Entrevista: Dana Colley disseca discografia do Morphine antes de show em São Paulo

entrevista de Guss de Lucca

Pouco mais de um ano após a sua última passagem pelo Brasil, o Vapors of Morphine retorna em nove de maio para uma noite de apresentação dupla no Cine Joia ao lado de Dean Wareham, que traz um set dedicado ao grupo do qual fez parte, o Galaxie 500 (ingressos aqui).

Em entrevista dada anteriormente ao Scream & Yell, o saxofonista Dana Colley, único integrante da formação original do Morphine na ativa (o Vapors ainda conta com o vocalista, guitarrista e baixista Jeremy Lyons e o baterista Tom Arey), falou sobre o legado do grupo e a relação de seu vocalista, Mark Sandman, com o Brasil.

Agora, em um novo bate-papo, ele comenta sobre o show de 2025 no Cine Joia, em São Paulo, e faz uma avaliação da discografia do Morphine, pautada por cinco álbuns de estúdio que marcaram o surgimento do low rock – estilo resultado da junção de um baixo de duas cordas com uma bateria e um saxofone barítono. Leia a conversa abaixo.

Pouco mais de um ano depois da última apresentação e vocês estão de volta a São Paulo. Estamos felizes em tê-los por aqui, não interprete mal a minha primeira pergunta, mas o que explica esse retorno tão cedo?
Um ano é bastante tempo, não acha? O que sei é que tivemos ótimos shows no Brasil, mas a nossa passagem pelo Chile foi atribulada, pois houve um problema de energia na noite em que tocamos e, apesar de um gerador permitir que a apresentação ocorresse, muita gente não conseguiu chegar. Então, voltando um ano depois, esperamos que as pessoas que não puderam nos ver antes consigam usar seus ingressos e retornar para este concerto.

Você se recorda de algo legal do show em São Paulo?
Lembro da plateia. As pessoas foram demais. São Paulo foi uma festa. Tivemos uma resposta incrível do público. Algo que não vivenciamos todos os dias. Eu nunca vou esquecer aquela apresentação.

Lembro de você oferecendo uma cerveja para um cara na plateia e entregando a ele – o que o deixou surpreso. E também, no final, puxando um coro de “French Fries with Pepper” com o público.
É raro ouvir suas próprias partes de saxofone sendo cantadas de volta pelo público. E receber essa resposta musical de uma multidão inteira, foi como estar em um estádio de futebol e ouvir a torcida cantando. Ter essa sensação de ser um jogador de futebol em campo, recebendo o chamado das arquibancadas – é uma emoção muito poderosa. Não são muitos os lugares onde vivi algo assim. São Paulo é um deles, Buenos Aires é outro. E isso já é motivo suficiente para querer voltar. Nunca queremos ir embora. Essa é a realidade.

Vi em uma entrevista que você abandonou as aulas de clarinete, ainda jovem, após ouvir o riff de saxofone do tema do personagem Pantera Cor-de-Rosa, de Henry Mancini. E é realmente um dos sons mais legais já gravados. Nesse sentido, quais outras músicas com saxofone você considera tão bacanas quanto essa?
Bem, “Take Five”, do Paul Desmond, é bem estilosa, sabe? Cannonball Adderley, qualquer coisa em “Kind of Blue” [álbum de Miles Davies de 1959], as músicas de Stan Getz, Ben Webster, Coleman Hawkins… Tudo o que veio antes de mim, na minha opinião. Mas também ouço novos músicos hoje em dia, como Dino Gavoni e George Garzone, artistas do meu pedaço que são simplesmente fenomenais.

Na entrevista anterior você mencionou que Mark estava toda hora falando sobre o Brasil, que precisavam ir tocar lá… Agora que você conhece bem o país, consegue entender a empolgação dele?
Não demorei muito para entender isso. Eu sabia. Temos uma grande comunidade de brasileiros na nossa cidade. Então eu conheço bem a cultura brasileira, a música e a vibração de tudo que vem de lá. Já tinha uma certa noção, eu acho. Mas não há nada como estar no meio de uma rua cheia de gente, todos unidos de uma forma tão alegre que é difícil até mesmo entender de onde vem.

