Sophia Chablau: “A gente devia ter um debate mais aprofundado sobre os caminhos da música”

entrevista de Alexandre Lopes

Na estrada desde 2019, Sophia Chablau mantém, aos 26 anos, uma das trajetórias mais inquietas da cena independente brasileira recente. Com a Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo – ao lado de Theo Ceccato, Vicente Tassara e Téo Serson – lançou dois discos importantes do rock brasileiro nesta década: o homônimo “Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo” (2021), produzido por Ana Frango Elétrico, e “Música do Esquecimento” (2023), com produção de Vitor Araújo. Já com a Besouro Mulher, banda que integra desde antes de criar seu projeto mais conhecido, lançou o EP “Depois do Carnaval” (2019) e o álbum “Volto Amanhã” (2023).

Com a Uma Enorme Perda de Tempo, Sophia passou por palcos como Lollapalooza Brasil, Primavera Sound São Paulo, Coala Festival, Se Rasgum, Casarão e até o Primavera Sound Barcelona. A presença em grandes festivais marca a inserção dessa estética num circuito global onde “ser independente” já não significa isolamento, mas negociação constante com o mercado. Sophia parece ciente desse paradoxo: questiona a lógica neoliberal da indústria musical ao mesmo tempo em que constrói, de forma pragmática, uma carreira sustentável. Entre ironia, vulnerabilidade e experimentações, o quarteto consolidou um nome que procura evitar uma zona de conforto.

Mas se a música de Sophia nunca foi acomodada, sua postura pública também não é. Em março de 2024, no Lollapalooza Brasil, surgiu uma das primeiras provas: a palavra “réu” apareceu projetada no telão antes de Sophia gritar “Bolsonaro réu”. A plateia respondeu com aplausos e um coro de “sem anistia”. A frase “Palestina livre” também foi exibida durante o show. Já em julho de 2025, na Semana do Rock promovida pela Prefeitura de São Paulo, a projeção da frase “Palestina livre” levou à interrupção da apresentação. A banda afirma que houve censura: o telão foi desligado e o microfone cortado. A Prefeitura declarou que painel e som foram reduzidos preventivamente por supostas violações contratuais.

Em ambos os casos, o que estava em disputa não era apenas uma frase projetada, mas o estatuto da música ao vivo como espaço de dissenso. Se em um palco o posicionamento foi absorvido como manifestação do público, no outro foi anulado rapidamente. E quando Sophia Chablau soltou aquilo no microfone, não parecia interessada em agradar patrocinadores, curadores ou qualquer dessas entidades invisíveis que hoje pairam sobre a música como fantasmas corporativos.

O interessante é que Sophia não soa como alguém tentando reviver o rock político dos anos 60, nem como uma panfletária profissional. Filha da escritora e produtora cultural Jeanne de Castro e do músico Fabio Tagliaferri (parceiro de gravações de Ná Ozzetti, entre muitos outros), Sophia cresceu entre livros e acordes. Tentou o piano, ficou com o violão e desenvolveu uma escrita que já foi chamada de “engraçadinha” e “esquisita”. Formada em Geografia e ex-professora de cursinho popular na Vila Sônia, carregou para a música um pensamento estrutural sobre cultura e política, questionando a lógica neoliberal enquanto constrói, na prática, uma carreira sustentável sem abrir mão do confronto.

Paralelamente às duas bandas, Sophia ampliou seu universo musical: lançou “Handycam” (2025) ao lado de Felipe Vaqueiro (Tangolo Mangos). Há uma busca constante por deslocamento, como se cada projeto testasse novas fronteiras.

