entrevista de Bruno Capelas
O Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja do mundo: segundo dados do Anuário da Cerveja, editado pelo governo, mais de 15 bilhões de litros são feitos por aqui anualmente. É difícil negar que a bebida é uma paixão nacional. Mas essa é uma paixão em que a maioria das pessoas sabe muito pouco sobre o objeto amado. Para muita gente, pode ser estranho pensar em rótulos com frutas, azedas ou com gosto de chocolate, capazes de compor os mais de 150 estilos da bebida, existentes há séculos. Não é à toa: 99,2% do que se fabrica aqui são cervejas leves, como lagers claras e pilsners – a famosa loura gelada, bebida em demasia, com baixa complexidade.
É pensando em romper justamente com esse imaginário que surge a série “A Cerveja Explica”: lançada no segundo semestre de 2025, a websérie criada pela diretora Bruna Lessa e pela sommelier de cervejas Cilene Saorin busca ampliar os horizontes da bebida mais popular do País. “Queremos mostrar que a cerveja é parte da gastronomia, com versatilidade à mesa, que ela pode ser uma bebida saudável e que ela é para todos, sem limitação de gênero”, diz Saorin, que atua há 30 anos no mercado nacional e internacional.
Além de escrever a série, que traz dez episódios ambientados em diferentes cidades paulistas, Saorin também aparece na frente das câmeras, ao lado da atriz Laísa Dantas. Juntas, elas contrapõem os papéis de especialista e entusiasta pela bebida. “Nelas, personificamos o encontro de alguém que fala com muita complexidade do tema com alguém que desfruta dessa complexidade. Foi uma estratégia para que o programa pudesse ser didático, mas também entretenimento”, diz Lessa.
Ao longo dos episódios, financiados com recursos da Lei Paulo Gustavo, Saorin e Dantas vão apresentando estilos de cerveja, elencando noções sobre a produção da bebida e também mostrando como uma harmonização entre garrafas e diferentes pratos pode acontecer. “Nada como a mesa do bar para pensar sobre a vida – e a gente pensa melhor com um copo na mão”, comenta a diretora.
De quebra, elas também deixam claro como a trajetória da cerveja é longa – e marcada pelas mulheres. “Historicamente, até por volta do ano 1700, as mulheres eram grandes detentoras do conhecimento de produção de cervejas. Por conta da Inquisição, elas foram escanteadas, de maneira bastante violenta. É preciso refletir e redesenhar esse contexto social”, afirma Saorin.
Na entrevista a seguir, as duas falam mais sobre a história de “A Cerveja Explica” e contam também os detalhes sobre a Cerveja de Primavera, rótulo pensado por elas e produzido junto à Cervejaria Dádiva para marcar a série. Além disso, elas também dissertam sobre a versatilidade da cerveja, capaz de agradar a múltiplos gostos, e revelam planos para uma segunda temporada. “Existem mais de 150 estilos, então temos estilos de cerveja para fazer muitas temporadas!”, comenta Lessa. Saúde!
Como nasceu a ideia da websérie A Cerveja Explica? E por que a escolha do formato de websérie?
Bruna Lessa: A Cilene é mestre-cervejeira, sommelier de cervejas e atua há mais de 30 anos na área. Sempre a vi falando sobre o tema e explicando a cerveja para os amigos – e isso sempre me intrigou. Nós conhecemos pouco sobre cerveja e temos um imaginário limitado do assunto. A partir desses encontros, comecei uma provocação para fazermos essas explicações para um público maior, em um projeto audiovisual. A princípio, ela mostrou certa resistência, mas achou intrigante o que eu propus. O primeiro passo, em meados de 2022, era um jogo com amigos: a Cilene tinha de escolher um estilo de cerveja para uma pessoa, fazer a tradução – e claro, ainda trazer a cerveja. Em 2023, escrevemos uma primeira versão do projeto. No final do ano, ganhamos o edital da Lei Paulo Gustavo para fazer a primeira temporada de “A Cerveja Explica” como uma websérie. E por que como websérie? Porque tínhamos o desejo de democratizar essa informação – e como não usar a internet a nosso favor?
A série aposta em uma abordagem didática, mas leve e bem-humorada. Como foi o desafio de explicar o que há no fundo do copo, mas sem tornar a série extremamente didática ou simplista?
Cilene Saorin: De fato, a cultura das cervejas é muito ampla do ponto de vista histórico, antropológico, filosófico e gastronômico. Poderíamos cair no erro de nos aprofundarmos demais a ponto de perder a atenção das pessoas, ou ainda de trazer as informações de maneira rasa – e, da mesma forma, perder a atenção das pessoas. Para lidar com esse desafio, juntamos o meu olhar e o da Bruna em três eixos extremamente importantes para nós. O primeiro era apresentar a cerveja como parte da gastronomia, mostrando que cerveja é gastronomia e tem uma versatilidade enorme à mesa, que poucas pessoas conhecem. O segundo era mostrar que a cerveja pode e deve ser uma bebida saudável, na medida em que a entendemos com consumo inteligente, no comer e beber de maneira bastante cuidadosa, a poucos goles e poucos bocados. Por fim, queríamos falar de uma bebida que tem uma limitação de gênero, mas que na verdade deveria ser – e é – uma bebida para todos. Esses três eixos sempre foram sólidos nesse projeto. Já o desenho da forma cômica veio das habilidades profissionais da Bruna e da Laísa Dantas.
