Crítica: “Marty Supreme” prova que o ator Timothée Chalamet é o mais promissor de sua geração

texto de João Paulo Barreto

Na filmografia de Josh Safdie, cujos filmes predecessores a “Marty Supreme” (2025) foram todos dirigidos ao lado de seu irmão, o também ator Benny Safdie, um tipo bem evidente de protagonista se destaca. Em seus roteiros, os famosos azarões (do inglês “dark horses”) são sempre evidenciados em uma rotina acelerada, cuja busca frenética pela grana para o próximo mês de aluguel ou para o próximo pico na veia ou apenas para manter uma vida de luxo e vantagens ilícitas, aparece sempre como sendo o fio condutor de narrativas catárticas. Tais enredos, diante de uma metrópole suja e hostil, desenham para o espectador uma realidade repleta de seres não somente cinematográficos, mas, também, reais.

Trabalhos recentes dirigidos pelos irmãos Safdie, obras como o trágico, triste e agonizante “Amor, Sexo e Nova York” (2015) ou o fugaz e violento “Bom Comportamento” (2017), ilustram bem esse estilo de cinema mundo cão, com seus personagens centrais caminhando sempre no limiar do caos. No longa anterior a “Marty Supreme”, a pérola “Jóias Brutas” (2019), está um compêndio preciso desse mundo cheio de vigaristas sedentos por grana e que dominam o ramo das joalherias em Nova York. O filme da Netflix traz um Adam Sandler tragicômico e inspirado, bem como extravasando uma energia contagiante e verborrágica em um universo que mistura as raízes judaicas de seus diretores e ilustra para o público o domínio de finanças que tal grupo étnico possui.

Agora, chegamos ao novo trabalho de Josh Safdie, desta vez dirigindo sozinho a empreitada e nos trazendo uma estrutura semelhante em termos da energia dispensada por seu protagonista, o jogador profissional de tênis de mesa, Marty Mauser. Vivido com intensidade por um Timothée Chalamet no melhor momento de sua carreira, a vida errática do jovem atleta, sempre em busca de maneiras de ganhar dinheiro rápido para bancar as viagens em prol de competições profissionais, parece ganhar uma rima temática e visual precisa, casando de modo ideal com a energia dispensada por ele durante suas partidas de ping pong.

O filme é baseado livremente na vida do jogador profissional Marty Reisman (1930-2012), cuja própria tentativa de uma carreira esportiva na década de 1950 parecia sempre bater de frente com uma constantemente conturbada rotina em busca maneiras de bancar financeiramente sua paixão pelo tênis de mesa. Sendo um homem de comportamentos e escolhas moralmente ambíguas, o filme o traz em situações de manipulação tanto de relacionamentos amorosos quanto de amizades, além de  pequenos golpes na noite nova-iorquina de setenta anos atrás.

Trazendo uma reconstituição de época absurda em sua competência e atenção para os detalhes, a Nova York dos corres de Marty Mauser na década de 1950 transcende aquela atmosfera em sua recriação. Desde as ruas que parecem captar e transmitir o cheiro de suas calçadas, até os ambientes internos de seus inferninhos onde o jogador tenta tirar um troco com partidas batizadas, o filme transporta o seu espectador para aquele período de maneira impressionante. A cena em que o jovem Mauser se hospeda em um muquifo na tentativa de tomar um banho e tudo acaba em tragédia, é de um primor único.

Do outro lado daquele universo pelo qual o protagonista parece trafegar com naturalidade, o filme traz o glamour da elite estadunidense naquele pós Segunda Guerra Mundial, com suas figuras nefastas em termos de imponência financeira e humilhação daqueles menos favorecidos.  Do mesmo modo, a seleção de seu elenco secundário, em especial atenção para os personagens de origem judaica, tornam as figuras com rostos tão marcantes naquele mundo deveras violento do entorno do jogador de ping pong elementos ainda mais críveis.

Mas, de fato, é na presença magnética de Chalamet em cena, tanto no desespero latente que o ator transmite nos recorrentes percalços e fracassos que seu protagonista atravessa, (pontuando, claro, a malandragem característica de quem sabe sobreviver nas ruas), quanto na competência esportiva durante as frenéticas partidas de tênis de mesa, que “Marty Supreme” se constrói.

Transmitindo uma arrogância que somente os gênios em suas respectivas áreas parecem possuir, o personagem de Timothée Chalamet vai sendo desconstruído de modo lento e doloroso, despido devagar de toda a sua prepotência e sendo humilhado nesse processo de derrotas tanto morais quanto aquelas segurando uma raquete diante de uma mesa.

Na sua busca quase irracional pelo reconhecimento dentro do seu esporte, ele parece não enxergar mais o seu entorno, deixando de lado pontos importantes na construção de uma maturidade que acaba chegando de maneira traumática. Quando em seu encerramento, o jovem percebe, entre as lágrimas de um choro quase compulsivo e diante de um presente inesperado da vida, qual será a sua real razão dali pra frente para se dedicar ainda mais a algo que lhe traga reconhecimento e recompensa financeira, percebe-se que suas lágrimas de alegria simbolizam bem essa ideia concreta de maturidade.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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