incomum para bandas revividas após tantos anos. “Beyond” (2007), “Farm” (2009), “I Bet on Sky” (2012) e “Give a Glimpse of What Yer Not” (2016) estão entre os melhores trabalhos da banda. A eles, soma-se “Sweep It Into Space”, lançado em abril deste ano.

Com gravações atribuladas em função da pandemia, o 12º disco do Dinosaur Jr. não faz feio na comparação com trabalhos anteriores, e traz o som clássico do trio — a sujeira virtuosa da guitarra de Mascis, o baixão marcante de Barlow e a bateria minimalista de Murph —, agradando fãs e críticos que já estavam com saudades do grupo. Outra novidade é o documentário “Freak Scene — The Story of Dinosaur Jr.”, que tem sido apresentado em festivais de cinema na Europa e deve ser lançado no segundo semestre.

Para comentar as novidades, trocamos uma ideia com o baterista Murph, que falou sobre o papel de Kurt Vile na produção do álbum e convites para gravar no estúdio de Dave Grohl — além de reclamar do baixista Lou Barlow, que não o convida para nada, mesmo morando perto. Liga pro Murph, Lou!

Confira a entrevista a seguir!

Como você está, Murph?
Bem. O tempo está melhorando, estamos na primavera, quase verão por aqui, então as pessoas estão animadas. Especialmente por causa do lance do Covid. As coisas estão começando a reabrir aos poucos aqui onde moramos, em Massachusetts. Então são duas coisas rolando: a primavera e as pessoas loucas pra sair de casa. O pessoal tá animado.

Legal. Gostaria de começar te pedindo para falar um pouco sobre o novo álbum, “Sweep It Into Space”. Estou curioso para saber sobre as gravações. Alguma diferença em relação a álbuns anteriores?
Bom, a fórmula é a mesma. O J. [Mascis, guitarrista e vocalista] faz as demos, bem básicas, só com bateria e guitarra. Às vezes ele cantarola algumas ideias de letra, e entrega esse material pra mim e para o Lou [Barlow, baixista e vocalista]. Esse processo foi o mesmo de sempre. O que mudou foi que a pandemia afetou completamente as gravações. Primeiro gravamos a bateria, e leva uns dois meses até termos as faixas completas. Às vezes aproveitamos um pouco do baixo bem cru, mas geralmente fazemos overdubs. E aí, claro, entram a guitarra e os vocais. O timing foi perfeito porque, literalmente, quando terminamos de gravar a bateria, tudo fechou e tivemos que nos isolar. Fiquei sem ver os outros caras da banda por meses e meses. Então, o J. teve que terminar o disco praticamente sozinho, no estúdio que ele tem em casa. Fiquei impressionado que ele conseguiu e que o disco ficou com um som bom, porque geralmente temos um engenheiro de som e um produtor. Ainda tivemos ajuda desses caras, trabalhando remotamente, mas é algo completamente diferente quando você está sozinho.

Vocês gravaram na cidade em que vivem, Amherst, certo? Ouvi falar que vocês sempre gravam no mesmo estúdio, é verdade?
É, o estúdio fica na casa do J. No terceiro andar, mais precisamente. Ele é assim, agora que ele tem o próprio estúdio, ele nunca quer… A gente tá sempre falando, “ei, quem sabe a gente vai gravar em Los Angeles?”. Teve uma vez em que estávamos batendo um papo com o Dave Grohl. Ele tem um estúdio incrível na Califórnia, e aí ele comentou: “Pois é, vocês poderiam gravar um disco lá”. Ficamos super empolgados. Eu e o Lou ficamos, tipo, claro que sim! Aí o J. vem e diz que vai sair muito caro, que é melhor fazer na casa dele mesmo, que é mais barato… [risos]

Dessa vez vocês tiveram ajuda do Kurt Vile. Por que o escolheram como produtor e de que forma ele contribuiu para o disco?
Bem, já havíamos trabalhado com ele antes. Quando o Kurt começou sua carreira, ele abriu vários shows nossos. Aí ele começou a crescer e crescer… É aquela velha história, hoje ele é maior que a gente. Por alguma razão, queríamos chacoalhar um pouco as coisas. Talvez injetar uma energia nova, deixar as coisas com um frescor diferente. E aí pensamos que o Kurt seria o cara que poderia nos ajudar a produzir e dar um apoio na criação do disco. Só que, de repente, tivemos que interromper tudo. Ele esteve com a gente por uns três dias, e aí a pandemia começou e tivemos que ir cada um para um lado. Mas ele nos ajudou um pouco. Somos uma banda que gosta de ter privacidade. Então, para a gente, ter um cara como o Kurt no estúdio, mesmo que ele não estivesse fazendo muita coisa, apenas a presença dele ali já era importante. Isso fez uma diferença e teve um impacto positivo. Acho que deixou o disco um pouco mais leve e com um som mais pop.

O álbum soa como se vocês realmente estivessem se divertindo. Não soa como uma banda com mais de 30 anos de carreira. É comum ouvirmos bandas da mesma geração e sentir o peso dos anos nas músicas, mas isso não acontece com vocês. Qual o segredo?
Digo isso em todas as entrevistas, simplesmente porque é a resposta correta. É a forma como o J. aborda as composições em cada disco. Ele também já falou sobre isso em outras entrevistas. Cada disco é uma fotografia. É como se fosse um álbum de fotos e cada disco é uma página, e ele escreve o que está acontecendo na sua vida naquele momento. Acho que é por isso que o disco tem um frescor. Ele não está pensando no passado ou no futuro. Ele está pensando sobre o que está acontecendo na vida dele nos últimos meses e aí cria algo a partir disso. Às vezes também pegamos músicas antigas, como lados B, que não deram muito certo no passado, e as retrabalhamos. Pegamos uma parte de uma música e colocamos em outra, criamos uma música nova, e aí pensamos: “ei, ficou legal”. Tem um pouco disso também, mas acho que o principal é o J. de olho no que anda rolando. Ele não fica pensando no nosso histórico, ou se a música é muito parecida com outra que fizemos antes. Ele escreve no ato, e acho que isso traz um frescor para os discos.

