entrevista de Fabio Machado
Após alguns minutos de conversa com a brasileira Bianca Gismonti e o português Manuel de Oliveira, é notável a conexão que o duo apresenta para além da música. Durante entrevista realizada por chamada de vídeo ao Scream & Yell, ambos estavam tranquilos e sintonizados em suas respostas, de forma que a relação – criada ainda antes da pandemia após Manuel descobrir o trabalho de Bianca nas redes sociais – parece ser até mais antiga, dada a intimidade e similaridade no pensamento. “Vi a Bianca tocar e eu fiquei fascinado porque, independentemente da Bianca ter o seu gênero musical, está obviamente impregnado da linha gismontiana, ela tem uma identidade muito própria com a qual eu me identifiquei muito”, revela Manuel.
De fato, a história de ambos tem pontos semelhantes, ainda que separados por um oceano de distância. A pianista Bianca tem uma relação com música que vem do berço trazida principalmente pelo pai, o instrumentista e compositor Egberto Gismonti. “Música é uma linguagem na minha família. Ela não é ‘vamos parar…’, é tudo. […] Minha mãe era atriz, mas era muito influenciada por música.” Por sua vez, Manuel também teve o pai como referência para descobrir seus próprios caminhos musicais através do violão: “Eu como autodidata, que aprendi também com o meu pai, o meu pai era exatamente isso. O meu pai sempre procurava os pontos de contato, de diálogo, entre as culturas”.
O resultado é uma linguagem compartilhada não só no idioma, mas também nas notas e arranjos criados de forma espontânea pelo duo. E o Brasil tem a oportunidade de testemunhar essa conversa musical durante o mês de março, quando Manuel e Bianca fazem uma série de apresentações pelo país nos dias 11/03 (Espaço Laranjal – Blumenau/SC), 12/03 (Delfino – Belo Horizonte/MG), 14/03 (Teatro Vermelhos – Ilhabela/SP), 17/03 (Espaço 373 – Porto Alegre/RS), 19/03 (Teatro Rival – Rio de Janeiro/RJ), 21/03 (Clube de jazz do café – Belo Horizonte/MG), 26/03 (Soberano Itaipava – Rio de Janeiro/RJ) e 31/03 (Blue Note – São Paulo/SP).
“É muito surpreendente mesmo como a gente consegue ter identificações com pessoas que você, enfim, não conhecia, mas existem históricos de alguma maneira similares, existem percursos que vão sendo trilhados paralelamente e quando esse encontro se dá, toda essa história prévia, ela se manifesta”, reflete Bianca. Para ela, há uma “mágica” no formato do duo, onde a simplicidade e a complexidade se encontram revelando novos caminhos na improvisação. A entrevista pode ser conferida na íntegra a seguir.
SCREAM & YELL: Bom, acho que o foco principal vai ser falar dessa série de apresentações que vocês vão fazer aqui no Brasil, claro. Mas eu queria saber primeiro como os caminhos de vocês se cruzaram e de quem foi a ideia de fazer essa parceria.
Manuel: Então, acho que posso começar eu, não é, Bianca?
Bianca: Sim.
Manuel: Enfim, Egberto Gismonti é uma grande referência para mim, e houve um dia que passando, penso que foi no Facebook, encontrei (a Bianca), e eu não sabia sequer que Egberto tinha uma filha que tocava, e vi a Bianca tocar e fiquei fascinado porque, independentemente dela ter o seu gênero musical, está obviamente impregnado da linha gismontiana, ela tem uma identidade muito própria com a qual eu me identifiquei muito.
Criei coragem de escrever à Bianca, ainda antes da pandemia, para lhe apresentar o meu trabalho, e a gente conversou, mas depois, enfim, veio uma pandemia que adiou essa possibilidade de a gente poder fazer alguma coisa em conjunto. E no ano passado, a propósito de um convite que me fizeram para estar num festival em Belém do Pará, eu voltei ao contato com a Bianca e assim surgiu esse primeiro encontro, essa estreia.
Bianca: Manuel entrou em contato comigo nessa época, como ele falou, e eu me lembro que eu pedi, ou ele enviou, não sei, gravações de composições e eu venho de uma linhagem de compositores, então a composição é uma coisa que sempre me chama, eu lembro claramente da coisa que ele sempre fala, da influência dele também com o Paco de Lucia, que sempre foi uma referência também para mim, então na época já foi surpreendente, mas o interessante, quando ele me escreveu no final do ano passado, é que u não me recordava (da nossa conversa pré-pandemia), porque tinham sido, sei lá, cinco anos antes.
