entrevista de Bruno Lisboa
Nos anos 1990, quando o punk/hardcore brasileiro expandia suas fronteiras para além dos grandes centros e das estruturas tradicionais, o Street Bulldogs surgiu como um desses vetores que ajudaram a costurar a cena de baixo para cima: na base da fita, da carta, do zine, do corre independente e da conexão real entre pessoas. Vindo de Pindamonhangaba (SP), o grupo construiu uma trajetória sólida no underground sem recorrer a atalhos apostando, sobretudo, em uma ética DIY que se tornaria marca registrada da banda.
Agora, em março de 2026, o Street Bulldogs volta aos palcos para uma curta turnê de reunião que passa por Curitiba (13/03), São Paulo (14/03 e 19/03) e Belo Horizonte (15/03) – infos aqui. A formação é a última da história da banda: Fábio Sonrisal, Japa, Koala, Guilherme e Léo Bulldog — este vindo de Dublin especialmente para os shows. Mais do que um aceno nostálgico, o reencontro nasce de um impulso orgânico, reacendido após uma jam em dezembro de 2024 que surpreendeu a própria banda pela intensidade da resposta do público.
O retorno também carrega um peso simbólico. Mesmo sem registros de estúdio dessa formação específica, Fábio define o período como um dos mais importantes da trajetória do Street Bulldogs: “É a última formação, a que ficou desde 2005 até o fim… pra mim, foi uma das mais marcantes”. O cuidado em preservar a história da banda ao longo dos anos ajuda a explicar por que o nome segue mobilizando público: “Nunca fez sentido voltar por conveniência ou nostalgia vazia. Preservar esse silêncio ao longo dos anos também foi uma forma de manter a integridade do que construímos”, pontua Fábio, que respondeu perguntas do Scream & Yell por e-mail. Leia abaixo.
O Street Bulldogs surgiu nos anos 90, num momento muito específico do punk/hardcore brasileiro. Olhando em retrospecto, que tipo de lacuna ou necessidade vocês acreditam ter preenchido naquela cena?
Nos anos 90, a cena punk/hardcore brasileira estava se expandindo, mas ainda havia poucas bandas conectando o som rápido e melódico com uma ética DIY consistente e até um certo diálogo com a cena internacional. O Street Bulldogs surgiu nesse espaço, com um som direto e energético e, principalmente, uma postura de trabalho independente, baseada em coletividade, troca de cartas, fitas, zines e organização de shows. Mais do que preencher uma lacuna musical, eu acho que a banda ajudou a fortalecer pontes e mostrar que era possível produzir, circular e existir fora das estruturas tradicionais.
A banda construiu uma trajetória sólida e respeitada dentro do underground, mesmo sem grandes estruturas. O que você acredita que fez o Street Bulldogs atravessar gerações e ainda mobilizar público tantos anos depois do fim?
Acho que a longevidade do Street Bulldogs vem da combinação entre honestidade, constância e conexão real com as pessoas. Mesmo sem grandes estruturas, sempre fizemos tudo com propósito. As músicas nasceram de experiências verdadeiras, e isso atravessa o tempo. Além disso, o vínculo criado com a cena nunca foi baseado em modismo, mas em identificação e respeito mútuo. Quando algo é construído assim, ele não pertence só a uma época, continua fazendo sentido para quem chega depois.
Esses shows de reunião não partem de uma lógica nostálgica óbvia, mas de uma vontade que surgiu a partir de uma jam recente. Em que momento você percebeu que aquilo poderia ir além de uma celebração pontual?
Justamente com a resposta do público nesse show “jam” que fizemos em dezembro de 2024. Reacendeu uma vontade de fazer de novo, não de voltar com a banda, mas fazer uma tour de reunião. A ideia era fazer nos mesmos moldes da jam, com outros vocais participando, mas acho que isso deu uma cutucada no Léo, que acabou topando vir fazer.
Você comentou que não esperava que aquela jam tivesse um impacto tão forte. O que mais te surpreendeu emocionalmente naquele encontro com ex-membros, convidados e o público?
