entrevista de Homero Pivotto Jr.
Enquanto tem gente do próprio rock tentando matar o estilo, há artistas de outros segmentos dando fôlego ao gênero que popularizou a guitarra elétrica no século passado. Vem de Minas Gerais um exemplo: o rapper FBC, que começou a fazer música tocando em bandas de rock e, em seguida, adotou o som do hip-hop para trabalhar sua verve política. Estabelecido como representante do rap, ele retoma o gosto pela urgência que aprendeu com o punk/hardcore e aplica isso com a contundência das rimas & poesias no novo álbum “Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades” (2026). Tocando com outros músicos ao vivo desde 2023, FBC assume de vez a força estética do rock a serviço do ideário progressista no novo trampo que chegou ao mundo em 1º de maio (Dia do Trabalhador) – data escolhida propositalmente para celebrar a efeméride dedicada a quem está na batalha diária por sobrevivência.
O lançamento aposta no peso das bases instrumentais tocadas organicamente, junto com um flow sagaz adaptado ao rock. Em 13 faixas. que somam pouco mais de 30 minutos, FBC costura andamentos hardcore, folclore das religiões de matriz africana (na sonoridade e na temática), groove, scratches e regionalismos (principalmente do norte brasileiro). Tudo a serviço de crítica e análise políticas ferinas.
“Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades” une 10 canções autorais com três releituras do também mineiro João Bosco (“Gênesis”, “O Ronco da Cuíca” e “Tiro de Misericórdia”), marcando a primeira vez que FBC revisita temas de outros compositores. A escolha das versões corrobora com a narrativa do disco, centrada em três atos que acompanham um ciclo de existência, do parimento à cova – um intervalo que envolve ancestralidade, conflitos, labuta, desejos e opressão. Cada elemento do título tem um significado dentro do contexto que vive a nação.
“Tambores representam a herança da diáspora africana; cafezais aludem à luta pela terra, à violência latifundiária; fuzis simbolizam o poder do Estado e de como ele massacra o povo pobre; e guaranás indicam os povos originários”, explica FBC, em entrevista exclusiva ao Scream & Yell por telefone.
O primeiro single “Bandido Bom” – cujo refrão sacramenta que “bandido bom é bandido preso”, apoiado por uma segunda voz que reforça insistentemente o bordão “sem anistia” – dá o tom. Também é dessa faixa, disponibilizada em 17 de abril (Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores do Campo), o trecho que não deixa dúvida sobre a visão atenta do cidadão cujo nome de registro é Fabrício Soares Teixeira: “veja de quem era a cocaína no avião da FAB / As joias e armas de Abu Dhabi / Veja bem, veja bem, veja bem / Quantos escândalos seu politico de estimação tem”.
“Eu entrei no rap para fazer política. E, hoje, tenho a comodidade de fazer o que eu gosto, de fazer o que eu quero. E pela atual conjuntura do país, beirando um período que vai ser muito triste para nós que temos um pensamento mais progressista, pois estamos à beira do fascismo, acredito que o rock tem a fúria necessária para lutar contra a máquina”, afirma FBC.
As participações especiais no novo registro pontuam as intenções de seu autor: o conterrâneo Djonga destaca a veia rapper, enquanto a carioca MC Taya (conhecida pelo seu “fock”, mescla de funk com rock) enfatiza o crossover de sonoridades. Junto ao compositor e vocalista, nas gravações, está um time de músicos competentes que se revezam em distintas funções: guitarras (Baka e Daniel Souza), baixo (Baka, Nathan Morais, Daniel Souza e Davi Horta), bateria (Glauco Mendes e Matheus Ramos), percussão (Lenis Rino e Bino), Scratch (DJ Cost) e efeitos (Baka, DJ Cost e Lenis Rino).
No papo que segue, Fabrício resgata sua formação rocker, fala sobre o impacto do compromisso que é o rap, esclarece suas preferências políticas, analisa as próprias crenças e, entre outros temas, adianta sobre um novo álbum voltado ao ska no qual está trabalhando.
Ouça o álbum na integra abaixo
Tu já vinhas apresentando um trabalho com banda completa ao vivo, mas agora assume de vez a estética rock (ainda que o rap siga como norte). Por que dessa escolha neste momento? E o que o público vai encontrar num trabalho mais rockeiro de um rapper?