E assim, dessas coisas da vida, eu aceitei o convite e aí depois eu fui escutar novamente. Claro que tive uma identificação total, mas é muito bonito como os caminhos musicais (se cruzam), eu sempre fico surpresa com isso, sabe, Fabio? A vida toda vinculada com música, minha família, mas é muito surpreendente mesmo como a gente consegue ter identificações com pessoas que você, enfim, não conhecia, mas existem históricos de alguma maneira similares, existem percursos que vão sendo trilhados paralelamente e quando esse encontro se dá, toda essa história prévia, ela se manifesta.
Então com o Manuel foi muito isso que aconteceu. E eu também venho de um histórico de encontros, de parcerias, então mais uma vez é uma coisa que me surpreende nesse sentido e esse formato de duo é uma coisa que eu amo, há 24 anos que toco com uma pianista, Cláudia Castelo Branco, com o duo GisBranco e acho que a coisa do duo tem essa mágica, de uma coisa muito crua, simples, mas ao mesmo tempo profunda e complexa. E é o que vem acontecendo com o Manuel desde então.
Vi que vocês lançaram recentemente no YouTube o vídeo de “Primavera”, que foi gravado na casinha do Núcleo. Como foi a experiência dessa gravação e se tem outras desse tipo aí que vocês ainda pretendem lançar.
Manuel: Vai, Bianca, vai.
Bianca: Além desse encontro musical, nós somos dois super empreendedores. Então a gente fez esse encontro em Belém e aí o Manuel ia ficar um tempo no Brasil ainda, de férias, e a gente inventou um outro show, porque tinhámos que tocar de novo, aproveitar que ele estava no Brasil. E aí a gente procurou alguns lugares e a casinha do Núcleo, que é coordenada pelo Benjamin Taubin, que é um grande pianista brasileiro, paulista, foi a ocasião que resultou.
E nessa oportunidade, comentei com o Manuel e falei: “Vamos aproveitar, porque, claro, temos um Atlântico no meio dos dois países, que hoje em dia é muito fácil de aproximar, mas não é diariamente”. Então, como os dois estavam muito entusiasmados com o encontro, com o resultado disso, pensei da gente aproveitar essa oportunidade para filmar. O Manuel também tem uma produtora, mexe com áudio, mixagem, tudo, então a gente resolveu gravar o áudio e o vídeo. E por eu ter tido já experiência com a equipe da Pavirada, que é da Dani Gurgel, que é uma super musicista, cantora, compositora incrível, mas é tudo, trabalha com vídeo, foto, é uma super fotógrafa. E aí eu tive a ideia de a gente gravar à tarde e à noite. Então a gente tem sim o material de oito músicas, na verdade, que a gente está lançando a cada semana.
E eu acho que a gente também vai lançar o disco. A gente não esperava, mas é uma sonoridade absolutamente natural, espontânea, e a Casinha do Núcleo é um espaço muito aconchegante, pequeno, que as pessoas ficam meio misturadas com os músicos. “A Primavera” é uma composição do Manuel que eu fiquei completamente apaixonada. Depois fui ver que ele me falou, que fez também, inspirada na música do meu pai. E a gente tem outras sete para virem por aí.
Manuel: A “Primavera” é uma música que eu compus já tenho uns anos, sei lá, em 2002, uma coisa assim. Eu lembro-me que foi uma fase que eu tinha descoberto Egberto, então eu estava ouvindo muito, e naturalmente, eu como autodidata sou totalmente influenciado por essa coisa de ouvir música. Então ela entra naturalmente naquilo que eu estou procurando no violão.
E quando comecei a fazer o tema, eu percebiuma influência clara (de Egberto). E toca-la com a Bianca foi uma coisa… Aliás, todos os temas. A gente começou os ensaios e basicamente nós começamos a tocar e fizemos o show todo. Fomos vendo um pormenor aqui ou ali. Mas é assim, são escolas muito diferentes, são influências diferentes, mas têm toda uma identidade partilhada que foi muito fácil de juntar.
