Três novos discos de música eletrônica

por Renan Guerra

“Tempo”, Olga Bell (One Little Indian Records)
Olga Bell tem uma carreira múltipla: nascida na Rússia e radicada no Brooklyn, em Nova York, a artista tem formação clássica em piano e autodidata em produção eletrônica, produzindo trabalhos que vão desde o eletropop até o folk, tendo sido inclusive integrante do Dirty Projectors, como backing vocal e tecladista. “Tempo” é seu terceiro álbum solo, porém soa como algo completamente distinto de seus trabalhos anteriores, já que aqui há especificamente uma exploração do gênero eletrônico, em algo que a artista definiu como um disco que busca primeiro se comunicar com o corpo e depois com a mente. Digressivo, “Tempo” passeia de forma obtusa pelo gênero, trazendo olhares ora zombeteiros ora desconstrutivos, criando um cenário quase complexo para o ouvinte, mas que o leva por uma viagem realmente interessante, distinta. Há potenciais momentos radiofônicos no disco, mas mesmo assim “Tempo” ainda é um espaço de experimentação, que se comunica em certos pontos com os trabalhos de gente como Björk, Róisín Murphy e até mesmo Laurel Halo. Vale a escuta!

Nota: 7

“Honey”, Katy B (Virgin EMI Records)
Katy B é uma estrela pop inglesa com cacife para se estabelecer numa zona de conforto razoável. Com uma estreia na seara do dubstep, Katy elevou seu caráter pop no segundo disco, que a colocou nos charts dance da Europa de forma certeira. Em seu terceiro álbum, “Honey”, a artista preferiu reunir um time de peso da música eletrônica para explorar múltiplas vertentes do gênero, indo de gente mais pop como Major Lazer e Craig David até figuras mais experimentais como Floating Points e Four Tet. Nessa micareta que reúne mais de 20 participações diferentes, “Honey” poderia ter se perdido, porém a mão firme de Katy cria uma unidade peculiar num álbum em que tantos artistas meteram o bedelho. De faixas ultra pegajosas, o terceiro disco de Katy B é a prova de que ela é uma estrela pop ousada, que busca caminhos distintos e compreende a sua posição na indústria, sem abaixar a cabeça. Um disco que merece ser ouvido e que merece mais sucesso deste outro lado do meridiano de Greenwich.

Nota: 7,5

“99.9%”, KAYTRANADA (XL Recordings)
Sob o nome Kaytradamus, o canadense Louis Kevin lançou inúmeros EPs e singles desde 2010 e ganhou fama remixando artistas como M.I.A., Janet Jackson, Missy Elliott e TLC. Em 2012 passou a assinar KAYTRANADA, ainda lançando inúmeros trabalhos esparsos, que faziam parecer que um disco oficial jamais sairia. Com o lançamento de “99.9%” pode-se dizer que este é um debute de um artista já experiente e, talvez por isso, um álbum tão seguro de sua força e de sua importância. Mesclando hip-hop, dance e outras muitas coisas, Kaytranada consegue reunir artistas como AlunaGeorge, Craig David, Little Dragon, BadBadNotGood e fazer todos eles coexistirem de forma coesa, num cenário que flerta constantemente com o experimental, mas que assume a forma de um disco pop pronto para as pistas. O trabalho de Kaytranada é tão certeiro em sua ousadia que consegue até mesmo transformar a faixa “Pontos de Luz”, lançada por Gal Costa no disco “Índia” (1973), em um single robótico e dançante ao extremo. Ouça no volume máximo!

Nota: 8,5

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Bate a Fita

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