texto de Fabio Machado
fotos de Marcos Oliviera
A passagem do guitarrista britânico Steve Hackett pelo Brasil (com o tributo argentino Genetics como banda de apoio) atraiu milhares de apreciadores do Genesis ao Espaço Unimed (SP). Ao observar o público que se acomodava nas mesas em frente ao palco – mesmo modelo já utilizado em outras apresentações no local, a exemplo do show de despedida de Milton Nascimento em 2022 – em meio às muitas camisetas com temáticas de discos do conjunto e também de outros nomes do rock progressivo como King Crimson, Gentle Giant e Rush, era possível notar diferentes gerações de pais, filhos, casais e amigos, todos reunidos pela paixão pelas composições intrincadas de Hackett durante seu período no Genesis e também ao longo de sua carreira solo.

E foi com três temas solo que Hackett abriu os trabalhos da noite: “Spectral Mornings” (do disco de mesmo nome lançado em 1979), “A Tower Struck Down” e “Shadow of the Hierophant” (ambas do debut “Voyage of the Acolyte, de 1975). Três instrumentais com inspiração clássica e muita ênfase nas guitarras, servindo como um “esquenta” antes do prato principal. Mr. Hackett, conhecendo o apetite do seu público, cumprimentou os presentes e trocou algumas palavras num português enferrujado – como o próprio admitiu, em tom de brincadeira – antes de anunciar a parte mais esperada do set com as canções clássicas do Genesis, iniciando logo com os teclados atmosféricos de “Watcher of the Skies”, primeira música do disco “Foxtrot” (1972), para a alegria dos presentes.

Para além do próprio Hackett, que parece não sentir os efeitos do tempo em sua performance, fica difícil falar de um destaque na banda. Os Genetics se propõem a reproduzir com fidelidade todos os detalhes nos arranjos criados pelo conjunto britânico, mas talvez o que chame mais atenção sejam os vocais de Thomas Preço, que pode passar quase despercebido com seu visual mais modesto que o de Peter Gabriel nos anos 1970, até a hora de cantar no microfone e impressionar a todos pela semelhança no timbre, pronúncia e potência com a sua contraparte inglesa.

Os demais integrantes – Daniel Rawsi (bateria, percussão, efeitos e vocais), Cláudio Lafalce (baixo, guitarras, pedais de baixo, efeitos), Léo Fernández (guitarras, baixos e baixos pedais e vocais), Horácio Pozzo (teclados e guitarras) – também brilharam ao trazer vida e peso extra na sequência, com “Foxtrot (1971)” sendo representado pela bela “The Musical Box” e “Selling England By the Pound” (1973) marcando presença com “Dancing With the Moonlit Knight” e “Firth of Fifth” – com todos os detalhes ali, da intro de piano reproduzida por Horácio Pozzo às melodias de flauta tocadas pelo vocalista Thomas Preço. Em todas as canções citadas, o baixista Cláudio Lafalce também cumpriu fielmente as muitas funções de Mike Rutherford, usando uma série de instrumentos: baixo elétrico, guitarras e violões 12 cordas, e a indefectível double neck com braços de guitarra e contrabaixo. E ainda fazendo backing vocals!

Após um intervalo de 15 minutos, Hackett retorna acompanhado de um violão de nylon para um breve set solo onde executou “Horizons”, um respiro acústico de “Foxtrot”, com os Genetics reaparecendo para “Blood on the Rooftops”, único tema de “Wind & Wuthering” (1976) também com bons momentos acústicos. Os violões continuaram em destaque nessa parte de set, com a literalmente épica “Supper’s Ready”, mais uma do disco “Foxtrox” com 23 minutos que vão se desenrolando como um filme feito de muitas partes diferentes para trazer a sua narrativa apocalíptica. O público acompanhava tudo com silêncio digno de grandes orquestras, mas ainda vibrando a cada riff e mudança de andamento que surgia pela frente. Assim também foi com o início pastoral de “The Cinema Show/Aisle of Plenty” (uma dobradinha de “Selling England by the Pound”) e com “Dance on a Volcano/Los Endos” (outro combo trazido de “A Trick of the Tail”, de 1976).

Uma verdadeira surra de prog para encerrar a segunda parte do set e arrancar aplausos de pé da platéia, que já suspeitava mais surpresas no bis, que não demorou muito: Hackett & Genetics regressaram mais uma vez, agora executando uma trinca do seminal “The Lamb Lies Down on Broadway” (1974): a faixa-título com mais uma intro quase sinfônica comandada pelos teclados, seguida pela climática “Fly on a Windshield” e a zeppeliniana “Broadway Melody of 1974” – simplesmente a sequência que inicia o lado A do disco. Não é à toa que, a essa altura, parte do público já havia levantado das mesas para apreciar tudo lá na frente do palco. E assim foi o encerramento da noite, com fãs cantando junto, botando as mãos para o céu e segurando a cabeça em incredulidade com o que estava acontecendo. Algo que muitos ali só haviam apreciado em casa, na companhia de vinis e CDs, se tornou realidade por algumas horas no palco do Espaço Unimed. O rock progressivo pode não ter mais o caráter vanguardista que possuía no século XX, mas continua com o poder de emocionar e envolver as pessoas em uma pequena jornada através da música.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.

