Entrevista: A cineasta Ana do Carmo fala sobre seu curta-metragem “Nevrose”

texto de João Paulo Barreto

Destaque da Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, o curta-metragem baiano “Nevrose”, da diretora Ana do Carmo, adapta os contos de Maria Benedita Bormann, autora brasileira do século XIX.

Anan do Carmo já dirigiu 11 curtas, entre eles “A Mulher no Fim do Mundo” (2019), selecionado para mais de 30 festivais em 10 países, incluindo o Los Angeles Brazilian Film Festival. Em 2026, Ana vai dirigir o longa-metragem de sci-fi “Sol a Pino”, com distribuição da Vitrine Filmes.

Nesse papo com o Scream & Yell, a cineasta falou sobre o processo de criação de “Nevrose”, que fez parte da antologia “Insubmissas” e que, após estrear no Atlanta Women’s Film Festival, nos Estados Unidos, e de circular por mostras e premiações no Brasil, desembarca na Mostra Panorama, em Tiradentes.

“Nevorse” é um filme que lida de modo muito orgânico com questões existencialistas relacionadas com a vida e com a morte,  bem como questões que aprofundam a ideia do luto e da libertação através da transformação pessoal. Neste aspecto de experimentação do cinema com tais questões, você já havia trazido tal abordagem para “A Mulher do Fim do Mundo”. Tendo, agora, o cinema de gênero como um norte neste trabalho, como foi buscar essa identidade desse tipo de cinema para o curta?
“Nevrose” nasce do encontro entre literatura e cinema de gênero. O filme é inspirado em contos de Maria Benedita Bormann, autora brasileira do século XIX, período em que a loucura despontava como um tema recorrente na literatura escrita por mulheres. Adaptar esses textos hoje significou revisitar essa tradição crítica de autoras que escrevem sobre abismos interiores e deslocá-la para a especificidade de corpos e subjetividades negras. As personagens originais eram brancas, e o gesto de reescrevê-las como mulheres negras evidenciou de imediato a potência do gênero para tratar do luto, da culpa e da transformação a partir das nossas experiências. O suspense se tornou uma ferramenta dramatúrgica orgânica: ele tensiona, expõe e ritualiza como experienciamos a vida e a morte. Essa relação com o gênero já aparecia em “A Mulher no Fim do Mundo” (2019), quando eu ainda investigava minha identidade e minha assinatura artística. Ali, o cinema pós-apocalíptico permitiu radicalizar a interioridade de uma única personagem em um espaço total: o mundo. Em “Nevrose”, essa pesquisa se expande para um conjunto de três personagens, porém num espaço mínimo: o quintal de uma casa diante de uma cova recém-aberta. A travessia entre esses dois trabalhos reforça algo que tenho sentido desde o início: o cinema de gênero é um dispositivo poderoso para potencializar dilemas existenciais, sobretudo quando encarnados por mulheres negras que, historicamente, tiveram seus afetos e complexidades ceifados. O gênero aqui não é ornamento ou apenas linguagem, mas metodologia e estratégia.