E, na verdade, sentir mesmo uma coisa fascinante e que realmente me impulsiona e me entusiasma muito neste trabalho com a Bianca é essa sensação de que… E nós ainda estamos neste âmbito de composições de cada um, estamos trabalhando já num futuro de fazer composições em conjunto, mas ainda neste âmbito de tocar as minhas composições com a Bianca dá uma sensação de completude. Parecia que não faltava nada, mas de repente a Bianca entra ali e diz assim, claro, faz todo sentido. Então é muito bom.
Então eu imagino que parte do repertório nessas apresentações de agora vai ser em torno dessas músicas novas feitas em parceria, certo? Mas uma parte desse repertório é fruto da improvisação ali no momento ou vocês têm uma visão mais específica do que vai entrar no setlist, do arranjo que vai ser, o que é criado ali no momento, na hora que vocês entram no palco, e o que vocês definem com antecedência na hora de tocar.
Bianca: Então, na verdade, as parcerias em conjunto a gente ainda não fez, mas existem composições novas nessa leva agora de shows que a gente vai fazer, tanto que eu compus a partir desse encontro mesmo com o Manuel, como ele comentou, que a vivência e as músicas vão influenciando. Eu acho que todo compositor e criador tem isso. As experiências vão estimulando.
Então tem composições novas, mas como ele estava comentando, quando a gente toca junto, e aí já linkando com a sua pergunta, é sempre muito aberto, na realidade, a criação do outro. Então acho que tem uma disponibilidade, um espaço que se abre. As composições estão feitas, mas obviamente elas podem ter a forma que for. E eu acho que também quando se tem encontros, isso serve para amizade, para trabalho, para qualquer coisa. Quando a gente tem confluência no diálogo, você, na verdade, não se preocupa em desenhar o percurso. Então acho que isso acontece muito com o Manuel.
Naturalmente, é óbvio que você tem uma estrutura de composição, mas não apenas existem sessões de improvisação, propriamente dita, como eu acho que ela está em constante abertura. E é uma coisa até que a gente salienta muito o Manuel, de deixar sempre esse frescor, porque é interessante, porque essa abertura da criação momentânea, ela traz a presença do próprio instrumentista. Então não é nem só uma questão do ouvinte, a gente também se sente vivo, porque a gente vai sendo surpreendido.
Então eu acho que é uma mistura disso, de uma base de composições ou de arranjos também, músicas do meu pai, tem o Zeca Afonso também, um grande compositor português, etc. Mas sempre com essa abertura de experimentação, eu diria. E tem improvisação sim, mas eu acho que é uma abertura de experimentação, da gente ouvindo e surpreendendo. Como comentei, a gente escuta esse material gravado e fica assim: “gente, que frescor”, entendeu? Porque a coisa vai surpreendendo mesmo.
Vocês já falaram aí duas referências, mas eu queria saber outras mais específicas – acho que a pergunta cabe para os dois, mas de forma invertida. Referências da Bianca em relação à música portuguesa, de que maneira pode ter impactado você durante a sua vida, e para o Manuel, de que maneira a música brasileira impactou ao longo da sua trajetória. A gente já falou do Egberto, que obviamente está na vida de vocês dois, mas se vocês quiserem falar de outros nomes, outros artistas.
Manuel: Então, a música brasileira entra na minha vida muito cedo, sendo que eu fui muito influenciado, um grande percurso da minha vida, pelo flamenco, pela música ibérica, uma vertente mais rítmica. E para mim, escutar a música brasileira era sempre uma coisa um pouco à distância, porque eu não me atrevia a entrar numa musicalidade tão melódica e tão harmônica, pelo menos como músico. Mas eu tenho uma relação com o Brasil já muito antiga, um dos meus primeiros concertos com plateia, eu tinha 18 anos, foi em Niterói, e essa relação que o Brasil tem com a sua própria música e os artistas, e a criação artística, para mim é absolutamente única e é fascinante, de fato.
E principalmente nos últimos anos, tenho me atrevido um pouco mais, ainda agora mesmo, com a Bianca, é como voltar para a escola, tocando música dela e música de Egberto também, músicas que eu não me teria atrevido antes a experimentar, e é um processo extremamente estimulante. Grandes referências do Baden Powell, do Egberto Gismonti, o Tom Jobim, Hermeto, enfim, tantos. É muito difícil de eleger porque é realmente uma força da natureza a música, quer dos artistas, quer do povo brasileiro, do quanto amam a música e o papel que a música desempenha nas suas vidas, é uma coisa que é absolutamente fascinante.