Nesta entrevista, realizada antes da estreia no Centro da Terra antes do início de sua temporada no mês de março (recebendo como convidados Juçara Marçal, Dora Morelenbaum, Ava Rocha, Negro Leo, Zé Ibarra e Vitor Araújo, além da Uma Enorme Perda de Tempo), Sophia fala ao Scream & Yell sobre crítica e autocrítica, megalomania, o “otimismo insano” que a impede de ser fatalista e a persistente crença – talvez ingênua, talvez necessária – de que o palco ainda pode funcionar como ágora. Entre batalhas íntimas e coletivas, ela propõe: é preciso declarar guerra, mas também somar forças. Dito isso, pegue seu lugar na trincheira e acompanhe o papo abaixo.

Você já participou de bandas como o Sophia Chablau E Uma Enorme Perda de Tempo, Besouro Mulher, lançou um disco com o Felipe Vaqueiro… O que essa temporada solo no Centro da Terra vai te permitir fazer que você não fez nesses outros projetos?
Olha, eu acho assim: eu gosto muito de tocar com as pessoas que eu admiro. Eu sou compositora e componho para todos os projetos que participo, mas ao mesmo tempo eu nunca tive um projeto de intérprete solo assim, só na minha onda. Claro que eu também acabo participando mesmo quando eu não estou necessariamente no projeto, como compositora de outras pessoas. Estou como compositora do Zé Ibarra, pra Dora [Morelenbaum], pra Ana [Frango Elétrico], enfim. Já estive nesse lugar de ter composições interpretadas por outras pessoas. Estava conversando com o Alexandre Matias [organizador da programação do Centro da Terra] que eu tava querendo estudar essa coisa de interpretar, tocar canções minhas e dos outros, mas não queria fazer isso para lançar um material agora. E também queria pensar em como amadurecer isso. E eu acho que o palco é um lugar muito importante pra fazer esse tipo de coisa. Não adianta só ensaiar sozinha se não vai fazer um show. E acho que o palco do Centro da Terra acaba sendo um lugar legal pra isso. Mas eu não sou um lobo solitário, eu gosto de ir encontrando as pessoas e ir tocando (risos). E aos poucos saiu esse quadro de estar no palco, mas também de estar fazendo uma temporada de experiências e trocas com algumas das pessoas com quem eu queria tocar junto. E eu tava precisando disso também, de fazer isso com as pessoas que eu mais queria tocar, sem ter a obrigatoriedade de pensar em lançar algo. E quando ele [Matias] me falou dessa oportunidade de fazer lá no Centro da Terra, pareceu tipo um sonho da vida. Acho que vai ser uma temporada legal, tem a ver com o lance de eu procurar uma outra instrumentação, diferente do que tô acostumada a fazer nas bandas, e de ter essa troca no palco com algumas das pessoas que eu mais admiro na música. Acho que isso que vai ser de diferente.

Você já tinha feito um show solo naquele Casa Bona uma vez, não?
Fiz algumas vezes. Mas ali não tinha bem bateria, um som de banda mesmo, como vai ter agora com a participação do Theo Ceccato na bateria e do Marcelo Cabral no baixo. E essas participações especiais dos meus amigos, convidados mesmo. Então vão ter variações do tipo “eu sozinha”, “eu com a banda”, “eu com os convidados”, “eu com os convidados e a banda”, e a ideia é misturar tudo isso, promover essa troca constante e experimentar coisas novas.

