Os pontos positivos e negativos de “Quebra Tudo: A História do Rock na América Latina”

por Leonardo Vinhas

Quebra Tudo – A História do Rock na América Latina” é uma série documental original Netflix em seis episódios dedicada a contar a história do rock cantado em espanhol na região. É um projeto ambicioso: a intenção é retratar uma trajetória de mais de 60 anos de maneira concisa e coerente, destacando como ela se relacionou com o contexto macropolítico e social de cada momento. Consegue? Sim e não.

São muitos os méritos de “Quebra Tudo” (“Rompan Todo” no original). O primeiro é justamente reunir uma grande quantidade de personagens extremamente relevantes dessa história, inclusive alguns sobreviventes da primeira era do rock, ainda no fim dos anos 50. O segundo é mostrar que o rock encontrou linguagens e estéticas particulares do México ao Uruguai, ainda que em alguns países tenha levado mais tempo do que em outros, e que os resultados tenham sido diferentes em cada um. E o terceiro é construir uma linha do tempo que faz sentido sem forçar a barra.

Porém, há também problemas que dizem respeito à proposta documental da obra em si mesma. O mais evidente está justamente na escolha em quem entra e quem fica de fora dessa história. Alguns artistas ganham grande destaque por questões de popularidade, outros por sua relação com o momento político. Isso gera algumas escolhas curiosas.

Charly García é retratado com destaque tanto nos anos 1970 e 1980. Pelo aspecto musical, nada mais justo: nem uma pessoa de muita má fé conseguiria desmerecer a riqueza e o peso artístico de sua obra. Mas o homem dos bigodes bicolores – que aparece extremamente debilitado nas entrevistas feitas para a série – nunca teve uma conexão relevante com questões políticas tampouco com uma representatividade de uma grande parcela da sociedade.

Fito Páez, responsável pelo disco mais vendido da história do rock argentino

Por outro lado, toda a movimentação argentina do “rock barrial” – periférico, de classe baixa, futeboleiro e extremamente derivativo do som de Stones e Creedence – é ignorada. E sem abordar essa movimentação, que foi bastante forte durante quase duas décadas, fica difícil entender as implicações da tragédia de Cromañon, um dos pontos mais delicados do documentário (você leu aqui no Scream & Yell na época).

194 jovens morreram queimados, asfixiados ou pisoteados na casa noturna Cromañon em Buenos Aires, no dia 30 de dezembro de 2004. Centenas de outras ficaram feridos. Era a terceira e última noite de uma série de shows comemorativos dos Callejeros, uma das bandas mais famosas do rock barrial. A casa estava superlotada – foram vendidos muito mais ingressos do que o local comportava, e mesmo com quase mil pessoas a mais do que a capacidade, ainda ficaram pessoas de fora querendo entrar.

Com medo de que essas pessoas invadissem o local, as saídas de incêndio foram trancadas a mando do proprietário do local, o empresário Omar Chabán. Quando um demente disparou uma “bengala” – um fogo de artifício de três tiros, comum nos shows de rock barrial, mas não só neles – o teto pegou fogo e, com as saídas comprometidas, o inferno se instalou na noite portenha.

Chabán e a banda foram condenados como corresponsáveis – como os Callejeros ganhavam porcentagem da bilheteria, sabiam que a casa estava superlotada. A investigação revelou também a corrupção estrutural na prefeitura de Buenos Aires, e vários funcionários públicos foram destituídos e penalizados. O prefeito Aníbal Ibarra sofreu impeachment. E a cena de shows na Argentina nunca mais foi a mesma.

Porém, o documentário ignora essas complexidades, e pior: se esforça em culpabilizar somente os funcionários públicos corruptos. Acovarda-se tanto em repudiar a cultura hooligan que cercava o rock barrial (e que era incentivada por muitas bandas), e também em reconhecer o quinhão de culpa de produtores e músicos. À época, Cromañon resultou em um racha enorme no rock argentino: de um lado, músicos que pediam prisão aos Callejeros e que condenavam veementemente o uso de bengalas e a falta de segurança das casas de shows e festivais; de outros, gente como Germán Daffunchio, da banda Las Pelotas, dizendo que “a música não mata” e pedindo liberdade para a banda e para Chabán – um empresário querido por muitos músicos e odiado por outros tantos.

