Crítica: Morrissey cava sua própria cova com “Make-up Is a Lie”

texto de Marco Antonio Barbosa

As pessoas abraçam as causas certas pelos motivos errados. Há anos – décadas, na verdade – Morrissey tem sido ~cancelado~ implacavelmente por causa de sua postura política cada vez mais reacionária. Uma legião de inconformados abandonou o cantor, incapazes de superar o conflito entre a obra inegável e a personalidade abominável.

Mas o verdadeiro ~cancelamento~ antecede a guinada ideológica. Bem antes de ele aparecer na TV americana ostentando o pin de um partido de extrema-direita ou de ter se manifestado contra a entrada de imigrantes no Reino Unido, Morrissey já era uma presença menor na vida da maioria de seus (hoje) ex-fãs. A responsabilidade por isso é toda dele mesmo, cuja criatividade vem se apequenando a olhos vistos, há anos. Décadas, na verdade. Afinal, em abril próximo, completam-se 20 anos do lançamento de seu último álbum solo realmente relevante: “Ringleader of the Tormentors”. Desde 2006, sua produção minguou em qualidade e quantidade, com LPs cada vez mais espaçados entre si e progressivamente menos memoráveis. Enquanto a música desaparecia, cansativas polêmicas tomavam seu lugar.

Analisemos, pois, “Make-up Is a Lie”, seu décimo-quarto trabalho de material original, lançado em 6 de março. O novo álbum emergiu depois de um hiato de seis anos, no qual Morrissey prometeu (ameaçou?) lançar outros dois discos (“Bonfire of Teenagers” e “Without Music the World Dies”), ainda oficialmente engavetados; bateu boca com gravadoras, com a imprensa, com Johnny Marr; cancelou uma cacetada de shows, inclusive no Brasil; se disse perseguido & boicotado. E por aí vai.

Poderíamos perdoar essa sucessão de nonadas se o novo álbum fosse bom. Não é.

Produzido por Joe Chicarelli, que vem trabalhando com Morrissey desde “World Peace Is None Of Your Business” (2014), “Make-up Is a Lie” é inócuo no som, pouco inspirado nas composições e vazio na poesia. Morrissey entregou as rédeas da nova safra a Camila Grey, produtora que tem colaborações com Adam Lambert (!), Dr. Dre (?) e Kanye West (?!) no currículo. A moça co-assina quatro das 11 canções inéditas e fez os teclados e programações no álbum. O resultado é, por falta de termo mais preciso, esquisito. Os arranjos são assépticos, dominados por timbres sintetizados genéricos e acenos a sonoridades oitentistas. É o que se ouve na abertura, em “You’re Right, It’s Time”; na faixa-título; e em “Notre-Dame”, esta última uma parceria com Alain Whyte.

Whyte, o mais longevo e prolífico compositor na carreira solo do cantor, deveria estar mais presente no disco. É dele a mais digna das novas composições: “The Monsters of Pig Alley”. É a única em que Morrissey se esforça para criar uma verdadeira melodia. E também é a melhor letra: O “beco dos porcos” é a Pigalle, a zona de prostituição em Paris, de onde saem “monstros” rudes, “acima do peso e datados”, mas que juram amor ao protagonista dos versos, um frustrado aspirante ao estrelato.

O problema é que mesmo a melhor faixa do disco seria, no máximo, um lado-B inspirado, se fosse lançada no auge criativo de Morrissey. (Tenho condições de bancar essa afirmação, pois, em 2023, escrevi um ranking completo com todas as canções solo do ex-Smiths, da pior à melhor.)

E o resto? Com ou sem Camila Grey, o resto do LP não decola. Falta melodia às composições, sejam elas de Jesse Tobias (cuja “Zoom Zoom the Little Boy” até tem uma tentativa de refrão cantarolável) ou Gustavo Manzur (que criou uma levadinha funky para “The Night Pop Dropped”). Mesmo Whyte decepciona em “Boulevard”, cuja música perambula sem rumo, como o personagem dos versos, bêbado pelas ruas de Paris. O cantor traiu sua falta de confiança no repertório ao apelar para um cover do Roxy Music (“Amazona”) – essa ao menos tem uma rascante intervenção guitarrística de Tobias.

As letras são tão inconsistentes quanto a música. Há uma tentativa de polêmica barata em “Notre-Dame”, aludindo às teorias conspiratórias sobre o incêndio criminoso que destruiu a catedral em 2019 (”Notre-Dame, nós sabemos quem tentou te matar/ Antes das investigações, eles disseram: ‘Não há nada para ver aqui’”). E há pouco mais que isso, além do melodrama de sempre, diluído e repetitivo.

Ao menos em “Lester Bangs”, dedicada ao decano da crítica musical gonzo, Morrissey abre o coração de forma sincera (“A três mil milhas de distância / Este nerd se apega à sua palavra / Eu me apoio em você / Quando minha vida estava tão errada”). Refere-se aos anos de adolescência solitária, quando lia as resenhas de Bangs para discos de Patti Smith e Lou Reed.

Não há maquiagem que disfarce a falta de propósito de Morrissey em 2026. Ninguém precisa mais lamentar o cancelamento (este, real) de seus shows, ou ansiar em vão por uma reconciliação com Johnny Marr. O cantor cavou sua própria cova ao perder o rumo musical nos últimos 20 anos. As falas reacionárias e racistas são apenas a lápide na sepultura.

Ouça o disco na integra abaixo (por sua conta e risco)

– Marco Antonio Barbosa é jornalista (medium.com/telhado-de-vidro), músico (http://borealis.art.br) e escreve ótimas pensatas no Substack.

Leia também:
– Discografia comentada: todos os discos de Morrissey (aqui)
– Morrissey ao vivo no Benicàssim, 2008: “Tudo é possível” (aqui)
– Morrissey ao vivo em Buenos Aires, 2004: “Eu sou Jean Cocteau” (aqui)
– Morrissey ao vivo em Buenos Aires e Rosário, 2012: “Estranhamente depressivo” (aqui)
– As duas cerejas do bolo “Greatest Hits”, de Morrissey (aqui)
– “Ringleader Of The Tormentors”: um Deus da música pop adulta (aqui)
– “You Are The Quarry – Special Edition”: mais nove faixas inéditas (aqui)
– “Mozipedia”: uma enciclopédia sobre Morrissey e os Smiths (aqui)





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