Bruna: O projeto tem duas apresentadoras: uma especialista em cervejas (a Cilene) e uma entusiasta, a Laísa Dantas, que é uma atriz que trabalha com humor. Acredito que todos somos grandes entusiastas do mundo da cerveja. Mas, nas duas apresentadoras, personificamos o encontro de alguém que fala com muita complexidade do tema com alguém que desfruta dessa complexidade. A figura da entusiasta traz humor, balizando um pouco esse jogo entre as duas. Foi uma estratégia que encontramos para que o programa pudesse ter uma entrega didática, obviamente, mas também pudesse ser entretenimento. É esse encontro fino entre as duas apresentadoras, junto aos convidados que aparecem nos episódios, que ajuda a construir a equação, o equilíbrio e o tempero de “A Cerveja Explica”.
A presença feminina é central na série, tanto na condução quanto nas histórias contadas. Por que esse recorte era essencial para vocês?
Cilene: Primeiro, porque somos mulheres. Segundo, porque somos 50% da população mundial, na média, e me parece uma grande estupidez sermos negligenciadas tanto num espectro de trabalho, quanto, sobretudo, no espectro de consumo. Gostaríamos mesmo de fazer com que as pessoas se reposicionem e repensem a cerveja como uma bebida para todas as pessoas, homens e mulheres, mas sobretudo as mulheres. Historicamente, a cerveja é muito rica: sua produção começa há 10 mil anos, sendo feita por mulheres, com receitas passadas de geração em geração. Até bem pouco tempo atrás, até por volta do ano 1700, as mulheres eram grandes detentoras do conhecimento de produção de cervejas para alimentar suas famílias e suas vizinhanças. Por conta da Inquisição e desses conhecimentos ocultos, as mulheres foram escanteadas. De maneira bastante violenta, ao longo dos últimos trezentos anos, os homens tomaram conta dos conhecimentos e seus consumos até os dias de hoje. Acreditamos que é preciso refletir e redesenhar esse contexto social, ainda muito violento com relação às mulheres com taça na mão e às mulheres com conhecimentos científicos e tecnológicos.
Bruna: Enquanto criamos o projeto, elaboramos que cada episódio estaria dividido em dois grandes blocos. Um fala de questões filosóficas, matérias-primas, aspectos históricos da cerveja. No outro, encontramos uma convidada de cada uma das cidades, em uma conversa numa mesa de bar. São mulheres das mais diversas áreas: cientistas, artistas, pedagogas, cientistas políticas, mulheres que trabalham com reciclagem. No bar, elas contam a história das suas vidas e a Cilene propõe uma harmonização – como naquele jogo que fazíamos entre amigos. Mais do que o estilo, a ideia central é ter esse encontro de mulheres no bar. Ainda existe um estigma nas mulheres que frequentam o bar. Estamos no século XXI e as mulheres são mal vistas por irem ao bar. Então, trazemos essa provocação de que podemos ir ao bar, podemos sim fazer uma terapia de botequim, que podemos ter encontros regados a uma boa cerveja, a uma boa harmonização, com uma diversidade de histórias a partir desse lugar. Nada como a mesa do bar para pensar sobre a vida – e a gente pensa melhor com um copo na mão.
Cilene: “Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”, não é isso? Salve Chico Science!
Cada episódio da série está situado em uma cidade diferente do Estado de São Paulo. Como foi escolher as cidades e os temas relacionados? E por que dar essa estrutura “guia de viagem” para o trabalho?
Cilene: O estado de São Paulo é o estado do Brasil que mais produz cerveja. Poderíamos nos limitar a esse dado e buscar cidades que têm, nas cervejas, uma das suas principais referências. Mas não quisemos ficar só nesse ponto. De fato, a expectativa das pessoas num primeiro momento era que a gente falasse das cidades a partir de suas produções de cerveja. Mas não: tínhamos a ideia de poder apresentar outras vocações de cada uma das cidades, vocações essas explícitas ou não – como é o caso de Ipeúna. Ipeúna tem sua expressão cervejeira, mas tem sobretudo uma vocação turística voltada ao fato de estar fincada no meio de um geoparque enorme, com artefatos arqueológicos e uma história arqueológica que explica, em boa parte, a história da América Latina. O que isso tem a ver com cerveja? Ora, tem a ver com a história da cerveja na América Latina como uma bebida civilizatória da região. Explicar e fazer as sinapses em torno disso nos é muito caro, e isso é muito apresentado no episódio de Ipeúna. Da mesma forma, fazemos isso num episódio de uma cidade que não é pensada como uma cidade cervejeira: Jundiaí, muito mais vista como uma cidade do vinho de mesa. Ocorre que o vinho de mesa, assim como a cerveja de mesa (se a gente puder expressar dessa forma), é o que há de mais democrático, acessível e popular dessas duas bebidas. Fazer o paralelo entre essas duas bebidas, das mais importantes da história da humanidade, é igualmente importante. É trazer as cidades dentro de suas vocações de maneira muitíssimo mais ampla, além de encontrar, através das pessoas, sobretudo mulheres, a pluralidade que falta na comunicação da cultura das cervejas.