Por que chamar essa temporada de “Guerra”? Tem alguma guerra interna que você está vivendo hoje ou quer provocar nas pessoas que vão assistir?
Eu acho essa palavra “guerra” uma palavra bonita. Digo, sonoramente eu acho bonita. Claro que o que ela significa é uma coisa muito forte e estamos passando por isso em diversas partes do mundo. Mas é uma palavra que vem aparecendo bastante na minha cabeça e foi me chamando atenção. Tanto pelas guerras recentes quanto as que já aconteceram, mas pensei também em “guerras mentais” mesmo. Tem tanta coisa que está rolando, tanto em pensamento de querer lutar e fazer o que se quer quanto pelo que se quer ser. E pelo lado da provocação, a gente está vivendo numa era de massacres, genocídio palestino, e é quase como se quisessem que a gente se acostumasse a isso, a essas cenas horríveis. E numa guerra, se pressupõe que existe um lado que resiste, né? Existe o outro lado, que não é só o do ataque. Tem dois lados em guerra. Então tem a ver com esse choque entre os dois lados também Além disso, também tem a questão da guerra cultural que a gente está vivendo, tanto internacionalmente quanto aqui no país, para continuar fazendo arte. E eu quis chamar estes convidados, meus amigos, para uma espécie de extensão dessa guerra, só que no palco. Não como um duelo, mas porque a gente tem que somar forças para questionar as coisas, começar uma guerra pessoal contra como as coisas estão. E esse nome era uma forma de juntar tudo isso, com uma palavra forte, que tivesse todos esses significados ao mesmo tempo.

Qual vai ser o repertório? Você pretende tocar músicas antigas e novas? Dos seus convidados também?
Sim, eu vou tocar músicas que escolhi com muito carinho de cada um. Mas realmente tem a ver com a liga de cada pessoa, sabe? Tem a coisa de tocar minhas composições, mas essas participações esteticamente dominam o repertório, porque eu fui atrás delas justamente por isso. Pra mim seria fácil escolher apenas as minhas músicas e o que eu gostaria, mas teve a intenção de sacar o que combinaria mais com o Zé, o que combinaria mais com a Juçara, o que combinaria mais com a Ava e o Leo. Essa coisa do encontro com elas. Tem umas sutilezas ali no meio, de pegar o que funcionaria melhor com cada um. Se pensar bem, é como se eu estivesse meio que “montando bandas” para cada uma dessas apresentações. Apesar de ser um lance solo, tem essa proposta de tocar algo que seja dentro da coisa deles, mas sem ser exatamente “o hit da Juçara”, “o hit da Ava”, do Leo, da Dora. É mais sobre a coisa de encontrar essas pessoas no palco e captar essas nuances do que pode surgir na apresentação.

À medida que você foi contando, pensei naquele projeto Quinta Lapa que acontece na galeria Lapa, Lapa. Você já participou dele uma vez, como que foi?
Sim, foi em novembro do ano passado, com a Juliana Perdigão. Cara, foi bem legal. Ali rolaram muitas músicas novas também, eu e ela… Ela tocou uma que ela musicou do Oswald de Andrade, que eu inclusive também queria muito tocar nesses novos shows. Mas vai ser uma coisa bem diferente desta vez, com muitos convidados e uma noite diferente da outra.

Como você pensou nessa curadoria?
Cara, foi basicamente chamar pessoas que eu admiro e com quem eu gostaria de tocar junto. E fui fazendo uma listinha de pessoas que queria chamar. Engraçado é que eu fui chamando, mandando mensagem para elas e as coisas foram se encaixando. Na verdade, quando eu criei a parada, eu queria chamar todas as pessoas ao mesmo tempo, mas aí ia dar um show de umas três horas. A origem tinha a ver com uma megalomania assim, porque eu não ia ter nem agenda pra isso (risos)! Mas aí conversando com a Fran [Francesca Ribeiro, produtora) e com o Cabral [baixista] fomos resolvendo como ia fazer. Teve uma questão de alinhar o repertório dessas pessoas, marcar ensaios e esse tipo de coisa. E de tirar um pouco essa megalomania de querer fazer um show grande. Eu tinha uma proposta de chamar pessoas para tocar músicas delas e que tinham algo que eu queria dizer por meio delas. E claro que tinha mais gente que eu gostaria de chamar, mas aí passaria de uma temporada só. Mas alinhando tudo até que foi fácil chamar as pessoas, elas confirmarem e ir combinando as datas.

