Entrevista: “Cresci assistindo MTV, vendo a Warped Tour, curtindo bandas como o Green Day”, revela Cory Wong

entrevista de Guilherme Lage

Poucas coisas nessa vida são melhores do que papear sobre música com gente boa. Nos dois quesitos, Cory Wong é um especialista. Um verdadeiro virtuoso, o músico de Minneapolis começou sua trajetória como baixista. A inspiração veio de casa, com o pai, um verdadeiro “nerd de música”, como explica o próprio Cory. Com acesso a uma invejável coleção de discos, onde encontrou uma de suas maiores influências nas quatro cordas, ou melhor foi encontrado por ela. “Você gosta de tocar baixo, então tem que sacar essa banda, Weather Report, o baixista Jaco Pastorius é incrível!”, disse o pai do músico, enquanto Cory encontrava sua própria voz em instrumentos de corda.

Na criação do músico, outra fonte de entretenimento e conhecimento foi fundamental. Como bom millenial, Cory, de 41 anos, passava horas grudado em uma tela para acompanhar a MTV. Por ali conheceu nomes como Green Day e outras bandas de punk rock, por meio da Warped Tour. Foi bem por essa época que decidiu trocar de instrumentos, ir para a guitarra para se aproximar mais do som que aprendeu a amar pela televisão. Dali, no entanto, o músico passou a se aperfeiçoar em outros gêneros, como o soul, o funk e o pop, que aparecem em peso em seu novo disco, “Lost in The Wonder”, lançado em janeiro deste ano.

Para celebrá-lo, Cory vem ao Brasil para duas apresentações na Casa Natura Musical, em São Paulo, no sábado (21) – uma às 19h, outra às 21h30. Em conversa com o Scream & Yell, Cory contou curiosidades sobre a produção do disco, como sua parceria de longa data com Stephen Day, músico que emprestou voz, letra e pitacos na composição da ótima faixa “Tongue Tied”. Mais do que isso, o músico também falou sobre como funciona seu processo de criação, especialmente as diferenças entre trabalhar sozinho e como membro das bandas Fearless Flyers e Vulpeck. A cena de Minneapolis também não ficou de fora, especialmente sua influência declarada pelo filho mais célebre da cidade, o incrível Prince! Confira o papo na íntegra.

Tudo bem, Cory? Estou vendo tantas guitarras atrás de você. Isso me diz que além de tocar, você também é aficionado pelo instrumento, certo? Pode me contar um pouco sobre o seu relacionamento com a guitarra? Como você começou a tocar? Quantos anos você tinha?
Puxa, elas são minha vida (risos), é o que eu faço. Eu tinha 12 anos, na verdade, quando comecei a tocar, (mas) comecei pelo baixo. Esse baixo bem aqui, ele foi o primeiro instrumento que eu tive (nota: exibe o instrumento na chamada de vídeo). Eu adorava tocar baixo, minhas bandas favoritas eram Red Hot Chili Peppers, Jamiroquai, Primus, Green Day, essas bandas com grandes baixistas. Eu amo baixo. Eventualmente mudei para a guitarra.

Cresci assistindo MTV, vendo a Warped Tour, curtindo bandas como o Green Day. Eu era um garoto que adorava andar de skate, adorava andar de snowboard. A música punk era parte dessa cultura, essa música super energética, que te estimulava a se expressar. Então eu me identificava muito com aquilo. Eventualmente comecei a tocar em uma banda de jazz na escola, acabei conhecendo e curtindo mais R&B e funk, e aqui estamos.

Isso é muito interessante, porque você curtia muito punk rock. Então eu queria te perguntar, como foi esse encontro com o soul e o jazz? Porque são estilos tão diversos que, muitas vezes, não estão conectados.
Meu pai é um super fã de música, um completo nerd de música. Ele não é um músico, mas ele é super fascinado por música, então tínhamos uma coleção de discos incrível em casa. Quando ele notou que eu curtia tocar baixo, bandas com grandes baixistas, ele me disse: “Cara, você tem que ouvir essa banda, o Weather Report, o baixista, o Jaco Pastorius, ele é incrível. Eu vi eles um monte de vezes quando era moleque”.

