Entrevista: Bruno Capinan

entrevista por Renan Guerra

Bruno Capinan pode ser apresentado com muitos epítetos: um baiano radicado no Canadá; um cantor negro e gay; um compositor com carreira longa, de olhar sensível sobre o seu entorno; um artista inquieto e atento ao mundo. Todos essas referências podem ser encontradas dentro do quarto disco de Capinan, chamado “Real” (2019) e lançado recentemente. De poesia delicada e com produção cuidadosa, esse novo álbum é um fotograma das relações em nosso tempo, com direito a apps, sexo, solidão, medo e uma entrega apaixonada.

“Real” foi produzido pelo próprio Bruno ao lado de Mark Lawson, engenheiro de som que já trabalhou com nomes como Arcade Fire, Peter Gabriel e Beirut. O trabalho foi gravado ao lado de músicos brasileiros e canadenses, contando com o auxílio luxuoso de Bem Gil, que é amigo de Capinan. Além disso, outros amigos ainda aparecem em diferentes momentos do disco, como Lan Lanh, Mãeana, Rubel, Basia Bulat, Domenico Lacenllotti e Philippe Cohen Solal.

Capinan reside há 17 anos em Toronto, no Canadá, porém isso não diminui suas relações com o Brasil. O emaranhado de complexidades dessas bandas mexem com o artista lá no hemisfério norte e isso tudo foi transformado em canções no novo disco. Conversamos com Bruno através do WhastApp, em um papo sincero, onde o músico falou sobre políticas de incetivo, aplicativos de relacionamentos, música e amor. Confira abaixo:

Você mora há muitos anos no Canadá, porém entre o “Divina Graça” (2016) e o “Real” (2019) você teve uma temporada em São Paulo. Como foi esse retorno, mesmo que breve, ao Brasil?
Quando eu estava no Brasil fazendo o lançamento de “Divina Graça”, fui fazer o show no Ibirapuera com o japonês Jun Miyake, e meio que estabeleci que iria morar em São Paulo. Eu curti muito a vibe de São Paulo, e o melhor lugar no Brasil para investir na carreira continua sendo São Paulo. Esse retorno foi muito importante, até mesmo para presenciar o Brasil atual. E aí foram nascendo algumas canções, como “Do Avesso”, que tem parceria da Mãeana, que eu escrevi em São Paulo, na casa que eu estava morando, na Vila Romana. De madrugada, eu peguei o violão, compus a canção inteira da maneira que ela ficou, inspirado por essa coisa dos pássaros na madrugada de São Paulo, de que os pássaros não dormem, eles ficam cantando, cantarolando ou gritando. E há aí também essa coisa de me forçar a presenciar o Brasil de agora, de voltar para o Brasil embora as pessoas falem “ah, não está tão legal, está muito complicado, está muito violento, tem muitos retrocessos”, eu percebi que eu poderia ser uma voz de resistência também por estar próximo dos amigos e das pessoas que estão sendo resistência nesse momento no Brasil. Então esse retorno também foi importante para eu conhecer novas pessoas, por estar me relacionando com outras pessoas, mas também foi diferente do “Divina Graça” pelo aspecto pessoal, que no momento do “Divina Graça” estava muito solto, eu estava me permitindo amar as pessoas, ver a vida de uma forma mais aberta, mais livre, e com o “Real” foi o oposto, eu comecei a ficar mais introspectivo, comecei a me fechar mais, embora eu estivesse mais exposto, eu comecei a entrar no meu casulo um pouquinho, até mesmo pra poder me ver como um outsider, viver como um estrangeiro no meu próprio país de origem, pra poder ter uma visão do nosso tempo. E como gay, como pessoa que usa Grindr, Scruff ou Hornet [risos], eu comecei a usar os aplicativos para fazer um estudo do nosso tempo, do nosso agora, por isso a canção “Real Agora”, que é uma expressão que vem dos aplicativos. E pra eu ter uma visão mesmo das dores do nosso mundo, nesse momento. Então, eu amarrei o disco muito em cima disso, muito em cima do meu retorno para o Brasil, para São Paulo. Eu encarei esse retorno como uma espécie de motor para minha inspiração, eu comecei a encarar como um próximo capítulo na minha escrita, na minha arte, na minha criação. E na verdade eu passei seis meses em São Paulo, de 2017 para 2018, e agora estou entre Toronto e São Paulo, não tenho mais uma casa fixa em São Paulo, mas eu passei três meses já na cidade esse ano e retorno em setembro para ficar divulgando esse disco e vendo o que acontece. Os meus amigos dizem que estão um pouco difíceis as coisas no Brasil, mais do que já estava, e eu estou indo pra botar as caras mesmo.