Assim, o FBC sempre foi roqueiro. Comecei no rap porque vi ali a oportunidade de fazer política. Mas, desde meus 10 anos, eu tinha uma banda, toquei até meus 13 anos. Eram essas bandas de escola, de fundo de garagem. Eu também tocava bateria na renovação carismática da igreja católica. Então, sempre fui do rock. Ali, com meus 13 ou 14 anos, descobri o quão era fértil o terreno do rap, o quão eu poderia ir longe e organizar minhas ideias e as pessoas que estavam ali comigo no movimento estudantil, nas lutas que eu participava no meu território – não sou de Belo Horizonte, e sim da região metropolitana, da cidade de Santa Luzia. Então, entrei no rap para fazer política. E, hoje, tenho a comodidade de fazer o que eu gosto, de fazer o que eu quero. E pela atual conjuntura do país, beirando um período que vai ser muito triste para nós que temos um pensamento mais progressista, pois estamos à beira do fascismo, acredito que o rock tem a fúria necessária para lutar contra a máquina. A galera pode esperar o FBC de sempre: político, contundente, uma pessoa que vai direto ao ponto, sempre radical e agora ainda muito mais revolucionário.
Cara, é interessante tu falares isso porque o rock parece ter perdido, ao menos em parte, esse caráter mais contestador. Muitos artistas antes vistos como conscientes estão se mostrando conservadores. Tu achas que o rock ainda tem o potencial de ser sementinha revolucionária?
Eu acredito que o rock é um gênero mais enérgico, puxa para esse lado de extravasar, de roda punk, de você botar para fora o que está sentindo. (Mas) A coisa do pensamento neoliberal entrou em todos os gêneros. Foi algo, acredito, decorrente da coisa da digitalização, de a música ser mais virtual do que física. Sigo acreditando no rock hoje, porque são bolhas e bolhas. Nunca que o rock deixou de ter pessoas com esse pensamento libertário e revolucionário. A questão é que se criaram bolhas e hoje é difícil de entender um gênero apenas por aquilo que chega para nós, que é vendido pelo algoritmo. Eu creio sim na energia do rock, na história do estilo, na potência que ele traz com a banda e na força que os shows apresentam. É aquela coisa do bate-cabeça, da roda punk. Pelo passado também, do pós-guerra e de sempre ter sido um ritmo mais revolucionário. Venho com a linguagem mais punk, mais hardcore, pois a galera que fez música nessa linha tinha o pensamento mais libertário. Então, penso que sim, que o rock pode resgatar as pessoas que estão perdidas, que hoje não conseguem entender que arte é política em todos os seus âmbitos, em todas as suas nuances. Aposto que o rock pode ser essa faísca para uma possível revolução.

Conheci teu trabalho no primeiro álbum “S.C.A” (2018), porque a capa emulava a foto do álbum de estreia do Sarcófago, o “I.N.R.I” (1987), primeiro CD que adquiri na vida. Esse disco da banda mineira de death/black metal fomentou em mim, de alguma maneira, o lance do não conformismo. Mas, com o tempo, começaram a circular informações de que integrantes do grupo tinham um viés mais conservador. Enfim… aproveitando esse relato, gostaria de saber se a cena mineira de metal – encabeçada pelo Sepultura, o próprio Sarcófago, além de bandas como The Mist, Overdose, Holocausto, Sextrash e por aí vai – te influenciou de alguma maneira?
Sempre fui da linha mais punk. Do punk para o grunge. Quando comecei a visitar Belo Horizonte, ali por 2004, para curtir as cenas que aconteciam, isso já era coisa do passado. Essa movimentação do rock já estava fria, já era mais protagonizada pelas bandas de pop rock, tipo Skank, Jota Quest, Patu Fu e Tianastácia. Então, fui mais da linha de bandas de garagem de Santa Luzia mesmo, que era puxado para o punk rock. A gente se encontrava para ouvir Garotos Podres, o vinil do Bad Brains, gostava de tocar Nirvana. Gostávamos dessa coisa mais Sid Vicious e não curtíamos tanto nomes como The Clash. Nosso negócio era mais bate-estaca. Eu comecei a me interessar por rock porque meus primos tinham uma banda de punk que se chamava Rockslides – eles eram skatistas. Assim, nosso rolê sempre foi mais esse, do punk ao ska. Inclusive, já estou fazendo meu próximo álbum que vai ser de ska. Porque conversa muito com o punk. É um estilo que tem a ver com coisas que a gente gosta de fazer, que é beber cerveja, jogar bola, fumar um, andar de skate e namorar, tá ligado? Claro, também abordar política, a situação do bairro. Não tive muito contato com essa galera do metal não, mas a ideia da capa de “S.C.A” surgiu no contexto da cena rap mineira. Como o Djonga já estava bem dentro do mainstream no rap e fez a releitura da capa do Clube da Esquina (no disco “Heresia”, de 2018) pensamos assim: eu sou mais underground. Como ele pegou ali o Milton Nascimento, o Clube da Esquina, então vou pegar o Sarcófago, com a capa de “I.N.R.I”. A galera gostou muito, até hoje recebo elogio disso.
