Entrevista: Historiador social, Rick Blackman fala sobre seu livro “Babilônia em Chamas” e a luta antifascista no Reino Unido

entrevista de Bruno Lisboa

Rick Blackman é um historiador social, músico e ativista cuja obra tem se destacado por resgatar histórias esquecidas de luta política, subculturas juvenis e música popular no contexto das transformações sociais britânicas. Sua pesquisa alia rigor acadêmico a uma experiência vivida — como participante de movimentos antifascistas e como observador atento das interseções entre música, política e cultura. Em obras anteriores como “Forty Miles of Bad Road” (2014), Blackman já havia revelado narrativas praticamente apagadas ao explorar, por exemplo, a Stars Campaign for Interracial Friendship (SCIF) — uma iniciativa antirracista dos anos 1950 que muitos jamais ouviram mencionar.

Em “Babylon’s Burning: Music, Subcultures and Anti-Fascism in Britain 1958-2020” (2021), Blackman reúne décadas de pesquisa e ativismo em uma análise profunda sobre três momentos cruciais em que jovens, música e política se entrelaçaram para enfrentar o avanço de ideologias fascistas na Grã-Bretanha. O livro argumenta que “a música não é apenas trilha sonora de uma era social, mas instrumento de resistência política” — uma ideia que Blackman desenvolve ao longo das mais de 300 páginas, conectando grupos como a SCIF, o movimento Rock Against Racism e sua encarnação contemporânea, Love Music Hate Racism, às batalhas antirracistas que permearam a história britânica do pós-guerra.

Com um olhar que combina análise cultural e política, Blackman recusa interpretações distantes ou meramente acadêmicas sobre essas lutas. Como ele mesmo afirma, “o que geralmente vemos nos relatos convencionais é um amontoado indistinto de adolescentes; eu vi rostos, vozes e escolhas deliberadas em campo de batalha cultural” — frase reveladora de sua abordagem que mescla vivência e pesquisa. Agora, “Babylon’s Burning” está prestes a chegar ao Brasil – com o nome de “Babilônia em Chamas – Subcultura e antifascismo, 1958–2020” – em edição nacional, graças a uma campanha de financiamento coletivo promovida pela Editora Sob Influência.

Nesta entrevista, Blackman discute as origens de sua pesquisa, as diferenças entre os movimentos antifascistas que analisou, o papel das subculturas juvenis e o que suas descobertas podem nos ensinar em um momento global de ascensão de ideias de extrema-direita. Ele explora, com honestidade e paixão, como a música — de jazz e reggae a punk e hip-hop — tornou-se um terreno fértil de resistência política, e por que essas histórias continuam urgentes hoje.

“Babylon’s Burning” trata de três grandes movimentos musicais que enfrentaram o fascismo na Grã-Bretanha. O que o inspirou a estruturar o livro em torno desses momentos históricos específicos?
Começou como um acidente. Eu me deparei com a Campanha das Estrelas pela Amizade Interracial (SCIF) tarde da noite, quando estava no YouTube procurando música. A BBC tem um programa principal de atualidades chamado Panorama, e encontrei uma pequena reportagem sobre a SCIF, de 1959, que durava cerca de 7 ou 8 minutos. Eu nunca tinha ouvido falar dessa organização antes, então fiquei intrigado. Passei semanas tentando descobrir mais sobre eles e percebi que absolutamente nada havia sido escrito sobre esse grupo. Comecei a pesquisar essa história perdida e meu primeiro livro, “Forty Miles of Bad Road”, foi o resultado dessa investigação sobre a SCIF.

Eu estava prestes a iniciar um doutorado na época e me ocorreu que nunca havia sido feita uma avaliação das três mais importantes organizações musicais antifascistas do Reino Unido. Minha intenção era comparar os três grupos: quais eram as semelhanças, quais eram as diferenças, como operavam e que sucesso tiveram.

Além disso, nunca havia sido realizado um estudo sério sobre organizações antifascistas por alguém que tivesse sido participante ativo desses movimentos. A maioria dos textos escritos sobre movimentos antifascistas vinha predominantemente de acadêmicos, jornalistas e comentaristas, todos de classe média e certamente não integrantes das organizações sobre as quais escreviam.

Por fim, eu queria examinar as subculturas juvenis e o papel que desempenharam nos três grupos/períodos, tanto do lado antifascista quanto do lado pró-fascista. Como esses grupos subculturais interagiam com a música e com as organizações políticas ativas ao seu redor? Mais uma vez, esse tipo de pesquisa não havia sido realizado por alguém que estivesse simultaneamente envolvido em movimentos subculturais e fosse um antifascista ativo.

Como a Stars Campaign for Interracial Friendship, o Rock Against Racism e o Love Music Hate Racism diferiam em suas estratégias políticas e impacto cultural?
É difícil dar uma resposta breve, mas, embora os três grupos tivessem semelhanças, as circunstâncias históricas em que cada um atuou os tornaram diferentes por definição. A SCIF era, em grande parte, uma organização “de cima para baixo”. Liderada por celebridades, funcionava mais como um grupo de propaganda, utilizando o fácil acesso de seus membros à mídia para expressar uma posição antirracista. Embora buscasse a participação de jovens em sua periferia, por meio de bailes e concertos, a ênfase estava em usar o poder das celebridades para se opor a grupos fascistas ativos e violentos da época. Duas outras diferenças importantes em relação às organizações posteriores: a SCIF atuou apenas em Londres e durou pouco mais de um ano.

