Entrevista: “A música ao vivo nunca vai acabar”, apostam os irlandeses do Ye Vagabonds com o disco “All Tied Together”

entrevista de Alexandre Lopes

Após mais de uma década lapidando um folk de harmonias delicadas entoadas entre os irmãos Brían e Diarmuid Mac Gloinn, o duo Ye Vagabonds chegou agora ao ponto mais maduro de sua trajetória. “All Tied Together” (2025) – lançado em janeiro pelo selo River Lea, da Rough Trade Records – sintetiza o caminho iniciado no EP “Rose & Briar” (2015) e desenvolvido nos discos “Ye Vagabonds” (2017), “The Hare’s Lament” (2019) e “Nine Waves” (2022), consolidando a identidade autoral da dupla.

“Neste álbum parece que finalmente chegamos a um lugar para o qual vínhamos rumando há muito tempo”, conta Brían. “A gente vem se movendo nessa direção por todos esses 11 ou 12 anos em que somos uma banda. Então, de certa forma, parece que finalmente fizemos o álbum que sempre quisemos fazer, o que é muito legal”.

Gravado quase que totalmente ao vivo em uma casa em Galway, na Irlanda, sob produção de Philip Weinrobe – conhecido por trabalhos com Big Thief e Adrienne Lenker -, o disco aposta em sessões espontâneas, gravadas sem o uso de fones, com todos os músicos no mesmo ambiente e evitando distrações de smartphones. O resultado é um som mais orgânico e cinematográfico, centrado nas harmonias vocais que se tornaram marca registrada da dupla.

Profundamente ligado a memórias de lugares e relações dos irmãos, “All Tied Together” atravessa temas como a passagem do tempo e transições entre comunidades locais, com canções que funcionam quase como contos musicais. Por exemplo, a faixa The Flood”, que também inspira o título do álbum com um verso da letra, revisita a efervescente cena artística e política de Dublin de uma década atrás. “Estávamos na casa dos 20 anos e tínhamos acabado de conhecer algumas pessoas que eram punks e squatters, era um período muito vibrante”, relembra Diarmuid.

Musicalmente, o disco expande o universo do duo com a presença de colaboradores como Shahzad Ismaily e Sam Amidon, além de um conjunto de instrumentistas que reforça o caráter coletivo das sessões ao vivo. O primeiro single, “On Sitric Road”, apresentou essa nova fase com um registro intimista filmado em Dublin, enquanto “The Flood” trouxe uma dimensão mais cinematográfica ao projeto. Mas também há uma faixa como “Danny” com a participação de vários músicos, justamente para corroborar esse senso de comunidade que permeia o álbum.

“Acho que o fato de nossas experiências estarem cada vez mais atomizadas e abstraídas umas das outras e do mundo por meio da experiência online faz com que a necessidade de um senso de coletividade cresça quase em paralelo”, pontua Diarmuid. “À medida que o mundo fica cada vez mais online, e que a IA se torna cada vez mais presente, mais profunda se torna a nossa necessidade de conexão e de estar junto. E é por isso que acredito que a música ao vivo nunca vai acabar”, profetiza o músico.

Na conversa com o Scream & Yell a seguir, Brían e Diarmuid falam via Zoom sobre o processo criativo do disco, a filosofia por trás das gravações, as histórias que inspiraram o álbum e o que esperam do futuro, incluindo o desejo de tocar na América Latina e Brasil.

Oi, pessoal. Como vocês estão?
Brían: Oi, tudo bem? Estamos em New Orleans agora. Na verdade, está quente em New Orleans…

New Orleans é uma cidade legal. Vocês vão tocar por aí?
Brían: Vamos encontrar algumas pessoas de umas rádios aqui. Então estamos meio que passeando e conhecendo pessoas.

Vocês já conhecem a cidade?
Diarmuid: Não, é a nossa primeira vez aqui.

Brían: Mas nós temos muitos amigos em New Orleans.

Diarmuid: Quase parece que a gente já conhece a cidade, porque temos muitos amigos que passaram por aqui, especialmente ao longo dos anos. Nos últimos dez anos, conhecemos muitos músicos que vieram para cá e moraram aqui, e eles meio que trouxeram a atmosfera com eles. Então nos parece familiar.