Pelo primeiro single de “Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades”, deu para se ter uma noção do álbum como um todo. Nessa música de trabalho, chamada “Bandido Bom”, a guitarra ganha destaque, com uma espécie de solo no meio da faixa, algo na pilha Rage Against the Machine. Isso segue nas outras composições? (Nota: a entrevista foi realizada antes de o álbum ser lançado).
Vejo a guitarra como a alma do rock. É ela que traz peso e distorção. Quem assina as guitarras aí é o Baka, que é o produtor, trabalhou com o Rosa Neon (extinta banda pop belo-horizontina que, além de Baka, tinha em suas fileiras Luiz Gabriel Lopes, Mariana Cavanellas, Marina Sena e Marcelo Tofani) e ainda no álbum da Gaby Amarantos (vencedor do Prêmio APCA de Melhor Disco de 2025 e, também, do Prêmio Scream & Yell). E as coincidências dizem muito, já que o nome do disco da Gaby é “Rock Doido” (2025). Baka é um cara que já ganhou Grammy e vem aí com algumas produções também na guitarra, sendo algumas tocadas pelo Daniel Souza. Quem assina a bateria é o Glauco Mendes, que é o baterista do Lagum, foi também da saudosa banda Tianastácia e é bem conhecido aqui na região. Quem está mixando e masterizando é o Marcelinho Guerra, que também é um Grammy winner daqui da cidade.
Toda a galera que trabalhou no álbum está mais habituada dentro do conceito do que é fazer rock, de como deve soar, como deve ser trabalhada a textura e tal. Estou muito feliz de ter feito um trampo totalmente orgânico, porque o rock é visceral, e eu consegui fazer o álbum dessa forma. É o primeiro que eu sinto que tem essa carga viva, pesada e contundente do que é estar sentindo-se pertencente à uma cena. Acho que a galera do rock vai se sentir contemplada com o disco nesse momento do país. Precisamos muito de pessoas que quebrem essa lógica neoliberal e não tenham medo de perder fãs ou patrocínio, que façam arte pela arte. Não que a arte tenha algum compromisso com o artista, mas o artista tem que ter um compromisso com a arte.
Ter uma banda vai na contramão do padrão para um artista como tu, que poderia excursionar só com DJ. Principalmente na questão financeira, já que envolve mais gente e, consequentemente, gera mais custos. Por que a opção por reunir esse um grupo de músicos?
Acredito no capital humano. Minha banda tem grandes mestres, e aprendo muito com eles, quero a cada dia estreitar essa relação. É a primeira vez que eles vão participar de um álbum meu em que eles começam do início e fazem parte de todo o processo de produção. São grandes mestres, merecem estar comigo, e eu mereço estar com eles. Criamos uma sintonia bacana. Eles têm muito a me ensinar, e eu queria demais que eles pudessem aproveitar essa vitrine que vão ter viajando comigo e que, mais e mais, pessoas conheçam eles. São músicos excelentes, respeitados e elogiados, por todos que vêm me cumprimentar. Tanto o baterista, o baixista, o guitarrista, o saxofonista, que é o grande maestro da banda, o Jackson Ganga. Vejo como time, sabe? Se estivesse pensando em dinheiro, eu continuaria fazendo álbum de miami bass, já estaria no meu quinto álbum nessa levada. Penso no futuro, que o horizonte da história vai julgar de forma correta e absoluta aqueles que fizeram pela arte e os que fizeram pelo hype, apenas pela questão de lucro.
Há quanto tempo vocês estão com esse conjunto?
Foi 2023, quando eles participaram das gravações de “O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão nos Levar para Outro Planeta”. Desde então, estamos nesse casamento aí.