Nada disso consta do documentário, que, frise-se, isenta abertamente a banda de culpa e ignora a discussão. E, repito, nada se fala do rock barrial. Por mais vulgar e musicalmente pobre que fosse (e, de fato, era: não é possível imaginar que alguém sinta falta da música de bandas medíocres como La 25 e Jóvenes Pordioseros), representou uma juventude suburbana, sem perspectivas maiores que beber e fumar o máximo possível antes de morrer jovem ou envelhecer em uma vida depauperada.

Talvez uma das chaves para entender esse “esquecimento” esteja em uma discussão que é sugerida, mas não aprofundada, no capítulo 5: que o rock foi majoritariamente um fenômeno de classe média. Salvo por algumas exceções muito bem registradas no documentário, o gênero não tinha em sua essência a vocação de se comunicar com as classes mais baixas.

Um dos entrevistados dá essa deixa e, quando parece que a discussão vai decolar… ela simplesmente some! E entra uma teoria velhusca e perneta sobre o rock ter perdido espaço para a música eletrônica e ter sofrido com a morte da indústria musical.

O diretor Picky Talarico chamou um trio de jornalistas respeitados para atuar como consultores históricos – os argentinos Claudio Kleiman e Juanjo Carmona, e o mexicano Enrique Blanc. Mesmo assim, a história que ele e o roteirista Nicolás Entel querem contar é uma historiografia que obedece a uma estética pessoal.

No prefácio de seu livro “Eu Não Sou Cachorro, Não”, o historiador Paulo César de Araújo comenta que sempre lhe causou estranheza a história “oficial” da música brasileira ter apagado o chamado “brega” de seus registros. Nelson Ned, Paulo Sergio, Odair José e Nelson Gonçalves eram os grandes vendedores de discos e dominavam as rádios AM, mas os livros de história se referiam apenas a Gil, Caetano e demais “medalhões” da MPB. “Quebra Tudo” adota uma perspectiva semelhante.

Outro ponto questionável de “Quebra Tudo” é que a série parte do princípio que você já conhece grande parte daqueles que são retratados ali. Isso aliena o espectador novato, ou mesmo neófito, de quem realmente são as pessoas ali retratadas. “Quebra Tudo” não é para iniciantes.

Rubén Albarrán, vocalista da banda mexicana Café Tacvba

Por exemplo: pela maneira que é retratado, parece que Andrés Calamaro é apenas um integrante das bandas Los Abuelos de la Nada e Los Rodríguez, e não um dos principais responsáveis por unir o rock à canção popular argentina em uma carreira solo extremamente bem-sucedida. Luis Alberto Spinetta parece ter sido um músico de atuação restrita aos anos 1970. Os Babasónicos são apresentados mais como um sucesso resultante da MTV, uma espécie de Duran Duran da era grunge, e não como uma das bandas mais inventivas do rock latino, que chegou ao sucesso massivo justamente quando a Argentina desmoronava durante a era de Fernando de la Rúa.

O rock uruguaio, por sua vez, só é mencionado em dois momentos. No primeiro, pela explosão popular da banda Los Shakers nos anos 1960. No segundo, aparece como uma espécie de “estepe” para o rock argentino durante a pior crise econômica do país de Maradona. Uma injustiça brutal com uma das mais ricas cenas musicais das Américas.

Artistas mais novos – como Mon Laferte e Santiago Barrionuevo (El Mató a Un Policia Motorizado) – são mostrados sem que se traga informações ou um mínimo contexto sobre a geração deles, na qual o rock voltou ao underground, mas consegue alçar voos mais altos no exterior do que muitos de seus predecessores E é curioso que o documentário trate o rap como parte do cenário rock, mas ignore o reggae e o metal, gênero que foram tão ou mais populares em determinados momentos.