Surpreendeu porque era pra ser uma festa, reencontro de velhos amigos e celebrar o documentário da Chuva TV. A gente não tinha ideia que seria daquele jeito, tão forte como se fosse há 15 anos atrás. Os convidados foram escolhidos a dedo, pessoas das quais gostamos e admiramos, que fazem parte da história. E no fim, foi tudo foda demais.
O retorno conta com a formação que gravou o DVD, com o Leo Bulldog vindo de Dublin especialmente para os shows. O quanto essa formação específica pesa para que a reunião faça sentido artística e simbolicamente?
É a última formação né? A que ficou desde 2005 até o fim. Eu, Japa, Koala, Guilherme e o Léo. Não faria muito sentido ser diferente, apesar de não termos gravado nenhum disco com essa formação específica, pra mim, foi uma das mais marcantes.
Após o encerramento das atividades em 2010, o Street Bulldogs sempre pareceu preservar uma aura de respeito, sem desgastes ou retornos oportunistas. Isso foi algo consciente ao longo dos anos?
Sim, isso sempre foi consciente. Quando a banda encerrou as atividades, existia um sentimento de ciclo cumprido e um respeito muito grande pela nossa própria história e pelas pessoas que caminharam com a gente. Nunca fez sentido voltar por conveniência ou nostalgia vazia. Preservar esse silêncio ao longo dos anos também foi uma forma de manter a integridade do que construímos. Se a banda voltasse a se encontrar, teria que ser por um motivo verdadeiro, com propósito e no tempo certo. Acho que é justamente isso que mantém esse respeito vivo.
O repertório promete atravessar toda a discografia da banda. Como foi o processo de revisitar essas músicas hoje, com outro distanciamento de tempo, idade e vivência?
Revisitar essas músicas hoje é quase como reencontrar versões mais jovens de nós mesmos. Existe um distanciamento natural do tempo, da idade e das experiências vividas com as outras bandas que tivemos, mas a essência continua intacta. Algumas letras ganham novos significados, certos arranjos soam diferentes no corpo de hoje, e a gente toca com mais consciência do que cada fase representou. Ao mesmo tempo, a energia e a urgência que deram origem a essas músicas continuam presentes, mas só que agora acompanhadas de maturidade e gratidão (odeio essa palavra, mas é real) por tudo o que elas nos permitiram viver.
Existe alguma canção do grupo que você sente que ganhou um novo significado ao ser tocada agora, quase duas décadas depois de ter sido composta?
Uma específica eu acho que não, com o passar do tempo, algumas músicas deixam de ser apenas um retrato daquele momento e passam a dialogar com tudo o que veio depois. Temas como pertencimento, resistência e seguir em frente ganham outra profundidade quando carregam anos de estrada, perdas, conquistas e mudanças pessoais. Ao tocá-las hoje, mais de duas décadas depois, não é só memória, no final das contas é reconhecer a estrada toda percorrida e perceber que aquelas ideias continuam vivas e talvez até necessárias.
Os três shows acontecem em capitais com cenas bastante distintas — Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte. O que você espera de cada uma dessas noites e do encontro com públicos tão diferentes?
São as cidades onde a gente tocava com maior frequência e não acho que sejam públicos tão diferentes. Acredito que vai ser inferno na terra em todas elas. Eu queria muito ter feito um show aqui em Pindamonhangaba, que é a cidade natal da banda, e até tinha um esquema bem massa com a prefeitura e faríamos um show aberto, de graça, numa praça onde costuma ter os eventos da cidade, mas devido as datas e ao pouco tempo do Léo por aqui, não deu certo.
Esses reencontros também serão registrados em vídeo com a ideia de um documentário. O que vocês sentem necessidade de preservar e contar dessa história a partir desse material audiovisual?
Estamos viajando com um videomaker pra registrar a tour, não especificamente os shows, mas talvez fazer uma espécie de documentário sobre esse revival. A necessidade vem justamente por provavelmente ser a última vez mesmo que essa banda irá se juntar pra tocar, deixar esse registro se torna importante, até mais pra gente mesmo do que para as pessoas.