Você falou dessa percepção de seus amigos de que o Brasil está complicado. Como você recebe todas essas informações do que acontece por aqui aí em Toronto? Há uma reverberação aí do que estamos vivendo por aqui?
Super, há uma reverberação do que está acontecendo no Brasil na mídia internacional, eu acho que eu tenho críticas até a fazer sobre isso, eu acho que deveria ter mais, mas até mesmo comigo está tendo espaço para falar sobre. Eu escrevi um artigo de uma página no jornal The Globe Mail, do Canadá, que é o maior jornal daqui, um dia antes das eleições no Brasil. E alguns outros jornalistas já entraram em contato comigo sobre o que está acontecendo no Brasil; tem uma revista chamada Now Magazine, daqui também, que é a maior revista semanal de Toronto, e já rolaram duas matérias esse ano sobre a minha música sendo uma música de resistência quanto ao que está acontecendo no Brasil. E, claro, tem os jornais americanos, o New York Times, o Whashington Post, a mídia internacional está super acompanhando o que está acontecendo, mas eu fico um pouco inseguro com a relação ao foco, eu acho que agora o foco não precisa ser somente a perseguição desse governo contra os direitos humanos, a demonização dos direitos humanos como uma agenda esquerdista e comunista, enfim, mas eu acho que temos que discutir muito o desmatamento da Amazônia, pois é um assunto muito crucial, é um tópico muito importante para o mundo, não só para o Brasil. Se a Amazônia continuar a ser desmatada no ritmo que o novo governo está propondo é o fim de linha para a humanidade, porque é o pulmão do mundo. Então, eu tenho acompanhado tudo, eu leio tudo, tenho acompanhado o El País, o Le Monde, o New York Times, o Intercept, tudo até mídia da chamada direita eu tenho acompanhado, eu caço tudo assim para ter certeza de que eu posso formar uma opinião. E esse disco foi muito influenciado por tudo isso que tem acontecido. Para se ter uma ideia, eu gravei as vozes finais do disco no dia do segundo turno das eleições. Eu fui votar de manhã no consulado, aqui, e 11 da manhã eu já estava no estúdio gravando. Então foi muito complicado esse processo. É um disco de dores. Em “Divina Graça”, eu, o Domenico [Lancelotti] e o Bem [Gil] já estávamos conversando sobre política, já era um debate, a pauta do impeachment já estava circulando, eu estava apreensivo com o futuro do Brasil. Na época, eu falei “o Brasil pode chegar a uma outra ditadura”, por conta dos passos largos que estávamos dando em direção a isso.

