texto de Elsa Villon
Tudo começa com um chamado de emergência policial no município de Ocala, cidade próxima a Orlando, na Flórida. Acompanhamos o início do documentário “A Vizinha Perfeita” (“The Perfect Neighbor”, 2025), de Geeta Gandbhir, sob a ótica dos policiais que atenderam ao chamado, por meio das câmeras que acompanham os agentes.
As frases são desconexas, está escuro e não há bem uma contextualização, mas sabemos que alguém foi baleado. Assim começa a trama, que sai da elipse do desfecho para contextualizar os acontecimentos.
Susan Lorincz é uma senhora de 60 anos à época, pois trata-se de um caso de 2023, branca, solitária, dona de um gato, residente de uma pequena casa alugada em um bairro majoritariamente habitado por vizinhos negros e muitas crianças. Essas informações são fundamentais para entender a trama.
Como é comum nos Estados Unidos, os bairros residenciais não possuem muros ou portões e, em estados como a Flórida, são recorrentes os grandes gramados em frente às casas que contribuem para um paisagismo repleto de espaços. Também é comum, principalmente em comunidades com muitas crianças, as brincadeiras nesses gramados por toda a extensão de um bloco ou quarteirão. É aqui que a questão de poder e raça começam a se manifestar.
Incomodada com o suposto barulho das crianças, Susan começa a fazer recorrentes denúncias à polícia sobre invasão de propriedade, um ano e meio antes do desfecho do crime, que ocorreu em junho de 2023.
A diretora usa apenas imagens das câmeras policiais para narrar fato a fato, durante toda a duração do documentário. Acionados, os agentes chegam ao local e ouvem as queixas, saindo ao redor para apurar com os vizinhos o que havia acontecido. Conclusão: nada, eram apenas crianças sendo crianças, jogando bola e brincando em um grande gramado vizinho à propriedade de Susan.
As queixas vão se repetindo, até os vizinhos acionarem o proprietário do terreno com gramado, que permite a permanência das crianças. A vizinha perfeita, como se autodenomina Susan ao longo da narrativa, não concorda e segue com as denúncias.
A situação escala: Susan passa a ofender as crianças com termos racistas, filmá-las como coação e chega a ameaçar a integridade física, enquanto segue acionando a polícia. Os vizinhos sempre em defesa dos filhos e da comunidade, alegam que Susan é agressiva e que as queixas não procedem. Nesse meio tempo, a polícia continua sendo acionada, e mesmo com as denúncias de violência dos vizinhos contra Susan, os policiais continuam atendendo aos seus chamados. Até que em um enfrentamento, Susan discute com as crianças, que imediatamente acionam a mãe, Ajika Owens, uma mulher de 35 anos, mãe de quatro filhos, que trabalha fora para sustentá-los.
Na Flórida, a lei de autodefesa, também chamada de “Stay on Ground”, contempla o uso de força letal sob ameaça iminente de um crime violento. AJ Owens é atingida por um tiro de Susan ao bater em sua porta para saber o ocorrido. Aqui, há toda uma narrativa de vitimização proposta por Susan sobre o disparo por medo diante da fúria de uma mulher em sua porta. Entre os vários depoimentos, ela acaba se contradizendo, mas o que comprova o racismo estrutural é todo o desenrolar da história após o disparo.
Embora trate de um crime real, “A Vizinha Perfeita” não pode ser classificado como “true crime”. A experiente documentarista Geeta Gandbhir usa elipses, recursos limitados como as imagens dos policiais e uma narrativa estruturada para abordar o tema de uma maneira única, que foge ao sensacionalismo recorrente ao gênero.
Lançado em 2025 e disponível na Netflix, o documentário venceu o Festival de Sundance de 2025 e concorreu ao Oscar e ao BAFTA. É um excelente recorte para o debate sobre violência institucional e racismo estrutural nos EUA, orquestrado por Gandbhir, renomada diretora, produtora e editora que começou sua carreira trabalhando com Spike Lee e com uma extensa lista de premiações no campo dos documentários em seus 25 anos de carreira.

– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas.