Saindo um pouco da parte instrumental para falar da lírica. Tuas letras deixam claro teu posicionamento político, sendo que algumas juntam esse flow consciente com um apelo dançante – o que pode até parecer uma dualidade. Um exemplo é “Polícia Covarde”, do EP “Baile” (2021). Esse mistura de consciência e som que bate legal na pista é intencional, pensada previamente?
As crianças adoram essa. Isso é muito louco. Acho que tudo vai do momento, porque sou uma pessoa que faz música primeiramente para mim. A idealização do público em nenhum momento permeia o processo criativo. Crio porque quero escutar a música, adoro ouvir minhas composições, viajar e colocar do meu primeiro CD até o último. Realmente componho para mim. A questão de conseguir fazer com que as pessoas ouçam é porque acho que mereço sim ganhar um dinheiro, dar uma condição melhor para minha família. Mereço trabalhar com música. Só que, quando penso na arte, foco em mim. Não percebo isso como egoísmo, e sim como um compromisso com a arte. Já que ela primeiro tem que fazer sentido na minha cabeça, nos meus ouvidos, no meu corpo, no meu sangue, no meu coração e nos meus ossos, sabe? Também na minha realidade, na circunstância na qual eu vivo. Depois, coloco no mundo e comparo com a reação das pessoas para ver se essas vozes da minha cabeça fazem sentido ou não. Não sou de nenhum gênero, não pertenço a nenhum lugar. Sou um proletário e os proletários não têm pátria. A nação do proletário é o mundo, são os trabalhadores do mundo. E para mim só existem dois tipos de música: a boa e a ruim. Gosto da boa, seja de qual estilo for. Então, por isso que eu me sinto livre e com energia para fazer qualquer tipo de som em qualquer lugar, com qualquer tipo de pessoa, em qualquer tipo de ambiente. Para mim é uma coisa bem natural.
Continuando na questão da poesia e do flow: quando te falei meu nome (Homero), tu comentaste sobre os livros “Ilíada” e “Odisséia”, o que indica interesse por literatura. Tu lês bastante?
Gosto de ler porque nascemos em um mundo onde temos de aceitar e conviver com vários acordos que foram feitos antes de nós. Somos obrigados a falar uma língua que a gente não escolheu, a viver num país com uma nacionalidade que não foi opção nossa… Enfim, tudo que nos é entregue não foi decisão nossa. Então, o mundo nunca foi melhor nem nunca pior do que está. Procuro sempre saber qual foi o ponto de vista, de partida do raciocínio, de quem veio antes de mim. Por isso que gosto de ouvir música, de ler livros, de conversar com as pessoas mais velhas, de ver filmes, de conhecer lugares históricos e de viajar. Por isso que gosto de viver, cara. Entendendo o passado, podemos mudar o presente. E, fazendo isso, construímos o futuro. Quero um futuro melhor para todo mundo. Desejo que as pessoas que cheguem depois de mim venham em um momento melhor, com circunstâncias melhores, em um mundo melhor. E por isso que jamais vou deixar de estudar enquanto eu puder aprender, puder ler, tiver saúde para me interessar por coisas novas ou pensamentos que já foram perpetuados na história. Cara, eu amo filosofia, história geral, história da biologia, da geografia, da arquitetura, da música, do nosso país. Amo a história das pessoas, dos povos originários. Sou apaixonado por curiosidades e cultura pop. Adoro conhecimento. Acho que estar vivo é sentir a vida de fato, todo dia aprender algo novo. Sou do hip-hop, e isso significa não ficar parado, estudar, buscar conhecimento. É a minha forma, a melhor forma, de não parar, de não estacionar e de estar em constante evolução. É por isso que as minhas letras sempre trazem algo fresco, novo, em cada trabalho. A cada dia eu estou descobrindo e aprendendo coisas novas.
Pena que, infelizmente, a maioria da população não tem acesso a isso por falta de condições. A pessoa vai lá, trabalha, às vezes acorda 4h da manhã para pegar um ônibus e estar no trabalho às 8h. Aí trampa 8 horas por dia, chega em casa 22h extremamente cansada. Que vontade vai ter de ler?