Então o meu pai foi a muitos shows, ele se ligava demais em música, não só na música, mas em músicos mesmo, nas teorias. Ele me apresentou Steely Dan, Earth, Wind & Fire, todo aquele jazz da época da ECM, foi aí que comecei a curtir demais esse tipo de música. Assim que eu comecei a tocar aqui pela cidade – eu cresci em Minneapolis, moro aqui até hoje -, se você começa a tocar na cena daqui, eventualmente vai se encontrar com pessoas lendárias.

Porque tudo aqui meio que leva à ao funk de Minneapolis e à conexão com Prince, então, com essa galera que eu estava tocando, eu era uma das únicas pessoas que não era um membro da banda do Prince na época. Então foi bem por essa época que eu comecei a realmente aprender a tocar esse tipo de música, e me apaixonei por esses géneros.

Ponto muito bom, porque vi que você é um grande fã do Prince, o que é incrível, também adoro o Prince, principalmente um disco como “Around The World In a Day” (1985). Como a música dele te afetou crescendo em Minneapolis? Mais que isso, quais são seus discos favoritos dele?
Cara, só de participar da cena funk de Minneapolis é uma honra enorme pra mim. As pessoas o conhecem mais por ser um guitarrista solo, ele é um guitarrista solo incrível. Mas ele também é inacreditável na guitarra base, o ritmo dele na guitarra é incrível, então isso é uma das coisas que sempre me encantaram na música dele. Obviamente a forma que ele compunha na guitarra solo também é gigante pra mim, a arte dele. E a arte é algo muito maior do que somente pegar uma guitarra e ser ótimo nela.

Então todo o aspecto artístico dele sempre foi muito inspirador pra mim. Eu sempre me atrai mais pelos primeiros trabalhos do Prince, então os meus discos favoritos são o “Controversy” (1981) e o “Dirty Mind” (1980), diria que esses dois. Também gosto muito do “Prince” (1979). Além disso, a trilha sonora que ele fez pro filme do “Batman” (1989), é incrível (risos), ele tem tanto material incrível.

Eu estava ouvindo “Lost In The Wonder”, e é um disco muito legal. Uma música que realmente chamou minha atenção foi “Tongue Tied”, eu gostei muito da sessão rítmica da faixa. Pode me falar um pouquinho da criação do disco e dessa música em particular?
Muito obrigado! O álbum tem muitos colaboradores em todas as faixas. O processo foi muito diferente. Com colaboradores eu geralmente gravo um monte de demos e mando para as pessoas e digo “ei, estou trabalhando nessas músicas, tem algo que te chamou mais a atenção?”.

De vez em quando as pessoas vão dizer “sim, sim…essa aqui eu gostei muito, vamos trabalhar nessa música”. E tem vezes que já começamos a trabalhar direto. Vamos mandando coisas um pro outro ou nos juntamos num estúdio, em alguns casos nós só nos sentamos em algum lugar e as coisas acontecem.

A faixa título mesmo, “Lost In The Wonder”, nós só entramos no estúdio e gravamos tudo, naquele dia mesmo. “Tongue Tied” é uma em que eu estava trabalhando. Nesse álbum eu estava compondo e trabalhando junto com um monte de gente, comecei a trabalhar nessa faixa e gravei toda a sessão rítmica dela, já tendo uma ideia para onde eu queria ir com a música.

Então eu mandei a música para o meu amigo Stephen Day, que canta nela. Eu mandei para ele e disse: “ei, essa é uma música na qual estou trabalhando com uns amigos, você pode melhorá-la? Você pode fazer algo nela? Ouve algo nessa música?”

E ele disse: “Estou ouvindo algo sim, mas gostaria de mudá-la”. Então acabamos mudando a música totalmente, mudando a afinação, a forma da música, fizemos um monte de coisas. Ele tinha um conceito para a letra e então ficamos conversando sobre a melodia e as ideias para a letra, então fizemos muitos arranjos vocais para a faixa e levamos para uma direção bem diferente da ideia original.

Então eu meio que escrevi uma música, trouxe o Stephen e ele meio que reescreveu, mudou o tom dela. Nós produzimos a faixa inteira juntos, foi muito divertido, porque o Stephen é um artista e compositor muito criativo, um cantor incrível. Eu, inclusive, fiz um “making of” da música, coloquei no Youtube para as pessoas assistirem (assista abaixo). Essa música em particular foi divertida, porque foi algo meio, ele disse: “você está aberto para algumas ideias?” E eu disse: “claro!”