Falando dessas questões políticas, um dos pontos em que o atual governo tem batido de forma intensa são as leis de incentivo cultural, bem como um controle dessas obras produzidas, o que remete à censura de um período ditatorial. O seu disco, por exemplo, foi construído através de incentivos do Canada Council for the Arts e do Toronto Arts Council. Qual a importância, ao seu ver, desse tipo de incentivo para uma produção artística mais livre?
Essa pergunta é muito importante de ser feita. É uma questão muito importante de ser debatida por toda a sociedade. Quando você mexe com lei, para exterminar incentivo cultural, essa é uma forma de controle também. A arte, na história da humanidade, serve não só como um meio de lazer, como também de questionar o status quo e de questionar a política. Eu tive a oportunidade de ter o patrocínio da Toronto Arts Council pro “Divina Graça”, no que foi um auxílio pequeno comparado com esse novo disco. Agora no “Real” tive o patrocínio do Canada Council e do Toronto Arts Council. O do Canada Council é mais difícil, pois estou concorrendo com o país inteiro, eu consegui o patrocínio maior dentro dele. E tudo, na verdade, através do meu trabalho, da minha história, das coisas que eu enviei para eles, das minhas canções; eles avaliam conforme a qualidade do material e não por ter alguém de dentro. Eu não conheço ninguém dentro desses conselhos. O Canada Council ainda é um pouco mais complicado por que eles avaliam a possibilidade de disseminação desse projeto e a colaboração desse projeto para a sociedade canadense e para o país como um todo. Então, o Canadá é um país que preza muito pela diversidade, é um país que está muito além nesses temas que temos debatido há uns 10 anos, que é a causa de inclusão, até mesmo um debate dos LGBTQ, que é uma questão muito crucial para o primeiro ministro Justin Trudeau, tanto que ele sempre está nas Paradas LGBTs. E essa questão do incentivo é simples: se você não incentiva você está mandando uma mensagem muito clara de que o domínio sobre a sociedade está em cheque, uma forma de você dominar uma sociedade é dominar a cultura, é você dizer para o artista o que ele deve ou não criar. E em 2017, eu acompanhei muito o que aconteceu com o Queermuseu, em Porto Alegre, acompanhei o que aconteceu com outras artistas, acompanhei a censura à nudez. Por isso a capa do meu disco, por isso essa questão agora de o Facebook e o Instagram estarem proibindo que eu divulgue a minha capa; jornalistas brasileiros também com medo de divulgar a capa do meu disco, há um receio de divulgar. Então, nesses tempos tão sombrios eu decidi que essa seria a capa do meu disco. Claro que não tem nenhum conflito nela: é uma foto bonita, uma foto sugestiva, e foram essas questões que me levaram a escolher essa capa. Claro que o que eu faço – a música, a arte, a poesia – influenciou esse trabalho, isso está em primeiro plano; mas é claro que o artista ele é influenciado pelo convívio social e pelas questões de seu tempo, foi assim com os poetas, os escritores, os músicos durante toda a história da humanidade, então não seria diferente agora, comigo. Eu preciso encarar tudo que está acontecendo de frente e peitar com um pouco de sutileza também, a capa é uma capa sutil. O “Divina Graça”, para mim, era muito mais um confronto, tinha um menino com um baseado na boca, tinha toda a questão de a gente estar mostrando nossos corpos de uma maneira muito mais política e o “Real” não, é mais uma mensagem ali para a gente discutir essas questões de uma outra maneira, já vai muito mais além da questão LGBTQ, agora é muito mais a questão de uma urgência real para a sociedade como um todo e para a arte como um todo.

Falando da capa, ela é lindíssima, assim como era a do “Divina Graça”. Você entende que, de algum modo, as duas capas provocam as pessoas pela simples existência do corpo negro vivo e ocupando espaços?
Claro, é exatamente isso! É o corpo negro, a existência negra e, principalmente, por ter sido colocado num lugar de exaltação, num lugar de elegância, no lugar que é geralmente de gente branca. Então, no “Divina Graça” a gente colocou o cenário justamente na Confeitaria Colombo, um lugar de aristocracia. E o “Real” eu queria que fosse em uma piscina, eu queria no imaginário das pessoas, um lugar que é um lugar de pessoas brancas: a piscina, o azul, a contemplação da imagem, é um lugar muito específico no imaginário das pessoas de elegância branca, ao meu ver. Eu ouvi de uma amiga, em São Paulo, em 2017, de que a luta deveria continuar sendo de ocupar espaços. No meu caso, eu nasci em Salvador, no bairro da Liberdade, que é o bairro com a maior concentração de negros na América Latina – talvez em toda a América, mas é um bairro negro, em Salvador, que é uma cidade negra, na Bahia, que é o berço da África fora da África, então pra mim o “Divina Graça” foi um salto muito adiante nessas questões para eu me autoidentificar também. Em “Real” eu já parti desse esvaziamento de um disco pro outro, mas também de questões que eu queria falar no aspecto do que eu estava vivenciando no agora. Não é um disco de memórias afetivas, como talvez foi o “Divina Graça”; não é um disco voltando as minhas raízes e regressando ao Brasil; não, é um disco em que eu já estava com a carreira mais consolidada no Brasil, que eu já estava com meu nome certamente conhecido pelas pessoas e eu falei “não, agora eu vou voltar as questões filosóficas, desse momento, da minha geração”. E isso envolve também a questão de ocupar espaços, como LGBTs, como negros, como mulheres, pessoas trans, é muito importante que a gente continue vendo a nossa luta como uma luta por direitos humanos. E também como uma luta para ocupar espaços, porque é isso que vai mudar o sistema capitalista como um todo: é minorias, que são maiorias, ocupando espaços. A gente precisa muito, muito debater isso. E a questão do homem negro é uma questão que, na verdade, ao meu ver, é muito crucial para o Brasil. De ser o país que mais mata LGBT, mas que também mata jovens negros. Teve o caso dos 80 tiros, que a gente não viu as pessoas nas ruas revoltadas por um pai de família ser executado pela polícia militar com 80 tiros. Essa é uma questão que ainda está muito, muito, muito nas nossas mentes, mas que não está sendo discutida e isso me leva a crer que o Brasil precisa imediatamente, se o Brasil quer se tornar um país sério, discutir a nossa história que não está no retrato, como falou a Mangueira no samba-enredo desse ano, que a levou a ganhar o Carnaval do Rio. Esse Brasil, da minha capa, é o Brasil que precisa estar no retrato.