Bruna: Ainda sobre o guia de viagem, é importante ressaltar que as cidades são as suas pessoas. É claro, as cidades são [feitas de] lugares também, mas são sobretudo [feitas de] pessoas. Na concepção, tínhamos o interesse de como, a partir da história de cada pessoa, poderíamos também mergulhar no universo da cerveja e da cidade, de maneira paralela.
Além da websérie, vocês também produziram uma cerveja em parceria com a Dádiva para harmonizar – a Cerveja de Primavera, uma Bière de Printemps, estilo precursor da Saison. Por que essa escolha?
Cilene: Essa cerveja foi pensada, sobretudo, para prestar reverência às mulheres produtoras de cervejas ao longo da história. Em particular, a Bière de Printemps, um presságio do estilo Saison, é um estilo particular da região da França e da Alemanha, do período medieval, produzido por mulheres dessa época e que apresenta uma identidade de território muito particular. Era uma cerveja produzida na época das primaveras daquela região. Como nosso projeto foi lançado nessa época da primavera, pensei imediatamente no estilo – até porque a primavera de alguma forma simboliza nascimento ou renascimento. No primeiro episódio do programa, retratamos essas mulheres medievais e a forma como elas foram expulsas de seu contexto. Faço o convite para assistirem ao primeiro episódio (que abre essa entrevista) e assim entender a inspiração da Cerveja de Primavera.

Cerveja é uma paixão nacional, mas parece haver uma separação cada vez maior entre o líquido consumido pela maior parte dos brasileiros e o que se convencionou chamar de cerveja artesanal. Como reduzir esse abismo? E como a série busca dar conta disso?
Bruna: A cerveja é com certeza uma paixão nacional, mas há um imaginário em que aprendemos a consumir cerveja. É um imaginário bastante masculino: sentamos no bar não para tomar uma garrafa, mas para tomar um engradado. Cerveja não se degusta, fazemos isso com o vinho. E conhecemos muito pouco sobre estilos de cerveja. Falo da minha própria experiência: antes de conhecer mais sobre estilos, me senti altamente desautorizada ao chegar numa gôndola de mercado e tentar comprar uma cerveja artesanal. Primeiro, por ser uma cerveja mais cara. Segundo, pela lógica de “quero tomar no mínimo três”. Terceiro, porque eu não tinha conhecimento sobre o que ia encontrar dentro dessa garrafa, então não ia me arriscar. De alguma maneira, “A Cerveja Explica” tenta desmistificar e descomplicar um pouco esse imaginário, falando que existe uma cultura ampla de cerveja, que não é preciso tomá-la aos baldes, que é possível harmonizar cerveja e comida. Vamos tentando brincar com essas possibilidades gastronômicas e culturais que a cerveja pode entregar.
Cilene: As cervejas populares e as cervejas ditas artesanais, que se apresentam em diferentes estilos, no fim são todas cervejas. O que o programa propõe é que apresentemos todas elas à mesa num mesmo nível, desde as cervejas sensorialmente mais descomplicadas até as mais complexas. Todas devem ser colocadas dentro desse contexto de cervejas gastronômicas, inclusivas, consumidas de forma inteligente. É preciso pensar no cuidado ao serviço, no cuidado histórico, na forma como comunicamos e apresentamos para dar uma maior percepção do valor da bebida. Esse é o grande diferencial da série: se propor a apresentar a bebida sob uma ótica que poucas pessoas ainda conhecem.
Bruna: Existe uma coisa bastante importante: o fato de que muita gente diz que não gosta de cerveja, porque só conhece a cerveja popular, a que está no boteco.
Cilene: São pessoas que não se dão conta de que existem mais de 150 estilos, com possibilidades gastronômicas bastante versáteis para agradar a todas as pessoas, sem uma única exceção – inclusive aquelas que não querem ou não podem consumir bebidas alcoólicas nos dias de hoje.
A primeira temporada estreou no segundo semestre de 2025. Há planos para uma próxima temporada?
Bruna: A gente tem muitos planos para as próximas temporadas. Nessa primeira temporada, que está no canal do YouTube de “A Cerveja Explica”(youtube.com/@ACervejaExplica), temos dez episódios, com dez estilos de cerveja. Como a Cilene disse, existem mais de 150 estilos, então temos estilos de cerveja para fazer muitas temporadas. Tudo depende de algumas viabilidades técnicas e financeiras, mas estilos de cerveja não faltam!
Cilene: Para poder pensar nesse projeto e em suas viabilidades, precisamos que as pessoas assistam aos episódios da primeira temporada, curtam, deem likes, para que a gente possa pensar a continuidade desse projeto mais adiante. Dependemos do coletivo confluindo conosco.
Bruna: Afinal, a cerveja explica muita coisa – e o projeto também!
Cilene: Mais e melhor que Freud, até!
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010. A foto que abre o texto é de Jennifer Glass.