Sim, sem tempo nem para descansar. Tá aí a escala 6×1 que a gente tem que lutar contra. O ser humano, o trabalhador, deve ter o direito de lazer, de descanso. Deve ter direito também a procrastinar, ter um dia de não fazer nada. O ócio também é algo construtivo, que faz bem.
Pegando o gancho dessa tua fala, que é um posicionamento mais progressista, mais à esquerda. Lembrei da tua filiação à Unidade Popular pelo Socialismo (UP). São raros os artistas que se conectam diretamente a partidos políticos e ainda fazem questão de tornar isso público. O que percebes como prós e contras de não deixar dúvida sobre de que lado estás? Tipo, perde muito público?
Ah, o público é o de menos, sabe? O mais triste é ver como as marcas se comportam diante de uma radicalização tão explícita do artista. Sobre o público, penso ser bom que aqueles que não se pareiam com esse pensamento retirem-se agora. Além disso, quero a cada dia estar mais perto de marcas que se preocupam com a natureza, com o bem-estar social, com minimizar os danos de tantos anos de exploração escravagista e tempo de patriarcado. Penso que mais marcas vão surgindo com esse pensamento da questão social. Temos como exemplo a Kenner e a Xeque Mate, das quais sou embaixador. Elas me apoiam totalmente e estritamente em todos os meus posicionamentos e concordam com as minhas falas e as pautas que eu defendo. Acredito que o público é o de menos, pois tem plateia tanto à esquerda quanto à direita.
O problema são as pessoas no muro, que se dizem apolíticas. Essas são as piores, porque quem está em cima do muro sempre cai para a direita. E no primeiro momento que puder se mostrar, uma pessoa de caráter dúbio, ela vai exercer essa coisa nojenta que é o fascismo, o racismo, o machismo, a xenofobia, a homofobia. Busco mais esse lugar à esquerda, não da esquerda radical, mas da revolucionária, que realmente luta pela quebra do sistema, pelo fim do status quo. De negativo, tem a decepção com algumas entidades, marcas e pessoas que conseguem influenciar em certo nível a sociedade. De aspectos positivos tem a galera que encontramos nessa luta e que enriquece mais os objetivos, que agrega.
São pessoas com as quais converamos, debatemos e construímos uma ideia e uma identidade do Brasil. Precisamos de um país mais justo, que respeita suas mulheres, que defende seus povos originários e não serve só ao interesse dos políticos de direita e à burguesia.
E já chegaste ser atacado pessoalmente? Ou soube de alguém que ouviu a tua música e mudou de uma opinião mais fechada para algo mais libertário?
Várias pessoas já me disseram que em algum momento eu fui crucial para uma retomada do pensamento progressista, para uma identificação – não sei se pode se dizer identitária – de ser possível achar o seu lugar no mundo. Sei que várias pessoas sentem o que a gente sente em relação ao mundo, mas elas precisam de alguém que explique o que está acontecendo no coração e na mente delas.
Sobre agressão, já tentaram me bater num show no Rio de Janeiro, em 2020 ou 2022, no Jockey Club. Me arremessaram garrafas, copos e ofenderam de tudo quanto é palavrão. Tentaram pular a grade para me agredir, mas rapidamente já fui retirado do palco, encaminhado para a van e levado ao hotel. Mas não tenho muito medo disso. Costumo dizer que o artista, sério e compromissado com a arte, não tem que pensar em agradar ninguém. Não tem como entreter todo mundo, agradar gregos e troianos. Em nossa caminhada e construção artística, vamos criar inimigos. E o inimigo não pode ser o seu semelhante, o seu igual, as pessoas que estão com o barco na mesma direção que o seu.
Inimigos são aqueles contrários ao que você acredita, como racistas, burgueses, os que acreditam que o Brasil é construído para os brancos, as pessoas que creem que os portugueses libertaram os indígenas de uma situação de barbárie. Se for para fazer inimigos, que sejam os reacionários, os conservadores, aqueles que fazem a fé de muleta e que a usam para enganar o povo.
Como que tu começaste a forjar esse teu posicionamento mais à esquerda? Tu já moraste em ocupação, pelo que vi em entrevistas tuas.