Essa temporada é um laboratório para o próximo disco com o Uma Enorme Perda de Tempo?
Sim! Tanto que o primeiro show que a gente vai fazer é fez foi com a Uma Enorme Perda de Tempo. Nesse dia nós vamos testar músicas novas que a gente quer mostrar. Claro que a gente deve tocar músicas que a gente já toca e gosta, mas a ideia também é apresentar umas coisas novas que estamos arranjando. Mas o que vai ser diferente de um show normal nosso é que eu falei pro pessoal “galera, bora tocar de uma forma pra gente se divertir, sem pressão de estar tudo certo”. Essa parada é a principal intenção. Porque eu não tenho essa coisa de querer tocar sempre o mesmo arranjo perfeito. Pra mim às vezes as melhores versões de uma música podem ser as que deram tudo diferente do esperado, ou até mesmo meio errado. Mas esses outros quatro shows com os convidados devem seguir um estilo mais parecido, no sentido de ter um repertório dedicado a eles. É isso. [Nota: no primeiro show com Uma Enorme Perda de Tempo, Sophia debutou nove músicas inéditas da banda, além de tocar “Ao Sul do Mundo”, “Eu Não Bebo Mais” e outras que já apareceram em apresentações anteriores.]

Você pensa em registrar em vídeo ou áudio essas apresentações?
Sim, porque pode ser legal capturar essas versões diferentes que vão surgir. Se vamos usar para algo depois, não sei. Mas só pelo registro dessas parcerias, ouvir e ver essa outra forma de tocar essas músicas delas já vai ter algo legal e diferente. Nas minhas músicas também, porque a ideia é ter essa troca, uma tentativa de procurar outras sonoridades e inspirações. É um primeiro passo estético. Mas eu não vou ficar muito apegada na coisa de tocar tudo direitinho e perfeito para gravar e lançar. Não é esse o propósito. É mais para documentar o que está acontecendo mesmo.

Você já disse que escreve quase sempre quando está triste. A tristeza ainda é um motor criativo potente pra sua música ou isso mudou?
Olha, já foi mais. Quando fiz o primeiro disco, eu era muito nova. Acho que eu já tinha saído de casa, mas hoje em dia estou mais velha e me coloco no lugar de compor sempre, todo dia. Música virou trabalho. Apesar das pessoas falarem aquilo de “trabalhe com algo que você ama e passe a odiar isso”, eu acho que não rolou comigo. Agora eu tenho uma rotina de composição e eu sento aqui nessa mesma mesa em que estou agora conversando com você, anoto umas coisas aqui [mostra folhas e cadernos ao redor] e vou trabalhando em cima disso, desde cedo até sair alguma coisa. Então sim, eu já compus mais nessa onda de estar triste, gosto quando sai algo assim, mas já faz um tempo que não é necessário acessar essa condição de estar na merda pra sair algo. Até porque você pode estar tão na merda a ponto de ficar com a cabeça bloqueada e não sair nada. Aqui no meu canto já tem um monte de papel, de palavras, frases, então escrever música pra mim hoje em dia é questão de pensar, pegar esses papéis e tentar e tentar e tentar criar algo em cima. Quando existe um momento assim mais de introspecção acaba saindo uma música mais profunda ou coisa assim. Mas com essa coisa de me pegar para escrever todos os dias, não é mais algo obrigatório estar triste não. Quando eu comecei a escrever usando a palavra “você” foi uma baita descoberta. Porque antes era tudo “eu, eu, eu”. Caralho, sai dessa, sabe? Daí comecei a pesquisar, como usar mais “você”, “ela”, “ele”, etc. O processo de escrever letra e compor virou uma pesquisa.