Ao mesmo tempo que você fala das questões do corpo negro e do corpo trans, me faz pensar em mais um cenário que é o dos aplicativos que você citou, como o Grindr, o Hornet e o Scruff, no qual muitos preconceitos e esteriótipos são perpetuados e reforçados, com um corpo branco e malhado que é tido como o padrão. Esse cenário extremamente contemporâneo é pano para muitas canções dentro do “Real”. Como você lida com esse universo dos aplicativos e das relações dentro deles?
Sim, essa é uma questão que já estava na minha cabeça por muito tempo, esses padrões e esteriótipos de homem gay. E na nossa própria comunidade LGBT os gays discriminarem pessoas trans ou alguém afeminado, ou como a gente diz, poc. Essas são questões de muito tempo pra mim, desde 2004 ou 2003, quando eu estava em Montreal com um amigo, numa pizzaria, quando entrou um rapaz falando alto e, aos olhos do meu amigo, seria uma “poc descontrolada”. Aquilo me chamou muito a atenção, meio que me alertou para esses prejuízos que a gente vem causando a nós mesmos, que é compactuar com isso por muito tempo, que é não se levantar contra esse tipo de coisas. Em 2017, em Toronto, na Parada LGBT, o grupo Black Lives Matter parou o circuito, do qual eles estavam fazendo parte, se sentaram na rua, numa intersecção e pararam a parada para demandar que os seus direitos, que as suas demandas fossem escutadas. Isso por que a Associação responsável pela Parada de Toronto não dava mais espaços para pessoas de cor, nem para pessoas de comunidades indígenas do Canadá. Isso tudo se transformou numa comoção, por que muita gente viu como se eles tivessem “sequestrado” a Parada de Toronto ou que eles estavam sendo egoístas por demandar o que estavam demandando. Ao meu ver, aquele foi um momento de alegria – pelos menos pra mim – de que alguém, que um grupo estava se rebelando, estava chamando atenção para algo que a gente ainda precisa chamar muito a atenção. O esteriótipo que é colocado praticamente na vitrine durantes as Paradas é aquele homem branco musculoso, que é um esteriótipo que foi criado e alimentado pela nossa sociedade que é predominantemente patriarcal e branca. Então, na verdade, o gay branco do aplicativo quando fala que está procurando um homem musculoso, macho – uma expressão que é muito usada no Brasil -, o macho musculoso: altura tal, tamanho do pênis tal, coisas muito específicas; isso só está demonstrando o que é a nossa sociedade, como um espelho dessa sociedade como um todo, que está enraizada em um patriarcado branco. Os problemas das sociedades modernas estão muito, muito presos a isso. Então, num momento que um grupo como o Black Live Matters toma uma atitude, eu sinto que ainda há esperança. Mas muitos amigos gays acharam que era ridículo, porque eles também estavam pedindo que a polícia não estivesse na parada, porque a polícia mata LGBTs, mata negros, a polícia tem carta branca para usar e abusar de seu poder, muito mais no Brasil do que aqui até. De todo modo, para mim foi um sopro de esperança. E até mesmo para eu começar a ver o que as pessoas a minha volta estavam pensando. Então, quando eu me insiro nesse universo dos aplicativos, do Grindr, do Hornet, do Scruff ou outros, eu não tenho como, enquanto uma pessoa sensível, não filtrar isso. Então, nesse disco eu filtrei muitas coisas, eu filtrei as pessoas, a forma como a gente se comunica em grupos. No caso dos aplicativos, grupos de homens cis achando que a luta acabou, achando que a gente não precisa mais lutar por nada, porque a gente conseguiu nossos direitos. Mas pearê, quem conseguiu os direitos foram os homens gays brancos, que não querem saber as demandas das mulheres lésbicas. E não querem absolutamente ter nada a ver com as pessoas trans. Tem muitas questões ainda a serem discutidas. De todo modo, essas foram questões que eu não me aprofundei tanto, eu tentei buscar isso por tentar me inserir. Como já disse, por ser sensível eu filtrei muito dessas coisas e quis fazer um disco que refletisse esse momento. E quando eu falo tudo isso do homem macho no aplicativo buscando macho musculoso branco, que não quer asiáticos, não quer negros, não quer pocs, não quer várias denominações, eu não estou falando que essas pessoas são inferiores a mim ou que eu sou superior. Eu estou querendo dizer que nós estamos sempre buscando a aceitação, seja a aceitação da família, aceitação da sociedade como um todo. E eu realmente espero que a gente comece a refletir. A minha esperança, por fazer o que eu faço, fazer esse trabalho agora, é que a gente comece a discutir opções, saídas, muitas coisas, redefinir relacionamentos, redefinir a nossa comunidade por nós mesmos e não deixar que essa sociedade patriarcal branca e cis venha impor como a gente deve nos enxergar.