Falando sobre o novo disco “All Tied Together”, que saiu no fim de janeiro: gostaria de saber como vocês enxergam a evolução de vocês desde o primeiro EP, “Rose and Brier”, de 2015, o álbum de estreia de 2017, até esse novo lançamento.
Brían: É engraçado, porque de certa forma neste álbum parece que finalmente chegamos a um lugar para o qual vínhamos rumando há muito tempo. A gente vem se movendo nessa direção por todos esses 11 ou 12 anos em que somos uma banda. Então, de certa forma, parece que finalmente fizemos o álbum que sempre quisemos fazer, o que é muito legal. Não poderíamos ter feito esse álbum dez anos atrás. Nós não éramos os músicos e compositores que somos agora. Ele é um reflexo de tudo o que fizemos nos últimos 10 ou 11 anos e também uma resposta a tudo isso, eu acho.

O que inspirou o título do novo álbum e como ele se conecta com as novas músicas?
Diarmuid: Muitas das músicas novas são relacionadas à Dublin de cerca de 10 ou 12 anos atrás, quando encontramos pela primeira vez essa comunidade musical que também era uma espécie de cena política de base. Estávamos na casa dos 20 anos e tínhamos acabado de conhecer algumas dessas pessoas de New Orleans que chegaram lá. Algumas delas eram punks e squatters de Dublin, e era um período muito vibrante. E o que realmente aconteceu naquela época foi que uma comunidade se formou, especialmente em torno de ocupações. Havia esse tipo de complexo ocupado, um grupo de cerca de 40 e poucas pessoas que ocuparam um galpão em Dublin, em meio a uma crise habitacional que ainda continua em Dublin e só piora cada vez mais. Essas pessoas estavam respondendo à crise por meio de ação direta, ocupando espaços. Elas ocuparam esse galpão e criaram hortas comunitárias, espaços de performance, espaços de arte… Era uma cena muito vibrante e um modo de vida meio caótico. Nós estávamos mais na periferia dessa cena, mais envolvidos no lado criativo e menos na ação direta, porque éramos músicos constantemente em turnê na época. Então era uma comunidade meio provisória que se formava, e a qualquer momento as pessoas podiam estar conectadas por ocupar uma casa em algum lugar e, com um dia de aviso, serem despejadas e desaparecerem. E aquele grupo de pessoas que estava todo ligado acabava se desfazendo. Isso parecia resumir bem o sentimento daquela época, essa comunidade provisória de pessoas.

Brían: Bom, aquela frase da música “The Flood”… “Houve um tempo em que nos mantínhamos flutuando, todos amarrados, subindo e descendo.” De certa forma, fala sobre como essa comunidade podia ser muito precária. Às vezes existem apenas fios muito finos segurando as pessoas juntas, e naquele caso essa comunidade estava meio distante. Mas, por outro lado, esse “todos amarrados” como tema aponta para a ideia de que tudo está conectado, que cada história de cada música do álbum se conecta às outras. Alguém que foi meio deixado para trás quando éramos mais jovens…

Diarmuid: …ou alguém encontrando estabilidade.

Brían: …ou encontrando estabilidade, ou a sensação da passagem do tempo, percebendo que você não está mais no início dos seus 20 anos e que aquela longa noite que você achava que nunca iria acabar, na verdade acabou. Todas essas coisas estão conectadas. Tudo está ligado. E tudo isso são partes de uma única história.

É interessante a forma como vocês pensaram no título, o verso da música e como essas coisas estão conectadas, porque hoje em dia estamos vivendo muita individualidade por causa das redes sociais. Vocês pensam sobre isso? Como lidam com as redes sociais?
Brían: Bom, é algo em que pensamos bastante. Uma das músicas do nosso álbum anterior [“An Island”] tem o verso “sozinhos e juntos é tudo o que jamais seremos”, que foi inspirado por um pensamento durante o lockdown. Acho que foi quando isso ficou mais evidente durante os confinamentos e a pandemia. O que realmente tentamos fazer com a nossa música é criar um grande espaço inclusivo no qual as pessoas possam entrar e participar. É música para ser vivida e participada, não apenas observada. Então fazemos o possível para envolver as pessoas, o público, criar algo com que as pessoas possam cantar juntas, fazer com que elas se sintam parte de algo maior, e não apenas indivíduos. Esse é um grande objetivo nosso, é um ponto muito importante.