Você já tentou estudar música e disse que não deu muito certo. Você segue teoria musical para compor suas canções?
Sim, eu já tentei estudar pela teoria e tudo. Mas hoje em dia eu vou meio de ouvido mesmo. Tem coisa que é muito rápida. Parece até que é meio instintivo. Mas talvez a minha cabeça fique trabalhando enquanto eu vou pensando em outras coisas. Quando tentei estudar de verdade, o pessoal falava muito de teoria, mas só depois de tocar na prática que eu ia entender de fato o que era. Então não é que eu não penso em teoria, mas a forma que eu uso é quase espontânea. Eu não penso em graus, em tons específicos ou coisa assim… Claro que pelo fato de compor direto eu já fui entendendo o que funciona e o que não casa legal com minha voz, com o que estou fazendo no violão. Acho que de tanto fazer agora sai meio automático ou por instinto. Mas não fico me baseando tanto em qual tipo de nota eu devo tocar em seguida ou coisa assim. E eu me dedico mais às letras mesmo. Fico lendo livros, anoto palavras, fico escrevendo. Também acho que ouvir outras coisas prestando atenção é a melhor forma de aprender, isso que acho que me ajudou bastante. Eu absorvi muita coisa observando os outros. Tipo as minhas piras com música instrumental libanesa: eu gosto muito de ouvir e sacar como funciona, mesmo se não vou usar aquilo em uma composição minha, mas de alguma forma me ajuda nesse estudo.

Você já chamou “Música do Esquecimento” de um “disco esquisito e megalomaníaco”. O que ficou dessa megalomania e o que você quer deixar para trás?
Olha, é bem engraçado porque esse disco mudou minha vida, né? Ele mudou minha vida pra melhor e é muito importante pra mim. Realmente abriu muitas portas pra banda. Mas o que é esse lance da megalomania: é que a gente estava pensando em fazer um som bem específico, um disco que foi feito para ser levado a sério. Porque tinha uma coisa de falar “tá, a gente é meio maluco e engraçado” mas teve gente que ouvia o primeiro disco e dizia que minhas músicas eram engraçadas. Mas engraçadas por que? Então a gente ficou meio com esse rótulo. Acho que isso é meio que não saber a história da música brasileira, que é meio pautada por músicas irônicas, tipo Jararaca e Ratinho até Noel Rosa, assim no início das primeiras canções gravadas. E só começa a ficar mais “chato” ou “sério” com a bossa nova tipo Vinícius de Moraes. E ao mesmo tempo tem um monte de coisa de bossa nova que os caras são zero careta, são uns doidões. Então essa influência irônica pra mim é algo natural. Sei lá, quando eu cantava “Moças e Aeromoças, Garotas, garotas de programa de TV” e achavam que a gente seria só uma banda engraçadinha. E não acho que é só um disco engraçado, com piadinha. Tem “Fora do Meu Quarto” e “Se Você” ali, por exemplo. Daí nesse outro disco eu quis trazer novos elementos pras canções, pra mostrar que a gente estava conectado com essas outras referências. E eu acho que a gente conseguiu. Claro que tem coisas ali que eu gosto mais do que outras. Mas eu estava querendo mostrar que eu sei falar sobre as coisas de um outro jeito. E agora sei que eu posso falar dessas coisas do meu jeito sem sentir que é uma coisa meio pueril. Teve um certo grau de seriedade que foi importante até pra gente validar um ao outro. Eu acho que as pessoas ouviram o primeiro disco de um jeito e a nossa intenção foi fazer algo mais profundo nesse outro e isso certamente está lá. Mas uma coisa da megalomania dele que eu não gostaria de levar pra frente é de ter que quebrar a cabeça com muito arranjo diferente pro estúdio e pro palco, porque para fazer show a gente teve que fazer muitas adaptações. Eu tenho essa vontade de se jogar mais e fazer uns shows mais soltos, como deve ser esse do Centro da Terra. Ao mesmo tempo, acho que isso da megalomania também já cumpriu o seu papel e não precisamos fazer um “Música do Esquecimento II”, saca? Já foi, a gente não precisa ser levado sempre a sério. Mesmo sendo uma banda jovem, já provamos que conseguimos fazer isso. Teve um pouco a ver com isso também, já que “o jovem no Brasil nunca é levado a sério” (risos).

