texto de João Paulo Barreto
Vinte e sete anos de idade pode representar aquele período em que muita gente, ainda tentando encontrar um caminho artístico dentro da música, pensa em formar sua primeira (ou segunda, ou terceira…) banda no intuito de se desafiar dentro dessa espécie de batalha criativa que é expressar-se através de letras, melodias e acordes. É aquela fase em que muito marmanjo ainda pode morar com os pais (nenhum problema nisso) e, quiçá, possui um próprio quarto individual para poder se trancar e se dedicar aos apelos da criatividade. É muito provável que esses impulsos criativos, inclusive, sejam sufocados por uma necessidade de sobrevivência que vai acabar levando a pessoa para uma carreira frustrada em alguma outra área.
Para James Paul McCartney, no entanto, essa idade (uma marca, inclusive, marcada pelo “Clube dos 27”, termo usado para a notória lista de músicos famosos que morreram aos 27 anos) representou não um começo em uma carreira musical, mas um ponto de ruptura. Um final (para muitos, precoce) da banda de maior reconhecimento e êxito comercial /artístico na história do rock. Quando os Beatles lançaram seu canto dos cisnes, “Abbey Road”, em setembro de 1969, decretando o término da banda, seu, naquele momento, líder e maior entusiasta pela continuidade dos trabalhos de criação ao lado dos parceiros de mais de uma década, com apenas 27 anos, percebeu que era hora de jogar a toalha e seguir em frente. Mas não que isso fosse muito fácil.
Tendo no disco com a famosa capa da faixa de pedestres uma mescla de reconciliação e despedida dos três amigos e colegas profissionais após o conturbado projeto “Get Back”, gravado em janeiro daquele mesmo 1969, mas lançado somente no ano seguinte sob o nome de “Let it Be”, Paul McCartney viu-se após o lançamento do projeto final dos Beatles sem um norte específico. A banda se despedaçou de forma gradativa, mas não por animosidades exacerbadas. Naquele ano, John, Paul, George e Ringo já não eram mais os garotos de apenas (pasme) seis anos antes, quando conquistaram o mundo com a Beatlemania. Eram casados, possuíam família, focos diferentes para o futuro. Junto a isso, discordâncias contratuais em relação a empresários começavam a minar a relação entre eles. O fim era não só iminente, mas, também, necessário. Mesmo que judicialmente a banda só tenha terminado alguns anos depois (e não sem muitas brigas e honorários advocatícios, importante frisar), um próximo passo para Paul pôde surgir naquele final da efervescente década.

Disponível na Prime Video, “Paul McCartney: Homem em Fuga” (“Man on the Run”, 2025), documentário dirigido por Morgan Neville (ganhador do Oscar em 2014 com “20 Feet from Stardom”), aborda justamente esse período da vida do maior compositor vivo do século XX. O momento em que o músico precisou virar a página dos anos 1960 e seguir em frente com outra proposta de banda. Mas não sem antes encarar os traumas internos que ainda precisavam ser superados. Naquela fase, Paul encontrou no álcool a saída para a angústia de não mais ter sua rotina criativa ao lado dos amigos de infância. Em um dos trechos de sua biografia, “Many Years From Now” (1997), escrita por Barry Miles, Macca comenta a ocasião em que quase sufocou no seu próprio travesseiro, diante de um estado físico letárgico e lamentável de entrega à bebida e à depressão. Um novo caminho era crucial para mantê-lo vivo. Literal e artisticamente.
A partir de preciosas imagens de arquivo, o filme de Neville ilustra o período criativo do compositor ao formar sua nova banda, a Wings, ao lado de sua esposa, Linda McCartney (que não tocava profissionalmente, mas aprendeu aos poucos), e do exímio músico Denny Laine. A criação da pérola “Band on the Run”, disco lançado em 1973, é detalhada no documentário como um período tanto de imersão criativa e descobertas, quanto de crescimento conjunto de seus membros perante os desafios de se iniciar um novo grupo musical. Gravado em Lagos, na Nigéria, um dos locais onde a EMI possuía estúdios, o trabalho traz esse reflexo cultural do encontro de uma mente fértil como a do compositor de dezenas de hits que definiram a década anterior com a riqueza musical do país africano e sua música. O resultado presenteia o público com um álbum que fez o ex-beatle constatar que ainda era capaz de compor para além dos fab four.
Mas junto a essa constatação profissional, “Man on the Run” (que tem o mesmo da biografia escrita por Tom Doyle lançada em 2014) tem no encontro afetivo de Paul com sua recém formada família a base para sua reconstrução pessoal. Nos dias de quase exílio em sua isolada e bucólica fazenda no interior da Escócia, quando se dedicou a trabalhos manuais e contou com o suporte de Linda e de seus filhos, o rapaz de Liverpool, encontrando a serenidade advinda do tempo e da paternidade, pôde perceber-se ainda capaz de se manifestar criativamente. Lá, compôs músicas que viriam a estampar alguns dos seus discos solos iniciais, como o homônimo debute individual, além de “Ram” e “Wild Life”, ambos de 1971. Nas imagens trazidas pela montagem do filme de Neville, vemos McCartney sereno, feliz, distante dos atritos comerciais advindos do final da banda que formou ao lado dos amigos de Liverpool. E diante do desafio crítico advindo das cobranças e recepção negativa de alguns dos discos iniciais, a meta auto-imposta (e cumprida) de construir a obra-prima com a capa repleta de “fugitivos” da prisão.
Ao optar por não trazer imagens atuais ou a presença física de sua fonte principal em entrevistas recentes (apenas sua voz é ouvida), o filme coloca sua audiência junto com o próprio Paul a revisitar aqueles momentos e a se surpreender com sua trajetória durante a década de 1970 e culminando com o fatídico 8 de dezembro de 1980 e o término do Wings alguns meses depois, em 1981. Outras vozes são ouvidas em falas pontuais, como as dos próprios integrantes de sua banda pós Beatles em suas diversas formações, bem como de outros notórios, Linda McCartney e suas filhas, além de Mick Jagger e Sean Ono Lennon, que traz uma fala precisa sobre a demonstração do luto do melhor amigo do seu pai ao ser arguido por repórteres acerca da morte de John Lennon.
Com uma montagem dinâmica a trazer imagens icônicas de diversos filmes que construíram o imaginário cinéfilo do século XX e que encontram ecos na própria história de Paul (a cena com Steve McQueen encarcerado a refletir o músico detido em uma cadeia japonesa é hilária), “Man on the Run” cria esse mosaico ilustrativo daquele recorte de uma fase de reconstrução pessoal e profissional de um artista, agora, em sua plenitude e tranquilidade advinda da terceira idade. E ao pensar que aquela é apenas uma de suas sete décadas (!!) profissionais é algo que sempre gera uma mescla de espanto, admiração e gratitude no público, seja ele fã ou não dos Beatles e de Paul.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.