Bianca: Manuel estava falando dessa coisa do concerto em Niterói, com 18 anos, e eu estava lembrando, Fabio, que comecei a tocar com meu pai muito nova, com 15 anos, eu e meu irmão – ele é violonista – já viajavamos para todos os lugares. Tenho uma brincadeira que com 15 meus irmãos já falavam assim: “Eu quero ir para casa, não quero fazer turnê!”, de tanto que a gente viajava, mas a gente ia muito para Portugal tocar, meu pai sempre tocou muito lá. Eu acho até que mais antigamente. E como ele sempre também foi uma pessoa de parcerias, eu acompanhava muito parcerias dele com músicos portugueses, então sempre recebi essa influência, tanto quanto referências dele.
Mas eu me lembro que o meu primeiro impacto, o meu e de 99,9% dos brasileiros, foi o Madredeus. Eu escutava o dia inteiro, era completamente viciada naquilo, e eu nem tinha conhecimento se aquilo era fado ou não era fado, se era isso ou se era aquilo, assim, eu escutava como eu escutava centenas de outros discos que sempre foram disponibilizados, e durante muitos anos eu fiquei muito viciada nisso.
Estou falando dos grandes impactos; o meu segundo grande impacto, que mudou radicalmente a minha vida, é o Mário Laginha e a Maria João, que é o pianista com a cantora, que eu fiquei completamente, sabe, caí no abismo, porque primeiramente, na verdade, eu escutei quando não tinha essa coisa ainda de você botar e procurar na internet, eu escutei uma gravação de uma cantora com uma voz muito inusitada, que eu fiquei, “quem é essa pessoa que está cantando?” Só que eu ouvia aquele piano e tinha músicos brasileiros, eu sabia, “ah, tem uns músicos brasileiros tocando”, mas eu falei, “não, esse pianista não é brasileiro, porque tem uma coisa também nisso, assim, a gente”…
É da linguagem, né? Da maneira como o músico toca.
Bianca: E você não reconhece, entendeu? Eu ficava, “isso que parece com isso aqui, mas não é…” E aí eu fiquei, Fabio, completamente enlouquecida que eu tinha que descobrir quem era aquele pianista, entendeu? Eu entrei numa e eu não sabia que gravação era aquela, só que tinha uma das faixas que tinha participação do Lenine, então eu fui procurar, e descobri, que é um disco lindo chamado “Chorinho Feliz” da Maria João com o Mário, e tem muitos músicos brasileiros e composições dos dois. Foi um turning point total, que é essa coisa que também tem muito na vida do Manuel, que é essa coisa da influência da música africana, entendeu? Que os dois, a Maria João e o Mario também tem
Então foram, são dois faróis, mas tem Zeca Afonso que eu fui conhecer absurdamente só agora, através do Manuel. E parcerias dos próprios músicos brasileiros, com compositores e criadores portugueses, isso sempre. Mas eu acho que tem sempre essa oportunidade, e é interessante, porque o Brasil, ele é meio, é maravilhoso, porque é muito amplo, mas a gente fica meio tipo ali, porque é miscigenado e tem tudo aqui, então a gente fica meio satisfeito nas influências aqui do Brasil.
E tem uma coisa interessante, o Manuel estava falando, não me atrevi a tocar, e eu acho que eu tenho uma coisa, como tiveram muitas influências, eu nem sei direito, entendeu? O que eu toco, se é música brasileira, se não é, se é africana, se é cubana, se é nada, se é lírico, se é erudito. Então, no fundo, é isso, sei lá, chega uma música do Manu ou chega do Zeca Afonso e eu vou tocar a forma que eu tocaria, qualquer outra, se fosse nigeriana ou se fosse, no fundo, o que eu sei fazer, o que eu sei fazer. Não adianta forjar algo que não existe em mim. Então é muito bonito, porque as parcerias também possibilitam que a gente vá, de alguma maneira… eu estou roubando influências portuguesas através do Manuel, sem saber o que são, entendeu? Então tem um pouco essa mescla.