Você já disse ser influenciada por Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Guilherme Arantes, Nelson Ned, mas que Negro Leo e Ana Frango Elétrico mudaram sua forma de ver a canção. O que exatamente virou a chave ali?
Cara, não lembro exatamente o que pensei quando disse isso antes, mas acho que o que me inspirou neles foi a forma como eles usavam as palavras e a escolha delas nas melodias, sem ser uma coisa tão tradicional. Primeiro que era uma coisa muito contemporânea pra mim, ouvir e me espelhar nessas pessoas. Não é como dizer “ah, eu quero escrever como os caras escreviam nos anos 60”, sabe? Se você comparar com músicas que rolam nas rádios, são melodias mais fáceis, com pouca variação de palavras. Mas no caso deles, é diferente, é quase outra linguagem e métrica. Uma outra disposição de palavras que cabem para escrever uma melodia. E a não obrigatoriedade de falar sobre você mesmo para fazer uma letra. É mais de você saber manipular a escrita, a disposição das palavras, etc. É difícil pra caralho compor nas métricas do Leo. E as palavras que Ana usava, eram umas coisas meio sinestésicas… Uma estética que me atraiu muito e que eu não tinha visto ainda. Tudo bem que penso que é o tipo de impacto que uma pessoa de 19 anos como eu tinha ao ter contato com essas coisas pela primeira vez. Mas realmente me pareceu bem diferente e inspirador. Essa coisa da contemporaneidade, do pessoal tentar uma outra forma de fazer as coisas do jeito delas, sem procurar repetir fórmulas e ir atrás de outras ideias. Isso que me deixou interessada de verdade neles.

Você é formada em Geografia e deu aula em cursinho popular. O que a Geografia te ensinou ou se reflete na sua carreira como musicista?
Acho que o estudo da Geografia me ajudou a perceber a importância do que a gente faz aqui no Brasil. Acho que isso puxou um lado de ler e de pensar, de aprender e me aprofundar sobre as coisas. De pegar certos dados e interpretar isso e ajudar a pensar sobre o real estado das coisas. É uma matéria muito foda pra te estimular a pensar. E isso acabou refletindo na maneira como eu me interesso por música, cultura e pessoas também. Com certeza eu teria uma mentalidade muito diferente se não tivesse feito Geografia.

Você tem posições políticas humanitárias e bem puxadas para a esquerda. Como é tentar fazer uma carreira sustentável na música, sendo crítica à lógica neoliberal que trata música como bolsa de valores?
Olha, como compositora, eu acho que tenho uma grande facilidade de acabar gravando as minhas músicas e me fixar no meu repertório. E eu penso em música como cultura, como uma forma de mudança, de contestação. Eu não tive que abrir mão de coisas que achava importante no que faço. Eu sei que nesse meio posso ser uma exceção, uma grande exceção. Só que eu quero que essa exceção vire a regra. E eu tento despertar essa consciência e questionamentos nos meus amigos. Eu tenho o sonho de poder passar isso para as pessoas, e não alimentar o pensamento de que tudo vai dar errado ao fazer isso. É como quando você gosta de um som, se sente tocado por aquilo porque é especial pra você e quer que outras pessoas também conheçam. A gente tem que ter espaços de discussão para esse tipo de coisa. E eu acho que música é uma coisa que tem que ser pensada além do mercado. Politicamente isso é necessário. Mas nos espaços que a gente teria que discutir esse tipo de coisa, a gente acaba falando sobre sei lá, coisas do mercado. Networking, fazer contatos, essas coisas. Mas culturalmente o que é isso? Porque eu acho que o que a cultura neoliberal quer é exatamente isso: não que a gente discuta cultura de verdade, mas o que o mercado quer. E repensar essa estrutura faz parte de um debate múltiplo.