Nesse sentido de redefinir relacionamentos, seu disco é muito sobre amor também, que é um tema costumas para você. A maioria das canções são composições suas e algumas são parcerias, como com o Ubunto, o Domenico Lancellotti e o Bem Gil. Como foi esse processo de composição e de parcerias?
As composições partem de um processo muito natural pra mim, assim como as parcerias. Com o Bem e o Domenico acabou sendo porque a gente já tinha algumas canções desde o “Divina Graça”. “Pessoa”, que é parceria com o Domenico nesse disco, eu tinha enviado algumas melodias, aí ele foi pra Índia e a gente já estava no estúdio e eu queria muito uma letra dele para esse disco. Lembrei ele das melodias e ele da Índia falou “eu te mando daqui a pouco uma letra”, aí na manhã seguinte já tinha letra, belíssima, maravilhosa como sempre do Domenico, e assim foi. E “Love’s Will” foi direto direto no estúdio: eu já estava querendo gravar algo com essa levada meio folk, meio Bahia, meio Gilberto Gil, meio Devendra, aí o Bem estava tocando um negócio e eu perguntei “o que é isso aí?”, aí ele falou “só um lance que estou tocando”, aí eu fui pra sala que ele estava gravando, e falei “vai tocando aí, continua”, aí eu escrevi a letra assim, no estúdio, de maneira bem simples, bem fluida. Talvez eu já estivesse procurando algo assim, e é uma canção que fala sobre amor, mas não é a lei de Deus, mas a lei do amor, por isso “Love’s Will”, por que dialoga sobre esse universo de tudo que a gente já conseguiu até aqui e que não vamos voltar atrás. Com o Ubunto tem duas canções: tem “Tropa” e “Real Agora”. Ele me enviou algumas bases, eu acho que ainda em 2017. A gente estava na turnê do “Divina Graça”, ele estava fazendo baixo, ele foi me mostrando algumas coisas e aí eu fui sacando que aquilo ali fazia parte do diálogo desse disco que eu queria fazer. E tem mais uma outra que é “Momento”, com o Philippe Cohen Solal, músico francês do Gotan Project, e amigo também, que me enviou várias melodias e uma delas era a melodia de “Momento”. Eu achei dificílima, achei que seria impossível de escrever alguma coisa a primeira vez, e era um desafio, mas essa era a canção que deu meio que um norte para o disco, pois é uma canção mais pop, mais fora da minha casinha, do que sou acostumado a compor e aí a partir dela eu fui pensando nas outras, talvez ela seja – junto com “Real Agora” – o eixo do disco. E todas as parcerias e os feats, os músicos, a participação de Mãeana, Lan Lanh, Rubel, Basia [Bulat], estão no disco por amor – claro, são profissionais que foram remunerados e etc e tal –, mas estão no disco por serem pessoas sensíveis e que eu tenho uma aproximação, que eu sou muito amigo. É o caso da Mãeana, que nós somos praticamente irmãos. A gente fala que somos irmãos separados na maternidade. A Lan Lanh também é muito amiga e eu queria muito fazer alguma coisa com ela e essa canção não seria a canção que é sem ela. O mesmo para a canção com o Rubel, que não seria o que é sem ele. E o disco não seria o que é sem o Bem, o João Leão, o Thomas Harres, sem os músicos de corda, o Mark [Lawson] produzindo comigo e mixando, por ser uma pessoa tão foda e ao mesmo tempo tão delicada, tão carinhoso comigo, de ter me aceitado do jeito que eu sou, por pontuar as minhas excentricidades e fazer enxergar que as coisas que eu acho que me dão medo, insegurança, são na verdade a riqueza por trás do que eu faço. Então, nesse momento em que a gente está atravessando um caminho no mundo, o amor é ainda, talvez, a arma mais poderosa contra tudo isso. Se a gente esquecer que a gente é capaz de amar e de amar novamente, a gente vai estar perdido. Realmente agora, por mais clichê que seja, a gente percebe o quão importante é o amor.