É interessante você ter falado nisso, que você não pensa exatamente em qual forma, em qual estilo você está tocando, e imagino que deve ser também fruto da sua criação, como você falou, de música desde cedo. E eu me lembrei que um dos discos que a minha namorada comprou recentemente foi o “Em Família”, do Egberto Gismonti. Acho que é o seu irmão na capa ainda, bebezinho e tudo mais. Acho que o que fica ali daquela imagem é que aquela família vive música desde o berço, literalmente. Imagino que para você deva ter sido dessa forma, desde o começo você tendo essa referência musical, como linguagem mesmo.
Bianca: É, totalmente. Porque, na verdade, eu brinco, música é uma linguagem na minha família. Ela não é “vamos parar…”, é tudo. Eu já comentei isso com o Manuel, meu pai afinando o violão e eu e meu irmão chorando. Minha mãe era atriz, mas era muito influenciada por música. A gente desde criança, que eu também costumo comentar, a música da infância era a “Sagração da Primavera” (de Igor Stravinsky). A dissonância, a consonância, o folclore. Meu pai sempre foi muito ligado a pajés. A gente é muito ligado também à música folclórica, ao mesmo tempo a músicas super complexas.
Minha mãe sempre teve ligação com música popular. Então nunca teve, nunca foi me dito “esta fronteira você não pode passar” ou “existe uma linha que divide”, entendeu? Meu pai é um eterno lutador e ele é uma pessoa crente da miscigenação mesmo. Então tem uma coisa da escola do Mario de Andrade. A gente foi catequizado nessa vertente de não se ver mesmo de extinção. Reconhecer, obviamente, as características, porém sem uma distinção de gênero, de estilo e, na verdade, transitar na medida do que você tem.
Cada ingrediente que você vai tendo no seu cardápio você vai utilizando no que você… E sai, como o Manuel estava falando, ainda mais quando você tem parcerias, encontros, nas quais você tem essa liberdade, aquilo se manifesta. E é bonito quando se há esse espaço para sair porque você descobre e vai, como eu estou te dizendo, aprendendo, ele está falando, voltar à escola. Isso é a melhor forma, enquanto a gente está aprendendo, a gente está bem. Então acho que as parcerias que permitem que a gente tenha essa abertura de aprendizado, evolução e aprofundamento que é incrível. Mas sim, essa coisa de… E a composição também, na minha casa sempre teve a coisa de criar, então… Tudo vira a criação de alguma coisa.
Manuel: É muito interessante estares a falar sobre essa questão do teu pai e da miscigenação porque isso é uma ideologia também. E eu lembro-me que muito recentemente, numa reflexão que me pediram para fazer no âmbito do Festival MIMO, sobre a guitarra ibérica, sobre o meu percurso, e eu como autodidata, que aprendi também com o meu pai, o meu pai era exatamente isso. O meu pai sempre procurava os pontos de contato, de diálogo, entre as culturas.
Dizia assim, “olha, Manoel, olha aqui o flamenco, é como o fado, é como o tango, é como o blues”. Então essa coisa de explorar territórios, diálogos e comunidades, isso é uma coisa muito presente nessa forma, uma maneira de estar na criação (pausa) irada, não é? (risos)
Muito legal como a criação, as pessoas que envolvem a gente na família e tudo mais, vão moldando a gente nessas referências também. Por mais que a gente aprenda a parte técnica e tudo mais, vocês têm essas referências familiares que também meio que moldaram vocês a chegarem até onde vocês estão.
Bianca: E tem uma coisa bonita, Fabio, que assim – estou falando da minha sensação, e obviamente você pode começar sem ter tido ninguém da família que você conheça, mas a minha sensação é que é uma árvore mesmo. Existe uma raiz e você vai seguindo. Então parece que aquela coisa, e claro que a gente está sempre construindo também para os ouvintes ou para as pessoas que se inspiram nisso, mas é bonito porque cria uma profundidade e ao mesmo tempo um sentido desse desenho da vida, esse arco da vida, que no fundo cada um à sua maneira tem.
Pode ser através da escuta, não necessariamente a de um pai ou de uma mãe, de um tio, mas cada um tem a sua história. Eu brinco, eu dou aula de piano há muitos anos e eu falo para os alunos que, para mim, o importante é o seguinte: o que não pode se perder é aquele vínculo com a música. Não interessa, na verdade, qual é o seu percurso com o instrumento. Porque alguma coisa te levou, todo mundo é acometido pela escuta musical de alguma forma, então eu acho que tem esse viés mesmo que você está falando, que é muito bonito.