As capas dos álbuns do Morphine são distintas e muito interessantes. Como surgiram as ideias para elas?
“Good” [primeiro álbum do Morphine], por exemplo, marca o início da empolgação de Mark Sandman explorando as cores das fotocopiadoras. E o uso de uma máquina da Xerox para copiar algo de um livro, por assim dizer. Era um catálogo de obras de arte holandesas, com pinturas e gravuras, se não me engano, que ele “xerocou”. E essa foi a primeira capa feita por Mark – aquela seleção específica da borboleta pintada por um artista belga-holandês, eu acredito. A primeira versão foi feita para uma fita cassete, se você conseguir imaginar. Ficava bonito numa caixinha retangular, com essa imagem enorme aparecendo. Mas quando o trabalho virou um LP ou um CD, a arte seguiu esse princípio.

E a capa do álbum “Cure for Pain”? [mostro a capa do CD para Dana pela câmera]
Vire de cabeça para baixo e me diga o que você vê agora.

Parece o sol nascendo atrás daquelas nuvens.
Sim, a capa foi propositalmente publicada de cabeça para baixo. Essa é uma foto do céu tirada pelo Mark. E ali está o sol. Mas ele simplesmente inclinou e depois virou de ponta-cabeça. Mark adorava tirar fotos, sabe? Nesse caso acho que foi uma impressão de 35 milímetros que ele provavelmente mandou revelar na farmácia, sabe, esse tipo de coisa.

Você sabe quem cuida do perfil do Morphine no Instagram? Pergunto porque é muito bem administrado, sempre atualizado semanalmente com vídeos e informações sobre a banda. O que pode servir como porta de entrada para novas gerações descobrirem o som do grupo.
Você pode repetir isso? Porque eu quero gravar você falando e mandar para a Sabine [Hrechdakian, namorada de Mark Sandman]. Ok, vamos lá.

Deixe-me explicar a ela: perguntei quem cuida do perfil oficial do Morphine no Instagram porque acho que é muito bem administrado, sempre atualizado com vídeos e informações sobre a banda. E, para mim, acho que pode servir como porta de entrada para novas gerações descobrirem o som do grupo. Eu adoro porque sempre me recorda de algo sobre o Morphine e eu penso: “Nossa, que legal! Eu não lembrava disso.”
Mas sim, é a Sabine. Ela é a responsável pelo acervo. Ela pegou os arquivos do Mark, os arquivos do Morphine que reunimos ao longo dos anos e digitalizou tudo. E ela praticamente gerencia toda a mídia, atualizando os vídeos e vasculhando as muitas partes deste inventário para encontrar essas pequenas peças. É um serviço realmente incrível e trabalhoso. Então, sim, é muito gentil da sua parte reconhecer isso. Mal posso esperar para contar a ela. Ela vai ficar orgulhosa.

Acho ótimo porque toda vez que eu falo do Morphine para alguém que não conhece a banda, posso enviar o perfil. E muitos artistas que não estão mais na ativa e são anteriores às redes sociais não têm isso. É ótimo que esse conteúdo exista.
Eu a vi recentemente. Somos amigos. Penso que ela poderia facilmente se perguntar: “Para que estou fazendo isso?”. Porque você não sabe qual efeito que tem. É difícil medir o impacto. Quer dizer, o perfil tem seguidores e tudo mais, mas não parece tão conectado. E o que você acabou de dizer vai significar muito para ela.

Gostaria de propor uma breve sessão de perguntas e respostas sobre a discografia do Morphine. Minha intenção é apresentar o grupo aos leitores que ainda não o conhecem. A dinâmica que imaginei é simples: eu digo o álbum e o ano de lançamento, e você me conta suas principais lembranças, opiniões sobre ele. O que acha?
Podemos tentar.

