Ao vivo: Cypress Hill em Porto Alegre

texto de Homero Pivotto Jr.
fotos de Eitan Miskevich

No documentário “Cypress Hill: Insane in the Brain” (2022), DJ Muggs (um dos fundadores do então trio de rap californiano) conta que, no início da carreira, foi orientado por um figurão da gravadora Def Jam a encontrar um conceito para a banda. O objetivo era se diferenciar dos demais pares da época: Public Enemy (que representava a luta de Malcom X), RUM DMC (da ala gangsta rap) e LL Cool J (o cara do amor), por exemplo.

Foi então que o responsável pelos toca-discos, junto aos comparsas MCs B-Real e Sen Dog, todos já adeptos da erva, resolveram que o mote da banda seria a (legalização da) maconha. Com o tempo, o grupo refinou beats & rimas, explorando também outras possibilidades temáticas, mas a ganja sempre pairou sobre a imagem do conjunto que carrega referências das culturas do hip hop e do rock.

Não à toa, o Cypress Hill é um dos – senão o – pioneiro na abordagem canábica (ao menos no meio rapper). Atualmente, quase 40 anos depois de iniciar as atividades (o começo foi em 1988, com primeiro álbum saindo em 1991), o agora quarteto não se esconde atrás de cortina de fumaça e continua mandando brasa ao vivo.

Foi que se viu no Opinião, em Porto Alegre, na terça-feira (16 de março) — ainda que de maneira mais calculada e menos espontânea do que no show de estreia na capital gaúcha, em 2018, na mesma casa de espetáculos. Durante cerca de 1h45min, o Cypress Hill desfilou hits e escolhas não tão óbvios para o setlist.

O roteiro teve início com DJ Lord (que também comanda as pickups no Public Enemy e tem preenchido o posto de Muggs desde 2019) abrindo o baile. Foram uns 10 minutos de discotecagem e mixagens tendo como base batidões das pistas (como “Tokyo Drift”, de Teriyaki Boyz, trilha de “Velozes e Furiosos”) e hinos do rock (“Enter Sandman”, Metallica). Eric Bobo (ex-Beastie Boys) foi o próximo a entrar em cena – para roubar a atenção com uma performance experiente –, indo direto para a bateria começar a apresentação propriamente dita com “Put Em in the Ground”.

A brisa se espalhou com “Let it Rain”, “When the Shit Goes Down”, “Hand on the Pump” e “Cock the Hammer”. Rolou homenagem aos Beastie Boys com Lord rodando uma mistura de “Sabotage” e “Jimmy James”. Bobo, então, mudou o personagem e assumiu a percussão, na primeira troca de um revezamento realizado em diversos momentos – versatilidade que deu protagonismo ao artista. Na sequência, teve “3 Lil Putos”, “Money”, “A To The K”, “Lick a Shot”, “Stoned” e o que a banda classificou como “Weed Medley” (com trechos de “I Wanna Get High”, “Dr. Greenthumb” e “Hits from the Bong”).

Antes de um duelo entre percussão e turntable, B-Real anunciou a contenda chamando Bobo e Lord de “os melhores do mundo” em suas funções. Foi o momento de os MCs deixarem o palco e dar holofotes à sintonia e desenvoltura dos colegas.

Depois, o Cypress Hill tocou “Illusions”, “Make A Move”, “Throw Your Set”, “Cuban Necktie”, “Latin Thug”, “Tequila Sunrise” e “Low Rider”. A continuidade deu-se com “Lacotes”, a recém-lançada “Wacha Trucha” e “Ain’t Going Out Like That” (com seu instigante sample de “The Wizard”, do Black Sabbath). Chegada a vez de detonar a primeira releitura da noite: “Bombtrack”, composição explosiva do Rage Against the Machine (cujo guitarrista, Tom Morello, integra também o Prophets of Rage ao lado de B-Real). Logo entraram em ação as fan favorites “How I Could Just Kill A Men” e “Insane in the Brain”.

O clima pesou ao som de “Rock Superstar”, um flerte com o rock dos anos 2000. B-Real pediu, então, que todos ao redor se abaixassem para disparar “Jump Around” (originalmente do House of Pain) e fazer a galera pular. A banda saiu para o camarim, e Bobo voltou instigando o público para o bis a cargo do rap de inclinações metálicas “You Can’t Get the Best of Me” como saideira.

No todo, foi uma atuação eficiente que, se comparada com a passagem anterior do Cypress Hill pela cidade, dá impressão de que poderia soar menos burocrática e oferecer mais pressão.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.





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