Você tem uma faixa favorita no novo disco?
Gosto da primeira faixa, “I Ain’t”. Ela está começando a soar bem ao vivo. Tem mais algumas que gosto. Ainda estou ouvindo o disco, na verdade. Estamos aprendendo a tocar as músicas. Somos uma banda meio estranha, porque quando gravamos a bateria e o baixo, eu e o Lou ainda não ouvimos as músicas. J. não está cantando, não está tocando guitarra, tudo o que ouvimos são a bateria e o baixo. Então não sabemos como as músicas vão soar, até que a gente literalmente ouça o disco quando ele está pronto. E aí ficamos, tipo, “Ah, então é assim que essa música é”. É um processo meio bizarro, temos que aprendê-las quando ouvimos o disco pronto. Hoje ensaiamos e nosso tour manager veio e trouxe uma caixa de CDs. Peguei uns três pra mim, então estou ouvindo mais agora.

É quase como atores fazendo um filme. Eles atuam nas cenas e só depois de tudo pronto é que vão ver como ficou.
O mais estranho é quando ouço atores, quando perguntados sobre o que acharam de seu último filme, responderem algo como “ah, eu não vejo meus filmes. Faço minhas cenas e me mando”. [risos] E aí eles ficam, tipo, “meu deus, jamais assisti a um filme meu”. Acho tão louco quando ouço isso.

Recentemente o J. disse em uma entrevista que vocês estão todos morando perto uns dos outros, como era no começo da banda — isso desde que o Lou voltou de seu período vivendo na Califórnia. Imagino que isso torne mais fácil para vocês se juntarem pra ensaiar, mas você diria que isso também influencia o som? Quer dizer, isso tem influência no tipo de música que vocês tocam?
Não, e é isso que eu acho esquisito… Estamos todos morando na mesma região, mas eu acho que passávamos mais tempo juntos — e especialmente em relação ao Lou — quando ele morava na Califórnia. Agora, eu nunca o vejo! Ele está sempre com a família… Ele casou novamente e está morando aqui em Massachusetts, e está sempre com a família. Antes, era tipo, “venham me visitar!”. Sempre rolava alguma coisa, mas agora mudou totalmente. Então, na real eu nunca vejo o Lou, a não ser que estejamos ensaiando ou em turnê. É tão bizarro. Achei que estaríamos tocando juntos mais frequentemente e saindo juntos. [Quando ele se mudou] pensei, “poxa, isso vai ser ótimo, talvez a gente consiga até bolar umas ideias novas”, mas acabou que é exatamente o contrário. [risos]

Qual sua opinião sobre o atual cenário da indústria, com os streamings e novas maneiras de colocar sua música no mundo? Isso tem algum impacto criativo na hora de vocês tomarem decisões como banda? E financeiramente, tem algum impacto no grupo, do ponto de vista de negócios?
Na verdade, não. Não nos afeta em nada. Somos bem “old school”. O J. e o Lou ainda ouvem um monte de discos. Eu acho que se você me fizesse essa pergunta alguns anos atrás, eu te responderia [faz uma voz engraçada], “não gosto disso, que negócio é esse?”, sabe? Mas agora já me acostumei. Pra mim, não tem tanta diferença. Fiquei triste de ver os discos de vinil acabarem, eu os adorava. Mas fiz a troca para os CDs e para os formatos digitais, e não fico pensando muito nisso. Tenho uma coleção bem pequena de discos que ainda guardo, mas não sou muito ligado em vinil. Eu meio que abraço as novidades. Como banda, nos adaptamos às mudanças e não nos preocupamos com isso.

Vi que vocês têm planos para esse ano. Vão começar uma turnê em setembro, com alguns festivais no caminho também. Está animado para voltar a tocar ao vivo?
Bem, como banda, estamos animados. Mas do ponto de vista pessoal, estou um pouco apreensivo. Eu preferiria esperar o vírus sumir e o mundo inteiro estar totalmente vacinado antes de voltar a fazer turnês, mas aparentemente vai dar tudo certo. É empolgante pensar a respeito, apenas espero que seja seguro. É difícil, porque nosso país está muito dividido. É muito doido pensar que tem tanta gente acreditando em teorias da conspiração malucas, e isso não traz confiança para sair e fazer nosso trabalho. Quando tem todo esse desequilíbrio rolando, eu, pessoalmente, preferia esperar as coisas se assentarem. Mas entendo que as pessoas estejam ansiosas e realmente queiram voltar a fazer música. Não apenas nós, tem várias outras bandas anunciando shows…

Queria te perguntar sobre o documentário “Freak Scene — The Story of Dinosaur Jr.”. Já assistiu?
Acho que você se refere ao filme que o cunhado do J. fez. Vi algumas partes e achei muito bom. Já faz uns 10 anos que ele está trabalhando no filme.

Então, para encerrarmos, lembra de alguma coisa de seus shows no Brasil?
Toquei por aí com os Lemonheads e com o Dinosaur Jr. algumas vezes. É sempre bem animado, o Brasil é muito divertido. Não lembro especificamente dos shows, mas sim da energia. A gente sente uma energia em cada país, e isso deixa uma marca na gente. Acho que é simplesmente mais divertido tocar em países sul-americanos do que em outros lugares. O pessoal é mais solto, menos tenso. É um clima mais festivo e divertido. Acho que é a principal diferença.

– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista e produtor de conteúdo

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