Você acha que a divisão entre os selos musicais dificultam esse tipo de diálogo entre as bandas e artistas? Acabam virando concorrentes?
Eu só posso falar por mim mesma e assim, eu tenho uma boa relação com o Selo Risco. O que eu acho que falta é uma reflexão maior entre os selos e as bandas sobre o que fazer e dar um apoio maior para criar esses espaços de discussão que comentei. Eu tenho muito respeito pelo trabalho das pessoas, mas também acho que a gente devia ter um debate mais aprofundado sobre os caminhos da música. Eu acho muito foda quem está indo na contramão de um lance que virou fórmula e todo mundo está fazendo. Isso que eu sinto falta até na crítica também: de ser mais ousado, de contestar algo que está rolando. Esteticamente eu não concordo com muita coisa que vem junto nesse meio da música.

Você acha que já teve que fazer alguma concessão na sua vida artística até agora?
Hmmm… [pensa um pouco]. Ter Instagram foi uma concessão. Eu acho horrível ter que usar, mas uso porque preciso. Tem coisas que a gente ainda tem que divulgar por lá porque senão não atinge as pessoas. O lance de ter que postar direto, essas coisas. Infelizmente ainda não consegui criar uma alternativa viável a isso. Mas se pudesse, eu não usaria.

Você lê as críticas que fazem sobre a sua banda? Vocês lidam bem com isso?
Leio sim. Leio todas! Como eu falei antes, do questionamento: eu acho que é válido, tem que haver esse debate, tem que discutir a estética das coisas. É importante para o amadurecimento das coisas. Eu já levei umas críticas foda que eu tomei na cabeça, porque eu enxerguei que era algo que realmente fazia sentido. E eu levei isso pra mim a partir dali. Como algo a aprender. Mas eu gosto de ler até as críticas maldosas, que alguém fez só pra encher o saco. Dá pra perceber quando o pessoal capricha nesse sentido, acho que vale a pena ler nem que seja pra rir da gente mesmo (risos).

Mas é muito fácil pra um crítico passar do ponto, ser pau no cu e exagerar.
Mas eu acho que crítico tem que ser pau no cu mesmo! Eu acho que a crítica é importante… Tem que ser corajoso pra escrever. Mas eu também quero responder se achar que é necessário.

A cena independente tem bandas e artistas mais críticos ao mercado, como o Nigéria Futebol Clube. Além deles, quem mais você acha que se encaixa nessa visão mais contestadora?
Eu cheguei a fazer uma música pro Nigéria Futebol Clube. Eu acho foda o lance da contestação, pela rebeldia que também acho necessária. Essa coisa provocadora. Mas eu também acho que muitos desses convidados que estão participando desse meu esquema tem algo disso. Ava Rocha e Negro Leo… O Jonnata Doll. Todos vindo de lugares bem diferentes. Eu, a Dora, o Zé e o Vitor por exemplo são pessoas que eu me interessei pela arte deles e sempre temos uns papos sobre arte e o que está rolando. Tem que acender essa chama de que dá pra mudar, entendeu? Porque o que eu mais vejo é gente que quer mudar as coisas. Mas voltando ao Nigéria, a gente conversa, sei que já rolou uma troca de que de alguma forma a gente meio que ajudou a inspirá-los…

Sei que a banda existe porque eles se encontraram indo pra um show da Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, né?
Sim, verdade! Isso é foda. Então assim, pra mim só da gente ter feito isso de alguma forma já considero um feito (risos)! Mas no geral no meio das bandas acho que o debate ainda tem que crescer mais, essa qualidade contestadora tem que crescer. É questão das bandas trocarem mais ideias entre elas sobre aspectos musicais, culturais, conversar sobre composição e também condições mínimas para uma carreira, shows, turnês. Por isso eu acredito em shows, acredito no encontro das pessoas, em manifestações. O encontro de pessoas diferentes, de classes sociais e países diferentes, faz com que a gente perceba que existem outras realidades, que a gente preste mais atenção no outro.