Evidentemente, quem já é ouvinte desse cenário musical há tempos há de ter alguma referência sobre todos esses artistas, ou boa parte deles. Porém, sendo uma produção original Netflix, era evidente que chegaria a outros públicos. Talarico e Entél parecem não ter se dado conta disso.

Aliás, um dado curioso: a Netflix se notabilizou por estender suas séries de documentário e de ficção além do que seria razoável. Mas aqui acontece o oposto: é tempo de menos para histórias demais.

A série termina com um aceno ao futuro que, apesar de bem-intencionado, não encontra respaldo em nada apresentado nas quase seis horas que antecedem esse final. Como não há como debater esse tema sem dar spoilers, não é o momento de aprofundar a questão. Mas é inegável que o “futuro do rock” sugerido pela série tem mais a ver com uma vontade de seus realizadores do que com os fatos do presente. É um vaticínio forçado.

Em suma, “Quebra Tudo” é uma série com muitos senões. Porém, é também a primeira tentativa de se contar de forma documental uma história única, complexa e extremamente rica em um veículo de sucesso e alcance mundial. Difícil saber se sua costura apertada de tantos pontos vai atrair novos interessados para o universo musical que retrata. É possível que sim, já que é difícil ficar indiferente a algumas passagens poderosas – como o rock anti-Pinochet de Los Prisoneros, a associação de roqueiros com a guerrilha zapatista nos anos 90 ou mesmo o sentido de arrependimento de León Gieco por haver apoiado oficialmente o governo militar poucos anos depois do mesmo tê-lo levado ao exílio.

Há, ainda, passagens onde a música fala por si só, sem precisar de contexto social: no proto-punk ensandecido e inigualável dos peruanos Los Saicos, na ascensão da latinidad combativa dos Fabulosos Cadillacs, nas melodias impecáveis de Fito Páez, no sofisticado folk de matriz roqueira de Los Tres, na energia bruta do Tijuana No! e no autêntico amor pela música e pela inventividade mostrado pelo Café Tacvba. São histórias que merecem ser olhadas de perto e escutadas com atenção. Quem sabe “Quebra Tudo” seja a primeira de muitas iniciativas a esmiuçar o que o rock cantado em espanhol tem a oferecer.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

6 thoughts on “Os pontos positivos e negativos de “Quebra Tudo: A História do Rock na América Latina”

  1. Acho bastante complicado dizer que o ignorar uma banda faz a série perder seu valor. Eu assisti a série, fiquei fascinado. Alguma coisa eu conhecia (os mais destacados mesmo tipo Soda Stereo, Cadillacs etc), outros eu nunca tinha ouvido falar. No dia seguinte fui atrás de muitas coisas. É óbvio no meu entender, que narrar uma história é escolher, segmentar, cortar, optar por um caminho. Por mais que a série tivesse 30 episódios, sempre alguém diria ter faltado isso ou aquilo. Falo por experiência própria. Escrevi um livro em 2004 sobre o rock paraense dos anos 80. Citei dezenas de bandas, mas escolhi 18 para representar o cenário. Até hoje encontro gente que comenta ter deixado essa ou aquela de fora. Recentemente foi lançado o longa Nazinha, olhai por nós, um documentário sobre o sistema prisional paraense. Ficamos 4 anos acompanhando personagens. O roteiro do filme é meu. Quando vi o filme pronto, senti falta de muita coisa que eu achava deveria estar nele , mas o diretor optou por deixar de fora. Então, isso acaba sendo, de certa forma natural. Isso de forma alguma desmerece a série. Ela serve como porta de entrada para um cenário que nós brasileiros pouco conhecemos. Embora devêssemos.