Diarmuid: Sim. Acho que o fato de nossas experiências estarem cada vez mais atomizadas e abstraídas umas das outras e do mundo por meio da experiência online faz com que a necessidade de um senso de coletividade cresça quase em paralelo. É uma necessidade que esperamos conseguir abordar de alguma forma. Acho que é disso que se tratam os encontros culturais, no fim das contas. À medida que o mundo fica cada vez mais online, e que a IA se torna cada vez mais presente, mais profunda se torna a nossa necessidade de conexão e de estar junto. E é por isso que acredito que a música ao vivo nunca vai acabar.

Assisti ao videoclipe de “The Flood” e achei muito bonito. Parece ter sido filmado em um único take, e imagino que tenha sido difícil de fazer. O vídeo basicamente mostra o Jimmy Southward dançando, e vocês não aparecem nele, mas tiveram algum envolvimento na ideia do vídeo?
Brían: Ah, sim. Nós estivemos muito envolvidos no conceito e na escrita do roteiro, de certa forma. Então, sim, estávamos absolutamente envolvidos na criação.

Diarmuid: Foi um processo colaborativo entre nós, o cineasta Ellias Grace e o Jimmy também. Acho que o que torna o vídeo forte é justamente essa abertura à colaboração.

Brían: E nós queríamos fazer em um único take porque seria o equivalente em vídeo de gravar um álbum ao vivo, sabe? É parecido. Você tem que seguir o fluxo, ter um pouco de adrenalina no corpo e pensar rápido. Não é como reconstruir algo manipulando o tempo. Você vê tudo acontecendo ali, na sua frente. E, como espectador, acho que isso fica evidentemente mais interessante também.

Legal. Este é o primeiro álbum em que vocês trabalharam com o produtor Philip Weinrobe. Como foi trabalhar com ele em estúdio? O que vocês acham que ele trouxe para o som da banda?
Brían: Foi um processo incrível. O Phil tem um método muito forte, muito bem definido, e ele é focado na música e nas letras. Então tínhamos um plano e o seguimos, o plano do Phil. Tínhamos que começar muito cedo todos os dias. Gravamos em uma casa, em vez de um estúdio. Gravamos tudo ao vivo, em vez de fazer overdubs e construir o álbum depois. Ninguém usava fones de ouvido. Não havia fones nem celulares por perto. Tínhamos que deixar os celulares bem longe da sala. Sem sapatos [risos], todo mundo bem próximo. Todo mundo olhando para as letras o tempo todo. Isso criou um foco muito bonito na música, porque tínhamos uma estrutura a seguir, todo mundo podia ver o que estava acontecendo, e tudo girava em torno do texto e das letras. O Phil tinha uma abordagem muito bonita.

Diarmuid: Ele tem uma filosofia incrível, é muito filosófico. Antes de nos reunirmos para gravar na casa, ele nos incentivou a ler o mesmo livro. Era um livro que ele queria que lêssemos por causa das ideias filosóficas, e é literalmente uma conversa. O livro se chama “The Conversation” e é uma conversa entre Michael Ondaatje e Walter Murch (NE: “The Conversations: Walter Murch and the Art of Editing Film”), o grande editor de cinema, e Michael, o autor. Basicamente, é sobre o processo criativo, sobre edição, sobre muitas coisas. O Philip achou que, se lêssemos o mesmo livro, isso nos colocaria na mesma sintonia. Até esses pequenos detalhes tornaram o processo especial, diferente de outras experiências de gravação que já tivemos. Com certeza.

Falando sobre processo criativo, como vocês costumam escrever suas músicas? Vocês têm algum tipo de ritual ou cada música segue seu próprio caminho?
Diarmuid: Acho que nosso processo evoluiu bastante ao longo da escrita desse álbum. O que tentamos fazer foi aplicar consistência; basicamente aparecer todos os dias para compor. Ir para a mesa todos os dias escrever, por quase um ano. Dentro desse ano, testamos muitos processos e truques diferentes. Mas a consistência foi a principal coisa. Sempre aparecer, sempre estar ali, sempre sentar à mesa e escrever todos os dias. Essa foi a única constante. E se você faz isso e continua aplicando processos diferentes, você deixa espaço para que a inspiração aconteça. Como dizem, a musa gosta de encontrar você trabalhando, né?