Você já disse que “sofre de otimismo insano”. Você consegue conciliar esse otimismo com a situação atual do mundo?
Cara, Eu acho que sim, a gente tá vivendo uns tempos foda, mas em algum lugar, vai ter a nossa saída disso. Não tem como. Já passamos por coisas horríveis e cada merda que acontece, se for olhar de outro ponto de vista, acaba deixando a gente mais forte. Não é um lance de positividade tóxica; se a gente seguir em frente pra tentar mudar as coisas e deixar tudo um pouquinho melhor pra cada um, já é uma baita vitória. Não é pra ser uma coisa meio Poliana, é mais pensando que aparece uma dificuldade e a gente tem que arranjar um outro jeito de atravessar isso. Se a gente ficar pensando que o mundo tá sempre acabando, vai tá fazendo o jogo do outro lado. E pra quem veio antes da gente, pra essas pessoas o mundo já acabou, mas no final das contas a gente está aqui sobrevivendo. O que tem pra fazer agora é se juntar, se organizar e atravessar isso.

Então não é que você é sempre otimista; você na verdade não é fatalista, certo?
Exato! Eu odeio esse pensamento de “já acabou, já era”. É sério, só releva e continua!

Você acredita que estamos vivendo um momento de repolitização da canção brasileira?
Acho, mas não exatamente repolitização, porque sempre teve gente que escrevia de forma política. Em que momento a música brasileira foi despolitizada? Taí o rap e o hip hop, por exemplo. Teve o Black Pantera também. Talvez hoje em dia esteja mais forte do que sei lá, há dez anos atrás. Para muita gente é mais fácil não dizer nada, mas acho que não tem mais como não tocar em assuntos políticos. Tem ficado cada vez mais evidente qual que é o seu lado. Isso é uma forma meio burguesa de lidar com a canção. Depois do que rolou aqui com aqueles quatro anos difíceis pra caralho com Bolsonaro, que daí veio o Lula mas agora vem o Trump e a situação na Palestina, precisa falar. Não dá mais pra fugir disso. Tem muita coisa acontecendo e eu percebo que quanto mais pessoas falarem contra isso, vamos ganhando mais força. E talvez nem seja coisa para a gente conseguir uma vitória de verdade agora, mas sim daqui a alguns anos. Tem que fazer planos futuros, se organizar. Todas as mudanças que aconteceram no mundo precisaram de tempo. É uma construção.

A experiência em Portugal e a relação com o selo Cuca Monga mudaram sua percepção de música no Brasil? Você pensa numa turnê mais extensa fora daqui?
Essa passagem por Portugal foi uma coisa bem legal, mas também meio complexa. Foi uma turnê por quatro cidades, e uma delas foi Lisboa, onde fica a sede da Cuca Monga. Quando eu voltei, demorou um tempo pra eu voltar ao normal, fiquei meio deprê. Fiquei muito pensando nessa sensação de sair [do país] e depois voltar. Me deu vontade de viajar mais, conhecer a vida. Conhecer outras culturas e experiências em sociedade, não só fora do país mas dentro dele também. Mas o que rolou é que eu fui muito bem recebida lá. A rádio em Portugal funciona de outro jeito, há muito espaço para pessoas fazendo coisas legais e diferentes. Fiz grandes amigos quando passei por lá, amigos que gosto pra caralho. E acho que também consegui abrir os olhos dessas pessoas, que não tinham muita ideia da segregação que tem entre eles lá e nós aqui. E essas pessoas já vieram pro Brasil inclusive, porque eu enchi o saco para que elas tivessem essa outra perspectiva daqui. Foi bom pra mim também porque descobri umas coisas sobre os meus privilégios e os não-privilégios. É bom ter essa ponte e transformar a cabeça. Foi da hora e gostaria de fazer de novo, mesmo que não fosse a trabalho, pra tocar.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br





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