  2. Eu fiquei mó putérrimo
    Primeiro, porque podiam destacar mais os nomes do rock uruguaio, Rubén Rada se resumiu aos primórdios falando sobre Los Shakers e Billy Cafaro. Óbvio que o conjunto Los Iracundos, de Paysandu, também mereciam uma parte da história contada, mesmo que só no momento em que eram roqueiros no comecinho (depois de 1968, ano do hit “Puerto Montt”, eles deixaram a verve roqueira para uma coisa mais baladista/romântica aos poucos até meados de 1974). Os grupos como El Kinto e Totem – ambos do qual Rada fez parte, o primeiro com o falecido Eduardo Mateo, Psiglo, Días de Blues. E os anos 80 com Níquel (do qual saiu Jorge Nasser), Los Traidores (da bíblia punk Montevideo Agoniza), Neoh 23, Los Tontos e também Jaime Roos (não me venha o sr. Leonardo Vinhas dizer que Roos nunca foi rock, ouça o disco “Mediocampo” e saberá que ali há muito do rock no seu disco) que voltou da Holanda mais uruguaio que nunca. Óbvio, teve nos anos 1990 La Tabaré Riverrock Banda, Buitres Después de La Una, Los Estómagos, Peyote Asesino (do qual Juan Campodónico faz parte) e grupos atuais como Cursi, Abuela Coca (encerrado em 2018), Once Tiros, Hereford, Trotsky Vengarán e por aí vai.
    Dos argentinos, houve muita falta de explicação sobre alguns artistas, mas também senti a ausência de nomes como La Renga, El Reloj, Crucis (do qual Anibal Kerpel foi músico), Suéter, G.I.T. (que se resumiu a vídeos tocando com Charly e à capa do álbum de 1984) e por aí vai.
    Parabéns pelo seu excelente texto, Leonardo! Tá do caralho, dou toda moral pra você mesmo!

    1. Obrigado, Alcemar!
      Li algumas entrevistas do Picky Talarico (diretor) falando que o foco da série foi nos nomes que “transcenderam”, ou seja, que tiveram êxito além de seus países de origem. É uma argumentação que não se sustenta, pois se assim fosse, não teríamos alguns nomes que ganham grande destaque, como Tijuana No!, Ekhymosis e mesmo Los Redondos, que apesar de um fenômeno descomunal, teve seu alcance mais concentrado na Argentina. E, a manter esse critério, a ausência do Sepultura e dos Paralamas seria incoerente.
      E, claro, há as abordagens equivocadas, como a maneira como se tratou a tragédia de Cromagnon ou as carreiras de Andrés Calamaro e dos Babasónicos. Ou seja: é um documentário muito enviesado e falho, e a defesa feita por alguns colegas, de que “pelo menos é uma introdução ao universo do rock latino”, não me convence. Na verdade, quanto mais eu penso sobre esse doc, mais ele me frustra. Uma tremenda oportunidade desperdiçada.

      Em tempos: Jaime Roos é rock, é murga, é “canción uruguaya” e muito mais! Esse homem é um monstro! Tem uma caixa com toda a obra dele remasterizada. Um dia cometo a insensatez financeira de comprá-la, hehe.

    2. Concordo com a tônica do artigo. No geral o meu sentimento foi o mesmo. Mas dizer que Charly Garcia nunca teve conexões relevantes com questões políticas é de um desconhecimento absurdo… Sui Generis (3o disco inteiro, botas locas), Que se puede hacer salvo ver peliculas (Máquina de hacer pajaros), Seru Giran (várias), pouco destacado no doc, aliás, e carreira solo (yendo de la cama al living, no bonbardeen BA, los dinossaurios, cerca de la revolucion). Na boa, quem tem mais conexão com política no rock argentino?

      1. O lance é que os realizadores do documentário alegam que as bandas que foram retratadas são as que ou transcenderam seus próprios mercados (Soda, Café Tacvba, Los Rodriguez e outros), ou as que se envolveram ativamente em questões políticas, como os chilenos Los Prisioneros, ou todas as bandas que apoiaram os zapatistas no México. Charly, apesar da temática política em muitas canções, não teve um envolvimento de confronto tão direto com a política argentina, por isso o comentário de ele não ter aproximação direta com a política (reconheço, porém, que não deixei isso claro no texto, então o puxão de orelha é justo).

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