E essa é a coisa mais divertida sobre colaborações, porque eu quero trabalhar com pessoas com visão artística que eu respeito, e o Stephen é uma pessoa que sempre esteve no top 5 do meu Spotify, eu amo a música dele e ele é um grande amigo. Então a coisa foi muito de: eu confio em você, gosto muito do que você faz, vamos levar a música para onde você quer levá-la. E esse tipo de coisa envolve muita confiança um no outro e muito respeito na visão artística da pessoa.

Queria te perguntar, como é trabalhar como um artista solo e também trabalhar com o Fearless Flyers? Como funciona seu processo mental? Do tipo “ok, vou escrever um álbum solo e depois vou tocar com uma banda, como membro da banda”? Como você se conecta com as duas coisas? Principalmente para preencher esses dois papeis com concentração igual.
É uma ótima pergunta! Eu curto muito os dois papeis que ocupo, porque basicamente eu tenho três bandas que toco. Meu projeto solo, Fearless Flyers e Vulfpeck. No meu projeto solo é a minha visão artística, tem produções maiores. Quando toco ao vivo tenho uma estrutura diferente, é a minha composição, meus arranjos, e produção, e claro, meu estilo de tocar guitarra.

Mas nesse projeto eu não estou preso à instrumentação o tempo todo, porque quando faço meus álbuns eu posso fazer qualquer coisa e meio que só sigo minha própria visão artística. O que eu sinto de forma criativa, ou o que me inspira, isso tudo acaba rolando. O que parece divertido e legal pra mim, eu simplesmente faço e confio nos meus instintos.

Com o Fearless Flyers é um desafio diferente e também é divertido, porque são quatro pessoas juntas, somos só nós quatro, quando gravamos e quando tocamos. Então muitas vezes eu componho muitas coisas específicas para esse projeto, e quando eu faço, já há aquele pensamento de “não vamos utilizar metais ou sintetizadores e várias camadas de guitarra e percussão no estúdio”.

O foco é o que conseguimos fazer, só nós quatro, em um estúdio. E essa é uma coisa muito divertida de se fazer, arranjar para aquilo, compor para aquilo. E também, quando se leva em consideração uma visão artística, é ter em mente que há esses três outros membros na banda que são artistas incríveis e quero que nós quatro apareçamos de maneira igual.

Então eu meio que assumo o papel de líder da banda e produtor daquele projeto também, mas é algo que qualquer um de nós quatro pode ser, ser o líder da banda. É muito divertido, porque podemos fazer aparecer todas as nossas vozes artísticas diferentes e fazer algo juntos, criar algo juntos, o que é muito legal.

E com o Vulfpeck, que começou no canal do Youtube do Jack Stratton e se transformou em uma banda, eu cumpro meu papel na banda. É muito legal, porque como membros da banda, estamos contribuindo. É uma visão artística diferente e é uma banda que tem cantores incríveis, então é um papel muito divertido de cumprir. Eu recebo muitas oportunidades de ser criativo, porque tenho essas pessoas ao meu lado.

Eu estava assistindo a alguns vídeos de você tocando e, me corrija se estiver errado, mas o jeito que você arranja os acordes, a posição da sua mão, me dava uma vibe meio Hendrix, principalmente do jeito que você posicionava os dedos. Estou viajando ou ele foi uma influência pra você?
Que massa você ter notado isso! (risos). Assim, a influência do Hendrix é meio que unânime no mundo da guitarra, porque se eu não fosse inspirado pelo Hendrix, as três pessoas que me inspiram seriam inspiradas por ele, sabe?

Acho que todos nós somos inspirados por ele, mas acho que algumas coisas simplesmente transparecem na guitarra, de jeitos que são naturais. Alguns de nós, nas nossas formas de tocar, no jeito que posicionamos as mãos, ou acordes que usamos, se guiam a um jeito de tocar. Mas sim, todos nós, à essa altura, somos influenciados pelo Hendrix, querendo ou não (rirsos). Ele é incrível! Eu absolutamente amo o jeito que ele tocava.