Brían: Uma coisa que fazemos que é bem interessante, é que temos uma ligação muito forte com a tradição do canto na Irlanda. Existe uma tradição oral muito viva e multigeracional. Parte dessa tradição envolve você ouvir alguém cantando uma música, lembrar dela e cantá-la depois, mas a nossa memória não lembra perfeitamente de tudo. A gente não lembra em alta definição, lembramos com a imaginação. Então há músicas que aprendemos com outros cantores e que cantamos hoje de forma completamente diferente quando voltamos a ouvir uma gravação original. Sem perceber, fizemos pequenas mudanças. Um processo que trouxemos para a nossa composição é que, muitas vezes, um de nós escreve uma música e mostra para o outro, e o outro canta essa música. Assim, ele ouve a canção sob outra perspectiva. Às vezes eu esqueço exatamente como era a melodia, e ele não me corrige, apenas deixa acontecer, escuta a diferença e pensa “isso é interessante, eu gosto disso” ou “não gosto disso”. É uma das coisas com as quais brincamos. Há muito mais envolvido, na verdade. Tentamos muitos métodos diferentes, e como o Diarmuid disse, a rotina é o mais importante. Tratamos isso como exercício e como ritual. É algo que precisamos fazer todos os dias.

Eu sei que é difícil escolher uma, mas qual é a música favorita de vocês entre as 12 que gravaram?
Brían: “Danny” é provavelmente a que mais nos empolga. Tivemos que escolher uma como single, mas achamos que seria errado lançá-la primeiro, porque há nove músicos tocando nessa música. Assim como “The Flood”, nós a gravamos no mesmo dia com Sam Amidon. Então lançar essa faixa primeiro seria uma representação equivocada do álbum. Mas é provavelmente a música que mais nos empolga e uma das gravações que mais nos animam. Mesmo ouvindo agora, ainda fico empolgado com ela.

Diarmuid: Totalmente. Até o processo de escrevê-la e as descobertas que foram acontecendo ao longo do caminho foram muito empolgantes para nós. Acho que ela abriu um caminho para um jeito de escrever que eu adoraria explorar mais.

Legal. Eu sei que vocês vão fazer turnê pelos Estados Unidos, Europa e Irlanda. Mas vocês já têm planos para uma turnê pela América Latina, do Sul ou Brasil?
Diarmuid: Adoraríamos. Adoraríamos mesmo. Ainda não temos planos, mas esperamos que, como temos feito mais entrevistas com rádios e revistas latinas, talvez isso aconteça em breve. Essa é a esperança.

Brían: Sim. Eu viajei um pouco pelo México e pela América Central, e o Diarmuid viajou um pouco pela Colômbia. A gente adora essa parte do mundo, é enorme, é incrível… e seria muito legal se conectar com músicos de lá, com certeza.

Diarmuid: A gente ama muitas músicas dessa parte do mundo há muito tempo.

Brían: E o ateliê onde trabalhamos todos os dias, fica em um bairro meio brasileiro de Dublin.

Diarmuid: Na verdade, virou meio que o bairro brasileiro mesmo. O negócio que divide o prédio com a gente é um café brasileiro. Então, quando estávamos ensaiando antes dessa turnê, a gente descia para pegar coxinhas e café, sabe?

Legal. Então, como brasileiro, por favor, venham tocar aqui e a gente garante muitas coxinhas para vocês [risos]! Não sei se vocês são fãs de cachaça, bebidas alcoólicas e coisas assim. Vocês bebem álcool?
Brían: Eu não. Diarmuid também não bebe muito…

Bom, talvez vocês possam dar só um gole para conhecer [risos]
Brían: Beleza! [risos]

Minha última pergunta: além da turnê, quais são os planos de vocês para o futuro próximo?
Diarmuid: Queremos começar a escrever as próximas músicas. Na verdade, já estamos começando a fazer isso.

Brían: Escrever é simplesmente a melhor coisa. A gente ama isso. Escrever e fazer discos é o que a gente mais gosta de fazer. Estamos bem felizes com o momento em que estamos na vida agora. Se pudermos continuar fazendo isso, seria ótimo. Se pudermos continuar de forma sustentável, para nossas vidas, para nossas famílias, e conseguir sustentar nossa vida desse jeito, seria muito legal.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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