O disco tem a participação do Bem Gil, mas também conta com diferentes músicos, tanto brasileiros quanto canadenses. Além disso, ele foi gravado especialmente em Toronto, mas também em cidades como Montreal, Rio de Janeiro e Lisboa. Como foi o processo de gravação e esses encontros com todos esses parceiros que participam do disco de forma tão afetiva?
O processo de gravação foi muito mais seguro que o de “Divina Graça”. A gente gravou no mesmo estúdio, no Union Sound Company, então eu já tinha uma relação com o técnico de som, que é o Ian Gomes, com o Bem. Então ir pro estúdio com o Bem foi muito bacana, por que a gente pode se divertir, olhar um pro outro e só tocar, saber quais caminhos só no olhar. A gente gravou algumas faixas ao vivo, com todo mundo junto, que é o caso da faixa “O Pajem”, que fecha o disco, que é um poema do Mário de Sá Carneiro, que eu musiquei. A gente gravou só um take e eu deixei como a gente gravou. Eu estava tocando uma percussão de corpo, então meu microfone de voz era pra essa percussão, que servia como guia para o Thomas que estava tocando bateria e MPC ao mesmo tempo. Ter esses músicos do meu lado foi muito importante! O João já havia trabalhado com o Thomas na turnê “Tropix”, da Céu, então já eram amigos. O Thomas tinha vindo pra Toronto para visitar o João, que tinha acabado de mudar pra cidade, ele conheceu a esposa dele no show da Céu, acho que em 2017 ou 2016, aqui em Toronto. O Thomas veio pra Toronto para o casamento do João, que foi na mesma época em que estávamos gravando o disco, então fomos todos para o casamento do João. Então, foi mesmo um grupo de pessoas em que cada um tinha uma conexão com o outro. O Thomas estava tocando com o Bem também na turnê do “Refavela 40”, um show em homenagem ao “Refavela” do Gil. Os meninos ficaram aqui em casa, o Thomas e o Bem, a gente ia pro estúdio juntos, comia juntos, saia juntos. O arranjador eu trabalho com ele há muito tempo, o Graham Campbel e queria ele num dos meus discos e finalmente encontrei a oportunidade de ter ele, que eu queria que fosse um disco com cordas. Os músicos de cordas eu queria que fossem todas mulheres, mas acabou que no final foram três mulheres e um homem, mas é super diverso: tem uma mexicana, outra é de descendência indígena daqui, uma negra, e um dos violinistas é iraniano. Eu também queria trabalhar com isso em mente: trazer pra perto essa diversidade, essa ocupação de espaços que eu estava falando antes. Pra mim era importante estar com essas pessoas perto, por serem absolutamente incríveis, músicos incríveis. Ter histórias internas e ter motivos para os quais eu estava fazendo essas escolhas, estar com essas pessoas, ter um entendimento mais profundo da canção. Essas coisas valem muito e eu penso muito sobre elas. O mais importante de tudo é a delicadeza e a sensibilidade de cada músico, então ter músicos brasileiros, canadenses, ter o Mark, que trabalha com o Arcade Fire, que é um cara muito, muito sensível, talvez o mais sensível de todos, então pra mim foi muito gratificante. Todas essas histórias me fazem sentir seguro quanto a esse disco.

Você já apresentou o “Real” aí em Toronto, porém há planos de trazê-lo para o Brasil logo, logo?
A gente fez o show de lançamento aqui em Toronto no Harbourfront Center, num festival chamado Brave, foi bem legal, teve coisas incríveis, nomes como Buika, Kelis, foi bem bacana. E a gente está nesse trabalho de levar o show para o Brasil. As coisas estão meio devagar com relação ao Brasil nesse momento, achamos que é por conta de tudo que está acontecendo no país, mas a gente tem planos sim de fazer Salvador, Porto Alegre, BH, Rio e São Paulo. Esses são os planos de início e começar em setembro ou outubro, aí no ano que vem fazer Europa e Estados Unidos, esses são os planos em que a gente está trabalhando. Espero estar no Brasil entre setembro e outubro.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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