Cena de “Nevrose” / Foto de Carolina Guerreiro

Citei o curta de 2019 e aproveito para lhe perguntar sobre a parceria com Tainah Paes, dessa vez em uma personagem com uma abordagem bem diferente. Como é essa sintonia entre diretora e atriz para vocês? Do mesmo modo, o trabalho com Josy Varjão, Sara Barbosa e Jota Silva. Como foi para você transmitir ao seu elenco essa atmosfera que o filme transmitiu tão bem?
Em “Nevrose”, os diálogos são o coração do filme, e tudo acontece dentro de uma única locação. Isso exigia um elenco muito forte, capaz de sustentar tensão, ritmo e subtexto. A parceria com Tainah Paes já vem de longa data e isso cria um terreno de confiança raro. Ela é extremamente talentosa e ao longo dos filmes que fizemos juntas, desenvolvemos uma sintonia muito grande. Sabemos o tipo de cinema que desejamos criar. Trabalhar com Tainah é um gesto de continuidade e, a cada projeto, reafirmamos nosso pacto artístico. Ao mesmo tempo, fui presenteada ao trabalhar com Josi Varjão, Sara Barbosa e Jota Silva, que abraçaram a narrativa e trouxeram densidade poética para os personagens. Foi no corpo deles que o texto saltou da página: cada silêncio, cada gesto, cada inflexão de voz ampliou as camadas do do roteiro. E tivemos o trabalho incrível de Heraldo de Deus na preparação de elenco, que foi fundamental pra trabalharmos a sintonia entre eles. Há também uma posição política nessa escalação. Enquanto roteiristas, sabemos que quando a racialidade não é explicitada no papel, a indústria tende a pressupor personagens brancos. Aqui, escrever personagens negros não foi apenas sobre representatividade, mas sobre garantir complexidade dramática a esses personagens e oportunidades concretas para atores e atrizes negros. Nevrose nasce desse conjunto de escolhas e dessa entrega coletiva.

Cena de “Nevrose” / Foto de Carolina Guerreiro

Do mesmo modo, sendo um filme de elenco majoritariamente feminino e lidando com um texto que aborda temas que vão desde a maternidade interrompida passando pela escolha do suicídio como uma autonomia diante da própria existência, “Nevrose” traz um peso em seu roteiro oriundo dos escritos de  Maria Benedita Bormann, a Délia. Como foi esse processo de adaptação e de encontro de uma identidade visual tão marcante em seu set?
Quando li os contos de Maria Benedita Bormann, ficou evidente que aquela história poderia existir em qualquer tempo. Havia algo de profundamente atemporal na forma como a autora investigava a loucura feminina: um campo literário em que se disputava quem tem o direito de enlouquecer e quem é autorizado a falar sobre a dor. Adaptar esse material nos dias de hoje e co-escrevê-lo junto com Clara Peltier significou ampliar essa discussão e deslocá-la para um lugar em que as personagens femininas e negras não fossem objeto, mas protagonistas de sua própria trajetória. Era importante olhá-las de dentro, não como alegorias, e sim como sujeitos complexos em uma encruzilhada de fé, culpa e desejo. A construção visual seguiu esse impulso. Buscamos uma atmosfera onde o mistério não é sobrenatural, mas humano. Ter um set majoritariamente feminino também foi decisivo: esse olhar de dentro para fora atravessou todas as etapas da criação e foi fundamental para sustentar a densidade dessas personagens.

Cena de “Nevrose” / Foto de Carolina Guerreiro

Após ter composto a antologia “Insubmissas”, é pertinente observar como seu filme se destaca em uma exibição individual, sem necessariamente precisar dialogar com os curtas da antologia dessa vez, em Tiradentes. Lembro que fiz a mediação do debate da sessão  no ano passado no cinema Glauber Rocha, em Salvador, durante o Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema, e tive essa percepção de unicidade em todos os trabalhos, apesar, claro, deles funcionarem tão bem individualmente. Nessa exibição em Tiradentes, como você observa essa junção da curadoria dentro da Mostra Panorama?
A antologia “Insubmissas” deu vida e fortaleceu “Nevrose”, dentro de um conjunto de obras lideradas por mulheres que tensionam forma e linguagem. Vê-lo agora em exibição individual reitera sua autonomia: “Nevrose” encontra o público por conta própria, afirmando sua arquitetura dramática e seu lugar no cinema de gênero. Depois de estrear no Atlanta Women’s Film Festival, nos Estados Unidos, e de circular por mostras e premiações no Brasil, o filme desembarca na Mostra Panorama, em Tiradentes. É simbólico chegar justamente a um espaço que acolhe filmes que experimentam, que arriscam, que desorganizam certezas e realinham sensibilidade estética e política. Estar nessa curadoria é uma alegria, e também uma responsabilidade, em um dos festivais mais potentes do cinema independente brasileiro.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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