É algo que me acompanha desde a adolescência. Como te disse: entrei no rap para fazer política, não entrei para a política para fazer rap. Eu não me filiei ao UP para angariar mais público, mas sim porque é um movimento natural. Eu já deveria ter feito isso há tempos, nos quatro anos e meio em que morei na ocupação da UP. Não me filiei antes porque não tinha tempo, nem saúde mental e física para isso. Entretanto, hoje tenho. Pensamento é assim: o objeto observado está em constante movimento. E nessa constância, a gente vai aprendendo diariamente. É um movimento natural essa filiação ao UP. Esse pensamento, raciocínio e posicionamento é uma coisa que está em construção. A cada dia eu estou construindo mais e mais minha base intelectual e de como eu acho que as coisas devem ser levadas. De como eu devo gerir minha carreira e quais atitudes tomar, de que forma eu devo me comportar com a minha arte, sabe? Acredito que a cada dia eu vou refinando essa ideia, atingindo e apontando para lugares onde vai ser mais assertiva a conduta. Acredito que foi uma atitude acertada me filiar a UP. Eu busquei no partido não um palanque, mas sim um lugar onde eu possa estar com as pessoas semelhantes a mim, que acreditam nas coisas que eu acredito, que têm condutas e comportamentos parecidos com o meu. Isso ajuda a criar um grande campo de estudo para que eu possa aprender diariamente mais sobre a luta proletária, a luta camponesa, a luta operária, a luta dos estudantes, a luta dos trabalhadores em geral. Para que a minha arte se torne mais libertária e revolucionária, porque o povo oprimido precisa de um norte. As pessoas sentem a revolta de trabalhar seis dias e descansar um, de dar sua vida no trabalho e receber pouco. As pessoas só precisam de alguém que explique, que verbalize, ilustre de uma forma que elas possam entender – que não seja uma linguagem totalmente acadêmica, mas também que não seja uma linguagem baseada apenas no senso comum.
Pode-se dizer que as tuas letras têm mais de autobiográfico ou de observações tuas do cotidiano ao redor?
É uma colcha de retalhos. Tem a minha experiência, inteligência e o meu saber empírico. Porém, também tem conhecimento dos manuais teóricos de todo o meu estudo e de como eu pego essa compreensão e a trago para o cotidiano, para circunstâncias do dia a dia, e como eu faço a crítica e como eu trabalho meu pensamento crítico sobre a realidade. Não posso deixar de dizer que, grande parte do que eu escrevo, baseia-se na minha experiência. Acho que a minha inteligência, a minha prática de vida diz muito no fim desse processo criativo.
Pergunto por que, por exemplo, com o álbum “Assalto e Batidas” saiu um curta, de mesmo nome, no qual podemos identificar vivências que uma parcela da população não está acostumada (violência e exploração social, por exemplo).
O curta é baseado na minha comunidade, em histórias que a gente ouve e também nas que acontecem em todas as comunidades. Mas com um detalhamento de um corte mais teórico, mais aprofundado na teoria marxista e na luta dos trabalhadores. Fazemos esse paralelo entre a luta organizada e a luta do dia a dia, no senso comum do trabalhador, do que ele vive na realidade.
Falando no álbum anterior: nesse registro há samples de Racionais. Foi pedida autorização dos caras? Como tem a situação de que o D2 usou referência ao quarteto rapper paulista sem avisar previamente e eles não gostaram, fiquei com essa curiosidade.
O Coyote (um dos produtores de “Assaltos & Batidas”) conhece a galera dos Racionais, então a gente acionou eles. Acho que o primeiro contato foi ainda no processo de produção e rolou tranquilo. Teve um acordo e foi de boa a gente poder trabalhar usando sample deles. Sou favorável a ter essa comunicação, porque é uma propriedade intelectual deles. E ainda tem a história e a grandeza dos Racionais que temos de respeitar sempre.
Tu cresceste bastante desde que começou, mas mostra-se inquieto e apto a ir além. Mas esse corre tem um preço, que é abdicar de muitas situações da vida pessoal. Como tu concilias a luta artística com o lado pessoal, principalmente a família?