O punk/hardcore brasileiro passou por muitas transformações desde os anos 1990 e 2000. Como você enxerga hoje o lugar do Street Bulldogs dentro dessa história?
Vejo o Street Bulldogs como parte de uma geração que ajudou a consolidar e expandir o hardcore brasileiro para além do seu território imediato. A gente surgiu num momento de início de efervescência na cena e contribuiu fortalecendo redes (não as sociais), trocas e circulação, conectando a cena local com outras cidades e até países, sempre dentro da ética DIY. É bom dizer que não se trata de protagonismo, mas de participação ativa em um movimento coletivo que abriu caminhos pra muitas bandas, inspirou pessoas e mostrou que era possível construir uma trajetória consistente no underground. Hoje, olhando em retrospecto, é gratificante perceber que fizemos parte dessa construção.
Em meio a uma cena atual marcada por redes sociais, streaming e outras dinâmicas de consumo, o que você acredita que o Street Bulldogs ainda tem a dizer — no palco — em 2026?
Em 2026, mesmo com redes sociais, streaming e consumo instantâneo, o que o Street Bulldogs leva ao palco continua sendo algo que nenhuma tecnologia vai substituir que é a presença real… conexão humana. A gente vem de uma cultura construída no DIY, na coletividade da cena e na resistência. Subir ao palco ainda é sobre dividir energia, catarse coletiva, criar ou relembrar do pertencimento. Se, depois de um show, alguém sai se sentindo parte de algo maior, então a mensagem ainda continua viva.
Existe algum limite emocional ou conceitual para esses reencontros? Esses três shows são um ponto final bem definido ou vocês preferem deixar a história aberta?
A gente sempre tratou o Street Bulldogs com muito respeito pela nossa própria história e pelo que a banda significa pra quem acompanhou o caminho. Esses reencontros não nascem de uma nostalgia vazia e barata, mas de uma vontade sincera de celebrar essa trajetória junto das pessoas. Não existe um limite emocional pré-definido, existe honestidade e isso é o que basta pra gente. Esses três shows têm um sentido completo em si, como uma celebração e um fechamento de ciclo, mas sem a necessidade de decretar um ponto final definitivo. A banda pode nunca mais vir a tocar juntos, mas a história continua viva nas pessoas, nas músicas e em tudo o que construímos juntos.
O Street Bulldogs sempre foi uma banda muito conectada à vivência real, à rua, à ética do faça-você-mesmo. Esses valores ainda orientam suas escolhas hoje, tanto na música quanto fora dela?
Sem dúvida. O Street Bulldogs nasceu da vivência real, da rua e da ética do faça-você-mesmo, e esses valores não ficaram presos ao passado, eles obviamente continuam orientando nossas escolhas dentro e fora da música. O DIY nos ensinou autonomia, responsabilidade e senso de comunidade. A rua nos ensinou empatia, realidade e a convivência na cena mostrou que nada se constrói sozinho. Mesmo com o mundo mudando, esses princípios seguem sendo nossa bússola, pra tudo na vida.
Além do retorno do Street Bulldogs aos palcos, você também está prestes a lançar um livro, um projeto que nasceu de muitas ideias, trabalho solitário e insistência. O que te levou a transformar essa vontade em escrita e como esse processo dialoga com a sua trajetória na música e com esse momento de revisitar a história do Street Bulldogs?
A vontade de escrever esse livro surgiu da necessidade de organizar memórias, dar sentido ao caminho percorrido e registrar uma história que não é oficial. Afinal de contas, é “a (minha) história do Street Bulldogs”, mas vivida por dentro. Sempre carreguei essas lembranças comigo e chegou um momento em que entendi que elas também pertencem às pessoas que dividiram a estrada com a gente. O processo foi solitário e insistente de certa forma. Revisitar as memórias é algo muito pessoal. E foi feito no mesmo esquema de sempre, muito parecido com o espírito DIY que sempre guiou minha trajetória na música. É sobre fazer acontecer com os recursos disponíveis e sempre com verdade e (um pouco) de boa vontade.
– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014.