Podemos começar com “Good”, de 1992? O que você pode dizer sobre esse disco?
O que posso dizer sobre “Good”? Bem, nós meio que já conversamos sobre a capa do álbum. Você pode imaginar que se tratou de uma gravação bem antiga, lançada em fita cassete no esquema do “faça você mesmo”. Enviamos as músicas para várias estações e acho que as rádios universitárias começaram a tocá-las e apresentá-las para o público – esse tipo de coisa. E depois, quando fizemos o “Cure for Pain”, o “Good” foi relançado pela gravadora independente com a qual trabalhávamos, a Rykodisc.

Você acabou de mencionar o “Cure for Pain”, de 1993. Pode falar algo sobre esse álbum importantíssimo?
Para mim, foi aí que tudo começou. Nos unimos. Estávamos tocando bastante, fizemos turnês, fomos para a Costa Oeste, tivemos muitos shows como uma banda. Esse disco foi produzido pelo Paul Kolderie com o Sean Slade – Paul produziu o Hole e o Radiohead depois de nós. Mas, no início, ele trabalhava com muitos artistas locais – e nós éramos um grupo local. Fomos para o estúdio que eles tinham, um lugarzinho legal que estava começando. A gravação foi bem rápida porque tínhamos as músicas, estávamos prontos, já havíamos ensaiado.

Pouco antes de sair do grupo o Jerome Dupree, que foi o primeiro baterista que tivemos, conseguiu entrar em estúdio e gravar as faixas desse álbum. Ele gravou suas partes de bateria e acredito que não achava que era o seu melhor trabalho. Acho que ele ainda estava se aquecendo. Mas Paul Kolderie reconheceu a energia de uma possível primeira tomada e entendeu que talvez aquele fosse o melhor que tínhamos. E o som da bateria estava ótimo.

Gravamos em fita de duas polegadas com bateria, baixo, saxofone e vocais – e ainda tínhamos tempo e espaços extras para adicionar pequenos overdubs, dobrar os metais ou outras coisas. Então realmente conseguimos explorar para onde poderíamos levar a música além do que vínhamos fazendo nos palcos. Podíamos capturar a essência de uma canção ao vivo e fortalecê-la no estúdio. Acho que foi uma combinação de muitos elementos que se uniram para aquele disco sair.

E sobre o terceiro álbum, “Yes”, de 1995?
Não lembro de nada sobre o “Yes” [risos]. Só que inicialmente ele não foi bem recebido. Recordo-me de alguns críticos dizendo que soávamos muito como nós mesmos, que soávamos como o Morphine ou algo assim. Naquele período, era como se houvessem dezenas de bandas de quatro integrantes com guitarras e as pessoas conseguiam encontrar a menor diferença de nuances entre um grupo e outro, apenas pela tonalidade. O agudo de uma guitarra ou algo que as diferenciasse, sabe? Mas, fora isso, todas essas bandas de rock feitas cópias de carbono estavam tocando a mesma coisa. Os críticos reconheciam nuances ali, mas não em nós. Não nos permitiram esse mesmo espaço. Fomos criticados por soarmos como nós mesmos.

Críticas no mínimo curiosas. E sobre o disco “Like Swimming”, de 1997?
O que eu sei sobre esse álbum de 97? Bem, as coisas estavam indo muito bem, sabe? Estávamos fazendo muitos shows. Direto na estrada. Tocando na Europa, no Japão, na Austrália… Participamos de alguns programas de televisão na Europa e nos Estados Unidos. Estávamos firmes e fortes. Nessa época, tínhamos o Billy Conway na bateria, que se tornou nosso baterista oficial depois que o Jerome saiu da banda. Mark e Billy já haviam tocado juntos no grupo Treat Her Right. Antes do Morphine.

Eu lembro bem da sessão de fotos – estávamos falando sobre as capas pensadas pelo Mark. Aquela foto estampada no “Like Swimming” foi tirada na piscina da família do Mark em Newton, Massachusetts. E todos nós entramos lá vestidos e nadamos com esse ótimo fotógrafo chamado Danny Clinch, que faz muitas fotos de rock. Tivemos a sorte de trabalhar com ele – e ele topou pular na piscina com sua câmera à prova d’água.