O Rock Against Racism (RAR), embora tenha começado de maneira semelhante, tornou-se uma organização nacional que, ao mesmo tempo em que utilizava músicos populares para destacar a posição antirracista e antifascista, enfatizava a autoatividade de pessoas “comuns” em suas comunidades locais. Essa mobilização por meio de grupos locais do RAR estava ligada a outra organização, a Anti Nazi League, que era mais confrontacional e buscava impedir que fascistas se mobilizassem nas ruas. O RAR também realizou grandes carnavais que reuniram mais de 100 mil pessoas.

O Love Music Hate Racism (LMHR) é diferente novamente, pois utiliza uma gama muito mais ampla de estilos musicais para desafiar o racismo e tem a educação dos jovens como eixo central. A era digital exige que grande parte do trabalho do LMHR aconteça online, com exibições em massa, eventos virtuais e entrevistas com músicos e artistas britânicos de grime, hip hop e pop. Shows locais e nacionais ainda acontecem, mas com menos frequência. O foco principal está na educação e nas atividades online.

Seu livro combina história cultural com análise política. Como você equilibra a narrativa sobre música e subculturas com um exame rigoroso dos movimentos fascistas?
No Reino Unido, movimentos culturais e movimentos fascistas e antifascistas sempre estiveram ligados. Teddy Boys, o primeiro movimento subcultural da Grã-Bretanha, formaram parte importante de um ressurgimento fascista no final dos anos 1950. Da mesma forma, os skinheads no final dos anos 1970 e os Casuals nos anos 2000. Fãs de jazz e skiffle nos anos 1950, e de punk e reggae nos anos 1970, formaram a base da juventude que se opunha ao racismo e ao fascismo.

As subculturas são muito menos importantes na sociedade britânica atual, então a base de participantes do LMHR vem de uma diversidade musical e estética mais ampla. A relação entre música, subculturas e fascismo já existia; a análise foi possível porque eu sabia o que procurar. Eu quis destacar o envolvimento dos jovens nesses movimentos, já que muitos historiadores falam desses grupos como uma massa indistinta de adolescentes, muitas vezes de forma depreciativa. Isso ocorre porque a maioria dos historiadores não é de classe trabalhadora, não esteve envolvida em subculturas nem foi antifascista ativa. Eu tinha essa perspectiva única.

Que lições desses movimentos culturais antifascistas do passado você considera mais urgentes ou aplicáveis hoje?
Autoatividade e urgência. Ninguém vai deter o crescimento preocupante das ideias de extrema-direita no mundo, exceto nós mesmos. Em geral, os partidos políticos estabelecidos cedem aos racistas e à extrema-direita por medo de perder sua base eleitoral. A mídia tradicional também é cúmplice. Portanto, precisamos confiar nas redes sociais e em nosso próprio potencial organizativo para nos opor ao fascismo. Os fascistas se apoiam no medo e na nossa incapacidade de reconhecer nosso próprio poder.

Ao pesquisar a ascensão dos movimentos fascistas modernos na Grã-Bretanha, que padrões ou continuidades mais o surpreenderam?
A maleabilidade deles. Nem todos os fascistas são os idiotas que costumam ser retratados. Eles aprenderam a se adaptar a novas situações e, embora o núcleo de sua política permaneça o mesmo, perceberam como apresentá-la de diferentes formas e usar “cultura” em vez de raça como ferramenta de recrutamento. Também foram muito mais rápidos em utilizar as redes sociais e a internet como instrumentos de propaganda e organização.

O livro destaca o papel das subculturas juvenis. Por que você acha que jovens e cenas musicais se tornaram repetidamente centrais na resistência antifascista?
De modo geral, as pessoas são mais otimistas quando jovens e politicamente mais propensas à esquerda. Além disso, a influência da música negra no Reino Unido não pode ser subestimada. Desde os anos 1950, praticamente toda subcultura teve no coração a música negra americana ou caribenha. Até mesmo o punk tinha o reggae como trilha sonora nos primeiros clubes de 1976/77.

Você nasceu no Norte de Londres e cresceu em Southall, no Oeste de Londres — uma área com forte histórico de multiculturalismo e luta política. Como crescer em Southall moldou sua consciência política?
Raça e racismo eram — e continuam sendo — parte do cotidiano, mesmo em uma cidade multicultural como Londres. Isso me transformou na pessoa que sou hoje. Eu e meus amigos nos tornamos antirracistas comprometidos, em grande parte graças ao RAR. Não era — e ainda não é — possível se engajar na política no Reino Unido sem que a questão racial fosse um fator.

