Ao vivo em SP, Vapors of Morphine satisfaz fãs com hits e lados b

texto de Guss de Lucca
fotos de Rafael Melo

Voltar a se apresentar em um país depois de pouco mais de um ano pode ser desafiador. Porque é quase certo que boa parte do público seja o mesmo que estava vibrando no concerto anterior – e que, apesar de sempre querer ouvir os hits de uma banda favorita, espera por mudanças no repertório que façam desse outro show, e não o mesmo de sempre.

Foi com esse espírito que o Vapors of Morphine subiu no palco do Cine Joia, no bairro da Liberdade, em São Paulo. Após uma apresentação intimista de Dean Wareham, que preencheu o espaço da casa com as canções intimistas do Galaxie 500, de sua carreira solo e do New Order (a cover de “Ceremony”), a banda formada pelo saxofonista Dana Colley com o vocalista, guitarrista e baixista Jeremy Lyons e o baterista Tom Arey entrou em cena ciente de que trouxera um setlist distinto para os fãs de Morphine – banda marcada pela repentina morte de seu vocalista original, Mark Sandman, em 1999, e que Colley, único membro da formação original, mantém ativa desde então.

Abrir a noite com “Have a Lucky Day”, sucesso de seu primeiro álbum, “Good”, de 1992, pode ter dado a impressão de que o repertório seria igual ao de 2025. Mas, na sequência, o Vapors trouxe uma série de “lados B” especialmente selecionados para alegrar e surpreender os entusiastas do grupo de Massachusetts. Músicas como “The Other Side”, “All Your Way”, “Let’s Take a Trip Together” e “Whisper” não fizeram parte da última apresentação do trio em São Paulo.

Com isto posto, parte do público começou a pedir suas preferidas ou a tentar adivinhar em voz alta o que viria depois. Uma das respostas de Colley veio com a pergunta “alguém sabe que horas são?”. Ele se referia a “Eleven O’Clock”, canção que, ao lado de “Wishing Well”, representou o quarto disco do Morphine, “Like Swimming”, de 1997 – cujo single “Early to Bed” ficou novamente de fora (quem sabe na próxima?).

Tal qual ocorreu no concerto anterior, o Vapors of Morphine reservou alguns momentos para mudar o rumo da apresentação, seja com “Drop Out Mambo”, trabalho original do trio que substitui o clássico baixo de duas cordas de Mark Sandman por uma guitarra, ou por faixas instrumentais como “Musicawi Silt”, do músico etíope Hailu Mergia. Apesar de bem executadas, nesses instantes a plateia invariavelmente esfriava.

Em poucos momentos Dana Colley assumiu o vocal de algumas canções, caso de soltou “Sharks”, cujos trechos esquecidos foram endereçados ao vocalista oficial com frases como “eu vou lembrar dessa parte, Jeremy”. Ele também foi simpático após um breve problema de som que fez com que o show tivesse que parar: “Sem mais delays para a casa”, disse o saxofonista ao microfone.

Mas verdade seja dita, o Vapors of Morphine não deixou faltarem hits para que o público cantasse a plenos pulmões. Estavam lá “Thursday”, “Honey White” e uma dobradinha quase no final com as clássicas “Cure for Pain” e “Buena”, composições emblemáticas gravadas pela formação original em seu álbum mais celebrado, “Cure for Pain”, de 1993.

Para encerrar a noite, Colley juntou seus dois saxofones (um barítono e um tenor) e, tocando-os ao mesmo tempo, preencheu o local com o som denso de “Radar”. E como disse na entrevista pré-show ao Scream & Yell, a apresentação contou com o mesmo entusiasmo de uma arquibancada de estádio de futebol. “Não são muitos os lugares onde vivi algo assim. São Paulo é um deles. E isso já é motivo suficiente para querer voltar.” Assim esperamos, Dana.

– Guss de Lucca (@gussdeluca) é jornalista, historiador e no passado já foi cartunista do Scream & Yell.
– Rafael Melo é fotógrafo e videomaker de música desde 2004. Veja mais fotos do show do Vapors em SP!

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