Três perguntas: Almirante Shiva

por Marcelo Costa

No começo de julho de 2016, a equipe do excelente PicNik realizou uma edição do festival na Concha de Acústica de Brasília. No line-up de 20 atrações, nove eram grupos da nova cena de música autoral da capital federal, e a boa surpresa da escalação se revelou ainda melhor nos bons shows de Disco Alto, Joe Silhueta, Dillo e Aloizio, entre outros. Um dos nomes de destaque dessa nova cena candanga, a Almirante Shiva se apresentou na edição passada do evento, mas marcou presença no local para entregar aos visitantes seu segundo EP, “Foco”, recém-lançado.

Formada em 2015 das cinzas (que ainda queimam) da Cassino Supernova por Pedro Souto (guitarra, baixo e vocal) e Marlón Tugdual (bateria e vocal) com o parceiro de jams Carlos Beleza (guitarra, baixo e vocal), a Almirante Shiva investe na nova onda psicodélica que ganhou o mundo, em geral, e o Brasil, em particular, com o reconhecimento do trabalho do Tame Impala, australianos que se inspiram no passado para criar algo novo. No caso da Almirante, “a (banda) da vazão a um espírito mais improvisador que a gente sempre exerceu em outros lugares”, conta o baterista Marlón em entrevista ao Scream & Yell.

O primeiro EP, com três faixas, foi lançado no meio de 2015, e (após um ótimo show no Porão do Rock 2015) agora eles ressurgem com “Foco”, o segundo EP, e participam do tributo “No Abismo da Alma” regravando Alceu Valença. “Captamos o EP ao vivo, com todo mundo tocando olho no olho e depois fazendo overdubs”, avisa Márlon. Os dois disquinhos podem ser adquiridos via Facebook com a banda ou ouvidos no Soundcloud oficial dos caras. Abaixo, Márlon fala sobre a Cassino Supernova (da qual também fazia parte Pedro Souto, o produtor do EP Gustavo Halfeld e o vocalista Gorfo, do Selo Martelo, que está lançando o disquinho), a nova cena de Brasília e onde acontecem as melhores festas roqueiras da capital federal. Confira.

Conheci vocês através da Cassino Supernova, afinal, dois de vocês tocavam lá. A banda acabou? E como foi a passagem de vocês para a Almirante Shiva? Como vocês chegaram a essa sonoridade, que é mais psicodélica e viajante do que a crueza rocker que a Cassino trabalhava? A Cassino meio que foi aos poucos morrendo de inanição e agora está em estado de animação suspensa, que nem um milionário com uma doença terminal que prefere se congelar em nitrogênio e esperar que no futuro alguém ache a cura. Apesar disso, acabaram de chamar a Cassino Supernova para participar de uma coletânea, então vamos espanar a poeira e gravar uma música que tocávamos em alguns shows, mas que não entrou no álbum “Na Estrada” (2012). Agora o Almirante surgiu naturalmente, já que nós três já tocávamos juntos de qualquer forma, sendo em outras bandas paralelas ou nas milhares de jams que a gente sempre da uma tréla. Acho que a fundação do som da Almirante surgiu nessas jams. Aqui em Brasília, as melhores festas normalmente acontecem na casa de alguém que, por acaso, está naquele dia com a casa livre e chama a galera para jamear. O pessoal leva os instrumentos, as biritas e os músicos que por acaso aparecerem fazem a festa ali no improviso. As vezes é uma merda caótica, mas as vezes é mágico. Na Cassino, a proposta era ser mais diretão, mas a Almirante Shiva da vazão a um espírito mais improvisador que a gente sempre exerceu em outros lugares.

Vocês estão lançando agora via Selo Martelo o EP “Foco” (2016). Como foi a gravação? E o que vocês podem falar das três músicas do disco? A gravação não foi muito diferente da do nosso primeiro EP. Fomos pra Sala Fumarte (onde fumar é uma arte) e captamos ao vivo, com todo mundo tocando olho no olho e depois fazendo overdubs. De novo, chamamos o Gustavo Halfeld para pilotar a gravação e o Breno Brites para fazer a engenharia. Acho que a maior diferença foi o know-how acumulado deles dois, pois depois que gravamos o primeiro EP lá, eles gravaram mais uma porrada de outras bandas que curtiram o resultado que tiramos da sala. Então rolou um ano de uso do estúdio até a gente voltar pra gravar esse segundo EP, então as capacidades do estúdio estavam bem mais claras para Gustavo e Breno. Duas das músicas que gravamos já estavam sendo tocadas em shows e não mudaram muito em questão de estrutura na hora da gravação, mas em “Fuzzy Changa” mudamos completamente logo antes de entrar para gravar, e ainda convidamos o Luciano Tenório para explodir no sax e o Macaxeira, da Muntchako, para mandar na percussão.

Estive ai no PicNik no Calçadão e fiquei felizmente surpreso com a atual cena musical da cidade. Como vocês avaliam o cenário em relação a lugares para tocar, ensaiar e mesmo em relação a outras bandas? Cara, em relação a lugares pra tocar e ensaiar não anda muito legal… algumas casas de rock tem fechado e ensaiar nunca foi tão caro aqui na cidade. O que salva mesmo são as iniciativas da galera que está levando o rock para a rua, tipo o PicNik e o pessoal do Vai Tomar no Cover. O Stevam (Chezz Recs) e o Gorfo (Selo Martelo) vem trazendo muita coisa legal de outras cidades para cá também. Mas o que não está faltando aqui é banda maneira. Na verdade, não via tanta banda legal aparecendo na cidade a um bom tempo. Lista de Lily, Muntchako e Joe Silhueta são só algumas pra iniciar…

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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