É uma ótima capa.
Foi um momento legal porque houve uma espécie de avanço na relação do Mark com seus pais. Naquela época eu acho que eles começaram a entender o que ele representava, o que estava fazendo e o que era capaz de fazer. Algo mudou naquele dia. Enquanto que antes, penso que eles ainda achavam que o Mark deveria ter arrumado um emprego nos correios. Então houve uma mudança, em que seus pais puderam ver que ele estava fazendo bem o que gostava de fazer, sabe?

Para terminar, você poderia falar do álbum “The Night”, de 2000?
Bem, esse é um disco agridoce. Começando pela capa, que é uma impressão solar de uma flor Dama da Noite, fotografada por essa mulher maravilhosa chamada Hope Zanes. Ela era amiga e vizinha de Billy e Laurie [Sargent, vocalista do grupo Twinemen, do qual Dana fez parte após o fim do Morphine] quando eles moravam em Hopkinton, New Hampshire. E ela fazia esse processo de revelação… acho que vou me confundir aqui, mas deixe-me tentar. Ela usava uns negativos grandes e os deixava do lado de fora sobre papel com emulsão. E o próprio sol queimava a imagem na impressão da foto. E o que se vê na capa do álbum é essa flor que só desabrocha à noite. É uma obra de arte interessante.

O disco em si foi bastante complexo de se produzir. Houve muita discussão. Inicialmente, era um trabalho que estávamos fazendo com a Dreamworks e acho que Mark sentiu muita pressão para fazer algo que nos colocasse em um patamar superior. Então houve muita angústia e frustração até chegarmos a esse álbum. Tínhamos trabalhado com Paul e Sean, mas depois percebemos que não seguiríamos com eles e recomeçamos do zero neste estúdio do Mark chamado Hi-n-Dry. Depois de passar por semanas e meses negociando com o pessoal da DreamWorks, tentando encontrar a fórmula mágica, finalmente chegamos a um acordo.

Acho que o Mark estava bastante feliz e animado. De alguma forma nos mantivemos unidos como banda durante períodos muito turbulentos. E chegamos a esse ponto em que estávamos partindo para uma turnê europeia naquele verão de 1999. Foi nesse momento que o Mark faleceu na cidade de Palestrina, na Itália.

O convite para essa apresentação surgiu em uma carta enviada a nossa empresária, Deb Klein, que dizia: “Não é um evento grande. É tudo feito por nós mesmos de forma simples. Mas é um lugar lindo. Adoraríamos que vocês viessem.” Algo nesse sentido. E nós fomos – depois de passar um dia inteiro torrando no asfalto de Lisboa – que nós adoramos, claro, sem querer desmerecer Lisboa. Mas foi um dia muito, muito quente e estávamos bastante queimados de sol por termos ficado num estacionamento. Chegamos a esta linda cidadezinha no topo de uma colina, na Itália, e estávamos sentados no alto curtindo uma brisa suave, os pinheiros, bebendo vinho tinto gelado e pensando “Uau, quem diria que chegaríamos aqui? Sabe, que viríamos tão longe e encontraríamos este lugar lindo”. Tocaríamos no dia seguinte e você já sabe o resto da história.

Sim, foi muito triste perdê-lo dessa forma [Mark Sandman morreu aos 46 anos durante essa apresentação em Palestrina, em pleno palco, vítima de uma parada cardíaca].
A partir desse ponto, tivemos que voltar aos EUA e juntar os pedaços. Tínhamos as mixagens, mas precisávamos masterizar o disco, cuidar da arte e tudo mais… trabalhar na faixa-título, uma música que o Mark criou baseada em uma sequência de acordes que ele havia desenvolvido durante uma aula de composição. Lembro de ouvi-lo tocá-la no piano e pensar: “Meu Deus, de onde você tirou isso? É incrível.” E essa canção se tornou, eu acho, a base daquele disco.

– Guss de Lucca (@gussdeluca) é jornalista, historiador e no passado já foi cartunista do Scream & Yell

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