Você descreveu seu envolvimento adolescente com o Rock Against Racism como algo que mudou sua vida. Pode compartilhar uma memória específica desse período que influenciou o rumo da sua vida e carreira?
Entre as muitas memórias marcantes, o assassinato do ativista antirracista Blair Peach pela polícia foi decisivo. Ele participava de um protesto contra fascistas em Southall, que tinha uma grande população negra e asiática. Esse evento, somado à música que eu ouvia na época — The Clash, The Jam e The Ruts — e à atuação do RAR, me fez perceber que havia pessoas dispostas a arriscar a própria vida pelo que acreditavam, e que política e antirracismo eram sérios demais para não me envolver.

Como músico, compositor, arranjador e produtor, de que maneira sua prática artística influenciou sua escrita histórica e política?
Tento não ser didático. Acredito que deve haver um elemento de sugestão tanto na música quanto na história. Isso não significa que obras políticas mais diretas não tenham seu lugar — Gil Scott-Heron e Public Enemy são dois exemplos. Mas deixar que as pessoas tirem suas próprias conclusões pode ser mais eficaz do que dizer exatamente o que pensar. Para mim, uma das melhores músicas políticas é “Wake Up Everybody”, de Harold Melvin & the Blue Notes — uma mensagem política simples, aberta à interpretação e muito eficaz.

Você atua também como professor de História Moderna Britânica, Europeia e Americana. De que forma sua formação acadêmica influencia sua abordagem do ativismo e da história cultural?
Meu ponto de partida é sempre a classe trabalhadora. Sou historiador social. Em qualquer lugar do mundo, é a dinâmica entre classes que é fundamental para compreender a sociedade. Esses antagonismos impulsionam as mudanças. Desenvolvimentos políticos não acontecem por acaso ou no vácuo; sempre há razões para mudanças, para o bem ou para o mal. O papel do historiador social é documentar essas transformações com precisão e honestidade, enfatizando a classe trabalhadora, que frequentemente é marginalizada ou ignorada.

Seu fascínio vitalício pelas subculturas é evidente no livro. O que o atrai nelas como objeto de estudo e como você define seu potencial político?
Fui atraído pelas subculturas inicialmente pelas roupas e pela música. Muitas vezes, as únicas coisas que os jovens podem controlar são o que vestem e o que ouvem. Fui punk no final de 1977 e, quando a vitalidade do punk começou a diminuir, passei a integrar o revival mod. A energia e o espírito de rebeldia do punk permanecem comigo até hoje. O potencial político das subculturas é latente; são os acontecimentos históricos que definem como ele se manifesta.

Você divide seu tempo entre Liverpool e Londres. Essas duas cidades representam energias culturais ou políticas diferentes para você?
Hoje moro em Londres, mas Liverpool é diferente como antiga cidade industrial ligada ao comércio transatlântico de escravizados. Ainda assim, a cidade permanece fortemente inclinada à esquerda politicamente. Música e futebol são suas características definidoras. Londres é muito maior e mais visivelmente multicultural. Apesar das diferenças, as semelhanças são maiores.

Olhando para sua trajetória — de ativista e músico a historiador e autor — como você vê a relação entre pesquisa acadêmica e ativismo em sua própria vida?
Para mim, são inseparáveis. Como disse Karl Marx: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras; o que importa é transformá-lo”. Não vejo sentido em análises políticas autocentradas diante de dilemas reais como pobreza, guerra, racismo e sexismo — questões que figuras como Donald Trump exploram politicamente. Precisamos de ativismo e da documentação desse ativismo para conter o crescimento da extrema-direita.

Em breve “Babylon’s Burning” será publicado no Brasil, como você acha que os leitores brasileiros podem se relacionar com as experiências descritas no livro, especialmente considerando a própria história do Brasil de movimentos políticos impulsionados pela música?
A música é universal. Mesmo quando não se entende a língua, a mensagem pode atravessar barreiras. Bob Marley é compreendido no mundo todo. A música pode expressar impotência e também empoderar. Isso foi verdadeiro no Movimento dos Direitos Civis nos EUA nos anos 1960, no Reino Unido nos anos 1970 e no Brasil dos anos 1960 com a Tropicália.

Qual é seu conhecimento ou percepção da cultura musical e política brasileira, e você vê paralelos entre os movimentos musicais antifascistas da Grã-Bretanha e formas de resistência cultural no Brasil?
Adoro e coleciono discos de Bossa Nova, um movimento cultural muitas vezes injustamente criticado, mas fundamental na contribuição do Brasil ao mundo. Como guitarrista, é um estilo desafiador e prazeroso de tocar.

Politicamente, foi positivo ver Jair Bolsonaro perder para Luiz Inácio Lula da Silva. Ele não perdeu por acaso; movimentos sociais e oposição ativa criaram as condições para isso. O mesmo ocorreu em ditaduras anteriores no Brasil e em outros lugares — o fascismo português, por exemplo, não desapareceu sozinho.

Pobreza, racismo histórico, violência contra mulheres, sub-representação feminina e ataques à população LGBT continuam sendo problemas graves no Brasil — assim como no Reino Unido. Nosso papel é articular essas lutas com o antifascismo em uma força coesa por mudança positiva. As diferenças culturais podem variar, mas, no essencial, a luta é a mesma. Podemos aprender uns com os outros.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 



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