E você também tocou no Jimmy Kimmel Live e no Stephen Colbert, certo?
Sim, foi um muito legal. Fiz o Jimmy Kimmel Live, Stephen Colberto, também toquei no CBS Saturday Morning Show, fazendo toda a tour de imprensa com esse álbum. É um disco com o qual as pessoas estão muito empolgadas, eu estou muito feliz que as pessoas estão se conectando com ele.

Essa é uma coisa que queria te perguntar, porque quando vemos um programa de TV, a apresentação de uma banda ou artista, pensamos que eles estão lá só para aquilo. Que eles vão para lá, tocam a música e vão embora. Mas não é bem assim, certo? Vocês passam quase todo dia no estúdio, né?
É bem isso! Mas depende do que você está fazendo. Algumas vezes são diferentes. Por exemplo, no Jimmy Kimmel, eu era o líder convidado da banda do programa. Então estávamos tocando as músicas da casa e a minha música.

Então chegamos de manhã, quase tarde, na verdade, perto do meio dia. Aí ensaiamos, passamos todas as músicas, conversamos sobre como vamos apresentá-las no programa, aí meio que ficamos juntos por um tempo, batendo papo, e o programa começa a ser filmado às 17h.

E então chegamos lá um pouco antes, aquecemos a plateia, tocamos umas músicas, ouvimos pedidos da plateia. Tem também um locutor, um MC que passa para a plateia todo o processo de como as coisas funcionam. Aí eles começam a gravar e aí temos que fazer nosso lance, e olha, você tem que estar afiado, precisa acertar todas as músicas no tempo em que dão para tocar. Porque não é ao vivo, ao vivo mesmo, por assim dizer, mas você só tem uma chance pra acertar tudo.

O que acontece é que você grava ao vivo e o programa é transmitido algumas horas depois, sabe? Então você fica lá por bastante tempo do dia, mas o programa leva mais ou menos uma hora para gravar. Aí acabou, é muito divertido, pra falar a verdade.

Mas quando você é uma banda convidada, que vai tocar só uma música, geralmente chegamos no fim da tarde, fazemos a passagem de som, passamos a música, vemos como vai rolar a posição da câmera e quando é hora de tocar, mandamos ver. A camaradagem nesses programas é muito legal também, porque você conhece a equipe, a banda do programa, vê como tudo acontece nos bastidores. É muito legal!

E você está vindo ao Brasil por meio de uma campanha do “Queremos!”, então as pessoas realmente queriam muito que você viesse. Como é pra você, sendo um artista norte-americano, que tem esse público imenso no Brasil?
É incrível! Eu me sinto honrado só de poder ter a oportunidade de ir até aí para visitar, melhor ainda pra tocar meu próprio show. Há uma história tão rica de cultura e de música no Brasil, tantos compositores incríveis e icônicos, de todos os estilos de música: bossa, samba, MPB e tantos outros gêneros.

As pessoas pediram muito para eu ir e estou muito empolgado, porque vou fazer um show a tarde e outro a noite. E é assim porque eu faço shows diferentes, então as pessoas podem ir aos dois shows.

É difícil ir até aí, então vai ser a única vez que vou poder viajar até o Brasil por um bom tempo, então ter a oportunidade de fazer dois shows diferentes, para as pessoas poderem ir aos dois, tocar um monte de músicas diferentes, vai ser incrível. Eu estou muito empolgado, vai ser uma verdadeira honra estar aí.

Há muitos artistas brasileiros que você curte bastante?
Quando estava na faculdade eu tinha amigos que eram do Brasil que me ensinaram muito sobre vários artistas brasileiros. Eu toquei numa banda em que eu era a única pessoa que não era do Brasil, então eles me ensinaram o jeito certo de tocar um violão com cordas de nylon com os dedos.

Tipo, eu sabia os acordes, conhecia os ritmos, mas tocar com o feeling certo, acertar mesmo o “sotaque” da música, foi algo desafiador e muito divertido. Eu toquei bastante tempo com aquela galera.

E claro, um artista enorme no nosso mundo é o (Tom) Jobim, ele é incrível. O Djavan, o Jorge Ben. Há também vários outros artistas de MPB que eu aprendi muito tocando, tirei várias músicas pra tocar nessa banda que te contei. O Brasil tem músicos incríveis.

– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!





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