A questão é que eu sou um cara caseiro, saio do trabalho e vou para casa. Quando não estou no trabalho, estou em casa. Quando não tenho compromisso profissional, estou curtindo uma cachoeira, um rio, com a minha família. Ou estou fazendo um churrasco na minha quebrada – ainda moro no morro Cabana do Pai Tomás. Para mim é bem tranquilo, nunca fui de jogar bola com a galera, de ficar em mesa de boteco. Já tem 17 anos que eu sou casado com a minha esposa, tenho três filhos com ela e meu rolê é esse. Ou estou aqui no estúdio, que fica perto de casa, ou estou curtindo o rolê com a minha família. Trabalhei poucas vezes com carteira assinada, e em todas elas fui demitido durante os três meses de experiência. Faço rap desde os meus, sei lá, 14 anos, e sempre estive perto da minha família. E tem as fases, né, da infância. Agora meu filho está na adolescência, naquele período meio impossível, mas a gente lembra de como foi, como nos comportamos com os nossos pais. Aí o coração fica mais mole, dá para entender que o tempo passa muito rápido e são fases da vida. Sei que a tendência é sempre desacelerar. Já trabalhei mais, hoje eu trabalho bastante, mas não de forma exaustiva. Faço o que gosto, e isso é viver como se quer.
Como começou tua conexão com o rap e com a cultura hip-hop?
O gatilho para realmente pensar “é isso que eu quero para minha vida” foi o Sabotage. Quando escutei o “Rap é Compromisso”, aquilo ali mudou tudo. O flow do Sabotage era maravilhoso. Logo em seguida ele foi assassinado, e eu vi o impacto que o Sabotage teve na minha geração. Foi ali que eu decidi que todas as minhas lutas, tudo que eu acredito e que eu quero ser está no rap. Eu tinha um entendimento no começo apenas do rap nacional. Só que aí colei, no ano de 2007, na batalha de MC embaixo do Viaduto de Santa Tereza (BH) e descobri o movimento hip-hop. Entendi que o rap era só um elemento de uma cultura maior, e nisso minha cabeça explodiu, nunca mais fui o mesmo. Estou nessa busca por conhecimento até hoje, porque o hip-hop é isso: não ficar parado. Sempre entendi que a educação é transformadora, e o Sabotage mudou minha vida. Ele foi uma das pessoas que me incentivou nos piores momentos – quando era adolescente, a situação era muito precária ali no começo dos anos 2000, lá em Santa Luzia. E o Sabotage foi um amigo, um irmão, um professor. Quando ele morreu, eu estava assistindo televisão, veio aquele plantão ao vivo, e aquilo mudou minha vida. Falei: “pô, por esse cara aí, eu vou tentar ser uma pessoa melhor”. E o rap mudou minha vida.
Tu disseste que tocou com banda de igreja. Além disso, usa uma corrente de São Jorge que sempre te acompanha e chegou a fazer um post sobre o orixá no dia dele (23 de abril, data desta entrevista). És uma pessoa de fé? E como essa crença atravessa teu trabalho?
Não sou religioso, abomino todo tipo de religião, de doutrinação, de filosofia dogmática. Mas sou uma pessoa de fé, sim. Eu acredito nas pessoas. Tenho fé na natureza, no futuro. Olho para a ciência e é inexorável a imagem de Deus, como somos perfeitos, e como o universo funciona de forma tão sincronizada. Acredito que existe algo sim. Se são seres de quinta, quarta, décima dimensão, não sei dizer. Esse é um grande mistério, ninguém morreu e voltou para falar como é. Sinto uma energia, uma coisa no universo que cinge todos nós seres vivos. E pela matemática do acaso é impossível não acreditar que existe uma força maior que nos rege, que nos guarda e ilumina. Algo forte para mim é como o ser humano tem o poder da criação e de moldar o seu ambiente. Isso me move. Entender que Deus é todo mundo sorrindo ao mesmo tempo, e a real da vida é fazer a vida ser melhor para geral. Essa é a fé que eu carrego comigo. Tenho uma relação forte com São Jorge, com Ogum, não sei explicar. Tento levar uma vida em prol do outro. Não necessariamente quer dizer que você vai sair distribuindo marmitex. Acho que a gentileza já cumpre bem esse papel, o cuidado com a natureza, acreditar em causas justas e necessárias. Essa é a minha fé: crer num mundo melhor.
Relacionando isso com teu relato sobre Sabotage, de como ele te ajudou, ou até salvou, considera a arte – aqui especificamente a música – uma entidade capaz de servir como suporte para as pessoas em momentos difíceis?
É muito louco, porque para mim a arte é conseguir expressar a real beleza, que todo mundo sabe o que é. É a aplicação do conhecimento, a ação e o conhecimento da intuição. A arte é tudo aquilo que a gente intui e consegue personalizar, personificar e materializar. E isso é a fé, não tem como fazer isso sem acreditar.
– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.