A gente está chegando no tempo da entrevista, mas eu tenho uma pergunta aqui para encerrar que tem a ver com um tema mais moderno, mas acho que seria interessante. A música de vocês, o trabalho de vocês, eu vejo que é muito focado na escuta, no improviso, na criação do momento, mas principalmente uma coisa muito orgânica. E existe uma discussão cada vez maior sobre música e outros conteúdos gerados por inteligência artificial nesses tempos atuais. Como vocês enxergam o trabalho que vocês fazem, que é algo que vai totalmente no lado oposto dessas tecnologias, em meio desse cenário que muitas vezes traz preocupação para o artista, traz incerteza?
Manuel: Então, como disseste, e eu concordo totalmente com essa questão da organicidade que existe aqui entre no trabalho que desempenho e que estamos a fazer juntos, é essa vivência mesmo. Para mim, em qualquer projeto, mas acho que é uma maneira de estar, o que eu encontrei assim, de muito estruturado em mim, que é na música, eu estou na vivência. Antes, até mesmo, é claro que se eu vou ao encontro da Bianca Gismonti, é porque há uma questão, há uma identificação.
Mas essa identificação no contato com a música, acima de tudo, está na vivência. Nessa vivência de estar a tocar e de estar a fazer aquilo que é, aquele vínculo que estava a Bianca ainda há pouco falando, que é essa coisa que é para mim também uma âncora, porque somos músicos profissionais e empreendedores e há toda uma panóplia de preocupações em torno disso, mas há uma coisa que tem que estar sempre presente e é esse vínculo. Eu acredito que é nessa vivência que esse meu vínculo também se amplia.
No que diz respeito à Inteligência Artificial e nessa discussão, a mim não me assusta, eu acho que a Inteligência Artificial é uma ferramenta útil sob o ponto de vista artístico. Eu também sempre fui muito tecnológico e gosto de brincar com essas coisas, portanto, para mim inclusive tenho gostado de desenvolver um projeto com um amigo que faz imagem com Inteligência Artificial, que é exatamente trabalhar com imagem pré-produzida em Inteligência Artificial e ao vivo provocar ela com improvisação em tempo real. A gente brinca que lhe chama arte animal. Mas é isso, preocupação zero. A não ser, claro, sob os pontos de vista jurídicos e legais no que diz respeito à propriedade intelectual, claro.
Bianca: Então, toda novidade assusta, né? Eu acho que todo movimento, em qualquer instância, que seja diferente de uma norma, a gente tem, a tendência humana é ter rechaço. Acho que é natural que se tenha muito medo porque a gente desconhece. Eu, pessoalmente, não tenho ainda vínculo e prática para te falar sobre uma experiência pessoal. Eu sei de aplicativos e diversas formas de utilização. É muito interessante que pessoas têm me inscrito porque sabem que eu tenho muito essa coisa orgânica. “Você poderia usar? Eu sei que você faz arranjos, mas poderia usar?” E eu acho que é isso.
As ferramentas estão aí, elas vão ser usadas. E é muito maravilhoso, eu acho, entendendo que a tecnologia em todos os âmbitos, ela vai avançando para que a gente possa experimentar. E é natural, também, que uma novidade gere ao exagero. Então, assim, a gente utiliza muito aquilo. Talvez, num outro momento, pode utilizar menos. Mas eu acho que é isso.
A gente analisa as tecnologias anteriores hoje como naturais, mas elas foram fenomenais e acreditava-se que era impossível, que não podia se seguir. Eu acho que o mundo sempre se adapta. Então, eu acho muito maravilhoso, na realidade, todo o caminho de novidade e de experimentação. Mas eu, pessoalmente, ainda não tenho uma utilização para te dar esse relato. Numa futura entrevista, quem sabe? Mas eu vejo com bons olhos.
Manuel: Perfeito. Realmente, a preocupação que eu tenho, maior, tem a ver, realmente, com a questão da utilização dessas tecnologias, sempre pelo poder, que é um poder financeiro e não sei o que mais. Assim como é utilizado o streaming, assim como são utilizadas tecnologias onde a divisão de receita com os artistas não é justa. E isso é, de facto, uma preocupação. Agora, sob o ponto de vista criativo, a inteligência artificial sem a nossa criatividade não é nada.
– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.


